florida, a Gracinda Fortes. A bocca pequena, que o cosmetico fazia
sangrar, abria-se n'um sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E
de todo esse corpo magro exhalava-se, como um perfume que entontece, um
encanto perturbante.
E seguiu-a com os olhos, commovidamente, até que desappareceu, como um
sonho...
* * * * *
A RAINHA DE SABÁ
A EUGENIO DE CASTRO
A RAINHA DE SABÁ
Balkis esperava. Entre as sumptuosidades do seu palacio de Mareb, a
Rainha vivia, solitaria, escondida, só com a sua belleza.
Em vão os povos e os senhores, ouvindo fallar da immaculada formosura
accorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Mareb e
Yemen, e, defronte do palacio immenso e fechado, pediam para vêr a
deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quizeram vêr os olhos
puros. Ninguem o conseguiu.
Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lirio o seu
corpo.
Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave
d'oiro fechava. E no ultimo, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre
mandavam-se uns aos outros, como écos, a imagem quasi divina. E Balkis,
apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação dos
intactos esplendores da sua adolescencia.
Entravam pela janella que abria sobre o jardim fechado e callado, os
pavões brancos e os pavões polichromos. Aquelles formavam, estendendo as
caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constellações, doçuras
de velludos, coruscantes gemmas. E Balkis era mais branca do que os
pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do
que as caudas scintillantes.
Nas noites escuras sahia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de
flôres, a cintura, as manilhas, os anneis e o diadema. Soltavam-se-lhe
os cabellos d'oiro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pallido;
e nua, como uma flôr graciosa, dirigia-se para o tanque de marmore onde
adormecera a agua perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como
um raio de lua...
Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos á tona d'agua, como dois
lótos brancos, Balkis espreitava o ceu onde se movia o doirado
formigueiro d'astros. As estrellas vinham reproduzir-se na agua, como
molhadas flôres d'oiro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no
seio, quasi á flôr d'agua. Era como uma joia a correr, com o movimento
do corpo. Ás vezes, n'um gesto mais largo, a gemma cahia, para outra vez
voltar, n'uma festa, a percorrer todo o corpo branco, que era, na
agua escura, polvilhado de brilhos, como um nenuphar enorme, em que se
agitassem grandes abelhas fulgentes.
Depois, quieta, ouvindo sómente, de quando em quando, o ruido ligeiro
das flôres que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços
a appoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes d'açucenas, a
Rainha pensava.
E esperava...
Balkis esperava o noivo que havia de vir.
De todas as partes, chamados pela fama da sua belleza, dos seus
thesouros ou dos seus exercitos, tinham acorrido os principes da Asia.
Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em
cavalgadas surprehendentes, cobertos d'oiro e de joias. No seu throno
altissimo d'oiro e prata, invisivel, mas a todos vendo, a Rainha ouvia
as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descripção dos poços
profundos, abarrotados de barras d'oiro, de vasos de cobre, de moedas de
todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe historias
compridas de cruentas façanhas, batalhas mortiferas em que as flechas e
as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incendio,
contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de
augmentar os exercitos bellicosos, aprendiam uma eloquencia
calorosa. Eram os que mais fallavam, regosijando-se com a recordação das
chacinas. Mas a um signal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as
lagrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mithras,
os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos polichromos,
as sandalias ligeiras.
E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palacio populoso. Alli,
só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme.
Deixava cahir sobre o corpo branco, como uma flôr inundada de sol, o
cabello loiro.
Depois de admirar toda a sua belleza, Balkis dizia-se:
--Aquelle que eu amar possuir-me-ha intacta, como uma flôr que vive no
meio d'uma floresta guardada pelos Medos. Ninguem lhe aspirou o perfume,
ninguem viu a côr deslumbrante, ninguem a maculou. N'esta terra cheia de
sol, em que as côres não brilham, ardem, e as cassoletas não perfumam,
estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados
dos meus sete aposentos, a vida é quieta e facil!
