Subiram, ainda a rir-se. André deu-lhe o braço e foram, quasi a correr.

Ao passar por um repuxo:

--Vamos molhar as flôres, ficam mais bonitas, como se tivesse acabado de

cahir o rócio.

--Pois sim, pois sim.

O cristal dos repuxos altos cahiu sobre as grandes braçadas de maias.

--Vamos lá, vamos lá, que se faz tarde para o almoço!

No altar da Virgem estavam apenas largas rosas brancas, flôres d'um

aroma subtil e angelico.

--Onde pôr as maias?

--No chão, junto ao altar. São as primicias da primavera oferecidas á

Virgem.

--Pagão! censurou a marqueza.

--Não importa. Ficam bem. Aqui no chão, como um monte de estrellas, aos

pés da Virgem:

Para que fosses mais formosa Deus deu-te a lua por chapins e as

estrellas por caminho.

A sineta tocou para o almoço.

Rodearam a casa e entraram pela estufa, cheia de begonias e de cravos.

Emquanto André se vestia, o marquez perguntou se Violante se não

admirava do seu procedimento.

--Ha quantos annos não fica elle em casa? Tresnoitado, entrando muitas

vezes quando eu já rodo pelo jardim, escondendo-me d'elle, para fingir

ignorar os desatinos, elle dormia e almoçava aqui, fóra d'horas,

escondido da Felicia, que resmunga contra elle coisas terriveis,

chama-lhe perdido, sustenta que está possesso...

--Uma paixoneta, que trata de curar... Disse-me tambem, que agora ia

começar vida nova, talvez fosse para a Quinta dos Limoeiros, para se

desaffeiçoar... Isto passa-lhe... Para a semana lá o teremos na mesma

vida; theatros, actrizes, ceias...

--E se o pudesses reter em casa! Vê se o divertes... Fal-o sahir

comtigo. Agora que vou a Paris podias conseguir que te acompanhasse a

visitas, bailes, _soirées_... Já o quiz interessar com as estampas, mas

perguntou-me se eu julgava que havia de passar os dias a vêr bonecos...

O almoço foi alegre. Violante e André fallaram no que era preciso fazer,

nas passadeiras a pôr na egreja, nas cadeiras, na disposição dos bancos

no adro, á sombra dos velhos pinheiros, até sob o arco dos limoeiros pôr

cadeiras, que convidassem os flirts a recolherem-se na discreta

arcada. André promptificou-se a tudo fazer; sahiu para o jardim,

illuminado pelo sol, cantante nas aguas abundantes dos tanques e

cascatas, misterioso nas sombras que o arvoredo formava, rico de côr,

verdes diversos, vermelhos, azues, lilazes das flores, mosto fresco das

olaias floridas; mas, sob a copa larga e tremente d'um choupo do Canadá,

deitou-se e adormeceu profundamente.

O jardim antigo, desenhado por um artista italiano, não tinha as placas

relvosas dos parques inglezes e o seu frio alinhamento. Cresciam por

toda a parte altas e poderosas arvores, que apertavam a architectura

renascença do palacio; por toda a parte cantavam em fontes, em cascatas,

em repuxos, aguas claras.

Havia macissos de roseiras que cresciam livremente e se enrolavam aos

marmores, aos soclos, iam florescer e perfumar nos collos brancos dos

bustos, entre braços finos dos grupos mitologicos, rondas de estações,

danças das Horas, cheias de movimento e de belleza. Escadas brancas de

balaustradas ligavam as depressões de terreno; e por toda a parte uma

grande alegria de flôres e de arvores viçosas, pinheiros, carvalhos,

arbustos de folhas variados, jasmineiros trepadeiros, que sorriam,

trementes, nos minusculos jasmins, entre a folhagem verde.

Por toda a parte uma exhuberancia de flores, que nasciam em

canteiros, amores perfeitos de velludos quentes, pequeninos myosotis,

quasi brancos no seu azul virginal; outras que subiam pelas arvores;

estrelavam-se clematites, umas roxas, outras brancas, enroscavam-se aos

troncos, iam florir na copa larga dos castanheiros. Em pequenas sebes de

cana os craveiros inclinavam-se, cravos vermelhos d'um perfume que

entontece, cravos brancos, mosqueados de violeta, cravos estranhos como

nodoas nas epidermes.

Tudo sorria, tudo gritava, na confusão da manhã clara; estendia-se pelo

ceu o sol, batia nos flocos de nuvens que se doiravam, extraindo de toda

a terra uma alegria immensa, que subia no fumo, que cantava na viração

leve arrastando-se pelas arvores altas, manifestava-se nas folhagens

claras, envolvia tudo.

