sentir desmaiar, pegou n'elle amorosamente e embalou-o. Mas outro gemido
saiu da massa informe. Parecia-lhe que era estridente, enchia todo o
quarto, acordaria, talvez, a villa, como os sinos quando tocam,
anciosos, a rebate.
As suas mãos magras apertaram a garganta do pequenino ser. Nem um ai. O
filho devia estar morto. Levantou-se, a cambalear. As pernas
dobravam-se. Com o pequeno n'um braço, de rastos, os olhos cheios de
sangue da allucinação, rojou-se pelo quarto, abriu a porta, desceu as
escadas ás arrecuas, saiu á rua.
Era uma noite clara, sem lua. As estrellas formigavam no ceu. A via
latea, no azul escuro e transparente, era uma poeira de mica. As arvores
faziam pastas de sombra na paisagem. Uma fonte doloridamente se
lamentava, n'um tanque de pedra. Lembrava-se de todos os promenores. Na
abegoaria mugiu uma vacca. E o cão veiu apressado e contente lamber-lhe
as mãos. Ninguem sentira. Mas Marcia pensava ouvir passadas no estalido
seco das folhas murchas que caíam e na brisa pelas ramadas, o mexer de
vestes de pessoas a perseguil-a.
Em cada canto mais denso de sombra, via olhos a espreital-a. E, em
camisa, quiz correr, sem forças. De onde em onde, sentava-se, forçada,
porque as pernas não podiam mais. Ouvia gritar a morta. E as suas unhas
cravavam-se desvairadamente na garganta do innocente. Chegou ao fundo da
quinta, um terreno de trigo já ceifado. Verão seco, a terra chistosa era
dura.
--Foi com as minhas mãos que cavei a terra. Como era dura! Parecia que
eram pedras que eu partia com as mãos. E ellas encheram-se de sangue. E
eu, no meio d'aquelle trabalho feroz, ainda ouvia o innocentinho gritar.
E apertava-lhe mais a garganta. E voltava a cavar, queria cavar fundo,
para que não dessem com o corpinho quando lavrassem a terra para semear
de novo. E não havia maneira! Não tinha força nem coragem para ir
procurar uma enxada, um ferro, qualquer coisa com que podesse abrir a
terra tão dura, que me fazia doer tanto as mãos. Sentia que rasgava os
dedos. E tinha medo de que amanhecesse. Olhava para o Ceu, a vêr se já
despontava a claridade. E parecia-me sempre vêr o ceu mais claro, ás
vezes até pensava que havia sol de meio dia. E voltava a cavar, os olhos
fechados, com raiva, sem saber bem o que fazia!»
Conseguiu fazer uma cova. Grande? Pequena? Não sabia dizel-o. Deitou
terra por cima do cadaver ensanguentado, calcou-o com raiva, e então
poude correr, por entre as arvores, a bater nos galhos e nos
troncos, a rasgar a camisa e as carnes, até casa. Ia amanhecendo. Um
traço alaranjado corria na nascente. Metteu-se na cama e dormiu.
Calou-se. Estendeu-se nas pedras, de borco, a olhar fixamente para o
mar. Era já noite. As estrellas palpitavam no céu transparente. O mar
enchera-se de sombra. Os barcos tinham recolhido já. Ouvia-se apenas o
quebrar das vagas na Bocca do Inferno.
Marcia levantou-se e estendeu-me a mão, supplicante:
--Dá-me um tostão para aguardente?!
* * * * *
O CEGO
A ALBERTO D'OLIVEIRA.
O CEGO
O Pintor, que vivera intensamente na luminosa communhão das coisas
bellas, no culto da Fórma e da Côr, sorvendo a Belleza religiosamente,
como se aprecia um vinho velho, de repente cegára.
E no tumulo do seu atelier de que haviam fugido os modelos, errava
angustiado, querendo com a mão sentir a linha das figuras que o seu
divino pincel traçara, nas manhãs claras, entre tapetes que amorteciam
os passos e ás vezes a queda dos corpos dos divans acolhedores.