Balkis esperava.
Os mezes passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam,
perfumavam e morriam. Outras vinham com egual brilho e egual frescura,
enormes rosas escarlates, como boccas em que os beijos deixam
feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo nubil,
intactos, os esplendores d'uma adolescencia eterna. Untava-se com oleos,
alisava com pentes d'oiro os seus cabellos d'oiro. Vestia-se apenas com
joias, joia ella mesma. E nos seus olhos azues, largos e serenos,
brilhava a mocidade.
Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.
E quando Salomão, filho de David, que no seu palacio de Jerusalem tinha
mais concubinas que de estrellas ha no ceu n'uma noite de lua, quando
Salomão a veiu buscar, ella entregou-se-lhe, pura, radiosa e immaculada,
como uma flôr crescida n'uma floresta insondavel, cujo perfume ninguem
aspirou.
Virgens, guardae para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa
alma, como, se é verdade a lenda arabe, para Salomão, filho de David,
guardou Balkis, Rainha de Sabá!
* * * * *
CHIARA LILIAM
A VICENTE D'ARNOSO.
CHIARA LILIAM
Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas aguas
que se agitam em pequenas ondas, aguas-fortes de mastros a distancia,
toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores!
Ha dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até
a florescencia d'um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e
os fardos, e as pipas, como uma delgada flôr de prata...
Para alem da cinta da docka, ao rez do mar, o ceu toma tons brancos que
se esbatem e degradam na ascenção, accentuando-se na cupula um azul
fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões
para Barcelonete.
Para alem da formidavel estatua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos
verdes dos platanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.
--É ámanhã o vapor para Mallorca, informam-me.
Volto para traz, deixando o ruido dos guindastes e das sereias, a bulha
dos catraeiros e descarregadores, para entrar n'outro bulicio tão
grande, o zumbido dos milhares de boccas que cruzam a Rambla, as
campainhadas dos tranvias, a buzina dos automoveis, com gritos diversos,
pragas, pregões, injurias guturaes dos catalães furiosos.
Sentira desejos de vêr Palma de Mallorca em que me fallára Teixeira
Gomes, as suas egrejas caladas, os seus palacios antigos. Por elle sabia
que a cidade conservára-se immovel, tipica, como no principio do seculo
XIX. E a sua conversa luminosa e pittoresca acirrara-me o desejo de
visitar uma terra que, na convulsa marcha do seculo industrial,
immobilisára-se nos seus antigos sonhos de pedra.
Aborrecera-me já Barcelona, commercial, trabalhadora, respirando pelas
mil boccas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava
triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus
theatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario;
mas em toda a parte o commercio abria ruas, estendia fazendas,
crusavam-se os _camions_.
Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer n'uma agonia d'oiro! As saudades
que tive da paz das suas ruas bordadas de egrejas e de palacios, das
cathedraes sumptuosas e desertas, das pequeninas parochias, onde se
descobrem ainda, atravez dos vandalismos, curvas d'arcos romanicos,
flores de capiteis graciosos; de Santo Esteban e o seu claustro que a
hera invadiu, do balneario, antigo claustro de convento e do Monterrey
maravilhoso, da Universidade quasi sem estudantes!
Aborrecia-me Barcelona, toda entre arvores, Barcelona e o soturno
Monjuich com a lenda dos supplicios dos anarchistas.
Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir á _Gran Via_ e ir ao
tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas
entre uma multidão compacta que espairece, vêr as caras angustiosas dos
operarios, sempre na vespera d'uma revolta, e os pobres que nos
perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se
offerecem, n'um chale rôto.
Ao entrar no «Paseo de la Aduana» para esperar um tranvia que me levasse
ao Parque, vi passar n'uma carruagem, fresca, toda vestida de branco,
como um ramo de goivos brancos, Chiara Liliam, a cantora italiana que
mezes antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeára no
Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a
cantar, não as operas transcendentes com que regalava os suissos e
inglezes, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua bocca uma
voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.
