pareciam morder, fixas nas lhamas dos engastes! Como a vejo ainda
nitidamente, ramo d'oiro e de rosas, fazendo nascer desejos
cintillantes, chuveiros d'elles, rapidos, fulgentes, descendo como
estrellas d'oiro, como os bocados de astros que voam no ar escuro, nas
noites quietas d'agosto!
E preso á tentação de vêr a dançarina, deixei Aix e as duchas, _Villa
des Fleurs_ e o seu rebanho de cocottes e, com Roberto, á pressa
envergados os smokings, fomos para o Kursaal. Mas no salão, um aviso e
um certificado medico diziam a doença de Chiara. Um grande desanimo
abateu-me as espaduas. Como passar uma noite na cidade alinhada e
mecanica como um relogio? Em todo o Kursaal, nem um rosto interessante.
Ranchos do Cook, das segundas classes, lyonezas rotundas e vermelhas,
suissas frescas, que parecem esculpidas em manteiga e em cujas faces
contentes os olhos são parados e azues... Caixeiros de Lyon,
aproveitando comboios a preços reduzidos, apertavam-se em volta das
compridas mezas dos _petits chevaux_. Dois americanos silenciosos
chupavam por palhinhas os violentos cocktails.
Fugimos.
Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes
punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as
ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dos
_bateaux-mouches_. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até
junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se
pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e
acrobatas.
Um de nós disse:
--Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que
viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta,
e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de
gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando,
vive-se na imprecisão, sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro,
que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando,
ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar.
--Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas
para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer.
O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de
definido a desejar.
--Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero
feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as
angustias. Provámos todos os _crús_, atravessámos mares, dormimos sob
todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos
escolher e desejar.
--A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento,
fluxo e refluxo permanentes.
--Então é preciso agir?
--É fatal.
--S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de
desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis
tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho
desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino»,
arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo
resava... E elle, indiferente, como indiferente era aos soes
asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de
si. A vida deve ser toda interior.
--A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos
do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos.
--_Ter comido_, é melhor que _comer_. _Ter gosado_ é melhor que _gosar_.
O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar.
--Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma
mancha, como preencher a vida?
--Desejando.
--Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos
Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:--O que deseja?
responde:--Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e
todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos,
sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo
tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na
harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol,
triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes
egoistas e crueis!
--Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a
composição d'um quadro é arranjada por um pintor. Não devemos ser o
espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché do _boudoir_
d'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas,
brilhos de pedrarias...
--Viver...
Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação
esperar o expresso de Paris.
FIM
INDICE
A escola de flirt
Flirts
Logica
Romantico
A Bisantina
Má-lingua
A rainha de Sabá
Chiara Liliam
A Marcia
O cego
A gloria
A festa de maio
Tibidabo
A princeza perdida
Noite de festa
Clara
Idilio triste
Perfil d'aventureiro
Fumo