Sentava-se no mesmo escabello veneziano, marchetado, tendo diante de si,
no cavallete, uma tela. E vagarosamente ia traçando linhas, julgando
ainda desenhar figuras, compôr peitos firmes, contornar curvas musicaes
de quadris, illuminar olhos abertos, cheios de sonho e de volupia.
Mas o pincel empastava tintas, inexperiente na mão do grande mestre,
como na d'uma creança de peito.
Depois do inutil esforço, não podendo vêr, lançava ao chão, com raiva, a
tela, e punha-se a passear, cambaleante, hesitante, como um ebrio, as
mãos estendidas, como se da ponta dos dedos nascessem olhos, a guial-o.
E vivia apenas com um velho servo. O _atelier_ morria ao abandono. Para
quê a molleza dos tapetes persas, os brilhos dos espelhos de Veneza, os
marmores das estatuas e a radiosa formosura dos seus proprios quadros
divinisando a Vida? Para quê? Se tudo adormeceu sob a cinza que se
acumulára nos seus olhos d'antes d'um tamanho brilho, esses olhos leaes,
sem ironia, cheios d'amor por tudo o que tivesse uma particula de Belleza?
Fôra um grande pintor afamado. Retratára as mais elegantes senhoras da
côrte, em vestidos sumptuosos que mostravam, n'um decóte largo, o cóllo
nu, como uma enorme flôr. E nos seus quadros punha tanta voluptuosidade
que a marqueza de Bouro, devota e pudica, recusára com horror o retrato;
apesar do pequeno decóte, da garganta alva pareciam nascer rubras
florescencias de desejos.
E nunca mais pintou retratos. Ideou quadros em que a mulher e a vida
eram divinisados. Fez bacchanaes, em que as sacerdotisas nuas agitam
tirsos enramados, coroadas de flôres, numa loucura divina. Compôz uma
scena das vindimas em que as mulheres comem as uvas, sob as latadas
viçosas, das boccas dos amantes. Fez Leda e o cysne, em que, n'um lago
transparente, as virgens descuidosas se banham. Um cysne apparece,
airoso, vagaroso, o macio pescoço n'uma curva larga. E ellas querem
apanhal-o á porfia.
E esses quadros d'uma athmosphera tão clara, d'um ceu tão luminoso, com
carnaduras frescas, admiraveis seios que exhalavam, como uma flôr de
tropico, um perfume estonteante, tinham-lhe dado a riqueza e a gloria.
A multidão apontava-o, nas ruas, com reverencia. As mulheres
lançavam-lhe ternamente cobiçosos olhares. E o pintor gosava a vida, sem
se prender, beijando as bôccas, aspirando o aroma das cabelleiras
fartas, que caiam sobre as nucas, sobre as costas, como mantos finissimos.
Até que um dia cegou. Fechou a sua casa, como se tivesse partido para
uma longa viagem, não querendo deixar vêr a ninguem o espectaculo
turturante da sua angustia. E continuava a querer pintar, ainda o
cerebro povoado pelas risonhas imagens, concupiscentes seios, rios
translucidos, gemas coruscantes, dobras sensuaes de sedas, sobre o
ambar da pelle das morenas, sobre a magnolia das epidermes branquissimas.
Um dia, soube-se. Vagamente correu na cidade que o pintor magnifico
cegára. A curiosidade durou tres dias. Os possuidores dos quadros viram
com prazer a sua valorisação. Os collegas secretamente exultaram pelo
desapparecimento do rival vencedor... E tudo caiu, tudo esqueceu.
Uma apenas se lembrou d'elle. Carinhosa, amorosa, forçou a porta
teimosamente fechada. E entregou-se ao cego.