Ah! Chiara Liliam! As tardes limpidas e serenas em que vimos a paisagem
doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheiados das
inglezas de Cook, de dentes monumentaes e _canotiers_ ridiculos! E as
noites frias, em que deixavamos o Kursaal e os _petits chevaux_ e iamos,
costeando o caes illuminado, n'um pequeno bote que o ruivo barqueiro
conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia
ter em si um pouco da neve do Monte Branco!
Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de
todo o seu corpo cançado! Parecia ter sentido, aquelle rapaz de trinta
annos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as
illusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incendio de todos
os seus haveres e dos proprios castellos no ar que a sua mente creára.
Nem alcoolico, nem etheromano, abominando a morfina e a cocaina, tomando
uma leve taça de café, apenas, resignára-se na vida, «deixava-se
morrer», dizia.
Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma _ecurie_,
um palacio em Londres, um castello na Escocia e uma villa na
Riviera, decorada por Burne Jones.
Chiara Liliam era a sua vontade. Ia para onde ella quizesse, para fazer
alguma coisa e não ficar, no hall do Metropole Hotel, de olhos pasmados
para os decotes largos das _ladies_, que liam jornaes.
Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pelle da
cantora. E assim viviam, ella feliz pela liberdade, risonha como um
galho d'_eglantines_, elle, com uma razão de viver: acompanhar Chiara.
Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem.
--Venha comigo ao parque... se não tem melhor...
--Ia justamente para lá aborrecer-me...
--Então venho a proposito...
Perguntei-lhe por lord Carnehan.
--Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um
vidro negro que me punham nos olhos para eu vêr a vida. Nada me parecia
claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro d'um poço
secco. Essa creatura estragou-me alguns mezes de existencia. A principio
ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso
desappareceu. Sempre aquelle somnolento homem que só abria a bocca para
perguntar pelas horas, como se tivesse pressa d'alguma coisa, elle
que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aphorismo de
Schopenhauer ou d'alguns dos fulminantes catholicos, á maneira
hespanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a vêr
se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrahir a bocca;
parecia-me de pedra os labios, ao querer abril-os n'um sorriso. Quiz
mortifical-o, fazer com que, atraz de mim, os amorosos corressem;
empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei
todo o artificio de mulher e de actriz. Nada. Sempre lord Carnehan
indifferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me
periodicamente:--Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde
ia, deixava-o todo o dia; ás vezes, aborrecida, nem ia á rua. Ficava no
meu quarto, as lagrimas nos olhos, a vêr o movimento dos
_bateaux-mouches_ a atravessar o Leman; os raros automoveis que passavam
pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agencias.
Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que á esquerda se curva,
limpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado
e limpo, como um desenho do concurso. E era alli, á direita, a arvore
que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarchista matára a
Imperatriz Isabel. Pensava no fim tragico que ali procurara, sob um
pequeno platano viçoso, a alma aventureira e poetica, a dama de
todas as viagens, que vira tantos ceus ensolados e tantos mares em
procella... Quando voltava, de proposito despenteada, com muito rouge na
face, a fingir córada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para
mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:
--Que horas são?
Eu era o relogio, para elle! N'essa terra fria, geometrica, regular no
andamento como uma machina--a alma de Genebra é um relogio--eu não era
nada mais do que um chronometro em que se tem confiança. Um dia,
furiosa, comprei um relogio e offereci-lh'o. Imagina que acabou a
historia? Não. Comecei a fazer-lhe scenas, a dizer-lhe improperios em
calão dos bairros infimos de Londres--uma artista conhece tudo e o
resto--phrases de marujo; elle ouvia, ouvia, e depois tirava o relogio
da algibeira e dizia-me:
--Por força que este relogio atraza! Que horas são?
