Tinha-o conhecido em Londres, no seu ultimo _congé_; quando fui
promovido para Madrid démo-nos muito ali. Morreu d'uma maneira singular,
n'uma festa da marqueza de Carrillos, na sua quinta de Eritaña... A
melhor festa de Hespanha... A mais elegante e romanesca; dava a sensação
da embriaguez d'uma boneca de Saxe, n'um Walpurgis. Havia feiticeiras
novas, ou melhor, ninfas. A quinta é deliciosa, um pouco acima de
Sevilha; o rio corta-a e para passar d'um lado a outro ha pequenas
gondolas com camaras para duas pessoas sómente. A Carrillos, um pouco
artista, um quasi nada doida, levou uma ranchada de gente para o seu
palacio, do tempo de Pedro, o Cru, para uma festa de mascaras pela
Piñata. Era tudo gente nova, salvo uma ou outra mãe que ia fazer a
decencia. Mas achavam-se deslocadas no meio da nossa alegria e,
intelligentemente, retiravam-se para sensacionaes partidas de bridge. Só
nos viamos ás refeições. Uma _party_ deliciosa, que acabou n'uma
tragedia, um pouco de _guignol dernier bateau_, entre musicas leves... É
melhor contar tudo, ab ovo...
--Sim... Desde o congresso de Vienna. O pae foi secretario d'um dos
plenipotenciarios inglezes...
--Ainda de peito?
--Não. Strifforth era filho de velho... Isso explica muito o seu
temperamento.
--Vá, psicologo!
--Este Mumm não me diz nada! Traga Montebello! É um pouco da Carreira.
--Por afinidade?
--Então o antigo embaixador?
--_En disgrace?_
--Sim. Ao quarto filho da czarina elle criticou:--«Ce n'est pas une
femme--c'est une pondeuse!»
--Conta a historia tragica!
--A marqueza de Carrillos levára a sua filha, aquella inquieta Mathilde,
noiva por sport, tecendo e desarranjando os casamentos, como Penelope a
famosa teia. Para ella não havia flirts: tudo noivados. É possivel que,
de a experimentar tanto, a grinalda nupcial estivesse já enxovalhada.
Conheceu a Carrillos? Você? Você? Ninguem? Fina como uma _flûte_ de
cristal cheia de champagne _mousseux_, ondulosa, sempre pronta para o
ataque e para a resposta, fazia a chuva e o bom tempo na sociedade, e
tinha um dom especial para pôr alcunhas que logo faziam o giro de Madrid
e crismavam as creaturas. N'um dos seus numerosos noivados a mãe,
oppondo-se, disse-lhe:--«Que sogra vaes ter!» A Mathilde, sem
pestanejar:--«E elle, mamã? E elle?» A marqueza ria-se perdidamente com
os ditos da filha, regosijando-se:--És digna de mim!
--E Strifforth?
--Lá vae. Ora fez-se a festa. O costume Luiz XV era de rigor. Por uma
noite estrellada, espalhámo-nos pelo jardim. Pelas janellas do palacio
corriam grinaldas de fogo das _bandes souples_ que as ligavam. Eram
tulipas de todos os córtes que d'entre a folhagem se uniam, pondo um
traço florido entre o incendio que vinha das multiplas janellas abertas
sobre o parque e sobre o caes. Pelos troncos das arvores
envolviam-se em espiras as serpentes luminosas, marchetadas, e abriam-se
em mil luzes nas copas, davam, ao longe, o aspecto de uma joalheria que
ardesse na noite quieta e calada, essas noites amorosas da Andaluzia em
que tudo parece estacar n'um beijo supremo... Pela margem do rio a mesma
florescencia, mergulhando na agua, dando ao rio a aparencia fantastica
de um ceu que se afundasse.
De repente musicas invisiveis tocaram as melodias leves, _gavottes_
suspiradas, em que ha um pouco de amor, um pouco de dança, como num
flirt. E do escuro d'uma angra moveram-se gondolas ligeiras, em que
ardiam e estremeciam largos balões venezianos.