Dias passaram cruzados de angustias e de intensos prazeres. Até que um
dia o pintor lhe disse:
--Eu tinha que coroar de rosas--a minha mão inutil nem para isso
serve--a tua cabeça. Devia ajoelhar diante de ti e dar-te todo o meu
sangue, pois que te dei já todas as minhas lagrimas. Vieste accender uma
aurora no crepusculo eterno da minha cegueira. Permittiste que eu
revisse a Belleza da Fórma. Com os meus dedos pude sentir como é pura a
curva do teu seio, a linha das tuas espaduas e lindos os teus dedos.
Trouxeste-me o aroma da carne moça, como uma brisa benefica leva a um
prisioneiro o cheiro do feno. Senti outra vez a musica deliciosa das
palavras de amor. E no teu corpo pequeno e flexivel, o teu rosto
deve ser como o luar d'um lirio sobre a sua haste...
Calou-se. Hesitou alguns momentos. Pareceu encher-se de coragem
e continuou:
--Mas não posso vêr-te! Vivo comtigo, como n'uma somnolencia--um pouco
de realidade e um pouco de sonho. Pode ser que os annos tenham feito
brancos os teus cabellos compridos; que alguma doença má tenha
esverdeado a tua pelle macia. Nas palavras que dizes, oiço ás vezes uma
promessa, outras um retraimento. Não posso vêr nos teus olhos palpitar a
tua alma. É como se todos os dias me apparecesses, ás escuras, com uma
mascara na cara, um dominó a velar-te o corpo. Entrevistas em jardins
frondosos, ás escuras. Tudo silencio, mesmo na minha alma. Chegaria até
nós, lugubremente, o adormecimento da vida. E não serias inteiramente
minha, apenas uma parte de ti me pertenceria, e a outra, uma promessa
vaga. «Penso que nos encontraremos, dirias... Etheromana em busca de
excitantes, romantica, caçando aventuras, feia sem remedio a esconder
aleijões e a querer ouvir palavras que nunca ouviu, sou mais que tudo
isso, acredita, e menos que uma illusão!» Que importariam as tuas
palavras? No arroubamento dos beijos sentir-se-hia o travo do prazer
incompleto. E beijo-te um pouco como se beija um phantasma. Se eu te
podesse vêr, dir-te-ia que arrancasses a mascara, ou que te fosses
para sempre. Quereria ver-te, ou realidade inteira, deliciosa na pureza
da atmosphera, ou sonho puro, como sei sonhar. Não posso com a tortura
do meio mysterio que a nevoa dos meus olhos cegos cria... Podesses ser
toda minha, conseguisse eu deitar abaixo a mascara, vêr-te na gloria da
tua formosura, mesmo na miseria de alguma incuravel doença, fixaria na
tela, com estrellas fulgentes, com sucos magicos de flôres
desconhecidas, essa radiosa Belleza, ou essa deformidade, que se
illuminaria, subiria aos ceus, como S. Julião quando beijou a bocca
gangrenada do leproso. Apparecesses tu! Mas não. Ficas na meia luz como
um phantasma!
E o cego, em passadas incertas, as mãos estendidas, saiu do atelier,
onde a unica nota de vida era o soluçar da amante.
* * * * *
A GLORIA
A CARLOS MALHEIRO DIAS.
A GLORIA
Qu'est-ce que ça fait que je sois une grande artiste, si je ne suis
pas heureuse?
Anatole France--_Histoire Comique_.
Gonçalo Freire, o escriptor que um romance intenso tornára celebre,
estava triste e desanimado no seu gabinete de trabalho.
Os candelabros Luiz XV brilhavam nas multiplas velas brancas, faziam
saltar faiscas dos cobres doirados, das faianças onde corriam idilios em
jardins frondosos. O seu _studio_ era sempre luminoso, quer de manhã,
com as largas janellas abertas sobre o rio, quer de noite com as
resplandecencias das luzes. Dizia que assim a imagem surgia mais
precisa, mais clara, mais _latina_.
Gonçalo não gostava do nevoeiro que os escriptores do Norte deixam entre
os seus periodos. Amava o sol e os ceus macios, o mar incendiado,
as praias do Algarve d'areia doirada, os rios transparentes, onde, á
tarde sómente, boia um fumo tenue.
