JOANNA--Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco

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*Notas de transcrição:*

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1905.

Foi mantida a grafia usada na edição original de 1905, tendo sido

corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura

do texto, e que por isso não foram assinalados.

HENRIQUE DE VASCONCELLOS

FLIRTS

(CONTOS)

LISBOA

Ferreira & Oliveira, Lda.--Editores

_132, Rua Aurea, 138_

1905

FLIRTS

HENRIQUE DE VASCONCELLOS

FLIRTS

LISBOA

Ferreira & Oliveira, Lda.--Editores

_132, Rua do Ouro, 138_

1905

DE HENRIQUE DE VASCONCELLOS

_PRIMEIRAS POESIAS, EM QUATRO VOLUMES:_

FLORES CINZENTAS (exgotado)

OS ESOTERICOS (exgotado)

A HARPA DE VANADIO

AMÔR PERFEITO (exgotado)

_PROSA:_

A MENTIRA VITAL, um volume.

CONTOS NOVOS, um volume.

L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir

aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue,

jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander

si cette statue sera utile aux m½urs, si cette loi portera les

hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau,

le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en

predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art

dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie

et de gouvernement.

H. TAINE.

* * * * *

A ESCOLA DE FLIRT

AO CONDE DE FIGUEIRÓ

A ESCOLA DE FLIRT

O PROFESSOR.--Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que

envelheceu, ou mocidade que dura _quand même_, «je meurs où je

m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas

finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda

brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha

para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que

adivinhou.

Elegante, uma ponta de preciosismo,--muito pouco!--apenas presentida

na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as

d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas

do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.

A DISCIPULA.--Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando

tudo. Vestida um pouco _à la diable_, seria positivamente _fagotée_

sem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e

dos labios côr de rosa.

A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt,

discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com

dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um

minusculo jardim seculo XVIII portuguez, com um delgado repuxo a

partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por

buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de

onde pendem as campanulas brancas que perfumam.

O PROFESSOR--É v. ex.ª que...

A DISCIPULA--Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha

educação no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos

do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de

conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha

pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu

acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style»,

do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam

aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer as _mouches_, como

no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia

com que o Jeronymo Condeixa guiava _four-in-hands_.

O PROFESSOR--V. ex.ª é intelligente?

A DISCIPULA--(_Modestamente_)--Sou.

O PROFESSOR--Formosa, vejo que é. (_A discipula agradece_) Gosta de

toilettes?

A DISCIPULA--_Fagotée_ durante a minha interminavel mocidade--vinte

annos na provincia!--não possuo a complicada arte da _fanfreluche_.

O PROFESSOR--Mas tem tendencias?

A DISCIPULA--Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre

cabello, a pôr uma fita...

O PROFESSOR--Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre!

A DISCIPULA--(_Indignada_) Entregar-me a mãos mercenarias?!

O PROFESSOR--Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a

expressão--as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a

alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica

da luva? (_A discipula agradece._) Com certeza que não. Bem o vejo nos

seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (_A

discipula torna a agradecer._) Todos esses cuidados pertencem aos

fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha

jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão

das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha

creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em

cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que

nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff...

Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que

ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem.

A DISCIPULA--É absolutamente preciso? Não poderei prescindir?

O PROFESSOR--Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v.

ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util.

A DISCIPULA--Bem... E depois?

O PROFESSOR--Sabe conversar?

A DISCIPULA--Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas

Irmãs... para dizer mal d'ellas.

O PROFESSOR--Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão

cae-se nas soirées do _Sporting_.--Lê?

A DISCIPULA--O _Diario Illustrado_, todas as manhãs...

O PROFESSOR--É pouco. Bourget--fala do coração. É um bom tema. Tudo o

que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada

do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres, _toilettes_ e

almas, pezares e córtes _tailleurs_, amores e rendas de corpetes...--uma

_macedoine_ que, para a conversação, tem o encanto da variedade.

A DISCIPULA--Tenho o Larousse.

O PROFESSOR--Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em

sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso

diario. Outro: Theuriet--é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um

chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia,

emquanto se faz a digestão.

A DISCIPULA--Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas.

O PROFESSOR--Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este

é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos os

_vient-de-paraitre_. O _Figaro_ assignala-os. A proposito: são

muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas.

Terá assim um verniz literario... completo.

A DISCIPULA--Tenho entendido.

O PROFESSOR--Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição

aqui ou na aula? Aqui?

A DISCIPULA--Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir

o murmurio dolente da agua que corre.

O PROFESSOR--É poetica?

