Não é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas.
Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D.
Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de
Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais
espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de
vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será
exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas
as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar
calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os
tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a
expor n'elle a vazilha até que o sumo se engrosse a modo de unguento que
será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na
madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol,
hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto
por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes
de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais
desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são
sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito
peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares
sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão
metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber
commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da
vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de
hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco
por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja,
situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha
haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do
mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se
encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na
vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada
sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a
bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e
a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da
altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos
até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda
brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o
que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos
sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão
a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a
peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo
da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o
fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe
o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar
as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida,
que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o
mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de
outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á
vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o
sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona,
sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços
de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros
de rato e de gato».
É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que
mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e
rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada
patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos
importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois
manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o
Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as
balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para
offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as
alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O
outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII,
é: _Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle,
Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo
cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens
d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do
snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo
general, e Governador das Armas da mesma provincia_.
Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do
cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia
era mais investigada que hoje.