Diogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos
enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do
Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra
trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19
de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo
d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges,
áquella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa,
passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias.
O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal
respeito: «N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos
esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com elle Domingos Leite, e
que lhe contou o que passára; e é de saber que na mesma tarde foi visto
em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em
ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra.»
Ao mesmo tempo, Bernardo, que passára a noite e o dia em oração, quando
viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se
contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu
fervorosas graças ao Senhor, porque attendera ás suas preces.
O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com
frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo
Soares, rindo da historia pueril da visão da menina que paralisára o
braço do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com
emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes
podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a
phrase, qual a recebêra, a Domingos Leite.
O frustrado regicida volvêra-se á vida solitaria com a sua dôr
exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas.
Quem mais lhe carregava a mão no peccado da mulher era D. Vicencia,
filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam
satyras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe
outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para
ir ao inferno matar o diabo.
Na correnteza d'estas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia
de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem
dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda o
impedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuita, que
sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira.
Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D.
João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de
Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera,
como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado
pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no
assassinio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicario, vendido ao
marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar.
No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid
pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um
clerigo ou frade de inculcada virtude e erudição theologica, por parte
das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas
personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o
algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o
reino, fôra fr. Diogo Seyner espião de Castella em Portugal, e tambem um
padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as
denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto ás intenções
de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com
quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avençaram
politicamente com a theocracia da omnipotente roupêta. Ainda n'aquelle
anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita
flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de
batalha, depois de as ter já usado no exercito portuguez. Este
sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos
a repellir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias
portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando
as duas nações, visto que nenhuma era sua.
Com este se intendêra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha.
A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous terços menos
da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de
homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuação
em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino.
Enviava-lhe como comêço de gratificação trez mil cruzados, e promessa de
ao diante o ir premiando com dinheiro á medida dos seus serviços e
habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse
perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina.
Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a
verdade é que o infame não deu ansa a que os seductores provassem os
dotes de corrupção: rendeu-se logo.
Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez,
disse-lhe com mysterioso recato:
--Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em
Portugal, quando lá fôr para o salvar da morte.
O padre não obteve illucidações d'estas vagas palavras.
Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a maxima ponderação, sem
todavia suspeitar de qual dos fidalgos homisiados poderia proceder a
tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de
Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de
todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava
quando Maria Isabel lhe dizia:
--Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle...
O _elle_ substituia a palavra que tanto repugnava ao rei como á princeza
do seu economico serralho.
Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o
expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho
do que a ella na sua belleza.
Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite
deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os
apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as
censuras de Roque da Cunha, não á covardia de homem, mas á
pusillanimidade de pai.
Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicidio; porém, lá
vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a
cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a
Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria
Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella,
fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o
amparo de Francisco Mendes Nobre.
Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu:
--A final, vejo que não és marido, nem homem: és pai.
--Queres dizer que não sou honrado?--acudiu Domingos Leite.
--Não... mas ha quem duvide que o sejas...
--Se o duvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se ha
covardes que façam de ti pelourinho de injurias, que venham depois de ti
ou junctamente.
--Os meus cincoenta annos perdoam os teus vinte e seis--disse
serenamente Roque--Entretanto bom é que saibas, amigo Leite, que nenhum
homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me
insulte. Se não estivessemos sós, dar-me-hías uma satisfação. Assim...
ninguem irá dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha
vilta do marido de Maria Isabel. Estás perdoado, porque és fraco, fraco
do coração onde tens muitas lagrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem
duas vezes expoz por ti a vida, e não se esquiva de a expor terceira vez.
--Não exporás, Roque. Não ha para quê. O meu intento já sabes que não é
matar o rei; é resgatar minha filha.
--E, se te descobrirem, se te agarrarem...
--Serei julgado como assassino, sentenciado á morte, e morrerei, sem
denunciar que o matador foste tu.
--Mercês... A justiça sabe quem matou, provavelmente... A minha questão
é outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sahir de Hespanha. A
nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputação como a minha. Os
enviados a matar D. João fomos dois: o covarde não póde ser só um. Se
vaes a Lisboa, irei comtigo: dar-me-has agazalho no teu escondedouro, e
eu te ensinarei modo de passarmos a Hollanda, com tua filha, sem
tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequencias do odio,
e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragança servir
para nós. Se queres roubar a pequena á mãe, eu te ajudarei. Os estorvos
que t'o empecerem, derrubal-os-hei. Se quizeres que eu estrangule os
gritos no pescoço de Maria Isabel em quanto foges com tua filha, ninguem
lhe ouvirá um soluço. Se nada quizeres de mim, ao menos dá-me em Lisboa
um valhacoito d'onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja.
Que mal te faz que eu vá comtigo?
--Vem, meu amigo, que eu estou tão longe de t'o impedir, que t'o
agradeço--respondeu Domingos Leite abraçando-o extremosamente.
Accordaram na partida para 18 de julho.
Communicou Roque á Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra
voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou á traição, consoante se
lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia
com elle sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada
de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e não a
Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.
Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas
acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta
chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos
Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem
d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebêra dinheiro;
e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e
liberalidades de D. Vicencia.
No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira.
Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Ha muito
para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois
que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro,
presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho,
declarando que sonhára uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se
via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que,
uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e,
abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quizesse entregar
á justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca
edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse: _Uno de vos outros és
traidor_. E apontando em particular para o Cunha, disse: _Tu tienes
ojos de traidor_!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com
o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpção que d'elle
trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande
cegueira--prosegue Brandão--que, tendo as presumpções tão vivas, não
melhorasse partido, sendo-lhe facil!..»[10]
Se prestamos mediana fé á perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a
traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a
relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar
as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro
cuidadosamente aconchegava do leito.
Ás vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da victima
exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse
de si como ao mais abjecto scelerado. «Grandes foram as cautelas de
Cunha--confirma fr. Francisco Brandão--para assegurar bom animo ao
companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quizesse entrar em
Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a
Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se
assegurar d'elle, receoso de que o matasse com as suspeitas.[11]
Á quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas
e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem
das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada
de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite
abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de
allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o
presistirem alli, sem esperanças de remedio, era perder tempo, e talvez
perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o
enviaria, a não querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o.
--E para que vá mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com
os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados...--ajuntou Roque.
--Oh!--exclamou Domingos Leite gracejando--Ninguem dirá que vaes do
desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!...
--Ahi t'os deixo como refens...
--Mal de mim se este dinheiro fosse o abono da tua lealdade, Roque! Se
tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não
taxem de ladrão quando me prenderem.
Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia.
Domingos Leite interpretou a primeira supposição, e emendou as palavras
duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:
--É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como
quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho,
d'aqui cinco leguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se ámanhã
cedo me mandares o cavallo, e elle não fôr aleijado. Devo lá chegar por
noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de
dar grandes voltas.
Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:
--Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu
cavallo, se m'o não quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a
terra, que hontem já o não sentia entre os acicates...
--Não deixes o dinheiro!--instou Leite Pereira.
--Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o?
Adeus, até ámanhã.
Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:
--Não me vendas... visto que estás rico!
Roque sahiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope,
caminho dos Pegoens. «Não me vendas...» dissera o desgraçado.
Assizadamente escrevia depois o frade: _Ha muito para reparar na força
do destino que o chamava_...