--Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o

redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te

com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos

os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente

e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar,

como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos

corpos.

--Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...

--Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina,

sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os

olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil

aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua,

reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma!

Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo:

--Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o

seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos!

O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva

escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés.

E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o

cio que começava.

Desci. E, a acompanhar-me, senti a Bem-Amada, perto de mim, carinhosa, a

olhar-me longamente com os seus largos olhos pretos.

* * * * *

A PRINCEZA PERDIDA

AO SR. JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO.

A PRINCEZA PERDIDA

N'aquella serena tarde de primavera, a princeza descera com as

pequeninas aias e a camareira-mór as escadas de marmore branco e de

marmore roseo do sumptuoso palacio real.

Era n'uma côrte de complicada pragmatica. Os movimentos eram feitos

consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham

marcadas no grosso livro que um mordomo-mór colligira, a exemplo do que

fizera um imperador bysantino.

Apesar d'isso, porém, na côrte esplendida havia um pouco de mocidade. E

detraz dos leques de varetas rendilhadas, os labios abriam-se em

sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta,

camareira-mór.

Os bailes tinham solemnidade como os officios divinos; mas as cores

frescas das raparigas, a ligeiresa com que dançavam, a graciosidade que

florescia nas suas atitudes rapidamente desmanchadas, logo

substituidas, davam-lhes o ar de festas.

No grande palacio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em

procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a

tristeza que emagrecia a face pallida do rei. Era mister que ninguem

perturbasse, com o tenir fresco d'um riso, a dôr real. Se alguma vez as

donzellas deixavam passar o riso atravez das rendas finas dos seus

leques, logo a camareira-mór intervinha, sevéra, a repreender. Nos

tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o

ruido das vozes. O silencio era eterno, como essa grande e aniquilladora

magua que abatera a vigorosa mocidade do Rei.

Em tempo, o palacio vibrára com o clamor das festas; as musicas

saltitantes riam nas amplas sallas. Os vestidos claros, em cujos decótes

os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e

monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha,

loira, pallida, delgada, o Rei tambem sorria, a olhar a flôr preciosa e

fragil que pelo braço levava, em movimentos musicaes, como uma ave.

Junto á sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema

pesado, sobre os cabellos loiros, era como uma aureola maior n'essa

cabeça fina.

Ella tambem sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela bocca

vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no

ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes,

uma alegria maior. Vaporisavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos

vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentishomens. As conversas

d'amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a

sorrir-se, como dois amantes rusticos, que se encontram na vinha, por um

suave outomno.

Uma noite, porém, a dôr entrou n'esse palacio claro. Ligeiros, para não

fazer ruido, como sombras, os cortesãos, as damas d'honor, as aias,

passavam, murmurando resas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era

como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos

cruzavam-se:

--Então?

--Na mesma...

--Impossivel salvar-se...

--O fisico não atina com o remedio...

Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir,

finava-se ao dar á luz a pequena princeza.

A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da

bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras

da côrte. De joelhos junto ao leito magnifico, onde se postára

depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio.

Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas

rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre

quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da

Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda

havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido...

O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella

que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os

cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra

vez caiu de joelhos.

Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo

represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez

eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a

guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica...

Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no

quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida.

No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando

lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro.

A madrugada clara entrou pelas janellas, como um chilrear de

passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a

dôr fizera uma sombra eterna.

Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos

mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis...

Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro

atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento

magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da

casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu,

commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas

ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção...

Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As

confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as

insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma

tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças,

brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as

insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o

psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era

como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso...

No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o

de lá? De joelhos ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os

dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia

estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba

perfumada.

Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite,

os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil,

aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma

flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens

reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas

das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos

não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem...

E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que

importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que

tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades

fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios,

saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida

se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos

cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que

listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria

presente, que se recordassem!

A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia

vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No

palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que

formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena

princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava.

Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a

princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos

loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem

d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do

austero templo gothico.

Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes

temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á

noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical.

E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos

tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre

as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se

desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras.

Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos

telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as

arvores, quando espalmam as enjoalhadas caudas, as pombas brancas á

beira dos poços, sobre o marmore polido.

Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras

trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as

espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes.

Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem

sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a

misturar os perfumes...

Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem

o Riso.

Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do

sumptuoso palacio.

Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por

entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos,

tantas flores que dentre a verdura perfumavam...

De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as

aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam

as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis.

Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As

largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de

prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes...

Mas depois, começava a floresta. As altas arvores luctavam,

estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito

direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se

mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas

vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos

de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre

os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados.

Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr:

ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas

para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes,

rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos,

como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma

noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos,

brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar

das hastes, e offerecer-se, lascivas...

Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem

no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em

deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia

abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo.

Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a

princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das

roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a

voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e

auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande

borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos,

lançavam sobre a sua cabeça petalas finas.

Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella.

Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que

continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas».

Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e

culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes,

governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia

fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas

sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas

dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças

lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr.

Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os

cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as

espadas no choque dos combates, e das boccas frescas saíam vozes a

cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez

das aguas cantantes.

Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a

rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os

creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em

sangue do santo homem.

Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras

subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz

rude annunciava o castigo.

A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do

palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma

lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro;

espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta

misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava.