A DISCIPULA--Quasi, ás vezes.

O PROFESSOR--Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do

estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua

movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos

preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª?

A DISCIPULA--Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me

a Carminho.

O PROFESSOR--Um nome lindo...

A DISCIPULA--Não se presta a madrigaes.

O PROFESSOR--Um nome sabendo a flores silvestres...

A DISCIPULA--Pires...

O PROFESSOR--(_Vae tomando calor_)--Pelo contrario. Um nome que se

desfaz na boca como um _fondant_, nome para murmurar nas horas

perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um

beijo... Delicioso!

A DISCIPULA--Muito obrigada.

O PROFESSOR--Bem. Bem. Passemos á lição. (_Toma um falso ar amavel, faz

brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro_).

A DISCIPULA--Ouvil-o-hei com toda a attenção.

O PROFESSOR--(_Agradece com um gesto largo._) _Flirt_ é uma palavra

ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett

empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente

sexo.

A DISCIPULA--Com os espinhos?

O PROFESSOR--Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as

rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é

o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto.

Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com os

_vieux beaux_ que foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a

quem me referi ha pouco, com _clair-de-lune_ e regatos prateados, o

flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em

que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas

tem os seus adoradores, misses _sur le retour_, tias, meninas da Baixa

espremidas nos espartilhos de baleia e aço--crosta d'um peixe que a

ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da

Estefania. Ha--tome toda a attenção, pois é o que convem ao seu

genero de belleza...

A DISCIPULA--V. Ex.ª confunde-me...

O PROFESSOR--O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu

predilecto... (_Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha

amorosamente para as unhas rosadas_). É o flirt perfumado e finissimo, o

fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores,

petalas tremulas d'anemonas...

A DISCIPULA--Como V. Ex.ª é eloquente!

O PROFESSOR (_Baboso_)--É V. Ex.ª que me inspira!

A DISCIPULA--Os seus olhos sublinham com tal calor as frases!

O PROFESSOR--Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu

admiravel olhar! É por isso que falo assim. (_Approxima-se d'ella_). É o

flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A

propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no

lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o

perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar

como um peixe quando acaba de ser pescado!

A DISCIPULA--Até mete medo!

O PROFESSOR--Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão.

A DISCIPULA--Muito obrigada.

O PROFESSOR--As pessoas formosas--e V. Ex.ª é divinamente

formosa--teem sempre razão.

A DISCIPULA--V. Ex.ª é muito lisonjeiro.

O PROFESSOR--A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo.

A DISCIPULA--V. Ex.ª é extraordinariamente amavel.

O PROFESSOR--Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me

amassem!

A DISCIPULA--Todas?

O PROFESSOR--Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a

uma só.

A DISCIPULA--Feliz aquella...

O PROFESSOR--Acha feliz?

A DISCIPULA--Deve sentir o peito em festa...

O PROFESSOR--Oh minha senhora!

A DISCIPULA--Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me

sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado...

O PROFESSOR--Como nardos que andassem...

A DISCIPULA--Como póde dizer isso, se nunca as viu?

O PROFESSOR--Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (_Toma-lhe a mão_).

Estas luvas são de Paris?

A DISCIPULA--Não senhor: são dos Gatos.

O PROFESSOR--(_Um pouco desapontado_). Não importa. As mãos são lindas.

(_Vae desabotoando uma das luvas_).

A DISCIPULA--(_Consentindo_). O que faz?

O PROFESSOR--Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima.

A DISCIPULA--A da luva?

O PROFESSOR--Não, a da mão.

A DISCIPULA--Agradecida.

O PROFESSOR--(_Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão_).

A DISCIPULA--(_Sem a retirar_). O que faz?

O PROFESSOR--Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.

A DISCIPULA--(_Ligeiramente desapontada_). Ah! julguei...

O PROFESSOR--Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o

flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um

beijo!

* * * * *

FLIRTS

A ANTONIO BANDEIRA

FLIRTS

Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimos _envois_ de

Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e

rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está

mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos

fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar,

beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos

dos papeis.

MARIA DO CARMO--trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A

vida passa-se-lhe em visitas, _raouts_, recéções e bailes. Alguns

livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, no _Figaro_, e Jean

Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes

perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não

toca piano.

GONÇALO--não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia,

vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado

tudo. Procura por toda a parte, como um _gourmet_, o manjar fino.

Epicurista, delicadamente depravado, como um _roué_ da Restauração,

ou um elegante do fim da republica romana.

--Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho...

--Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...

--Impertinente!

