As pessoas lidas na historia patria estão affeitas a encontrar, n'este
caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante
de Domingos Leite, chamado _Manoel da Cunha_, e não _Roque da Cunha_,
como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios á
novella com aggravo da historia. É injustiça que me fazem. Todos os
historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por
negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho
presentes o conde da Ericeira, (_Portugal restaurado_) Fr. Claudio da
Conceição, (_Gabinete historico_) D. Antonio Caetano de Sousa (_Historia
Genealogica da Casa Real Portugueza_), Roque Ferreira Lobo, (_Historia
da acclamação de D. João IV_) Ferdinand Denis, (_Portugal Pittoresco_)
João Baptista de Castro, (_Mappa de Portugal_) o sr. Viale, (_Resumo da
historia de Portugal_) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas,
(_Historia de Portugal_). Dizem todos invariavelmente que o delactor de
Domingos Leite era _Manuel Roque_, porque todos invariavelmente se
guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do
successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e
nomeadamente as relações escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador
laborioso encontraria, ácerca d'este assumpto, afóra a citada noticia de
_Fr. Francisco Brandão_ impressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma
de _Antonio de Sousa de Macedo_, e outra de _D. Francisco Manuel de
Mello_. São duas peças declamatorias: rethorica em barda, e muita
pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do
chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela
ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite
Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa,
claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de
Guimarães n'este trecho da sua relação: _Foi o executor da maquina...
Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de
Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto_. E em outra
passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da
primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fôra procurado em
Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanços o
nomeia _Roque da Cunha_, e em um d'elles, por signál, a critica de
Brandão desmerece grandemente dos creditos alcançados n'outros
escriptos. Senão, vejam: _Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a
sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o
entregou á justiça, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares
do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capella real ha
particular confraria, accudiu á vingança merecida contra os legitimos
reis d'esta corôa_.