E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que

começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos

eternos gelos, pelas labaredas, talvez...

Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante

seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como

turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e

os espinhos lhe rasgaram as rendas e as sedas. Foi correndo. A

borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A

princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella.

Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no

jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco

amarello.

A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos

tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo

brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro,

como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam,

vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas

enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre

cosmeticos.

Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da

lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas.

--Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que

prendem e matam? Onde os dragões?

A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as

flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por

toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos

caminhos a areia preta era crusada pelos veios das hervas

rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas,

alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera

enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares.

Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um

silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma

que a brisa traz de longe.

Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a

medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi

fechavam a entrada.

Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas.

Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As

cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e

pennas de pombas brancas soltas pelo chão.

Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a

mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião

passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias?

Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio

leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia

agitar-se um simulacro de vida.

Como um coração que vive da saudade dos tempos remotos, assim ali

parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza

encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de

vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava?

Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras

tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da

meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e

escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que

impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu

sem lua e sem estrellas.

Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre

seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados

por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando

tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores.

Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar

ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros,

as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho.

Como conseguir o magico fio?

Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as

coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca, como

se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar.

Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em

arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um

fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas.

Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na

primavera.

Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio

onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde.

Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas

com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes,

que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens.

Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias.

Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas

fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas

na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços

nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas.

Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a

procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto.

Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia

apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes

se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um

ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes

da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o

medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a

andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no

ar quieto uma harmonia...

--Perdi-me aqui! Perdi-me aqui!

--D'onde vens?

--Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri

para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde

estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se

saber onde se está!

--E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe...

--Minha mãe morreu. Meu pae não o vejo... quasi nunca. É um velho triste

e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mór. E as aias estão a

chorar ás escondidas d'ella como sempre... A vida é triste, triste, no

palacio...

--Preferes ficar comnosco?

A boca fina pareceu sorrir-se. A princeza olhava para as mais que se

tinham acercado. Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como

as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias.

--Se me quiserem. Se me quiserem.

--Pois ficarás! Ficarás! Vem comnosco!

Poz-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princeza.

E a princeza ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não

havia a dôr, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não

voltou mais ao palacio, onde as aias choravam e a camareira-mór, seca e

hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritaria.

* * * * *

NOITE DE FESTA

A ARMANDO NAVARRO.

NOITE DE FESTA

Era o jantar de despedida de Dowanov, que partia para o Mexico,

promovido a ministro. Jantar de secretarios de legação, que formam uma

confraria, para, na critica dos chefes, tirar uma consolação do exilio,

correra um pouco triste.

A minha intimidade com o novo plenipotenciario, que viera da communidade

de vistas sobre a numismatica bisantina, abrira em meu favor uma excepção.

No pequeno gabinete do Avenida Palace, a conversa versára sobre

diplomatas e postos. Dowanov, como todo o bom russo, suspirava por

Paris, onde estivera adido. Contava as suas tribulações junto do

embaixador solemne e desdenhoso, que, sabendo-o apaixonado por corridas,

nos dias de steeples e handicaps sensacionaes, sob pretexto de serviço o

mandava chamar com urgencia, mas realmente para o impedir de divertir-se

em Auteil e Longchamps. Apesar de tudo, porem, sorriam-se-lhe os

olhos ao lembrar-se das pequenas colhidas _un peu partout_.

A minha presença não permitia as confidencias sobre a monotonia da

pequena cidade da provincia que é Lisboa. Havia um constrangimento. Por

isso falaram de companheiros, indicaram silhuetas vistas um momento,

logo esquecidas.

--O que será feito d'esse roliço Kordst, que estava, no meu tempo,

encarregado de negocios em Bucharest? Nunca mais soube d'elle? Devia ter

morrido da falta d'um bilhete. Lembro-me que ia provocando uma questão

internacional, porque o ministro d'Austria, ao apresentar-lhe o adido

russo, disse primeiro o nome de Kordst. Moravamos no mesmo hotel. Foi

procurar-me apoplético:

--O que terá contra mim o ministro d'Austria? Não lhe fiz coisa

alguma!... Não me lembro. Ainda hontem, na recepção, lhe dei o meu logar

no sofá!...

--Kordst? Com o amor que tinha aos bilhetes de visita, fez-se litografo,

provavelmente... Sabem de Camusot, o adido militar francez, que tinha

uma mulher que andava aos saltos, como uma pêga? Não conheceram? Você,

Poliano? Não me disse que tinha estado com elle em Vienna?...

--Não. Encontrei-o em Roma. A mulher realisava o typo perfeito da

_gaffeuse_... Em que liquidou?

--_Croupier_ de batota, em Spa... Tinha ar... Um dia, no Jockey,

perceberam que corrigia a sorte, no baccará.

--E Blumen, o chanceller da embaixada allemã, que conheci, de relance,

em Madrid?

--Em missão junto de Menelick. Emborracha-se com o Negus,

formidavelmente, com cerveja de Munich. Tem a simpatia dos ras; ouvi que

iam crear em sua honra a ordem do Bock, na Abyssinia...

--Era o intimo do conde de Strifforth... Que é feito de Strifforth?

Herdou já o _peerage_? Diziam-o muito considerado no Foreign Office.

Pensou-se n'elle para sub-secretario de Estado...

--Nunca lhes contei a morte de Strifforth?

--Morreu?

Flirts · 第 6 / 9 段