Vellou a noite inteira Maria Isabel.
Figuravam-se-lhe visões, ora terriveis, ora deslumbrantes.
Sentia o que quer que fosse de interior transfiguração de seu ser.
Contemplava-se e via-se mudada virtualmente. A scena do paço, a sala
explendorosa, o rei, a _senhoria_ do secretario, a açafata, a liteira
armoreada, a libré, e sobretudo os conselhos do rei, aquellas phrases
umas vezes meigas, outras vezes tristes, o seu nome tres vezes proferido
pelos regios labios, tudo, que ainda sonhado lhe seria deleitoso, era,
em realidade, sobejo estimulo a que a noite lhe corresse não dormida.
Mas, por entre as fulgurações da imaginação febricitante, dava-lhe
tremuras um pavor indefinivel, se a idéa de ter cahido na graça do rei
lhe impunha o dever de se lhe dar cegamente, e sem resistencia de rasão,
de religião ou de pudor, como as mulheres que se vendem.
Contradiziam-lhe estes sustos do pejo as palavras de D. João IV,
aconselhando-a a consultar a vontade do marido, quanto a ir para sua
companhia. Depois, como a revirar-lhe esta pudica justificação dos reaes
intentos, occorria-lhe a lembrança de ter ouvido dizer a Domingos Leite
que D. João IV nos seus amores, quando duque, não se estremava dos moços
do monte em bruteza; que nenhuma das suas affeiçoádas lhe conhecera
coração. E d'ahi umas explosões luminosas de vaidade, a mulher em todo o
seu elasterio de vangloria, tanto mais acrisolada quanto se vira
repudiada do marido... Muitas expressões do soberano soavam-lhe ainda
nos ouvidos, quando a luz da seguinte manhã lhe alvoreceu no quarto; e,
entre todas, estas principalmente: ..._Não sei se elle_ (o marido) _vos
acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou
em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal
considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu
marido_.
--Decerto, não quero!...--dizia ella de si comsigo--Ainda que elle, por
amor á filha, me deixe ir, hade querer que eu me esconda para que me não
vejam; e talvez que me mande embora depois de lá ter a filha. Além
d'isso, se eu lhe disser que o rei me dá o dinheiro para lá viver, elle
reprova que eu o acceite, e pergunta-me como foi que eu procurei e
obtive este favor...
Alvoroçada por tantissimas idéas incongruentes, sentou-se ao bofete para
escrever tantas vezes quantas se levantou, depondo a penna, por não
atinar com o expediente mais natural, ou, digamos antes, mais artificial
da carta.
N'esta conjunctura, appareceu a menina a recordar-lhe as impressões da
vespera, a fazer-lhe repetir as palavras que o rei lhe dissera, a pedir
explicações dos dizeres que não percebêra. Depois vieram as criadas
sobresaltadas, e Maria Isabel contou-lhes á sua anciosa curiosidade que
a sua Angela era açafata, que o secretario de estado lhes déra senhoria,
que el-rei tivera a menina sobre os joelhos, que a beijára muitas vezes;
e de tudo pedia segredo ás môças, por certos motivos, os quaes motivos
as criadas, em conciliabulo de cosinha, explicavam tão compridamente que
não deixavam nada a desejar.
Assim foi correndo o dia, até que, ao cahir da noite, se annunciou a um
lacaio de Maria Isabel uma pessoa que sua senhoria esperava.
O secretario particular do rei, annunciando-se incognito, a hora tão
impropria, começava o acto mysterioso da sua interferencia; não
obstante, a mãe da açafata, quando se lhe deu a noticia, disse com
desenvoltura propria de fidalga, affeita a visitas de tal porte:
--Hade ser o secretario de estado Antonio de Cavide.
Momentos depois, o cortezão beijava os dedos da mulher de Domingos
Leite, affagava a sr.ª Dona Angelasinha, a quem sua magestade enviava um
beijo, e terminava por dizer que vinha receber a carta que havia de ir
para Hespanha na manhã do dia seguinte, conforme as ordens dadas por
el-rei ao correio-mór.
--Ámanhã!--disse Maria Isabel--Já ámanhã!... Mas eu ainda não
escrevi...Como hade ser?
--Ainda tem v. s.ª muito tempo. Eu voltarei mais tarde, ou mandarei um
escudeiro procurar a carta--remediou o secretario.
--Jesus!--murmurou ella, com ademanes de afflicta.
--Que tem a sr.ª D. Maria?--volveu Cavide.
--Não sei... não sei em que termos heide escrever a meu marido...
--Comprehendo o seu embaraço... que em verdade é justificadissimo. Devo
dizer-lhe, senhora minha, que o que passou entre el-rei meu amo e v.
s.ª, me não é de todo estranho. Tambem eu, pensando durante a noite no
segredo que é mister haver, respeito á mercê que el-rei lhe faz, mal
posso ligar a ida de v. s.ª para Hespanha sem que seu marido conheça a
origem dos recursos, e até a real intervenção na remessa da carta. O sr.
D. João IV, meu amo, d'esta vez não conciliou a generosidade de seu real
animo, com a circumspecção que lhe é habitual. Quer-me parecer que v.
s.ª deu todo pezo ás considerações que sua magestade lhe fez, e eu
tambem tive a honra de ouvir-lh'as. Desde que o sr. Domingos Leite,
fugindo para Castella, deu ansa á calumnia que denigre a reputação de
sua mulher, parece, até certo ponto, que protestou diante do mundo não
receber mais em sua companhia uma esposa, que lá e cá--malditas
linguas!--passa por ter faltado á honra conjugal.
--Mentira!--interrompeu Maria Isabel assomada.
