NOTA 21.ª

Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação

necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei

D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João

Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar

Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na

cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda

outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro.

É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da

fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta

administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei

D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de

Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro

casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor

de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá

chamavam por alcunha o _conde da barba rapada_. Os filhos d'este

assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando

segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e

melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de

Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de

Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou

com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte

Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha.

D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos

mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um

genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez

familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas

genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.

O Regicida · 第 51 / 57 题