Os remadores, ensaiados, iam quasi ao compasso ligeiro das _gavottes_.
Tinhamos a impressão d'uma dança de gondolas, um sonho estranho de
veneziano, pelas horas misteriosas em que as coisas inanimadas tomam
vida. Do levantar dos remos das aguas, saltavam cintillações de
pedrarias. E a linha tortuosa de balões augmentava o incendio, na
vibração de tantas reluzentes joias a agitarem-se na agua do rio...
Fomo-nos metendo nas gondolas. Os _novios_ acolheram-se prestes ás
gondolas mais pequenas. Uma maior levou muitos de nós, descazalados, a
Mathilde Carrillos, Strifforth, a condessa de Valdelar...
--Conheci-a em Roma...
--O marido foi gentil-homem do Papa. Preciso falar d'ella. Foi a
principal figura d'este drama. Typo de hespanhola? Não. Mais italiana do
que hespanhola, com uns largos olhos pretos, cheios de doçura. O seu
gesto era harmonioso e curvo, sem uma aresta, sem um angulo, uns
nascendo dos outros sem solução, como as frases d'uma melodia. Tinha-se,
ao vêl-a, a sensação de que se ouvia uma musica dolente, vagarosa. E os
proprios olhos moviam-se lentamente, como pesados de tanta luz e tanta
belleza...
Enigmatica, guardando n'um jardim encantado a sua alma, ninguem prudente
ousára definil-a... Poetica talvez, ou simplesmente aborrecida, fugia em
S. Sebastian do Casino e do Hotel du Palais e ia, á tarde, só, vêr as
crispações do poente nas vagas que eriçam de espuma o mar azul.
Sentava-se n'um dos rochedos, ás vezes desenhando, outras a cabeça a
descançar na mão, e ali se quedava a tarde inteira, alma talvez de
sereia a chorar pelo mar, a querer aprehender no perfume da brisa,
alguma palpitação do oceano.
Nenhum de nós se atreveu nunca a interrompel-a, apezar da attracção que
todos sentiamos pela sua figura gracil como uma amphora, da sua
_toilette_, de toda a elegancia pessoal e do misterio da alma
ávidamente guardada... Strifforth apaixonou-se por ella. E, solitario,
deixando as excursões amiudadas que fazia ao Casino de Biarritz, andava
de barco para vêr, isolada no rochedo, sem uma tristesa na face, a
condessa de Valdelar, certamente a mais formosa, a mais perturbante das
senhoras de Madrid.
O conde de Valdelar ficava no hotel, gottoso, na leitura de livros
licenciosos, que salpicava de casquinadas nervosas, irritantes,
indifferente á belleza e á alma da mulher. Strifforth conhecia-a e
procurava todos os raros momentos em que ella apparecia, de manhã na
praia, á tarde no boulevard e, uma ou outra vez, pelas grandes festas,
no Casino, que atravessava n'um andar leve, dando-nos a sensação que
tinha azas que a sustentavam. Nada lhe permitira ainda uma declaração. A
condessa fallava-lhe, como a todos nós, em coisas indifferentes, em
festas, touradas, partidas de tennis, impressões rapidas de viagem e
deixava-o sem pressa, mas sem pezar, absoluctamente correcta. Elle
fallava-lhe do mar, mas a condessa tinha uma phrase banal, mudava
d'assunto, como se tivesse pudor d'esse sentimento, que parecia absorver
toda a sua vida. Foi n'esse tempo que Strifforth começou a picar-se com
morphina difficilmente adquirida, a beber perfumes, com horror aos
cognacs, e a arrastar uma vida d'automato, sempre com esperança de
a vêr, de lhe fallar. E, em a encontrando, pousava sobre ella os olhos
tristes, largas horas, inconvenientemente.
Em Madrid, todo o inverno foi assim, com menos occasiões de a vêr,
porque a condessa frequentava pouco o Retiro e a Castellana e raramente
aparecia na sociedade, demorando-se o bastante para não parecer
aborrecida, mas saindo logo, com um tacto perfeito. Á vida escondida da
condessa correspondia uma outra vida secreta de Strifforth, ebrio, em
desesperos que o alcool longe de adormecer intensificava, fugindo a tudo
o que fôra d'antes o seu enlevo, até do Museu do Prado, onde ia todas as
manhãs--á minha missa, dizia elle--para vêr os Velasquez e os Grecos...