Esse romance, «A Face do Homem» revelava esse amor da clareza e do
equilibrio. Pondo de parte os intuitos sociaes que prevertiam a
literatura moderna, ligára quadros d'uma emarcessivel belleza por um
enredo forte, interessante e commovido.
Pessimista á feição de Nietzche, descrevera a miseria da face humana,
depois de arrancada a mascara; puzera o homem diante de si, n'um
espelho, e o homem sentira-se asqueroso. Mas, crendo no culto dionisico,
esperava pela Arte cobrir a fealdade da vida. E, perto do homem, a
mulher, florida pelo amor, representava o Sonho, a Illusão que cobre com
um veo azul, a distancia, os montes escarpados.
O publico gostára. Seis edições successivas se tinham esgotado, entre
aclamações, em dois mezes. Os jornaes tinham publicado o seu retrato com
artigos encomiasticos, comparando-o a Camillo, pela riqueza e
propriedade do vocabulario, a Eça pela ironia, a Fialho pelo vigor do
descritivo, sendo superior a todos pelo interesse e pela suprema Belleza
do seu ideal de latino.
Era um d'Annunzio com mais sinthese.
Todas as revistas e jornaes sollicitavam a preciosa colaboração; o
_Suisso_ chamára-lhe plagiario e idiota, apontára-lhe seis erros de
concordancia, descobrira que em Coimbra roubára versos a Anthero do
Quental, n'um poemeto que correra impresso, _Sunt lacrimae rerum_, em
que Gonçalo Freire acreditava no Inconsciente, segundo Hartman e na
Vontade, segundo Schopenhauer.
Quasi todos os dias o editor lhe mandava molhos de cartas de
admiradoras, umas apenas a dizer a palavra quente da sua admiração,
outras pedindo autografos e uma ou outra marcando, misteriosa, uma
entrevista, n'um _coupé_, em sitio escuso.
N'essa noite, ao entrar em casa depois d'uma _bridge party_, fora
sentar-se, a querer trabalhar n'uma novella, de que esboçara já o plano.
O creado levou-lhe a correspondencia que Gonçalo abriu, aborrecido. Uma
carta d'um editor que lhe pedia um livro para lançar a sua livraria; uma
actriz nova e elegante, que lhe lembrava a vaga promessa d'uma peça,
duas amorosas a pedir-lhe entrevistas e um escriptor hespanhol que
solicitava auctorisação para traduzir «A Face do Homem». A lapis azul,
no summario do _Mercure de France_, chamavam-lhe a attenção para um
longo artigo de Philéas Lebesgue, em que o critico entoava um hymno em
seu louvôr, enaltecendo a harmoniosa belleza do romance, «mais subtil,
como psychologia do que Bourget, mais moderno que Jean Lorrain, e
tão puro de estylo como Anatole France». Recommendava-o a Herelle, como
sendo a obra d'um Annunzio mais intenso.
Era a gloria, vinda do anonymo, não a celebridade feita pelos amigos.
Moço ainda, trinta annos, rico, representante d'uma casa antiquissima
com o brazão registado muito antes de D. João III, parecia um d'aquelles
principes que as fadas assistem no baptismo, dando-lhes todas as venturas.
Mas, triste, Gonçalo foi á janella e rasgou cada uma d'aquellas cartas,
lançando ao vento os pedaços de papel, que baixavam, pareciam hesitar e
sumiam-se no escuro.
Na noite sem lua pareciam nascer no espaço as luzes dos navios, que
punham na agua um reflexo de estrella. Encostado ao parapeito, Gonçalo
muito tempo olhou para a escuridão que enchia o rio. Um ou outro ruido
de carro chegava até elle, sem o despertar; de quando em quando na rua,
ao longe, brilhava por um instante um electrico, como um meteóro.
