Decorrêra o restante d'aquelle dia 28 de julho, e parte do seguinte sem
novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de
um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, não
encontrando cavallo que comprasse ou alugasse em Gaifões, passara a
Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe
enviava a elle o cavallo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha.
Domingos Leite sentiu-se captivo d'esta deferencia; mas, apenas montou,
conheceu que o cavallo estava por tanta maneira escalavrado que só muito
a passo alcançaria vencer as seis leguas, que o distanciavam da Povoa de
D. Martinho, até á noute do dia seguinte. O arrieiro que o guiava
recommendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavallo vivo á Povoa.
--Não havia em Rilvas uma besta que se vendesse?--perguntou Domingos Leite.
--Havia um cavallo de comer tres leguas por hora, que se vendia por
trinta cruzados.
--Porque o não disseste á pessoa que te mandou com este?
--Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem fallei com
essa pessoa que vossemecê diz.
O cavallo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e n'elle
cavalgára caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a
remessa do seu e o bilhete á aldeia onde ficára o seu companheiro.
Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a
cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora
dos povoados, sem saber a razão porquê.
--Andam soldados na estrada real?--perguntou Leite.
--Que eu saiba, não, senhor.
Reparou na precaução o cavalleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos
encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brandão: _Ha muito
para reparar na força do destino que o chamava_.
Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns
segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu
avante, dizendo entre si:
--Que pensaria de mim Roque da Cunha se está innocente nas minhas
suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!...
Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da
Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero
Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para
negocio da maior urgencia. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente
espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido
pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a
nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, começando por
implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em
uma tentativa contra a vida de sua magestade; porém, accrescentava que
se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a
Deus sua alma purificada de remorsos.
Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:
--Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.
Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores
sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a
reincidencia no intento que o trazia a Portugal.
Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria
Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o
infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a
viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas.
Mas não era Roque o homem amoldado á observancia do mysterio que tal
acto requeria.
Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem
á sua presença o fidalgo mais possante de sua côrte, Luiz da Silva
Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha,
conde de Odemira. Contou-lhes o que passára com Roque da Cunha, e
enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os
conduzisse.
Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse
entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as
conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, á escolha do seu secretario;
que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se
desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar
semelhante ordem.
Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do
seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro
annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendação de se
apressar S. Senhoria a recebel-o.
Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates
de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o
rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas.
Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa então odiava-o de
instincto, sem saber precisar aquelle rancor tão desnatural em sua edade.
O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.
--Minha senhora--disse elle entre melancolico e solemne--ordena el-rei,
meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente
para ao romper da manhã sahirem de Lisboa...
--Para onde?!--interrompeu Maria Isabel.
--Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes.
--Mosteiro!...
--Sim, senhora minha.
--Não quero!--bradou a dama.
Sorriu-se o fidalgo, e disse:
--Quer el-rei, nosso senhor.
--Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento?
--Ignoro. Segredos de sua magestade. Não discutamos inutilmente: é
sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se
dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, ás tres horas da manhã
está o meu coche á porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a
caleça que nos hade levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo
se tem ordens a dar-me...
A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao
passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar
d'entre o reposteiro a senhora que não o via.
Quando ella ás onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com
as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahús, entrava
Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, áquem do Tejo, trez
leguas distante de Lisboa.
Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com
a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em
menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:
--Eu já não te esperava...
--Tambem eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer
companhia ao meu na immortalidade das cavalgaduras heroicas e pôdres...
Quem está por aqui na locanda?
--Ninguem afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as redeas, que eu
recolho o cavallo.
E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do
alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada.
Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallariça,
frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços
de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito ás costas, emquanto o
conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.
Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os
olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:
--Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer
n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que
eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.
D'ahi a momentos, á porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos
armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de
Odemira, que, voltado ao preso, disse:
--Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.
_E com grande silencio o levaram a Lisboa_, diz o manuscripto.
Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o
apertaram nas roscas de aço dos seus musculos, sabiam que a mulher
d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D.
João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentia que
sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, não podemos,
não poderá ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia.
Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles são. Querem
que Deus deva saber o que fez. Saberá.
Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto
nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo ás estrellas a
luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra
existencia.
Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do
conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a
altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome
da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra.
Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica! _Entrou na casa
do conde de Odemira_, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo
referido, _com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos
contrabandos d'el-rei D. João que cumplice dos maiores servidores do rei
de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os
mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na
confissão com o companheiro que o deu á prisão, e com a primeira
confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o
exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na
mesma rectificação de quanto sem as maiores violencias havia confessado;
imperfeita virtude no maior defeito!_
Em um d'esses interrogatorios, _sem as maiores violencias_ (quer dizer
que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:
--Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o
sagrado corpo de sua magestade?
--Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do ceo, que me
levou para si os olhos e a alma.
D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiçada de
aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio
corpo de D. João de Bragança.
Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em
Lisboa a noticia.
As turbas correram á porta do carcere pedindo que lhe entregassem
Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros,
clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre
Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos
voluntarios, ebrios de civismo.
Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de
peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antonio Leite que seu
filho morria em desaffronta de sua honra.
Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.
Eis a sentença integralmente trasladada da original, e publicada em 1833
pelo desembargador Gouvêa Pinto:[12]