«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João
IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo,
conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de
estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar
por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não
devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era
devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os
descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua
innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens,
em que eu tive alguma parte estando em Madrid.» _Carta de D. Luiz da
Cunha ao Principe D. José._Esta carta muito notavel e pouco lida,
publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo: _Obras
ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha,
etc._Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva
que _escaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o
sentido e intelligencia dos periodos_. É exactissima a censura. Possuo a
mesma carta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que
envergonha as incurias do editor da impressa.
O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça
explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao
secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os
manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655).
Intitula-se: _Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se
suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D.
Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela
lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal_. É
attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os
conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta
que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como
vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e
soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e
assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com
que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante
elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo
isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é
ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito.
Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e
estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo
tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão
assim a parecer.
«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora
lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles
como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime
quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas
não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes
algum favor, o tenham por mercê.
«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram
comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o
respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque
a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos
digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos
mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a
lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar
ousadia a maiores.
«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o
castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles
todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e
defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem,
matar».
Assim predispunha o secretario das mercês o animo do rei contra os
conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando
com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o
cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D.
Rodrigo Calderon.