Em grandes placas floresciam as maias e, no inverno, violetas de Parma,

d'um lilaz moribundo. Por toda a parte flores, estendendo-se pela terra,

ou subindo e perfumando. E as aguas cantavam, cristallinas, corriam, iam

beijar nos regos abertos folhas viridentes. Era a Quinta Alegre, o

jardim magico. Nos ornatos das janellas e das portas, nos baixos relevos

e nas pinturas das salas, reproduziam-se em linhas puras os motivos de

volupia e de belleza. Até na capela havia uma exuberancia de vida.

Viam-se figuras nuas, como nas Loggias do Vaticano. Os monstros não

tinham, como nos ornamentos goticos, uma aparencia terrivel: eram

elegantes, d'uma aparencia risonha e as retorcidas caudas terminavam,

estilisadas, em caules de flores. A vida era triunfante nos collos

sensuaes das mulheres, nos cachos de fructos, romãs abertas de que sahia

um riso vermelho, laranjas doiradas, cepas que subiam espalhando-se em

ramos com grossas uvas, como a de Corinto, figuras aladas, sensuaes,

antes amôres contentes, do que anjos misticos e salvadores.

Havia uma volupia fina, uma delicada sensualidade cada um dos ornatos,

como em cada um dos caminhos da Quinta Alegre. A mesma latada verde

clara, em que se via a poeira dos cachos que cresciam, se reproduzia e

multiplicava nos marmores das sallas e da capella; e os corpos alvos das

ninfas, das graças, hamadriadas contentes, dos faunos lascivos

levantavam-se e sorriam no marmore das estatuas.

Era alli que todo o anno viviam os marquezes de Runa, salvo um mez na

Bretanha, setembro, em alguma praia tranquilla e ensolada, d'onde

voltavam, apressados, logo aos primeiros frios, apenas uma pequena

paragem em Paris, para as necessarias visitas da marqueza a Redfern,

Paquin, e pequenas e especialissimas lojas d'outros fornecedores.

O marquez, Christiano Spinola d'Acciaioli, descendia de duas familias

italianas, os marquezes Spinolas e os marquezes d'Acciaioli, que foram

duques d'Athenas, de que vieram ramos para Portugal. No seculo XVII fôra

um seu tio, Simão de Vasconcellos Acciaioli casar a Florença com a filha

unica do marquez d'Acciaioli, para não acabar o nome. E d'ahi os dois

ramos conservaram sempre relações intimas, visitas dos portuguezes e

italianos, e mesmo o marquez passára parte da sua mocidade em Florença

na casa senhorial de seus avós.

Novo, voltára a Portugal e amára com um tranquillo amôr sua primeira

mulher D. Estevaninha Henriques, descendente do celebre conde D.

Henrique Henriques.

Vira-a por uma manhã de sol a atravessar o pateo branco e calado do seu

palacio de Sevilha. E a languidez do seu andar, o seu ar triste,

n'aquella casa quasi morta--calado e morto é o tanque esbelto e branco e

sobre os arcos apenas touristes passam, silenciosos--impressionavam. Os

seus olhos habituaram-se a vêr nas praças, nas ruas ensombradas pelos

toldos, a face branca, onde ardiam os grandes olhos pretos de D.

Estevaninha, a risca sensual e fina dos labios vermelhos, como num traço

de sangue, que a faziam mais pallida.

Conhecendo os duques de Medina, facil lhe foi ajustar o casamento.

Depois d'uma luzida boda, aberta de par em par a Puerta del Pardon da

Catedral para a passagem dos convidados entre os quaes a infanta, que

representava a Rainha, vieram para Lisboa esconder o seu amôr na Quinta

Alegre, cheia de rumores d'aguas e de folhagens que gemiam e riam á

passagem da brisa.

Mas aquella casa alegre, onde tudo era voluptuoso, d'uma volupia fina,

em que todos se tinham habituado a amar a vida em todas as suas

manifestações, parecera hostil ao sentimento hespanhol da doce

Estevaninha, na nudez dos corpos, até no desabrochar das flores de

marmore, que pareciam tentar.

