Na correntesa dos referidos casos passados em Lisboa, Domingos Leite
Pereira, desmentindo os informadores de D. João IV, vivia pouco menos de
obscuro, nos arrabaldes de Madrid, gastando restrictamente o que seu pae
lhe enviava com grande resguardo e difficuldade.
Ideára elle que sua mulher, quer por compaixão, quer a rogos de Angela,
lhe escrevesse, dizendo-lhe, ao menos, que a filha chorava. Esta dôr
filial quizera elle que lhe fosse desafogo ás suas.
Mentira o rei quando affirmára que Domingos Leite se pavoneava de
desmacular sua honra de marido, matando directa ou indirectamente o
padre. Nunca elle articulou o nome da mulher, nem consentira de boa
feição que lhe alludissem aos motivos da fuga. A Roque da Cunha rogava
que não deslustrasse o nome de sua innocente filha, divulgando as
affrontosas desventuras da mãe.
Mostrava-se muito commiserada da tristesa e soledade de Domingos Leite,
D. Vicencia Corrêa. Convidava-o miudas vezes a passar com ella, e
acintemente reunia em sua casa os filhos da marqueza de Montalvão, o
conde de Figueiró, Diogo Soares, o senhor de Regalados, e outros dos
muitissimos portuguezes que juraram fidelidade a Filippe IV. A fidalguia
rodeava-o de attenções, sem o desengolpharem da sua tristesa, nem,
sequer, o moverem à cortez condescendencia de negar a legitimidade de D.
João IV. Roque reprovava-lhe a ingratidão, a falta de tino politico, e o
perigo em que elle se expunha de não ter amigos em Portugal nem em
Castella. Respondia então o desterrado que os recursos de seu pae tanto
lhe davam um pão negro em Madrid como em qualquer outra parte do mundo;
e que tanto lhe fazia estar ali como em outro ponto da terra, pois, fóra
de Portugal, toda a terra lhe era exilio.
E accrescentava:
--Olha, Roque... Fui menos infeliz do que esperava, porque te vejo
contente em Madrid.
--Contentissimo--confirmou o enteado do desembargador--Tenho cem escudos
da junta dos portuguezes, cincoenta de meu padrasto, o nobilissimo
Guedelha; serei brevemente nomeado criado do paço; e, quando Portugal
voltar ao que era em 31 de novembro de 1640, uma das boas commendas do
teu marquez de Gouvêa, ou d'outro quejando rebelde, será minha!
--Bem fallado!--disse, sorrindo, Domingos Leite--Eu, no teu logar, ia
requerendo uma boa commenda em Hespanha, na incertesa do reviramento que
desejas em Portugal. Bem sabes quantas investidas tentam ha sete annos
os hespanhoes contra a nossa milagrosa independencia. Pergunta-o aos
melhores cabos de guerra: ao duque de Feria, ao marquez de Castroforte,
ao conde de Monterey, ao marquez de Mollingen, ao marquez de Torrecusa...
--_Et c½tera_...--atalhou Roque da Cunha--Espera-lhe pela volta. O duque
está sem dinheiro e sem gente. Se não fosse o judeu Jeronymo Dias, não
haveria fôlego dinheiroso que lhe desse vinte cruzados pelas lettras de
cambio.
Esta replica era tristemente verdadeira. Quando D. João IV necessitou
comprar em Amsterdão petrechos de guerra, ninguem lhe quiz honrar a
firma; por maneira que as lettras foram apregoadas na praça, para serem
protestadas. N'esta conjunctura, o hebreu expulso, Jeronymo Dias da
Costa, resgatou do opprobrio o nome do rei e talvez a honra da patria,
pagando as lettras e abrindo os seus thesouros á causa da independencia
da nação, que lhe queimava os parentes. E tão grandemente qualificou D.
João IV este serviço, que despachou Jeronymo Dias com a patente de seu
ajudante, honra que o successor na corôa confirmou em Alexandre e Alvaro
Nunes da Costa, filhos do hebreu; mas, no seguinte reinado, D. João V
não consentiu que o emprego se desse ao neto por ser judeu, _como se seu
pae e avós fossem christãos_, diz com ironica elegancia D. Luiz da
Cunha.[6]
Domingos Leite não redarguia triumphantemente aos argumentos de Roque,
senão recorrendo-se dos factos mais eloquentes que as hypotheses.
Todavia, o animo abatido e desvigorisado para contendas politicas
esquivava-se a disputações.
Em horas de desalento, a só no seu retiro, escrevia cartas ao marquez de
Gouvêa, todas alheias da guerra travada entre as duas nações no mais
alto ponto de encarniçamento. Eram lastimas de pae, por onde se
transluzia a esperança de apiedar com ellas D. João IV. Taes cartas ou
não chegaram ao conhecimento do mordomo-mór, ou o estadista meticuloso
as inutilisou, por entender quanto seria malogrado o intento com el-rei.
