XIII

Vellou a noite inteira Maria Isabel.

Figuravam-se-lhe visões, ora terriveis, ora deslumbrantes.

Sentia o que quer que fosse de interior transfiguração de seu ser.

Contemplava-se e via-se mudada virtualmente. A scena do paço, a sala

explendorosa, o rei, a _senhoria_ do secretario, a açafata, a liteira

armoreada, a libré, e sobretudo os conselhos do rei, aquellas phrases

umas vezes meigas, outras vezes tristes, o seu nome tres vezes proferido

pelos regios labios, tudo, que ainda sonhado lhe seria deleitoso, era,

em realidade, sobejo estimulo a que a noite lhe corresse não dormida.

Mas, por entre as fulgurações da imaginação febricitante, dava-lhe

tremuras um pavor indefinivel, se a idéa de ter cahido na graça do rei

lhe impunha o dever de se lhe dar cegamente, e sem resistencia de rasão,

de religião ou de pudor, como as mulheres que se vendem.

Contradiziam-lhe estes sustos do pejo as palavras de D. João IV,

aconselhando-a a consultar a vontade do marido, quanto a ir para sua

companhia. Depois, como a revirar-lhe esta pudica justificação dos reaes

intentos, occorria-lhe a lembrança de ter ouvido dizer a Domingos Leite

que D. João IV nos seus amores, quando duque, não se estremava dos moços

do monte em bruteza; que nenhuma das suas affeiçoádas lhe conhecera

coração. E d'ahi umas explosões luminosas de vaidade, a mulher em todo o

seu elasterio de vangloria, tanto mais acrisolada quanto se vira

repudiada do marido... Muitas expressões do soberano soavam-lhe ainda

nos ouvidos, quando a luz da seguinte manhã lhe alvoreceu no quarto; e,

entre todas, estas principalmente: ..._Não sei se elle_ (o marido) _vos

acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou

em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal

considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu

marido_.

--Decerto, não quero!...--dizia ella de si comsigo--Ainda que elle, por

amor á filha, me deixe ir, hade querer que eu me esconda para que me não

vejam; e talvez que me mande embora depois de lá ter a filha. Além

d'isso, se eu lhe disser que o rei me dá o dinheiro para lá viver, elle

reprova que eu o acceite, e pergunta-me como foi que eu procurei e

obtive este favor...

Alvoroçada por tantissimas idéas incongruentes, sentou-se ao bofete para

escrever tantas vezes quantas se levantou, depondo a penna, por não

atinar com o expediente mais natural, ou, digamos antes, mais artificial

da carta.

N'esta conjunctura, appareceu a menina a recordar-lhe as impressões da

vespera, a fazer-lhe repetir as palavras que o rei lhe dissera, a pedir

explicações dos dizeres que não percebêra. Depois vieram as criadas

sobresaltadas, e Maria Isabel contou-lhes á sua anciosa curiosidade que

a sua Angela era açafata, que o secretario de estado lhes déra senhoria,

que el-rei tivera a menina sobre os joelhos, que a beijára muitas vezes;

e de tudo pedia segredo ás môças, por certos motivos, os quaes motivos

as criadas, em conciliabulo de cosinha, explicavam tão compridamente que

não deixavam nada a desejar.

Assim foi correndo o dia, até que, ao cahir da noite, se annunciou a um

lacaio de Maria Isabel uma pessoa que sua senhoria esperava.

O secretario particular do rei, annunciando-se incognito, a hora tão

impropria, começava o acto mysterioso da sua interferencia; não

obstante, a mãe da açafata, quando se lhe deu a noticia, disse com

desenvoltura propria de fidalga, affeita a visitas de tal porte:

--Hade ser o secretario de estado Antonio de Cavide.

Momentos depois, o cortezão beijava os dedos da mulher de Domingos

Leite, affagava a sr.ª Dona Angelasinha, a quem sua magestade enviava um

beijo, e terminava por dizer que vinha receber a carta que havia de ir

para Hespanha na manhã do dia seguinte, conforme as ordens dadas por

el-rei ao correio-mór.

--Ámanhã!--disse Maria Isabel--Já ámanhã!... Mas eu ainda não

escrevi...Como hade ser?

--Ainda tem v. s.ª muito tempo. Eu voltarei mais tarde, ou mandarei um

escudeiro procurar a carta--remediou o secretario.

--Jesus!--murmurou ella, com ademanes de afflicta.

--Que tem a sr.ª D. Maria?--volveu Cavide.

--Não sei... não sei em que termos heide escrever a meu marido...

--Comprehendo o seu embaraço... que em verdade é justificadissimo. Devo

dizer-lhe, senhora minha, que o que passou entre el-rei meu amo e v.

s.ª, me não é de todo estranho. Tambem eu, pensando durante a noite no

segredo que é mister haver, respeito á mercê que el-rei lhe faz, mal

posso ligar a ida de v. s.ª para Hespanha sem que seu marido conheça a

origem dos recursos, e até a real intervenção na remessa da carta. O sr.

D. João IV, meu amo, d'esta vez não conciliou a generosidade de seu real

animo, com a circumspecção que lhe é habitual. Quer-me parecer que v.

s.ª deu todo pezo ás considerações que sua magestade lhe fez, e eu

tambem tive a honra de ouvir-lh'as. Desde que o sr. Domingos Leite,

fugindo para Castella, deu ansa á calumnia que denigre a reputação de

sua mulher, parece, até certo ponto, que protestou diante do mundo não

receber mais em sua companhia uma esposa, que lá e cá--malditas

linguas!--passa por ter faltado á honra conjugal.

--Mentira!--interrompeu Maria Isabel assomada.