Quiz matal-o. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo
em penumbra. Até a dormir tinha o ar cançado. Levava uma mascara de
cloroformio... Conhece o conto de Lorrain sobre as mascaras de Londres?
foi n'elle que me inspirei... Ia para lh'a pôr na cara e acabar com
elle. Tropecei n'uma cadeira. Carnehan acordou sem sobresalto. Olhou
para mim:
--O quê? já manhã? Que horas são?
Não! Não era possivel! Pensei em atirar-me da janella abaixo. Não podia
mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz
as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escriptura com o emprezario,
perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan--a cara que elle
fez!--e metti-me n'um comboio e vim para a Hespanha, onde ha sol, ha
muito sol e não quero nunca saber que horas são!»
A sua face parecia uma flôr de perola, e na bocca fortemente pintada um
sorriso brilhou...
* * * * *
A MARCIA
A SILVA GRAÇA.
A MARCIA
Aquella velha encarquilhada e ignobil que encontrei na estrada de
Cascaes, pelo crepusculo suave, tinha uma historia.
Estava bebeda. A bocca onde dois unicos dentes se mostravam, careados,
no gargalhar, a bocca de beiços finos e roxos, sabendo a alcool e a
podridão, tinha gritado dores, tinha tambem beijado.
Contou-me tudo, como n'um vomito. Caiu-lhe d'um jacto toda a sua
historia e toda a sua alma; e pareceu-me que o crepusculo que fazia de
perola o horizonte longiquo e trazia a calma á ligeira inquietação do
Mar, se enchia de gangrenas, extravasava lodo, manchava o Ceu purissimo
em que nem um farrapo de nuvem a esgarçar-se perturbava o estranho socego.
No mar azulado, pairavam, sem velas, as faluas da pesca. Ao longe
esfumavam-se as montanhas que correm para o Espichel, mais
acentuadas na poeira de cinza e de perola do horisonte. A baixo da
estrada corre a fita d'oiro fosco do areal, que nas angras se alastra,
para desapparecer nos cachopos violaceos. É toda debruada d'oiro a larga
curva da Cidadella ao Hospital de Parede. As pequenas ondas, na tarde
quieta, vinham franjar de renda branca a seda do areal.
Eu seguia do Estoril para Cascaes. Queria vêr ainda o mar, fixar em
imagens subtis a palpitação dos ultimos brilhos solares na agua,
conhecer como vivem e estremecem, sob a agua azul, as longas petalas de
luz multicôr e fina em que desabrocha o poente; diluir toda a minha alma
na Paz da tarde, que, por ser tamanha, dava a illusão de ser eterna. E a
velha não me deixava! Ia atraz de mim a gargalhar, desfiando, por entre
os labios resequidos, palavras desconexas, chamando-me a attenção.
O velho trapo! Na cabeça calva a cuia á banda era grotesca. E no
movimento sacudido da embriaguez e do _delirium-tremens_, as vestes
esgarçadas pareciam agitar bandeirolas, saia de farrapos, corpo de lona.
E não me deixava! Comigo cruzou a linha ferrea, parando para, as mãos
abertas sobre os olhos, espreitar se vinha algum comboio.
Como sombra minha atravessou as ruellas de Cascaes, o passeio Maria
Pia. Passámos a _villa_ Arnoso e a _villa_ O'Neill.
A noite caía do Ceu resignadamente. O mar escurecia.
Por certo que o ar fresco da tarde diminuira a embriaguez, porque as
palavras formavam serie, embora as dissesse n'uma toada de cantilena.
Sentei-me nos rochedos da Boca do Inferno. Ouvia-se o confuso lamento do
mar na cova onde se agachava uma sombra mais densa.