--É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De

resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos.

--Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as

ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher

nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem

vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para

fingir que sorrío!...

--Ame um pouco...

--É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É

logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em

S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que

nunca amou!

--Não amei! Mas eu não _sou_, eu _amo_. É a minha maneira de existir. Um

nasce cego; nasci amoroso...

--Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere?

--Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitos

_d'après_ os manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes

conforme as pessoas...

--Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em

coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo

nos vestidos de baile conserva a _raideur_ dos córtes _tailleur_. São

vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua

corôa de marqueza. Este?

--Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a

que não vão bem...

--O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não

sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...

--E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.

--Trouxe hoje a alma de cinico?

--Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta...

--Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração...

--Não ha negocios do coração. O coração dá-se...

--Não; troca-se...

--Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É

possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta...

--O amor é o choque...

--Muitas vezes o cheque.

--Que _jeu de mots_ tão velho! É o choque de duas almas. É preciso que

girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece

a theoria das duas metades da maçã?

--Conheço: é uma figura de rétorica...

--Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro,

achando a vida sem rasão, idiota...

--Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe o _charabia_...

--Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até

vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê,

uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode

ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um

tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa;

somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma

sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma

de ser, mas é.

--Uma coisa fatal? Tem que ser?

--Sim.

--Permite-me que discorde?

--É teimoso.

--Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por

nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto

voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos

fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita,

elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa

vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a

crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos

intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio no seu sorriso...

Estamos presos.--Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util

acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das

brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do

cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador.

Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o

para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração

que faz rir.

--Uma theoria...

--Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que

ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair

do peito.

--E vive feliz?

--Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para

que se inventou o _flirt?_

--O _flirt?_ Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...

--É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma

flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio

sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos

que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha

o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios,

como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração de todo o

ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um

espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer

em estrella. Não conhece o _flirt_. Todo o ser é livre e vae

entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso...

Vou-lhe contar um _flirt_... Estava na Suissa.

--Internacional?

--Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na

Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...

--De chic?

--De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que

vivia fora da _coterie swell_. O americano vae-se tornando terrivelmente

_rasta_. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas,

viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavel

_brasseur d'affaires_ de New-York, cerebro em ebulição permanente que

acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo.

Sentavamo-nos nos pontos de vista que o B½deker não indica, paisagens

tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dos _five-ó-clock_,

das _parties_ bulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a.

Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das

mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado;

preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o

delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.

A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um

sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase

terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se.

Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um

perfume. Amor platonico? Não. Um _flirt_. Sem arroubamentos. Sempre a

Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra

vez, comprehende, por esquecimento...

--Comprehendo. Sem malicia...

--Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me

isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas

essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia

conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas

mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu

genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua

alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As

horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia

d'Houbigants, então _dernier bateau_, perturbava... Longe d'ella, não

pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos detalhes

da _toilette_ e da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma

palavra, um _grain de beauté_, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella

propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher

que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que

crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi

nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez,

erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa

ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato,

sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a

troçar d'ella, do seu _bas-bleuismo_... Por fim ella resolveu partir.

Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo de

_bluets_, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava

cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para

cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro

partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr

triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta,

conforme quer.--Vamos fazer um _flirt_ para experimentar?

* * * * *

LOGICA

A ANTONIO DA COSTA CABRAL (THOMAR)

LOGICA

N'um _garden-party_. Emquanto no _tennis_ se cruzam as palavras

inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se

discutem mãos de _bridge_, afastados, junto a um roseiral, Joanna,

Maria e Miguel veem jogar.

JOANNA--Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos

negros. Casada ha dois annos com um _sportsman enragé_, que prefere

o cabo de uma _raquette_, o leme d'um _outrigger_, o _guidon_ d'um

automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do

flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade:

quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer

com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar

n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha,

mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho

de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma

natureza hesitante.

MIGUEL--Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado.

Mas prefere o _steeple-chase_ de Auteuil a uma _première_ no

Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem

reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.

MARIA--Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe

ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade

alheia. Natureza simpatica, hoje rara.

MARIA--... Encontrou o Cerqueira a passear d'um lado para o outro, no

terraço do Hotel, a balbuciar phrases, os olhos fechados, um livro na

mão.--Que estás tu a fazer?--Tenho hoje de fazer uma declaração á

Clotilde. Estou a estudar aqui no Bourget duas phrases tezas!...

(_Joanna e Miguel riem-se, mas deixam cair a conversa_).