E Gonçalo poz-se a pensar no amor que dentro de si trazia, sem
esperanças, um amôr que tivera uma demorada cristalisação. Essa mulher
surgia, luminosa e florida, deante d'elle, no escuro. Via o seu corpo
magro e esbelto, a florescencia clara do rosto um pouco duro, o olhar
indiferente. Era sempre assim. E, ensimesmando-se, a figura
aparecia-lhe, como uma obsessão, para acentuar o alheiamento,
atormental-o mais.
Muitas vezes, quando compunha, largava a pena, porque a mulher vinha
para defronte d'elle e não havia maneira de fechar-se no seu pensamento,
continuar o periodo interrompido pela visita.
E punha-se a recordar de como nascera aquelle amôr. Vira-a muitas vezes
nas festas, nas ruas, nos theatros, indiferentemente. Uma mulher
elegante e nada mais, feita talvez pelas costureiras que dispõem de
espartilhos, de faixas que apertam os quadris, de _bouffants_ que
disfarçam chatezas de peito, de tecidos leves, que dão a aparencia de
ligeireza aos corpos.
Não a conhecia. Nunca fôra forçoso conhecel-a e como não o interessava,
não se aproximou. Era a Maria do Amparo. Quando ella passava pelo
_Turf_, alguem dizia, ou o proprio Gonçalo:
--A Ampáro vae hoje bem.
--É uma mulher interessante.
--Veste-se bem, principalmente.
E tanto tempo a vêl-a, outras o chamaram, trouxe o seu coração envolvido
em outros amores risonhos, quasi sem se prender. E a Maria do Amparo
continuava a aparecer em toda a parte, elegante, um pouco preciosa,
viva, um sorriso na boca fina que mordia para avivar o traço roseo dos
labios.
Uma noite, em S. Carlos, n'uma visita a um camarote, Gonçalo
encontrou-a. Amparo falou-lhe nos artigos que Gonçalo publicara n'um
jornal, chronicas vivas sobre o Culto da Belleza, a belleza na cidade,
nos monumentos, nos jardins e nas praças, belleza no lar cheio de
flores, com moveis elegantes e comodos, belleza na mulher,
artificialmente rectificada, por maquilhagens habeis e vestidos
sabiamente confeccionados por mãos peritas. Attraiu-o a conversa. Amparo
tocou com intelligencia e tacto nos pontos mais originaes, mostrou
comprehender e sentir a Belleza, rodeou-o de frases amaveis, em que
havia, ora no sentido, ora na entoação, alguma coisa de carinhoso, poz
em campo toda a seducção de mulher elegante, chamando-o a si,
lançando-lhe a perturbante luz dos seus olhos claros. A conversa, apesar
de curta, um entreacto e o começo d'um acto, acabara n'um _flirt_.
Gonçalo procurou vêl-a. Esperou-a attento e ancioso no Chiado,
frequentou as casas onde poderia encontral-a. E as tardes de recepções,
os raouts, as sauteries, e mesmo as empertigadas recepções diplomaticas,
eram leves _flirtations_, que o deixavam absorto, andando pelas ruas sem
attender a nada, sorrindo-se ás vezes de alguma palavra dita por ella,
de um gesto mais expontaneo.
Todos os elementos de seducção foram postos em pratica por Amparo.
E na alma de Gonçalo começara a cristalisação; a rede ia-o apertando,
avassalava-o a mulher deliciosa, como os antigos retiarios os seus
adversarios nos circos romanos.
Gonçalo já não pensava em mais nada. Logo depois do almoço, em vez de
sentar-se á meza, a trabalhar, ia para a rua sem destino, com a vaga
esperança de a encontrar, de a vêr na carruagem. E em todas as festas se
aborrecia até chegar a Amparo. No Gremio pedia todos os jornaes, sem
poder lêr nenhum, porque se alheava, recordava os momentos felizes,
idealisava impossiveis sonhos, uma fuga para algum paiz onde ninguem o
conhecesse, e Amparo vivesse só para elle, esquecida do hediondo marido,
de todas as caricias, de toda a vida interior. Se por acaso lhe passava
pela mente a ideia justa de que Amparo nunca deixaria a vida mundana, a
«consideração», a «situação», logo Gonçalo a sacudia por importuna, e
enlevava-se no sonho.