A velha não podia suster mais tempo a sua historia. Sentou-se ao pé de
mim e contou-m'a. Ha pessoas que teem a alma pequena. As imagens
intensas e poderosas não podem viver lá dentro. É preciso que as deitem
para fóra. É por isso que os bebedos são em geral loquazes e
indiscretos. A capacidade psychica conservando-se a mesma e
engrandecendo-se as imagens pelo poder ampliatorio do vinho, elles
fallam, confessam-se, vão sós pela rua a dizer os seus segredos; foi por
isso que a velha me contou a historia, como a podia ter contado a um
poste do telegrafo ou a um pedregulho da praia.
--Se me visse quando eu era nova! Ih! Ih! Não tinha esta cara, não, nem
só estes dois dentes--e um d'elles já abala! Era bonita! Era loira.
Tinha os olhos azues. Que elles agora, de chorar pelas desgraças e de
chorar com o vinho, já não teem côr. Olhe para elles, não tenha medo!
Não tinham côr os olhos. Dentre as palpebras vermelhas e sem cilios eram
deslavados e estupidos.
--E os meus cabellos louros e finos! Tenho só algumas mechas brancas,
porque começaram a cair aos punhados d'uma doença que tive. E fiquei
assim com a cabeça... E embranqueceram-se os que ficaram...
Tirou a cuia. Metia nojo essa bola em que luziam chagas. Raras mechas de
cabello a enfeitavam. A velha tornou a rir-se, o mesmo ih! ih!
contrafeito em que abria a bocca putrida.
--O meu corpo era lindo, delgado e forte. Os seios eram brancos e
firmes. Olhe como ficaram!
Tirou, n'um sacão, da bluza encardida e rota, os seios murchos que
bambolearam como dois figos a desprender-se d'um galho. E depois contou,
atropellando as palavras, a querer acabar a historia, para se vêr livre
d'ella, como se se esquecesse, m'a transmitisse, com o encargo da sua
angustia, e podesse, sem esse pezo, caminhar mais ligeira, ferindo menos
os pés descalços nas pedras das estradas e nas silvas dos atalhos.
O pae era um pequeno lavrador, que vivia feliz entre as suas vinhas e os
seus milhos.
Um dia casou com a mãe, uma pobre rapariga da cidade, que cozia a dias.
Louçã, fresca, de grandes olhos claros, gostava dos vestidos de seda,
dos brincos d'oiro e das rendas. Depois do primeiro anno, tiveram
Marcia, que poz no lar contente um ponto de luz. Em volta d'ella os
carinhos adejaram. E as mãos habeis da mãe cançaram-se a arranjar-lhe
touquinhas, camisinhas, pequenas coisas de linhos finos que iam á cidade
comprar. Parecia uma filha de gente rica, tão garrida andava.
E linda, com o seu cabellito loiro e os olhos azues muito largos, sempre
abertos como a querer aprehender toda a vida, todo o mundo.
Aos sete annos adoeceu gravemente. O medico ia duas e tres vezes a casa,
cada dia. E á noite, depois de vêr a pequena, ficava ali, emquanto o pae
somnoleava, a conversar com a mãe. O medico era novo, janota, tinha os
bigodes pretos retorcidos e dizia versos. A mãe caiu-lhe nos braços, uma
noite em que Marcia ficára livre de perigo.
--O que eu vi! Vocemecê não acredita, mas vejo ainda! É como se
estivesse diante d'elles na minha caminha! Elles punham-se aos beijos e
aos abraços, pensando que eu dormia. Eu não dizia nada, nem sabia o que
era. O pae ficava fóra, a dormitar, na salla de meza. Uma noite elle
entrou e apanhou-os abraçados. Voltou sem fazer bulha para dentro.
Trouxe uma foice comsigo. E degolou-os ali, o medico primeiro, a
mãesinha depois.