--Mentira atroz--assentiu Cavide--Sabe-o el-rei, sei-o eu, sabem-no os
ministros em cuja alçada corre a devassa; mas os praguentos querem que
as atoardas se propaguem bastante aleivosas para que lhes seja mais
farto o sêvo da maledicencia. A nossa questão não é a calumnia; é
sabermos como v. s.ª hade affrontal-a, como seu marido hade desfazêl-a,
se lhe quizer perdoar; emfim, como a sr.ª D. Maria, minha senhora, hade
illibar-se perante o mundo. Aqui é que bate o ponto. Por isso dizia eu
agora que comprehendo os embaraços em que v. s.ª hade achar-se no modo
de escrever a seu marido.
--Tem v. s.ª rasão.--confirmou Maria Isabel--Pensei n'isso tudo que me
disse, e estive duas horas a começar cartas e a rasgal-as, porque tudo
me parecia máo... não sei como heide sahir d'este aperto!...
--Peço venia para lhe dar um conselho...--disse Antonio Cavide,
erguendo-se, aproximando-se d'ella mais á puridade, e abaixando o tom da
voz.
--Faz-me v. s.ª um grande beneficio, se me aconselhar.
--Auctorise-me a sr.ª D. Maria a consultar el-rei, meu amo. Parece-me
que nenhuma deliberação lhe cumpre tomar sem ouvir o parecer de sua
magestade...
--Nem eu me atrevo a pensar coisa alguma em contrario das ordens d'el-rei.
--Mas--volveu o valido, depois de estar alguns minutos recolhido,
passando por sobre os dentes a unha do pollegar como se corresse um
teclado--Mas, se v. s.ª me promette segredo inviolavel com juramento...
--Prometto...--balbuciou Maria Isabel, tremula de alvoroço, entre
receosa e anciada de curiosidade, com os brilhantes olhos postos nos
beiços do secretario.
--Promette-me nunca, em tempo algum, em quaesquer circumstancias de sua
vida, revelar propriamente a el-rei o que lhe vou dizer?
--Sim... prometto...--affirmou ella.
Antonio de Cavide pegou da mão de Angela, e apontando-lhe um cofre de
madre-perola que estava sobre um contador no extremo da sala, disse-lhe:
--Vá a menina buscar aquella alfaia que desejo vel-a.
E, emquanto a menina foi, inclinou os labios ao ouvido de Maria Isabel,
e segredou-lhe:
--El-rei quer-lhe como não quiz a ninguem n'este mundo. A vontade do meu
real amo é que v. s.ª não vá para Hespanha; e eu, que conheço quanto
el-rei soffreria, se a sr.ª D. Maria partisse, rogo-lhe encarecidamente
que não vá.
A menina já estava ao pé do secretario com o cofre, quando Maria Isabel,
proferidas as ultimas palavras, pegou de enfiar e tremer a ponto que
Angela lhe disse assustada:
--Que tem, minha mãesinha, que está tão amarella?
E, ao mesmo tempo, o subtil alcayote, examinando os embrexados da caixa
japoneza, resmuneava:
--Que formoso lavor! que linda coisa!.. É alfaia do tempo do sr. rei D.
Manuel. Cá tem a esphera armilar! Bellissima joia!..
E, lançando de soslaio a vista a D. Maria, murmurou como se conversasse
com as figuras chinezas embutidas no cofre:
--Não cuidei que lhe dava novidade; nem que a novidade, se o fosse, a
inquietasse tanto! Seria triste se eu a magoava, pensando que lhe trazia
o maior contentamento que pode dar-se á primeira fidalga da côrte
portugueza.
Angela ouvia e não percebia as palavras, quando a mãe, abraçando-se
n'ella com estremecido affôgo, resudava nas palpebras cerradas uma, ou
talvez duas lagrimas que deviam ser--oh materialidade!--a cristalina
seiva das fibras do pudor, as quaes viriam a depauperar-se em resultado
d'aquelle perdimento de vida.
--Aqui tem, minha açafatasinha--ajuntou o secretario de estado,
entregando o cofre a Angela--Esta caixa cheia de perolas e diamantes não
valeria tanto como as duas lagrimas que sua mãesinha tem nos olhos. E eu
bem sei o coração em que ellas vão cahir e doer...
Maria Isabel permanecia com a face apoiada na mão, o cotovello no braço
da cadeira, os olhos velados pelas sedeudas pestanas, e com uma lagrima
que, derivando, se quedára tremula no canto dos labios.
Antonio Cavide ergueu-se e caminhou para onde tinha o chapéo emplumado.
Pegou d'elle, e sacudindo-o, á maneira de leque, entre as mãos, veiu ao
pé de Maria Isabel, que se havia levantado.
--Recebo as determinações da sr.ª D. Maria Isabel, minha senhora.
Mandarei ou virei em demanda da carta, quando se dignar ordenar-m'o.
--A carta?...--perguntou ella--Pois não me aconselhou que não escrevesse?
--Não ousei tanto, minha senhora; aconselhei-a tão sómente a que me
permittisse consultar el-rei meu amo; porém, depois do segredo que
confiei á sua honra, quanto aos sentimentos de sua magestade, e depois
de assistir á magua que taes sentimentos lhe occasionaram, receio que v.
s.ª não queira que o seu destino dependa da vontade d'el-rei...
--El-rei decerto não quer a minha desgraça...--balbuciou ella.
--Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do
céo lhe invejassem...
Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com
a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento.
E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da
cabeça de Angela, figurou-se-lhe vêr o rosto do marido, perdido por
ella, e, áquella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha.
Ai! aquella mãe e esposa presentiu que havia de escorregar á voragem das
deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem á
flor do seu pégo de lama uma corôa de rei!