Era uma vida feliz, apesar do pouco que ella dava--olhares, commovidas
palavras, promessas n'um futuro remoto e impreciso, e, um ou outro beijo
nas mãos que tinha macias, palidas, mãos entre sensuaes e misticas da
Gioconda, sem a aristocracia das mãos de Velasquez ou Van Dick, sem a
luxuria que rosea os dedos das figuras do pintor de Verona.
De repente, porém, começou a esquivar-se a Amparo. Houve palavras
dubias, falou de consciencia e de dever; prometeu um amor eterno, mas
ideal, sem pecado, um amor que lhes cubrisse a vida com uma gaze leve,
como um zaimpho. E mais e mais se foi esquivando, emquanto em Gonçalo o
amôr se tornava mais forte, enchia-lhe o peito de desespero,
amachucava-lhe todas as energias e dava-lhe a sensação de ter, dentro de
si a alma, como o chapeu alto d'um clown.
E diante da noite, rasgando as cartas d'amor das outras e as aclamações
do publico, Gonçalo, a chorar, repetia a frase da heroina da _Histoire
Comique_:
--Que importa que eu seja um grande artista, se não sou feliz?
* * * * *
A FESTA DE MAIO
A M. TEIXEIRA GOMES.
A FESTA DE MAIO
--Violante! Violante! gritou o marquez para o jardim.
André, no cimo da escada, d'onde ageitava ramos no entablamento,
conseguiu desenroscar-se dos molhos de madre-silvas que o coroavam, o
envolviam, e voltou-se. Ao ver o pae sorriu-se.
--Admira-se?
--A estas horas, já levantado, e em casa?
André abriu na bocca pallida um sorriso exangue; mesmo assim o sorriso
brilhou nos olhos negros, fez viver toda aquella adolescencia, que
parecia finar-se lentamente:
--Não me deitei.
--Ouves, Violante? Não se deitou!
A marqueza apareceu á porta, n'uma blusa clara, tremente nas rendas
amarelladas, ainda aberto o guarda-sol lilaz, por onde se filtrava o
sol, que extranhamente lhe coloria o cabello.
--Ó André! Que tolice!
--Prometti vir ajudar-te, e mesmo que não promettesse, no dia da tua
festa, eu não deixaria de vir arranjar a capella. Não está linda? Digam...
--Lindissima.
A pequena capella, em estylo da Renascença italiana, branca nos seus
marmores puros, sobria d'ornatos, sorria nos festões de madre-silva, nas
grinaldas de rosas, nos vasos trabalhados de que escorriam glicinias
roxas, nas peanhas onde santos olhavam, suaves, os grandes lyrios
abertos, em toda a florida vegetação que manchava a nitidez do marmore
pallido, correndo sobre os frisos, despenhando-se pelas janellas largas,
envolvendo-se ás columnas, vindo morrer no lagedo claro do chão.
Toda aquella architectura, feminina, sensual,--até na figura do Baptista
o esculptor puzera um quebranto--brilhava e vivia uma vida lasciva e
fina, ornatos delicados, sem exhuberancias, curvas que lembravam a
doçura calida de corpos nus, no tom ambarino do marmore velho.
André desceu. A marqueza trazia nas mãos, ainda molhadas da rega, um
molho de grandes orchideas d'um azul doente, listrado de esverdinhadas
veias como feridas a apodrecer.
--E estas orchideas, onde as hei de pôr?
--Aqui não! Para o mez de Maria, para a festa de maio, orchideas não.
Ponha-as no gabinete do papá, junto das estampas de Goya... Aqui não!
--Tens razão, annuiu o marquez. Antes tragam maias...
--Vou eu buscal-as, lembraram André e a marqueza.
--Não.
--Não. Vou eu, Violante! insistiu André.
--Vamos ambos...