Certamente, que junto de si, para a amparar e dirigir, estava sempre,

rotundo e oleoso, o conego D. Benito, que com ella viera de Sevilha, e

na capella risonha e branca constantemente ardiam lumes fumarentos de

tochas; certamente, que as missas, as novenas, as trezenas,

lausperennes--fôra difficilimo conseguir do Senhor Patriarcha um dia de

lausperenne, cada mez, mas conseguira-o a protecção decidida da baronesa

d'Angra--todas as festas e macerações da egreja se sucediam na capella

clara; as confissões, as comunhões multiplicavam-se; um cilicio de crina

fazia, ás sextas-feiras, gemer a branca noiva, mas tudo parecia falso,

porque a capella tinha sempre o ar de rir e de tentar, nas volutas

floridas dos seus capiteis, nas figuras nuas, que mostravam em cada

ruga da pelle, em cada grão de marmore, um desejo impuro que era uma

tentação e um escarneo.

E a marqueza não se sentia feliz. Preferia o seu viver austero na sua

casa d'Andaluzia, entre paisagens asperas, crueza de sol pelos desolados

campos onde as piteiras aguçam as pontas de suas folhas curvas, e as

egrejas hespanholas, severas e sem luz; em vão lhe dizia D. Benito que

um sátiro confessára Christo a S. Jeronymo, e lhe trouxera flôres para

enfeitar o altar do verdadeiro Deus; debalde lhe assegurou o frade

affeiçoado ás sombras quietas da quinta, aos tuneis de verdura, onde a

pretexto de ler o breviario, nas tardes calmosas de verão, adormecia

ecclesiasticamente, que as apparencias nada eram e que a verdade estava

em Deus--D. Estevaninha redobrava de supplicios, os jejuns, as

penitencias rudes que abalavam o delicado corpo magro e gracil, que

palpitava na aproximação do marido, cheia d'angustioso terror e de

volupia; e pouco a pouco se definhou, e pela noite fria do Natal, á hora

em que na egreja, entre resplendores de cirios e uma chuva de flores, se

festeja o Nascimento de Christo, morreu aos gritos, ao dar á luz André.

Para o marquez a morte de D. Estevaninha não foi um desastre dos que

abrem no coração um vinco duradoiro.

Gostára d'aquella face triste e habituára-se ao ardôr receoso do corpo

fino e doirado da andaluza; mas a casa fina, elegante e pagã, ia tomando

aspectos sombrios. Na ante-camara, como nos corredores episcopaes,

murmuravam grupos de padres. E atravessaram a Quinta fallando baixo,

olhando para as areias dos caminhos, dizendo sempre palavras unctuosas,

a querer vender o ceu. Monsenhores de cintas arroxeadas, bispos

imponentes, a cruz d'oiro a brilhar no peito, camareiros de S.

Santidade, frades que batiam as sandalias n'um ruido surdo, cruzavam-se

nas escadas, junctos sahiam, sempre a mesma maneira hypocrita d'olhar as

coisas, sempre os mesmos labios mentirosos e distilar frases decoradas.

O marquez recolhera-se á bibliotheca onde dispunha a sua collecção de

estampas, por que dia a dia se apaixonara mais. Vinham da Italia e da

Allemanha e da França e da Inglaterra em rolos, em caixotes, que os

agentes enviavam, ás dezenas. Reunira uma preciosa collecção de

aguas-fortes de Rembrandt e as gravuras de Dürer; tinha desenhos de

Vinci, de Raphael, esboços de Ticiano e de Ribera. Tudo o que fosse

arte, desde o balbuciar dos primeiros «primitivos», até á exuberancia

formidavel de Rubens, misterios de sombra de Rembrandt, torcionarias

figuras de Ribera, suaves santas carnudas de Murillo, extranhas mascaras

de angustia ou de grotesco de Goya, tudo o que fosse arte e não

tivesse côr o seduzia, proves avant la lettre, exemplares rotos, em que

se visse uma mancha bem posta, elle os guardava, catalogando, apenas se

distrahindo em passeios pelo parque, grandes voltas, descendo até o

extremo da quinta, onde repousava, vendo o multiplo esguicho que saía

das duplas flautas de tres aulitridas, n'um gesto elegante de dança nas

transparentes tunicas que tornavam mais attrahentes a nudez dos

seus corpos.

Com a morte da marqueza, o palacio voltou a ser mais silencioso e mais

claro. Parecia que na quinta as aves cantavam mais. Apenas D. Benito

ficára, «por amor al niño de la señora marqueza», protestava, mas porque

se afeiçoára ás sombras frescas, onde dormia.

