Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI
portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia
dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os
estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o
duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez
homens _para testemunhas_ do feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do
Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais
valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas
suas _Memorias_: _foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo
e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz
matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz_. Eis aqui a
singular missão da _testemunha_!
E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do
covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance:
Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide)
foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D.
Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve
n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam
culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não
queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o
accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com
ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse:
«que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra
Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».