Mas, quando tinha que ir a alguma parte com esperança de encontrar a
condessa, o meu amigo não bebia para poder gozar inteiramente a presença
e a voz d'aquella que amava. Depois a embriaguez exagerava a impressão,
dava-lhe, quasi real, a presença da Valdelar. Meteu-se no ether, alem da
morphina e dos frascos de perfume--Parece que como flores,
explicou-me--arruinando por completo a saude, tornando mais agudas as
crises de desesperos, mais asperas, pelo enigma que para todos nós era
essa mulher esplendidamente artificial, que trazia uma mascara na sua
face calada. Coquette? Decerto, mas egualmente para todos, porque
os seus movimentos eram regrados por uma musica ineffavel. Mas talvez
coquette só para si, porque nem um só olhar ou palavra auctorisou
ninguem a dizer-lhe um galanteio atrevido.
Fallou-se na festa da Carrillos, organisou-se a lista, e Strifforth, que
não tinha relações com a marqueza, logo que soube que a Valdeler era da
partida, solicitou, pondo de parte sem hesitação o seu orgulho
exagerado, uma apresentação e um convite, logo alcançados, não só por
ser muito _choyé_, mas tambem porque transpirára a paixão e todos se
interessavam pelo pobre rapaz, havendo até censuras á Valdelar, que de
nada era culpada.
Fomos n'um expresso vagaroso, atravessando desoladas paisagens, até
Sevilha. Não conhecem Sevilha? É a cidade mais feminina e voluptuosa que
conheço.
Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas
com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que
scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova
enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma
volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla
d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem
recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo.
Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem
esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha uma _venta_, cuja
varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a
sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, não
_gavottes_ leves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor,
como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a
gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria
para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar
vagarosamente.
--Caiu um!
--Strifforth!
Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e
poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.--Borracho!
Borracho! _Mais vous êtez ivre! Dites_!--Strifforth, não bebera uma
gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A
musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço
de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve
risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um
riso.--Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já
a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.--É
demais! Está bebedo! gritaram. As cabeças empoadas inclinaram-se
novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os
braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda,
agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso
impulso e desprendeu-se d'ella...
Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das
nossas figuras de _petits-abbés_ e gentishomens procurando, nos barcos,
que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar.
Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros
iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e
Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho
correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao
longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A
Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe
passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo
substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca
apareceu.
* * * * *
CLARA
A JULIO DE SOUSA.
CLARA
Friorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha
que passou rapidamente, na tarde a escurecer.
Nascia da penumbra, sem presisão nos contornos, como certos retratos de
Columbano e de Henner. E entre o chapeu preto e a face branca, o cabello
loiro punha uma esmaecida aureola como uma tenue poeira d'ambar. A boa,
de _renard bleu_, ainda aumentava o indeciso, o fluctuante d'essa
mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da bocca desmaiava...
Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem
attentar talvez em ninguem, levando o nosso desejo de decifrar enigmas,
indefferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava
recorri para saber d'ella. Quando me voltei para perguntar, vi que
Roberto se pusera pallido; parecia que á bocca se lhe afivelára uma
boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer.
Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder
entre as arvores em Valle de Pereiro.
--Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veiu _faire le
Portugal_. Um pastel de Antonio de la Gandara, maquilhada como uma
infanta de Velasquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem
vicio, talvez, amante enternecida d'algum _croupier_ de _Cercle_
ordinario... Sei lá!... encolheu, impaciente, os hombros, a concluir.
Houve um silencio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida.
Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flôres geladas e luminosas
das lampadas electricas. Rapidos, fulgiam os americanos. Outra vez a
mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas destincto o palôr da face
branca no _coupé_ escuro.
--Porque teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colerico.
--Conhecel-a?