MARIA--A Clotilde merecia-o. Quando se começaram a usar os _flous_, para

que é preciso _postiches_, ella tinha escrupulos e explicava:--«Sei lá

se o cabello pertenceu a alguma creatura damnada! E hei-de pôr na minha

cabeça uma coisa de alguem que hoje está a arder nas profundas dos

infernos!» O que acham vocês?

(_Joanna e Miguel tornam a rir-se, sem responder_).

MARIA--Já comprehendo. Vocês querem ficar sós... (_levanta-se_).

JOANNA (_sem convicção_)--Não. Deixa-te estar...

MIGUEL (_a mesma coisa_)--Pelo amor de Deus!...

(_Maria afasta-se, voltando ainda a cabeça para sorrir-lhes_).

MIGUEL (a _principio, parece hesitar, por fim decide-se_)--Afinal, o que

quer de mim, ao certo?

JOANNA--Eu?

MIGUEL--Sim. O que quer de mim?

JOANNA--Não comprehendo...

MIGUEL--É bem facil!...

JOANNA--Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco amavel!...

MIGUEL--Não desvie a conversa. Sabe que mesmo que o pensasse não lh'o

diria...

JOANNA--Então pensa-o?

MIGUEL--Não o penso; sabe isso muito bem.

JOANNA--Uff! Respiro... Não poderia entrar na Academia, se fizesse tal

conceito da minha intelectualidade... Não é assim que se diz, nos meios

_très dernier bateau_?

MIGUEL--Oh! por mim!...

JOANNA--É o seu ambiente, o meio cosmopolita; é inseparavel dos

diplomatas, delicia-se no Tyrol e em Roma...

MIGUEL--Quer outra vez mudar a conversa. Não é verdade?

JOANNA--Confesso-lhe que sim... Não percebo o que quer!...

MIGUEL--Repito-lhe: é facil. O que quer de mim?

JOANNA--Olhe: dê-me d'ali a minha sombrinha... N'este momento é a unica

coisa que quero de si.

(_Miguel traz-lhe a sombrinha vermelha, que ella abre. A luz parece

incendiar-lhe o chapeu branco, e toda a face branca_).

MIGUEL--Fallemos a serio, um pouco...

JOANNA--Já me viu brincar? Na minha edade!...

MIGUEL--Fishing for compliments?

JOANNA--Será, se quizer... Oiço-lh'os tão poucas vezes!

MIGUEL--Queria passar a vida, como um d'esses pagens antigos, sentado a

seus pés a cantar-lhe endeixas. Mas o seu sorriso paralisa, na minha

bocca, o amor que vae a sair.

JOANNA--É o que o Cerqueira chamava uma phrase tesa!

MIGUEL--Porque troça de mim? Porque faz de mim seu joguete? Eu andava

feliz e livre, sem mulher alguma que me preocupasse. Nunca andei tão

alegre. Vivia a minha vida, livremente. Todas as mulheres bonitas me

pareciam eguaes. Joanna começou a chamar-me, a dizer-me phrases que me

prendiam, que me entonteciam. Tinha olhares para mim tão cheios de

promessas, que corri como um esfomeado, diante d'uma mão que se lhe

estende, carregada de vitualhas. E junto de si senti-me perturbado.

Foram para mim as palavras mais carinhosas, aquellas que tinham um

sentido ambiguo, banal para os estranhos, para mim precioso e comovido.

Parecia um flirt terno. Subitamente, tudo mudou. Parece escolher tudo o

que possa desagradar para dizer-me. É o flirt agressivo, em que d'uma

das partes não ha amor, ou o quer esconder. E a conversa é toda feita de

botes de florete, que muitas vezes arranham e podem até matar o amor.

JOANNA--Tout passe, tout casse, tout lasse... Porque não ha de ser assim

o Amôr?...

MIGUEL--Mas deixe-o acabar por si, como uma flôr n'um jardim

deserto, que se desfolha aos poucos...

JOANNA--Para apodrecer?...

MIGUEL--Ó não, não apodrece. Evapora-se como uma essencia e deixa um

perfume suave--uma recordação...

JOANNA--Outra phrase tesa. Está terrivel!

MIGUEL--Faça-me a justiça de pensar que não a li...

JOANNA--Não. Ouviu-a em alguma peça... Você diz-me que não lê nada...

MIGUEL--Leio o _Seculo_, todas as manhãs.

JOANNA--Não acredito...

MIGUEL--Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros

nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e

nos amores.

JOANNA--Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel!

MIGUEL--Continua a brincar comigo!

JOANNA--Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma

pergunta que me fez ha pouco:--O que quer de mim?