--Querem que eu tambem vá? offereceu sem enthusiasmo o marquez.
--Não. Deixe-se estar; vamos nós.
Ao sahir da capella, passando os pinheiros mansos, em circulo, como a
formar um adro, descia uma escada balaustrada, n'uma curva larga,
ladeada de roseiras. Depois dois caminhos direitos, onde branquejavam
estatuas, cantavam repuxos esguios que no alto se abriam, como lirios de
cristal perpetuamente a florir e a quebrar n'um ruido claro.
--Onde ha maias? perguntou André.
--Não sabes? É alli no fim, uma grande encosta, por baixo do tanque dos
tristões... Não conheces a quinta!
--Como queres que a conheça? Não venho cá nunca!
--Hei de mostrar-te a quinta, agora... Has de gostar. Vaes-lhe tomar
gosto. Olha, é aqui...
No fundo verde abriam-se, sorriam, na manhã clara, como pequenas
estrellas, as maias d'oiro. Desde o caminho apertado entre fitas de
marmores que as roseiras invadiam, marinhando pelas estatuas dos deuses
e das graças, luziam maias.
A fonte despejava, pelas buzinas brancas de tres tristões, cujas caudas
se enroscavam, fitas d'agua.
Tudo cantava, tudo era alegre, na manhã radiosa. A encosta descia, verde
da relva, das arvores copadas, mosqueada pela brancura dos marmores,
brilhos de flores, sobre tudo rosas-chá, enormes e delicadas, flores de
cera e flores de carne, sensuaes e finas, como um beijo em que os labios
mal se tocam, na pressa, mas em que as almas se confundem, n'uma
vertigem. Em baixo continuava a descida rapida da colina, viam-se tectos
angulosos de casas, faiscas que o sol levantava das janellas, linhas
tortuosas de ruas, arvores de praças, o Rocio, como um lago de fogo a
brilhar nas pedras claras, a Avenida n'uma chapada verde; vivamente um
monte subia em apertadas casarias, alastrava-se por todos os lados a
cidade, perdiam-se na perspectiva os telhados irregulares, até os montes
violacios da Outra Banda, que se esbatiam no ceu claro, no ceu risonho e
roseo da manhã de primavera. No rio embandeiravam-se navios ligeiros e
airosos. Velas de faluas passavam, largas, pandas, como monstruosas
gaivotas n'um vôo sereno. E do rio sahia uma grande alegria, como
um fumo: fazia tremular as bandeiras, doirava mais o sol, percorria toda
a cidade, extraía das ruas acordadas um ruido confuso, chiar de carros,
pregões, coleras, risadas, que se misturavam, fundiam-se, e lá cima
chegavam n'uma voz unica como um rumor de vaga.
--Vamos a vêr quem apanha mais! E a marqueza deixando a sombrinha,
desceu por entre as maias, afagando-as com as mãos brancas.--Que lindas
são! Como sorriem para mim... Tenho pena de cortal-as.
--Vê se caes... Eu dou-te o braço. E André alcançou-a.
--Não. Não. Vamos apanhal-as! Vamos a vêr quem apanha mais! Vamos a vêr!
Febrilmente, começaram a apanhal-as, a cortar grandes braçadas. Ás vezes
as suas mãos encontravam-se, apertavam-as e riam-se.
--Não são maias... são os meus dedos.
E continuavam, já corados, a marqueza curvada, a cabeça d'um loiro
quente quasi entre as maias.
--Estou cançada. Estou cançada!
--Que lindo quadro. Todo de flores! Espera, vou enfeitar-te. E André
coroou-a de maias, toda a sua cabeça ficou florida. E a marqueza,
risonha e córada, protestava a rir-se:
--Olha que me despenteias!
--Que importa? Que importa? Estás melhor assim... Agora este ramo
para o peito... Mais estas... Um grande ramo... Como estás linda; oiro e
lilaz! E o teu cabello é d'oiro. O papá vae ficar encantado quando te
vir assim...