--Mentira atroz--assentiu Cavide--Sabe-o el-rei, sei-o eu, sabem-no os

ministros em cuja alçada corre a devassa; mas os praguentos querem que

as atoardas se propaguem bastante aleivosas para que lhes seja mais

farto o sêvo da maledicencia. A nossa questão não é a calumnia; é

sabermos como v. s.ª hade affrontal-a, como seu marido hade desfazêl-a,

se lhe quizer perdoar; emfim, como a sr.ª D. Maria, minha senhora, hade

illibar-se perante o mundo. Aqui é que bate o ponto. Por isso dizia eu

agora que comprehendo os embaraços em que v. s.ª hade achar-se no modo

de escrever a seu marido.

--Tem v. s.ª rasão.--confirmou Maria Isabel--Pensei n'isso tudo que me

disse, e estive duas horas a começar cartas e a rasgal-as, porque tudo

me parecia máo... não sei como heide sahir d'este aperto!...

--Peço venia para lhe dar um conselho...--disse Antonio Cavide,

erguendo-se, aproximando-se d'ella mais á puridade, e abaixando o tom da

voz.

--Faz-me v. s.ª um grande beneficio, se me aconselhar.

--Auctorise-me a sr.ª D. Maria a consultar el-rei, meu amo. Parece-me

que nenhuma deliberação lhe cumpre tomar sem ouvir o parecer de sua

magestade...

--Nem eu me atrevo a pensar coisa alguma em contrario das ordens d'el-rei.

--Mas--volveu o valido, depois de estar alguns minutos recolhido,

passando por sobre os dentes a unha do pollegar como se corresse um

teclado--Mas, se v. s.ª me promette segredo inviolavel com juramento...

--Prometto...--balbuciou Maria Isabel, tremula de alvoroço, entre

receosa e anciada de curiosidade, com os brilhantes olhos postos nos

beiços do secretario.

--Promette-me nunca, em tempo algum, em quaesquer circumstancias de sua

vida, revelar propriamente a el-rei o que lhe vou dizer?

--Sim... prometto...--affirmou ella.

Antonio de Cavide pegou da mão de Angela, e apontando-lhe um cofre de

madre-perola que estava sobre um contador no extremo da sala, disse-lhe:

--Vá a menina buscar aquella alfaia que desejo vel-a.

E, emquanto a menina foi, inclinou os labios ao ouvido de Maria Isabel,

e segredou-lhe:

--El-rei quer-lhe como não quiz a ninguem n'este mundo. A vontade do meu

real amo é que v. s.ª não vá para Hespanha; e eu, que conheço quanto

el-rei soffreria, se a sr.ª D. Maria partisse, rogo-lhe encarecidamente

que não vá.

A menina já estava ao pé do secretario com o cofre, quando Maria Isabel,

proferidas as ultimas palavras, pegou de enfiar e tremer a ponto que

Angela lhe disse assustada:

--Que tem, minha mãesinha, que está tão amarella?

E, ao mesmo tempo, o subtil alcayote, examinando os embrexados da caixa

japoneza, resmuneava:

--Que formoso lavor! que linda coisa!.. É alfaia do tempo do sr. rei D.

Manuel. Cá tem a esphera armilar! Bellissima joia!..

E, lançando de soslaio a vista a D. Maria, murmurou como se conversasse

com as figuras chinezas embutidas no cofre:

--Não cuidei que lhe dava novidade; nem que a novidade, se o fosse, a

inquietasse tanto! Seria triste se eu a magoava, pensando que lhe trazia

o maior contentamento que pode dar-se á primeira fidalga da côrte

portugueza.

Angela ouvia e não percebia as palavras, quando a mãe, abraçando-se

n'ella com estremecido affôgo, resudava nas palpebras cerradas uma, ou

talvez duas lagrimas que deviam ser--oh materialidade!--a cristalina

seiva das fibras do pudor, as quaes viriam a depauperar-se em resultado

d'aquelle perdimento de vida.

--Aqui tem, minha açafatasinha--ajuntou o secretario de estado,

entregando o cofre a Angela--Esta caixa cheia de perolas e diamantes não

valeria tanto como as duas lagrimas que sua mãesinha tem nos olhos. E eu

bem sei o coração em que ellas vão cahir e doer...

Maria Isabel permanecia com a face apoiada na mão, o cotovello no braço

da cadeira, os olhos velados pelas sedeudas pestanas, e com uma lagrima

que, derivando, se quedára tremula no canto dos labios.

Antonio Cavide ergueu-se e caminhou para onde tinha o chapéo emplumado.

Pegou d'elle, e sacudindo-o, á maneira de leque, entre as mãos, veiu ao

pé de Maria Isabel, que se havia levantado.

--Recebo as determinações da sr.ª D. Maria Isabel, minha senhora.

Mandarei ou virei em demanda da carta, quando se dignar ordenar-m'o.

--A carta?...--perguntou ella--Pois não me aconselhou que não escrevesse?

--Não ousei tanto, minha senhora; aconselhei-a tão sómente a que me

permittisse consultar el-rei meu amo; porém, depois do segredo que

confiei á sua honra, quanto aos sentimentos de sua magestade, e depois

de assistir á magua que taes sentimentos lhe occasionaram, receio que v.

s.ª não queira que o seu destino dependa da vontade d'el-rei...

--El-rei decerto não quer a minha desgraça...--balbuciou ella.

--Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do

céo lhe invejassem...

Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com

a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento.

E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da

cabeça de Angela, figurou-se-lhe vêr o rosto do marido, perdido por

ella, e, áquella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha.

Ai! aquella mãe e esposa presentiu que havia de escorregar á voragem das

deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem á

flor do seu pégo de lama uma corôa de rei!

O Regicida · 第 22 / 57 题