André foi crescendo livremente entre os creados e D. Benito. Aos tres

annos andava pela quinta, arrancando flôres, quebrando vasos, e

interrompendo com gritarias e surpresas as prolongadas séstas do conego.

André foi crescendo livremente, em correrias doidas, traquinas e

imprudentes, subindo ás arvores, despindo-se e atirando-se para as

bacias de marmore, sempre perseguido pela miss loira e terna, que lhe

ensinava inglez.

As feições da mãe reproduziam-se, graciosas, no filho. O pae via, com

inquietação o mesmo fallar da mãe, os mesmos olhos tristes, a mesma

boca fina, apenas, em André, mais exangue. Teve medo que a

intellectualidade desequilibrada da devota tivesse continuado no filho a

vida de pavores christãos, e ao conego e á miss recommendou que o

deixassem livre, que o fizessem um animal forte e feliz, com poucas

resas e pouca grammatica. Quiz que elle aprendesse a ter o Amôr da Vida,

que aquelles pulmões respirassem sem medo e sem pecado as grandes rosas

que desabrochavam lentamente, petala a petala nos caminhos da quinta.

Que visse no canto das aguas um hymno d'alegria, no chilrear dos

passaros e no balançar dos ramos uma festa da Natureza, que elle proprio

tivesse a alma constantemente em festa.

Assim lhe foi ensinado o pensamento dos antigos. Disse-lhe a alegria

imortal das fabulas gregas, os deuses que no vôo rapido desciam do

recurvo Olympo e vinham á terra violar os corpos nubeis das filhas dos

reis; a dança dos satyros e das faunezas nas clareiras das florestas

quietas, as festas da lavoura, as procissões a Céres no tempo em que os

trigaes amadurecem, a Dyonisos, quando os cachos são côr de rubim e de

esmeralda.

Levou-o ás suas terras do Douro a vêr as vindimas, quando elle tinha

sete annos. Pelos montes verdes, onde a vinha ri, rasteira, curvada ao

peso dos cachos, bandos de trabalhadores curvados cortam, cantando, os

cachos e levantam-se um pouco para os lançar nos cestos; de quando

em quando a fileira move-se, forma-se em semi-circulo, desdobrando-se

como um exercito n'um movimento largo, agrupam-se para debandar outra

vez, com rythmo e graça. E as camisas brancas contrastam com os lenços

vermelhos, e riem as faces trigueiras, ha uma grande alegria, cantam as

boccas, e o mesmo movimento regular dos bustos que se levantam, dos

braços que deitam, n'um movimento largo a uva nos balseiros escuros.

Depois das vindimas, os balseiros cheios despejam-se nas dornas, nos

lagares. O vinho ferve, com um aroma forte. E os trabalhadores cantam,

como no tempo da Hellada, glorificando a Terra e glorificando os Deuses.

Habituou-o a vêr coisas bellas, a reparar nas minucias das plantas, na

finura dos sarmentos, na delicadeza dos coloridos das flôres, quiz que

elle amasse as paisagens quietas. E com o pae, André ia contente; não

lhe ensinava resas, nem o obrigava a saber lições.

O conego e a miss, por um momento accordados, esquecendo as rivalidades

das Egrejas Catholica e Reformada, que os separavam e os traziam n'uma

lucta constante, censuravam o marquez por aquella educação original, que

seria muito bem cabida n'um gentio, mas não n'um cavalleiro portuguez. E

o conego desolava-se:

--É para admirar que a alma da senhora marqueza não tenha ainda

apparecido... Que se ella vivesse, isto era tamanha mortificação, que

morreria de desgosto.

E miss Lucy, fazendo com a linda boca vermelha um gesto de desdem,

terminava n'um tom cortante:

--Improper!

E André ia crescendo. Gostava da miss, porque era linda, tinha uns olhos

verdes, côr do mar, e uma pelle fina, branca como as gardenias, e o

cabello tão loiro, que André lhe perguntava se aquillo era oiro. Mas não

gostava do conego, porque, em o apanhando nas correrias do costume pelo

jardim, logo o prendia entre os joelhos e o fazia recitar, durante muito

tempo tantos rosarios d'Avés, padrenossos, de credos, salve rainhas,

actos de contricção que André chorava no fim. E D. Benito alegrava-se,

dizia que era o Diabo que fugia do corpo del niño.

André não se aventurava já a puxar pela batina enodoada do conego,

quando elle dormitava no jardim: limitava-se a gritar de longe, e quando

D. Benito sobresaltado acordava e voltava para elle a face gorda, André

corria a esconder-se no regaço virginal da miss, que se fingia severa:

--Aoh! Naughty boy! Very naughty boy. What did you do to D. Benito?