MIGUEL--(_não atina com a resposta_) Eu?

JOANNA--Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido...

MIGUEL--Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas.

JOANNA--É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer,

com alguma rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a

fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa,

para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça?

Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no

theatro? Não lhe digo os dias em que vou _shopping_ pelo Chiado? Para

quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou

casada e felizmente não ha o divorcio entre nós.

MIGUEL (_tristemente_)--Felizmente?

JOANNA--Sim! Felizmente. Primeiro, é contra a religião; depois, escusa a

gente de se arrepender varias vezes de ter casado. Assim arrepende-se

uma só. Não pode casar commigo. Então o que quer?

(_Miguel olha-a estupefacto. Não encontra resposta. A expressão de

Joanna é equivoca. Miguel não sabe se falla ingenuamente, se quer

mystifical-o. Cala-se_).

JOANNA--Então bem vê que não tem razão para se queixar de mim!

MIGUEL (_Tem o ar de quem apanhou de surpresa uma grande pancada.

Olha para Joanna, para si, para os outros. Pensa que o desfrutam.

Acodem-lhe á boca frases energicas. Levanta-se, ageita o fraque e

despede-se_).--Muito boa tarde!

* * * * *

ROMANTICO

AO CONDE DE ARNOSO

ROMANTICO

--Ajude-me a servir o chá, primo...

Levantou-se. Na quasi obscuridade da sala, que tinha uma luz

violacea--coada pelos vitraes onde se curvam lirios roxos--Clara parecia

nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flôr de espuma. «Toilette»

branca e ligeira, como pennas de ave, toda em musselinas, apenas

indicando a elegancia do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco...

Ia por entre os moveis, offerecendo as chavenas onde fumegava o chá

perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos.

O seu corpo agil descrevia carinhosas curvas. O ruido das conversas

continuava... Um «flirt» a um canto murmurava, como se as palavras

ficassem nos labios. Paulo, de grupo em grupo, uma chavena na mão,

contente por ser alguma coisa, junto d'ella, tinha na bôcca um sorriso

beato.

N'aquella tarde nem conversava. Entravam e saiam as visitas, umas

apressadas,--«apenas para saber de ti, Clara»--outras morosas, dando

«rendez-vous» no salão elegante e discreto, onde na meia luz quasi se

não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado,

n'um fauteuil a um canto, sorria para si proprio, olhando a figura

indecisa de Clara, os cabellos loiros, na sala como enevoada onde apenas

o fogão, por baixo do para-feu, tinha um brilho vermelho.

Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquella noite em

Cascaes, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto

de flôr fresca, sempre em «toilettes» leves, abundantes em gazas,

crepons tenues. Certamente que, companheiro e parente, admirára sempre a

belleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparára bem para o

enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegancia moderna, feita de

graça, a gentil figurinha de Boldini, princeza de cera e de seda, cujas

mãos eram dignas de vêr florir entre os dedos os anneis mais preciosos

que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca

olhára bem para ella com olhos de vêr. Habituára-se desde a puberdade a

vêl-a. E seus cubiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que

julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto.

Mas essa noite! Como lhe apparecia ainda, depois de tantos mezes,

nitidamente, essa noite d'um ceu leitoso, com uma lua enevoada, que se

espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Casino, quasi deserta,

os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, em baixo, fogachos

prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadella; na Esplanada os

focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de

luz a agua inquieta, gemebunda e misteriosa.

Paulo, recostado n'uma cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht

real, apagado, apezar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O

charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou:

--Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ella embala! Como seria

bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena!

Paulo olhou para ella surprehendido. Pois quê? Clara, a ultima

florescencia dos _raouts_ e dos _teas_, teria phrases de heroina de

Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios

de sonhos e de misterio, na bocca dolorosa, a vermelha e fina bocca, no

seu collo de infanta apenas nubil, em toda a adolescencia que se

conservava intacta no corpo precioso, como um fructo no gelo.

Começou então a seguil-a. Dura lhe foi a vida em theatros, jantares e

bailes. Não faltava a uma _sauterie_, a uma _party_, que d'antes o

deixavam indifferente, ficando nas interminaveis partidas de _bluff_. A

dolorosa expressão que na bocca se vincára n'aquella noite do Casino

desapparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar á flor dos

olhos garços e os movimentos rythmicos, que ella fazia, como se fosse ao

som d'uma musica, eram livres, felizes, sem promessas.

Não voltar o abandono d'aquella noite! Paulo desejava que Clara outra

vez abrisse a sua alma, para elle sentir a caricia deliciosa.

