Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação
necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei
D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João
Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar
Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na
cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda
outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro.
É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da
fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta
administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei
D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de
Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro
casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor
de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá
chamavam por alcunha o _conde da barba rapada_. Os filhos d'este
assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando
segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e
melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de
Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de
Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou
com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte
Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha.
D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos
mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um
genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez
familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas
genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.