Mas ria-se das partidas d'André e beijava a face pallida, os olhos tristes.

De vez em quando apparecia a baroneza d'Angra a visitar o marquez. Mal a

presentia, André ia esconder-se n'algum recanto misterioso do parque,

atraz d'uma estatua, entre buxos altos. Não era que não achasse

agradavel estar com a baroneza, pequenina e gentil, com uns lindos olhos

frescos e em quem sentia, quando a beijava, um perfume doce; e mesmo os

labios d'ella eram mais vermelhos ainda do que os da miss, que os tinha

tão vermelhos e emanava d'elles tamanho ardor sensual, que a creança o

sentia confusamente.

Mas, passadas as primeiras ternuras, a baroneza fazia-lhe um minucioso

exame de doutrina, diante do marquez que enrugava a testa, descontente.

--Diga lá o menino os mandamentos!...

André dizia contrafeito e arrastado.

--E os artigos da fé?... E as virtudes cardeaes?... E os Novissimos do

Homem?...

--Mundo... Diabo... Carne...

--Carne, não, interrompia o marquez. Osso! Não é verdade, prima?

André não comprehendia, mas gostava, porque a baroneza deixava-o logo e

voltando-se para o marquez:

--O primo tem esta creança como um filho d'heretico. Já conheci um

inglez, e era protestante, que ensinava o catecismo aos filhos! Mas

o primo que tem papas na familia...

--Chegam para salvar o resto. Escusamos nós de pensar nisso, sorria.

--É pena ser seu filho. Tão lindo! Vê aquelles olhos tristes?...

--Gostava mais que fossem alegres!...

--Ora!... O primo não entende nada d'isto... Que lindos olhos!... Bem...

Bem... Tenho de ir á novena.

Ao sair, sempre a mesma frase a proposito da escada onde figuras nuas se

perseguiam, num lavor elegante e sobrio:

--O primo tem a casa cheia de indecencias! Acabo por não voltar cá!

André, porem, ia a fazer doze annos; não podia continuar entre o

catecismo de D. Benito e o inglez doce da miss. O marquez mandou-o

para o colégio. Mas á tarde, quando o conego o trouxe para casa, André

abraçou-se ao pae a chorar e a pedir-lhe para não voltar ali.

A disciplina escolar, os olhos curiosos dos camaradas que o troçavam, o

olhar duro dos mestres, o mau cheiro, a falta d'ar fizeram-lhe ter medo

do colégio. E prometeu ao pae tudo, para não voltar.

--Até aprender as resas de D. Benito e as da tia Angra!

Com grande escandalo de D. Benito, o marquez anuiu.

--Escusas de aprender resas. Vou-te arranjar, quando a miss se fôr

embora, uma mestra franceza e professores que virão a casa dar-te lições.

André ficou admirado. Então a miss ia-se embora? Porquê?

--Acaba o seu contracto...

André foi, a correr, perguntar á miss. Cheio d'angustia, com uma suplica

na voz:

--Então vae deixar-me?

--Yes, yes, my little André... E afagou-lhe os cabelos.

André agarrou-se a miss Lucy a soluçar nervosamente. A miss

acariciava-o, queria beijal-o, chorava tambem, comovida, lagrimas de

prata que se prendiam nos compridos cilios d'oiro.

Fôra a miss, até então, a unica mulher de que André gostára. A ella

fazia as suas confidencias, contava-lhe as proezas de brigas terriveis

com os amigos, as diabruras feitas ao conego. E a miss tinha sempre um

sorriso e um afago para a creança, nunca lhe ensinára orações, não o

castigava por não saber a lição, falta que se repetia a miudo; apenas

lhe dera uma biblia com gravuras recomendando-lhe a leitura--sem resultado.

Á noite contava-lhe lendas poeticas da Inglaterra, castelãs brancas e

tristes, almas de mortos que vagueiam e a voz dorida dos pagens

soluçando d'amor...

Muitas vezes, quando era mais mocinho, fôra a miss, no inverno,

aconchegar-lhe a roupa no pequenino leito. Ao adormecer, a sensação

branda das mãos delgadas de Lucy na sua face. E cantava como uma musica,

a voz que dizia, ao fechar mansamente a porta:

--Good night, my little André.

Mas a miss partiu em lagrimas dolorosas. André foi acompanhal-a ao vapor

com o velho «footman». Já ia longe o navio e ainda André acenava, os

olhos molhados, o soluço a contrair a garganta; a miss tambem agitava o

lenço, chorando...