Mas a mulher amada conservava-se indifferente, risonha, um pouco

_coquette_.

Para os seus madrigaes escolhidos, preparados com antecedencia, buscados

em livros de auctores novos, phrases perturbantes de Lorrain, perfumados

disticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux,

com um sabor antigo, até o proprio d'Annunzio servira para a

pilhagem,--para todos esses periodos carinhosos ella tinha o mesmo riso,

que abria a bocca fina, descórada, que o traço de carmim violentaria a

macerada pallidez da sua face:

--Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas

paixões? Só na semana passada, tres!

--Se não penso senão em si!

--Quando está commigo? Nem isso!

--Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria como a minha alma se fez

para si um fresco bordão de assucenas...

E outro riso claro cantava na bocca exangue, a troçar da phrase

pretenciosa.

Uma tarde, n'um _garden party_, emquanto no _court_ de _tennis_ as

palavras inglezas crusavam-se e os jogadores corriam, a _raquette_ no

ar, elles um pouco afastados, juntos a um macisso de jasmineiros que

floria, cobrindo-se d'uma renda fina e branca de pequeninos jasmins,

Paulo, esquecendo-se das phrases decoradas nos romances, deixou sair da

bocca, livremente, toda a força e toda a anciedade do amor que parecia

abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os

olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as

palmas roseas, puxou-a para si, e pôde dar-lhe, de surpresa, um grande

beijo na bocca, soffrego, que Clara não pôde evitar.

Voltada a si do pasmo, espantada pelo insolito atrevimento que a sua

ligeira _coquetterie_ não permitira, quiz zangar-se; mas voltou a

rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama,

tivesse sido apenas uma phrase, das grandes phrases de Annunzio, tão

cheias de volupia que entontecem, como os largos calices das magnolias

n'um pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na bocca a impressão

ardente d'esse beijo, Clara correu para o _tennis_, a querer jogar

tambem para esquecer-se.

Era d'esse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como n'uma pilhagem

de egreja.

E, apesar de Clara continuar a ser indifferente e risonha para elle,

lembrava-se da perturbação que levára á alma ligeira da preciosa

bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava

os labios exangues sobre a pressão da sua bocca ávida.

Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu.

* * * * *

A BISANTINA

A LUIZ FERREIRA DE CASTRO

A Bisantina

No café, diante do _cocktail_ vulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais

cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes,

folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro,

interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam

das mezas, o criado, n'um _crac_ apagava a lampada electrica. Eu ficára

já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas

faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.

Esperava em vão... Comecei a ceiar.

D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr

nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis,

estardalhando, contando façanhas de orgias nas _vadrouilles_ de

Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um

quadro que entrevira n'um museu, alguma luminosa festa da

Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos,

simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro.

Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa

noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade que _sabrait le

champagne_, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade.

A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o

ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto

esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o

rotulo da garrafa.

Por fim debruçou-se para a minha meza:

--O senhor gosta de coisas exoticas, das mulheres finamente perversas,

do brilho das podridões...

--Ó, não! Apenas do _faisandé_!...

--É uma questão de palavras... Tudo o que é ambiguo, perturbante,

insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o chronista

do irregular, do _à coté_. Prefere as monstruosas orchideas ás rosas, o

enigma dos Vincis, á belleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma

historia?

Por certo que a minha phisionomia traiu o receio da maçada eminente.

Toda a gente imagina que a sua vida é um «motivo» interessante para

um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que

me contam, compridamente, com meandros de detalhes!

--O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um

psicologo...

--Não faço profissão...

--Não importa. Tem obrigação.

--N'esse caso...

Resignei-me.

O noctambulo começou a contar. Tinha a linguagem pittoresca, imageada,

parecia comprazer-se com a sua phrase. Notei-lhe grande copia de

estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo

registado.

--Comprehende que eu, _fetard_ cançado, que tenho visto museus entre

duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais o _tea-room_ do

Grand Hotel, de Roma, que o _Salon Carré_ do Louvre ou a sala de

Velasquez, no Prado, só lhe poderei fallar da mulher ou do amor. E das

mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, d'aquellas que

teem ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os

dedos esguios, só me recordo da ultima, que é a melhor e a peior, a que

faz rir e soluçar, curva-nos n'uma somnolencia em que nos apparece muito

mais bella do que é realmente, cingida com todas as joias com que a

nossa phantasia a enfeita, mais cruel tambem, porque o amor torna mais

cruciante as dores, intensifica o desespero, cria a halucinação da

Magua, inventa a Chiméra da turtura, essa Chimera de afiadas garras que

nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me signal, quando lhe

parecer Cicero...