--Se a conheço?! Tenho querido arrancal-a de mim, como se arranca d'um
boi uma farpa--violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a
esquecer! E quando estou quasi a conseguil-o, quando a tortura da sua
lembrança é em mim apenas uma cicatriz, eil-a que apparece a reavivar a
chaga antiga, a tornal-a mais dolorosa! Clara veiu aqui só por minha
causa, ouves? Para fazer-me soffrer!
Agarrava-se-me ao braço, a apertal-o violentamente. Na bocca
accentuava-se-lhe, aspero, o vinco da amargura.
--Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo,
desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente,
gosando com tudo, intensamente!
«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a
Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do
Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de
triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me
com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas
abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua
incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a
barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo
das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade
maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam a _Sierpee_
brilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos
casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham
chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com
todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas
as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar
de volupia fazia-me achar mais bella a Vida. Era como um poema a
enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.
Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a
cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu
sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia,
brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando
em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para
alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos
amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu
corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva!
«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o
sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci
Clara. Ella passava pela _Sierpes_, junto ao _Credit_, enygmatica, como
a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza,
quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas
cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e
lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo
encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao
sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre
entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel.
«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um
olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão
da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para
fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento.
«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de
Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de
marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante
das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto,
contei-lhe o poema do meu desejo; na _Caridad_, a mostrar-lhe a estatua
de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr
Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no
horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida.
Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu
pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes
a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se
encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na
boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.
O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos
banhos de Maria Padilla, passou por mim o corpo delgado, agil, pela
cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu
corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para
mostrar o tornosello fino e a meia _ajourée_, que deixou vêr a pele
branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a
boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as
folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos.
«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque
sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca
vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos,
como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!
«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava
da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio.
Só pensava n'ella, só vivia d'ella.
«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas,
veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e
deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me
entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam a
_Riviera_ no inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha
viera atraz d'um clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de
gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui
a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas
mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca!
«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a
estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e
nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o
campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli,
desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas--parecia,
nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!--e o seu corpo
cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas
empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás
chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado
que me metteu no trem e me levou a Sevilha.
--Senorito, la navaja era mejor, aconselhou-me.
«Parti. Nunca mais soube d'ella. Trouxe-a dentro de mim como um espinho.
A dôr que lhe causei augmentou a minha pena. De ter visto o corpo magro
e branco, ficou-me a ancia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a
correr sem forças para fugir de mim e d'ella, porque a figura surgia
deante dos meus olhos, bella de toda a perversidade e de toda a
lascivia, como uma invencivel tentação, a que o maior santo succumbe.
«Ás vezes conseguia distrahir-me; de repente ella surgia, sentava-se na
minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico
perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim!
«Foi algum philtro que me deu.
«Ia a esquecel-a e eil-a que novamente me apparece, a prender-me, a
levar-me, outra vez para a allucinação, a atiçar o incendio que me
queimava!
«Talvez queira vingar-se!
Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde,
atraz d'um comprimario de S. Carlos, seu _amant de coeur_.
* * * * *
IDILIO TRISTE
A EDUARDO VALERIO VILLAÇA.
IDILIO TRISTE
No jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos
canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas
hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se
a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes,
uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido,
rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair
os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em
botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas,
sem enigma, como as amantes antigas--todas ellas misturavam o seu
perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e
depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol.
Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer
apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar,
braços e conseguissem abraçar--ella um pouco aborrecida, a desfazer
entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados.
--Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya,
disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas
esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua
elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de
bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua
belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que
ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano,
pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua
imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de
Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas
mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes
de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua
doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas
severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão
bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge
sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que
segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente,
como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a
parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...
--Viste bem o museu...
--Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi
fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era
um carro vermelho... Por toda a parte tive a _hantise_ dos automoveis
vermelhos. No _Retiro_ e na _Castellana_, o meu olhar prescrutava,
revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te
encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te
soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu
retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua
belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti...
--O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros?