E aos vermelhos, quer heroicos, quer tenues, uniam-se outras côres,

outras n'elles se fundiam ou se embutiam, perpassavam em alguns laivos

fortes de violetas, n'outros espraiava-se um branco que hesitava em ser

rosa; aqui um, desesperado, as petalas revoltas, como em arrepelos, era

d'um violeta ardido, além outro era todo branco, d'uma quasi irreal

alvura, como se anjos os houvessem beijado nas horas suaves em que do

ceu cae o rócio... Outro, tambem branco, beijos de abelhas o tinham

mordido, n'elle gotejava um sangue avermelhado; mas os vermelhos

combatiam, aqui vinho, além quasi roxo, havia como uma lucta de que

resaltavam gotejos, que pareciam cristalisar em coraes; em certos,

o vermelho do fundo degradava-se, triunfava fortalecido, até que nas

pontas recurvas se franjava de roxo. Havia retalhos de tunica do Senhor

dos Passos, carnes a apodrecer, pedaços de pelles virginaes, estriados,

franzidos, sempre frizados, raiados de côres diversas: aquelles eram

«modern style» em côres estranhas que se reuniam, certos cremes onde se

dilue o vermelho, tons sem brilho, onde a luz morre, côres de tijollo,

esverdeados longiquos que pareciam dormir sob os roseos.

Mas todos tinham frescura, todos viviam uma vida impertinente que se

affirmava no odor sensual, perturbante e voluptuoso, todos eram d'uma

ardente mocidade, quer saissem dos tubos, entre folhas de musgo, quer

baloiçassem em hastes longas de craveiros, como que ejaculados, tal a

sua soberba. E mesmo os que eram enormes e faziam vergar a haste, como

um corpo cançado, na seda fina das petalas tinham sempre sorrisos, um

sorriso que excitava.

Eram todos sensuaes. Faziam lembrar _croupes_ fortes de espanholas

d'olhos languidos e cabeleiras negras mordidas por pentes d'oiro.

O langor das flôres, junto á puberdade que nascia e se afirmava e

entontecia, como as grandes olaias de marfineo calice, pelos jardins

calados nas noites d'agosto, perturbavam, embriagavam André, tal um copo

de capitoso vinho que se bebe d'um trago n'uma convalescença.

Pé ante pé, Renée entrou e, curvando o corpo n'uma atitude provocante,

agarrou-lhe na mão e segredou-lhe:

--Quer saber o meu perfume?

A bocca vermelha e seca ria-se, contrafeita.

--Ha dias, não tive tempo para lhe dizer...

Aproximou-se d'André, apertou-lhe as mãos, deitava-lhe, ao falar, um

halito perfumado e quente.

--Quer saber?--insistiu.

André córou e quiz fugir; mas mademoiselle agarrou-o mais, tomou-lhe a

outra mão e apertando-lh'as, n'uma caricia sabia, palma com palma:

--Não faço segredo: é uma mistura de resedá e jasmim do cabo. Quer vêr?

Sem que lhe désse tempo para responder, poz-se nos bicos dos pés, mãos

nas mãos, olhos nos olhos, e approximou-lhe da face o cólo tremente.

Largando-lhe as mãos deitou para trás a cabeça palida de adolescente e

reavivou com um longo beijo a flôr exangue dos seus labios virgens.

André beijou-a tambem, os olhos fechados, os corpos unidos, arcobotados

um contra o outro.

Quando terminou o demorado abraço, André olhou para ella a medo. E por

sua vez agarrou na cabecita linda e beijou-lhe a boca longamente,

sofregamente...

A noite, para André, foi toda de revoltas no leito, olhos abertos,

labios em febre, franzidos, a procurar outros labios que não vinham, a

desejar beijos, como se elles adejassem esparsos pelo ar e podessem

pousar na sua boca. Comparava os beijos suaves da miss com os beijos de

fogo que lhe dera Renée. E como era doce dormir depois de sentir as mãos

alvas de Lucy a afagar-lhe os cabellos n'um somno tranquillo e doce! e

como lhe era difficil adormecer, a revirar-se na cama, apagava e acendia

a luz, sempre a lembrar-se da caricia extranha e inedita, do perfume

estonteante, do calor dos labios secos, da macieza do cabello loiro,

como se fosse de seda, de todo o corpo fino e flexivel que se colára ao

seu, e n'elle deixára como cauterisadas placas de feridas, era bom e era

terrivel. E toda a noite passou assim, até que de madrugada adormeceu

murmurando em segredo o nome de Renée.

Era a puberdade que aparecia subitamente, irrompendo d'um jacto, como um

poço artesiano de repente aberto.

Longo tempo durou esse noivado vermelho.

Certa tarde, D. Benito que ainda se arrastava pelo palacio, achacoso e

velho, fazendo do dia uma comprida sésta, surprehendeu-os a

beijarem-se.

Clamando contra as iniquidades da terra, foi-se encontrar com o marquez,

que á sombra d'uma tilia meditava Marco Aurelio, e contou-lhe, vermelho,

esquecido do reumatismo que lhe tolhia as pernas, entremelando a lingua

numa algaravia inconcebivel, a abominação das abominações.

O marquez, que pousára sobre o banco de marmore o livro antigo,

mostrou-lhe uma haste toda coberta de goivos brancos:

--Vê esta planta, D. Benito? É algum peccado que na época propria se

cubra de flôres? Repare para ellas. Com que voluptuosidade mergulham-se

na atmosfera! Riem n'uma alegria clara e vívida por terem nascido. Da

raiz sobe, triunfante, a seiva para as alimentar. Perfumam hoje,

morrerão ámanhã, sem pecado, felizes por terem integralmente vivido. O

seu polen voará para fecundar outras flores, D. Benito. Deixe que a vida

se manifeste, deixe que todos sejam felizes!

O conego arriscou uma apoplexia ao ouvir a blasfemia do fidalgo. Teve

forças para ir para casa embrulhar as escassas roupas e na mesma noite

partiu para Sevilha--queria morrer entre gente cristã, dizia. Não se

despediu d'André, nem de mademoiselle, apenas um comprimento seco ao

marquez.

Fingiu este ignorar o que entre o filho e a mestra se passava.

Continuavam no seu idilio. Mas os annos passavam, André fez os seus

estudos e o marquez mandou-o para Florença.

Renée regressou a França. Partiram juntos, por mar, para Barcelona.

Foi entre beijos, que sulcaram o Mediterraneo calmo e transparente, aqui

azul-ferrete, além verde-claro, logo ensolado e doirado, sempre

transparente. E de noite iam vêr, sós, as mãos nas cintas, muitas vezes

os braços se uniam--a fosforescencia que se levantava na prôa,

brilhante, n'uma espuma fina, como uma poeira de mica.

Como dois amorosos que acabam de dar o primeiro beijo, e logo, na ancia,

querem contar mais de mil, mal viram Cadiz branca e pequena, a luzir no

recurvo golfo azul; em Malaga não repararam no ar dolente das flamencas,

que cantam cheias de volupia, e mesmo no _Paseo_ sacodem as ancas, como

n'um convite para uma volupia triste, e os seus vinhedos claros; apenas

na cathedral feia e banal, se extasiaram diante d'um quadro, imagem de

uma santa. Qual? Não o souberam e chamaram-lhe Nossa Senhora do Desejo

insatisfeito. N'uma pequena tela um busto de mulher trigueira, andaluza,

forte, pelle doirada, olha para o ceu. Os olhos teem a expressão

dolorosa de quem muito deseja. E o vermelho dos labios carnudos, as

narinas dilatadas, dizem o que ha de sensual n'aquella expressão

ardente. O collo é aberto. E as mãos, ao tapal-o com um lenço

vermelho, ainda mais aquecem o tom quente do collo doirado.

Indifferentes, viram Valencia entre vergeis, clara e voluptuosa na

planicie fertil e o Grao rumoroso, onde moirejam descarregadores nas

docas e operarios nas fabricas. E Barcelona que se alastra em renques de

arvores nas ruas largas, com seus palacios, suas avenidas, as Ramblas

onde se apertam catalães silenciosos, os mercados de flôres cheios de

gardenias, de jasmins e rosas, pareceu-lhes triste, porque alli se

deviam separar.

Em vão subiram ao Tibidabo; donde se vê toda a Barcelona estendida, como

um tapete, cortada de ruas; correm, ora direitas, ora em sinuosidades,

linhas claras de platanos. Estendem-se as casas até junto ao mar azul,

de onde em onde raras torres se levantam e entre ellas sobresahe o vulto

gothico e afilado de Santa Maria de la Mar.

A ligeira neblina que se levanta do porto e envolve a estatua de

Colombo, negra sobre a pedra branca da doca, parecia que envolvia tudo,

que dava ás coisas a tristeza que estava n'elles. E Renée chorava,

abraçava-se muito a André, obrigava-o a prometer-lhe longas e amiudadas

cartas e uma viagem a Paris, quando voltasse, no anno seguinte,

de Florença.

E assim, por uma tarde triste, conseguiu André leval-a, pelo

passeio da Aduana fóra, entre as palmeiras, á estação.

E os beijos cantaram, demorados e angustiosos, nas bocas dos amantes,

até que uma voz rouca gritou:--Viajeros, al tren!--e o comboio silvou e

partiu. André ficou a vêr o lenço de Renée e o comboio que se perdeu

n'uma curva, fumegando.

Dolorosa foi, para André, essa noite.

Pareceu-lhe vasia e silenciosa a pequena alcova onde durante uma semana

tinham dormido. Perseguia-o a lembrança do perfume, a macieza e a côr do

cabello d'um loiro palido como um sol convalescente, a frescura da pelle

fina, todo o encanto e todo o Amôr da deliciosa Renée que o iniciára e

que o amára e de quem sentia ainda as lagrimas amargas que se misturavam

aos beijos tristes que ella lhe dera nos curtos dias da despedida. E

André chorou.

Na manhã seguinte partiu para Genova n'um _liner_ da Liguria. Com elle

regressavam á Italia cantoras do Liceu. Notou uma comprimaria delgada de

cabellos e olhos pretos, que trazia do mercado da Rambla um grande mólho

de flôres. Olhou para ella com desejo e n'esse desejo se surpreendeu,

quasi esquecido de Renée. Facilmente feito o conhecimento, os dois dias

de viagem foram rapidos em inconsequentes flirts, alegrias de dança na

tolda e leves concertos no salão. Em Genova se separaram e André

partiu para Florença ligeiro e esquecido, com um certo prazer de se ter

separado de Renée, que, agora o sentia, começava a pesar-lhe.

Em Italia a vida foi-lhe facil entre monumentos e mulheres, em cujos

olhos boia uma grande alegria de viver.

Teve paixões e conquistas; quiz realisar quadros dos mestres florentinos

que diariamente via no Pitti e nos Uffizi; procurou por toda a parte os

typos ambiguos, perturbantes no seu enigma, entre efebos e mulheres,

adolescentes sempre, ovaes perfeitos de rostos brancos, bocas sensuaes e

vermelhas.

Nos _corsos_ da Italia passeou em cavallos inglezes; em Veneza poetisou,

no Grande Canal, pelas noites claras, sentindo humidade e paixão, até

que aos dezoito annos voltou a Lisboa sempre a mesma palôr na face, os

mesmos olhos tristes e boca exangue.

O marquez aprestava o seu casamento com Violante Cerquedo, filha dos

condes de Cerquedo.

Só no palacio, sem os risos do filho, procurou distrações na vida

mundana. Novo ainda, puzera-se a amar Violante, graciosa e intelligente,

cujos vinte annos cantavam triunfantes, como uma primavera florida.

Seduziu Violante a intelligencia do marquez, a sua figura aristocratica

e a maneira amorosa como a olhava, como se fosse uma obra d'arte.

Pouco tempo depois do regresso de André, por um inverno chuvoso e frio,

a capella do palacio encheu-se de lumes e casaram.

André não deixou os costumes que trouxera de Italia. Paixonetas diversas

amorteciam-lhe o coração, até que um dia, perseguindo Martha, uma actriz

loura e chique, que lhe fugia um pouco, a tornar-se difficil e desejada,

julgou ter «a verdadeira paixão da sua vida», como confessára, depois

d'uma ceia fausta e turbulenta, a Jacintho Roquette, seu irmão em letras

e seu confidente.

André lançára-se, á volta de Italia, doidamente na literatura.

Frequentava redações e jornaes, theatros e cafés onde se reuniam jovens

escriptores cheios de esperanças e de imprecações, revolvendo as ideias

e os livros sem cerimonia, com o ar de quem, do alto d'uma montanha

inaccessivel á plebe, residencia olimpica de escolhidos, considerou já

os homens e as coisas.

Instintivamente fugira d'elles, da sua imperturbavel confiança, do

azedume que d'elles suava quando se lembravam d'um exito. Ligou-se ainda

mais com Jacintho Roquette, caustico e risonho, com um real talento que

desperdiçava em cavaqueiras de café e em artigos feitos a trouxe-mouxe

para jornaes e revistas, sempre a luzirem, atravez da luneta, os olhos

azues, que dir-se-hiam infantis, no fundo uma grande bondade e um

caracter firme.

As primeiras impressões d'André tinham tido um certo exito pelo seu

paganismo, uma maneira leve de escrever, lembrando a finura que teem os

mestres florentinos nas suas medalhas nitidas.

Dissera recantos de paisagens, brilhos de mares azues, figurinhas que

tinham passado, subtis, pela sua vista, desaparecendo logo, na rapidez

das viagens, no imprevisto das caminhadas pelos campos serenos da Toscana.

Ser delicado e cético, saboreou a ironia viva e o céticismo escarnica de

Jacintho Roquette e juntos andavam pelos theatros, vendo retalhos de

peças e demorando-se pelos camarins em flirts com actrizes, ceias

pacatas, que as companheiras não supportavam, by their own

respectability, orgias triunfaes, até que se apaixonou por Martha, essa

actriz magrisella, que guerreava a velhice com pastas de cosmeticos e

massagens, a unica mesmo que conhecia e usava os processos parisienses

para a guerra da galanteria.

Martha tinha uma vida irregular, tecida em mentiras, misterios, certos

hiatos de treva, na sua vida, até para os mais intimos.

Nunca um só amante, nunca num trimestre inteiro o seu leito conheceu o

mesmo corpo, antes variavam, mudavam, com sinceros _beguins_, ás

vezes o seu coração e o seu corpo pareciam uma estalagem de

entroncamento, como um vertiginoso vae-vem de passageiros.

André, n'uma noite feliz, em que uma joia brilhou ante os olhos de

Martha, teve a ventura de a acompanhar a casa n'um trem que se

desarticulava, guiado por um batedor experimentado.

E de manhã, ao almoço, satisfez, contente uma pequena conta de chapeus.

Reconhecida a uma generosidade tal, Martha, durante tres dias, foi fiel

a André. Mas ao quarto dia, pretextando enxaqueca, recusou-lhe o leito

de pau santo e os braços brancos, ferteis em caricias.

As enxaquecas repetiram-se e André entrou a desconfiar, a carpir-se

tristemente da infidelidade de Martha, a Jacintho Roquette que chasqueava:

--Ella recebe-os ambos ao mesmo tempo? Não. Que te importa então? Os

beijos que ella te dá teem o mesmo sabôr? Teem. Que te importa o resto?

Encontras um perfume estranho no seu corpo? Mas é uma _coquetterie_ o

querer variar de perfume. Então?

As rasões aduzidas não convenciam André e, lentamente, o que fôra talvez

um capricho, o desejo infantil de possuir a mulher da moda que era chic

possuir, foi-se transformando em obsessão, em ideia fixa, tinha a

necessidade de estar com ella constantemente, rondar-lhe o camarim,

espreitava-a entre os bastidores á espera da _deixa_, ia ao meio dia

esperal-a á porta do theatro, quando entrava para o ensaio, e, nas

noites de enxaqueca, desolado, nervoso, ia com o Roquette dizer mal

d'ella, pôr-lhe a nu todos os defeitos, inventando alguns, mas tendo

sempre um secreto desejo de a possuir, mesmo nas passagens mais

verrinosas surgia a imagem de Martha, nua, a bocca pequena espremida

n'um beijo, a offerecer-se-lhe.

E André redobrava de violencia, dizia a vida postiça e infame da amante,

a teia de mentiras que urdia, as suas baixezas, com um prazer cruel

enumerava o rol comprido dos amantes, e terminava quasi a soluçar:

--C'est une catin; il faut la tuer; «morte la catin, mort le chagrin.»

--Mais uma filipica! concluiu, rindo-se, o Roquette. Vou-te apresentar

hoje uma das minhas amigas, a Princeza das Botas Cambadas. Curar-te-hei

pela hom½pathia: dentada de cabra, com pello de cabra se cura.

Mas Miguel sentia-se frio e aborrecido, e triste, diante das princesas

do Roquette, até que um dia, sem dizer nada, decidiu-se a recolher-se á

Quinta Alegre, onde havia cinco annos não se demorava, pois depois da

sua viagem, tivera uma vida de estroina, que o fazia fugir de casa após

o almoço tardio, para só recolher a altas horas ou noite, até

madrugada clara.

Fizera de Violante sua confidente, e a ella contou, polidas as

asperezas, o mal d'amor de que soffria, e o desejo de o curar.

--Vou ser teu medico. Deste-te mal com as mulheres... Experimenta as

flôres. São mais lindas e fazem sofrer menos. Dirigirás o jardim. Manda

fazer as obras que quizeres. Precisamente tens aqui no «Studio» um

artigo sobre a architectura dos jardins. Faze modificações á tua

vontade. O teu pae concorda; eu ajudo-te, travamos relações, porque,

para dizer a verdade, mal nos conhecemos. Desde que foste para Florença

que não fallo comtigo, senão á pressa, quando te preparas para sahir.

Ainda te vejo menos do que quando eu era uma menina grave e te batia em

casa da tia Talleiros, pelas tuas partidas. Olha, ámanhã começa o mez de

Maria... Enfeita a capella. Tens ás tuas ordens o jardineiro e o jardim

todo. Tens invenção e gosto... olha que eu exijo genio!...

--Oh! Genio... sabes?...

--Bom; contento-me com talento.

--Vá lá, prometto...

Apanhando um grande ramo de lilazes brancos, poz-lh'o na cabeça, como um

diadema:

--Está enfeitada a Santa!

* * * * *

TIBIDABO

AO SR. BARÃO DE S. PEDRO.

TIBIDABO

Na tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha

que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia

onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do

Peccado.

O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que

Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz

ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este

monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos.

Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa

preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas

arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via»,

a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o

Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro, o mar azul,

riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis.

Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a

um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro.

Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.

Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:

--Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito

luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas

nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e

nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores

das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas

mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se--olha como se ilumina a cidade!

Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos

candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas

dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!

Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que

tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem

conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo é o gnomo subtil que

trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as

cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que

apodrecem e brilham.

Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era

tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra

mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.

O Diabo continuou:

--Quero a tua alma...

Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um

museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos

vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos,

ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas

disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes

simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um

fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as

gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os

compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas,

capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares,

velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os

cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas nos espasmos

lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se

vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como

sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um

museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e

angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada--era tudo de

Satan e queria-me!

O pasmo pintou-se na minha cara.

--Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei

as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha,

que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome

da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo

Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais

nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua

da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em

beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras

risonhas--floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço

angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!

Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já

fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e

casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi como se uma via-lactea suave

se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...

--Não te dou a minha alma.

--Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras

das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr

por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão

olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas

arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as

notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a

angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do

banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...

--Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de

Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por

vel-a, andarei contente...

--Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a

si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair

as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás

povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se

assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks,

e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos,

espalhando o sobresalto e a ruina.

--Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela

Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o

perfume da sua bocca.

--Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos

antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos

corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus

braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão

as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas

joias, brilharão os seus grandes olhos...

--As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas

mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a

dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a

todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu

cabello preto.

--A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o

vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a

sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender,

n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas

que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo

vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!

--Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca

sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?

Flirts · 第 5 / 9 段