Imagine que conheci, n'uma pequena cidade italiana onde me fôra curar

d'uma paixoneta recente, uma creatura singular, cujo encanto me prendeu

quasi de subito. Era uma figura de bisantina, atavismo talvez,

influencia das pinturas de Ravenna, onde passára a mocidade. E, artista,

cultivava essa feição, arranjava penteados hieraticos, sem complicadas e

rutilantes gemas, que o cofre do pae, mediscatro qualquer, não era

abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ella

propria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que

tinha de bisantina realmente, era a bocca fresca, a bocca innocente que

sorria apenas, n'uma candura de primeira commungante, uma bocca que

deixava em nós a impressão de que era um seraphim a sorrir. E não

apetecia beijal-a: apenas quedar-se a gente deante d'ella á espera que

nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o

traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda

a infantilidade da bocca, o aspecto angelical do seu corpo magro

d'adolescente, o collo branco e purissimo. Os olhos brilhavam como

n'um assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um

escarneo...

Essa mulher tentou-me. Largos mezes fui todos os dias á sua casa onde me

recebeu com palavras dulcissimas. Estendia-me a mão deliciosa para

beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho aspero, fazia

passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabellos, que ás

vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma

rosa que se desfolha, d'uma vez, da haste. Ás vezes furtivamente,

apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola,

eu via a innocencia de toda aquella figura, porque ella fechava os

olhos, como se todo o seu ser adormecesse n'um espasmo.

Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a bocca fresquissima, de não

ter, sob a pressão dos meus labios, maguado os olhos maus.

E toda a noite soluçava, enraivecido a desejal-a, até que de tarde ia

visital-a, encontrava-a estendida, n'uma atitude de imperatriz,

bisantina, em sedas _moirées_, toda a gama do verde e do lilaz, a

garganta descoberta. E n'um gesto estudado, estendia-me a mão, que eu

beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras,

opacas, pedras finas, opalas, como gottas de agua d'um lago envenenado.

E a scena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os

nervos tensos e vibrantes. Na voz amortecida e doce, dizia as

palavras magicas que accendem fogachos. E quando ella via toda a minha

Alma arremessada para ella, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso

celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo d'ella. Como? Uma creança

ingenua! Era preciso fugir!

Um dia tive que partir.

Tinha, na pequena cidade, perdido largos mezes. Fui a uma ultima

entrevista, chorei como uma creança ao dizer-lhe a magua immensa de a

deixar. Contei-lhe toda a tortura d'aquelle tempo de infinita delicia e

infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lagrimas

tristes, quanto amára todo o seu ser, todo o seu corpo flexivel, todo o

seu espirito cançado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma

palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma

palavra de amor!

Teve uma frase, apenas, com uma expressão de immenso sentimento:

--E não trouxe um fonografo!

* * * * *

MÁ-LINGUA

A JOSÉ LEITE NOGUEIRA PINTO

MÁ-LINGUA

N'aquella mesa de _bluff_, era feroz a _debinage_... Apenas o Barros,

que ganhava com uma _veine_ espantosa, sorria beatificamente, cheio de

indulgencia, e para as arrojadas arremettidas dos parceiros, tinha

sempre a mesma phrase:

--Mais caridade, meus senhores...

Eram sempre occasiões em que o Leite mostrava «quatro cartas» ou «street

flesh.»

O baile, na sala proxima, corria animado. As valsas, o pas-de-quatre e

as quadrilhas martelladas ao piano, tinham concorrencia. E uma ou outra

que fugia do calôr, para as salas de jogo, era apanhada na passagem,

amarfanhada, esmiuçavam-lhe a chronica, apimentada de notas ineditas,

calumnias talvez.

--A Gracinda Fortes!

O conde de Marvilla teve um sobresalto. Voltou-se para trás. A Gracinda

vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a graça

fragil do seu corpo magro. O conde commentou, eriçando mais o bigode

loiro, cortado á ingleza:

--Um cabide para vestidos!...

--Mais caridade!...

--Ah, já sei: tem pelo menos um flesh na mão... Passo!

Depois, olhando ainda a figura esbelta que sahia...