Tempo depois apareceu em casa, de manhã cedo, quando André andava a

regar os seus canteiros, a professora franceza que chegára de Paris. O

seu andar era ligeiro e miudo como o dum passaro e evolavam-se d'ella

uma gracilidade suave, desde os cabellos palidos até a curva rapida da

cinta delgada. Tinha nos pequenos olhos cinzentos uma malicia e um riso.

André, que se voltára, ficou boquiaberto. Certamente que a miss era

linda como uma santa e doces as suas mãos e a tia Angra tinha os labios

vermelhos e um perfume delicioso; mas nunca vira creatura assim airosa,

alta e delgada, que balançava o seu corpo quando andava, como se fosse

uma flôr, como um bloco de gracilidade a deslocar-se.

Ao saber, porém, que era a mestra franceza, não a quiz vêr mais;

nem a cumprimentou. Estava persuadido de que era culpada da partida da

miss e guardava-lhe no peito, antes de a conhecer, um grande rancor.

Fugiu, a correr, para o fundo da quinta e ali ficou a chorar com

saudades da miss.

Ao almoço André foi repreendido. Ficou calado, os olhos baixos sem

explicar o procedimento. O marquez disse-lhe que ia ter outros mestres,

pois não podia ficar a saber apenas o latim, as vagas e erroneas noções

de coisas que lhe dera D. Benito e as poeticas baladas de miss Lucy.

A principio a vida foi dura para André entre os professores

indifferentes que tomavam as lições sonoleando, e mademoiselle Renée,

hostil, que, pensava elle, tinha causado a partida da miss, linda como

uma dessas santas serenas e indulgentes, que teem sempre, nos dedos em

fuso, o gesto da benção.

André olhava para Renée, disfarçadamente; admirava a graça do seu corpo

de que saia um perfume tenue, as mãos brancas, as unhas cuidadosamente

tratadas, e, quando ella se abaixava, o palido reflexo da sua nuca

doirada. O perfume era subtil e perturbante. Respondia com maneiras

bruscas ás perguntas feitas numa voz macia e quente, falava-lhe muitas

vezes inglez, fingindo ignorar os termos franceses, para lhe ser

desagradavel. Mas Renée Viardot tudo suportava com paciencia,

lançava-lhe olhares enternecidos, queria afagal-o até, beijal-o num

impeto em que brilhavam os seus olhos claros; mas André fugia logo,

apesar dos quatorze annos, como uma creança indocil.

No verão davam as lições na quinta, em baixo, junto aos tritões, numa

rotunda assombreada. Numa tarde quieta e quente, como estivessem juntos

e Renée tivesse ao cólo um livro que interessava André e de que lhe

explicava uma passagem, elle inclinou-se mais sobre o seu braço, quasi a

tocar-lhe na musselina transparente da blusa, poude sentir o perfume

brando e sensual e, interrompendo mademoiselle, perguntou-lhe bruscamente:

--Que perfume usa?

Nos seus olhos negros havia um quebranto e na face palida duas rosas

vivas despertaram.

Renée agarrou-lhe na cabeça e mergulhando-lh'a na musselina da blusa:

--Est-ce que tu aimes mon parfum? Dis!

A impressão foi demasiadamente violenta. André fugiu, a tremer; foi

sentar-se sobre o arco verde e doirado dos limoeiros, a tremer, os olhos

parados, pensando na sensação deliciosa e rude que tivera.

O aroma das rosas que lentamente se desfolhavam, o perfume dos lilazes

brancos e dos lilazes roxos que punham nos lilazeiros uma espuma branca

e uma espuma roxa, mesmo o cheiro acre dos limões maduros não

conseguiram vencer o aroma subtil e sensual do peito farto de mademoiselle.

Dias seguidos, André pretextou enxaquecas, fugiu de Renée, espreitando-a

de longe com receio e com desejo de se approximar d'ella, outra vez

mergulhar a cara na frescura da musselina e muito tempo sorver o

inibriante aroma. Um dia, na estufa aberta, examinava langorosamente os

cravos que iam já a murchar. Havia-os de toda a côr. Todos os vermelhos,

desde a purpura sombria, até ás descolorações das rosas anemicas;

gritavam alguns côr de vinho, surgiam roseos e triumphantes, até que

desmaiavam rosados puros de geraneos, como bocas novas que querem beijar.

Flirts · 第 4 / 9 段