«Agarrou-o pelo cabello e foi como quem monda herva, só d'uma vez. E
atirou para o chão a cabeça, de que escorria sangue. A mãe nem pôde
gritar. Nem eu, que sentia um peso aqui, na garganta. Tambem degolou a
mãe e atirou para o chão com a cabeça. A mãe custou mais. Foi aos sacões
que a acabou. Depois poz as cabeças e os corpos fóra a pontapés. A
pontapés! E então? Parecia doido! E o quarto parecia-me todo vermelho, e
meu pae, e eu mesma sentia o sangue escorregar-me pelas mãos. E queria
limpal-as e não podia. Parecia que tinha as mãos atadas e sangue na
bocca! Depois, meu pae, que pensava que eu dormia, veiu lavar a casa,
muito devagar, para não fazer bulha. Depois chamou os creados. Então
todos choraram. Mas meu pae não chorou. Veiu para o pé de mim e passou
toda a noite a vêr ao candieiro se tinha sangue nas mãos. Chegava-se
muito á luz para vêr as unhas. Depois lavava as mãos e sentava-se,
punha-se a olhar muito para ellas, a esfregal-as, e ia laval-as mais!
A velha calou-se por momentos. Depois proseguiu:
--É tal e qual! Vejo como se fosse vocemecê! As barbas do pae, que eram
pretas, pareciam encarnadas. E tudo, tudo estava tingido de encarnado!
«O pae foi preso, mas d'ahi a mezes saiu livre.»
Olhou para mim, e com terror:
--Parece que podia matar!
«Fiquei em casa com a mulher que me servira d'ama e melhorei. Antes Deus
me tivesse matado, que não tinha soffrido tanto! Lembro-me de tudo! De
tudo! É por isso que bebo. Quando bebo muito, parece-me que os casos se
deram com outros; parecem coisas que me contaram. E bebo muito, bebo
sempre, mas nada me esquece, senão quando cáio na estrada a dormir!»
E voltou á historia dolorosa da sua vida, sempre apressada, a querer
acabal-a quanto antes.
Ficára com o pae, sombrio sempre, que lhe dizia palavras severas d'uma
moral cruel e sanguinaria. Foi crescendo sem alegria na casa de crime e
de amor. Um dia alguem a possuiu tambem. Sentiu os beijos que são
vermelhos como o sangue e como sangue embriagam, nas boccas amorosas.
Sentiu os abraços que apertam como uma cadeia de flores venenosas. Não
me disse o nome do amante, não me deu uma unica indicação. Tratava-o por
«alguem», sem odio.
Um dia sentiu que uma vida estranha se agitava dentro d'ella; confusa e
alarmada, disse-o ao amante.
--«Nunca mais appareceu. Escrevia-lhe, mas as minhas cartas ficavam sem
resposta. Até que soube que «alguem» tinha abalado da terra.»
Referiu-me com terror os mezes angustiosos que passou a querer esconder
o seu «peccado», como ella dizia. Eram sobresaltos continuos. Não o
queria confessar a ninguem, não queria confidentes. Mesmo na quaresma
fingiu-se doente e não foi á desobriga. Até do padre tinha medo, não
fosse elle dizel-o ao pae. Este não via nada, absorvido sempre,
ensimesmado, como quem tinha dentro de si imagens sufficientes para não
recorrer ao mundo exterior. Vivia do passado, enlisado na noite vermelha
em que matára os amantes que se beijavam.
Uma noite, no quarto escuro, onde não se atreveu a acender um candieiro,
o filho nasceu entre estertores, ralos que Marcia mordia, para não
despertar ninguem, para que ninguem suspeitasse do seu segredo. E n'essa
noite, emquanto as dores do parto lhe rasgavam todas as fibras,
estorciam todos os nervos e punham-lhe nos olhos a figura da morte
horrivel, outras imagens se levantavam, nitidas, deante d'ella: o pae
com a foice, os amantes que se abraçavam, e as cabeças decepadas a rolar
no chão, com esguichos de sangue. O quarto era todo vermelho, outra vez,
apezar da noite escura. E Marcia rasgava com os dentes os lençoes,
mordia os travesseiros, e o linho tinha um gosto a sangue dos
proprios labios, mas dos _outros_, pensava.