--Mas ella não é uma mulher--é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar

articulado, mechanico... Tudo aquillo se mexe por molas! E aquella

cabeça d'arara a dar a dar, como se estivesse presa ás espaduas por um

parafuso lasso? E depois, meus amigos, ella é toda postiça... O cabello

loiro pertenceu já a tres cabeças... É uma mulher feita de collaboração

por um cabelleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquillo é

sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam

que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos

cosmeticos... Á quantidade de drogas que anda por aquella pelle é

inconcebivel. Já repararam em como se não decóta nunca, completamente,

que o collo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pelle,

estragada por uma pitiriasis qualquer, esfarella-se. Todas as manhãs a

creada de quarto tira-lhe kilos de farellos da cama. E já não pode com o

serviço de maquilhagem--tapar buracos, concertar rugas,

pés-de-gallinha, disfarçar sardas e signaes de variola--manda chamar um

trolha...

--Seu amante?

--Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda

sempre da mesma maneira, ás continencias, cabeça para cima e para baixo,

como um d'esses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquillo é o

andar rythmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o d'um

passaro... É parisiense, é: tambem são parisienses as macacas que nascem

no _Jardin des Plantes_... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem

mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pelle despega-se da

carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinellas. E toda aquella

pintura, ás chapadas, faz sombras, augmenta-lhe as papeiras...

--Tens-lhe odio!...

--Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa d'ella lá me fez você

um _bluff_ sem eu dar por isso...--Conheço-a muito. Veiu da provincia e

por ahi andou a mostrar ao Chiado e á Avenida as suas _toilettes_, como

um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguem a recebia,

senão as casas em delirio de festas, onde a ida d'um conde, dos feitos

ultimamente ás canastradas, enche de jubilo os amaveis donos da casa,

como se diz nos jornaes. Mas a sua ambição era do podre-de-chic, e

não podendo suppôr-se com sangue azul--a mercearia do pae, ainda lá está

a falsificar--imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá

requentado como o espirito d'ella, estudado em velhos almanachs.

Emquanto não entrou na sociedade, vestia-se seis vezes ao dia, e nos

intervallos injuriava o idiota do marido, essa bola de cebo com suissas

brancas, que, atolambado, não lhe respondia que não tinha culpa de não

convidarem uma amostra de cocotte do Maxim para casas de familias

honestas. E era uma vida dura, atroz, n'aquella casa, ella de mau humôr,

acre, dizendo horrores na voz impertinente, sem inflexões, monocorda, e

elle angustiado, sempre em calculos diabolicos para saldar as contas

monstruosas que lhe mandava o Goodefroy, dos cosmeticos e _postiches_

com que se engalanava a mulher.

A vida n'aquella casa! Vocês não calculam a expressão dura, injuriosa,

que se estampava n'aquella cara agora risonha, quando recolhia, á tarde,

cançada de fazer a Avenida, quasi sem um chapeu a comprimental-a, sem

meios para ter uma carruagem, olhando, gulosa, as pessoas chics que

passavam, sorrindo ás saudações. E na mesa de jantar, silenciosa, apenas

se ouvia o tilintar dos talheres e uma ou outra phrase grosseira ao

Fortes, que abanava a cabeça, todo elle se agachava, no receio,

talvez, d'um prato ou d'um copo arremessado na furia.

Depois das refeições, separavam-se, elle para a rua tomar ar, fugindo da

perigosa visinhança, ella a arrastar-se nos quartos, a enfeitar-se de

joias, punha-as todas, enchia as mãos d'anneis, rodeava a garganta magra

com todos os collares, enchia os braços de pulseiras quasi até o

cotovello e via-se ao espelho estudando sorrisos, gestos de comprimento

para os grandes bailes a que havia de ser convidada um dia.

--Para fallar d'esse modo é preciso ter sido _éconduit_...

O conde córou, encolheu os hombros:

--Ás vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava

impossivel fazer a parada nas ruas, _troteuse_ á cata d'olhares: vestia

uma camisa de noite de que cahiam _valenciennes_ e cobria a cabeça com

pentes e travessas d'oiro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda

a collecção d'anneis. Era oiro por toda a parte, sem fallar nos dentes

em que se combinavam todos os metaes e todas as massas. Ouvi que se lhe

podia dirigir o epigramma de Marcial: Não te rias porque só tens tres

dentes e esses mesmos são de buxo.

--Conheces tão intimamente?

--Pela creada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito

manequim, arrebanhando os rapasolas inexperientes para _flirts_--ó

só _flirts_! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a pitiriasis

não permitte o desnudamento--_flirts_ que acabavam logo que um mais

affoito fallasse em beijar a pelle perfumada.

--Schiu! Lá vem ella!

Flirts · 第 1 / 9 段