O marquez espiava os passos surdos de Antonio Cavide, e usava traças de
lhe explorar o recesso da alma, durante o postre de um jantar bem
lardeado de taças. Se o fidalgo farejára um segredo, cuja revelação iria
angustiar o desterrado, nobre e caritativo era o silencio; e boa prova
de amisade seria têl-o afastado do reino por modo que ignorasse sua
deshonra, e o derradeiro golpe lhe não fosse vibrado por mão de um amigo.
Em frustradas esperanças de perdão ou sequer de resposta, ás suas
cartas, passaram tres acerbos mezes na vida erma e desconfortada do pae
de Angela.
Em começo do mez de abril de 1647, appareceu em Madrid um portuguez,
foragido ao santo officio; e, sabendo acaso que Domingos Leite Pereira
estava ali homisiado e pobre, bem que de leve se conhecessem, procurou-o
para lhe offerecer quinhão da sua abundancia.
Francisco Mendes Nobre, que assim se chamava o christão-novo,--e então
orçava por vinte e cinco annos--conhecia de vista Maria Isabel; e, como
residisse perto do Salvador, muitas vezes vira a menina com sua mãe.
Consolação immensa para o saudoso pae ir ali um enviado da Providencia
fallar-lhe de sua filha, da sua bellesa, dos anneis dos seus cabellos,
da côr dos seus mantos, da graça do seu andar, e até da pallidez das
facesinhas, onde parece que as lagrimas haviam arado o frescor da puericia!
Domingos Leite chorou nos braços d'este quasi desconhecido que de
sobresalto lhe senhoreára o coração.
E Francisco Mendes, captivo da expansão de Domingos Leite, animou-o a ir
secretamente a Portugal buscar a filha, facilitando-lhe recursos
abundantes para a empresa, e dinheiro em Madrid para subsistencia de
ambos, a não querer Domingos Leite acompanhal-o para Hollanda. Alem
d'isso, deu-lhe duas chaves de dois predios em Lisboa, dizendo-lhe:
--Tem vm.ce esta chave que é da minha casa na rua dos Vinagreiros, e
est'outra da casa em que eu morava na rua das Olarias.[7]
Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas
sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, vá
esconder-se na outra: isto é no caso de que o santo-officio as não haja
sequestrado; mas presumo que não, por que eu, apenas soube que um meu
parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portatil dos
meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de
S. Lourenço, que é um honrado christão velho, desde que o hebreu Lafeta
conquistou foros de christão mais velho que o proprio Christo.
(_Nota 21.ª_)
O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu
amigo, despenhava-o da esperança na ultima paragem da perdição.
Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu designio.
--O diabo arma-as!--contraveio Roque--Não vás, doido! Tu não sabes onde
te vaes metter... Olha que em Lisboa já se sabe que és cavalleiro de
Christo em Hespanha, e que os ministros de Filippe IV são teus amigos.
--Mal os conheço...
--Porque foges d'elles, ingrato! e foges d'elles porque a tua perdição
te chama a Portugal.
--O que Deus quizer. Não me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me
prenderem, se me matarem, é-me indifferente acabar de um golpe ou
agonisar n'esta arrastada tortura da saudade. Um favor te peço.
--Que vá comtigo? Nego-me. Matei um homem, por que a tua honra m'o
exigiu; deixar-me agora matar, porque és um fraco, um piegas, que não
póde viver sem a filha, isso é que não assigno.
--Espera, homem, que eu ainda te não disse o que pretendia--replicou bem
humorado Domingos Leite.
--Dize lá, então.
--Quero que obtenhas uma ordem para que o marquez de Molinguen,
governador das armas em Badajoz, me dê passo franco para Portugal.
--Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres?
--Não. Achei aqui um portuguez que me soccorreu, um christão-novo.
--E despresas os soccorros dos christãos-velhos! Ora queira Deus que o
tal judeu te não leve ao calvario como fizeram ao seu rei. Como se chama
elle?
--Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella.
--E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha?
--E para meu pae que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos
dominicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha deshonra,
revelei-t'os; os da consciencia alheia não devo, nem posso.
--Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a
perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena?
--Não. O juro das esmolas recebe-se no ceu.
--A pagal-os lá, todas as burras judaicas da Hollanda vazaria eu
a juro de 200 por cento ao mez!--volveu cascalhando Roque, e
accrescentou:--Quando partes?
--Logo que me obtenhas a ordem para o general.
--Vou tratar d'isso. Entretanto, pensa, Domingos Leite! Que plano levas?
--Por emquanto, nenhum.
--Raptas a pequena, e foges?
--Não: se poder convencerei Maria Isabel a deixar-m'a.
--Se o conseguires, serás feliz; mas duvido que a mãe te dê a pequena.
Se tua mulher quizer acompanhar-te, vem?
--Não.
--Bom será isso; que, se a trazes, depois que a devassa esclareceu a
morte do padre, tão infamada está ella em Portugal como em Hespanha.
--Sei o que devo á minha dignidade, Roque. O rubor das minhas faces não
hade aquecer a dos meus amigos.
--É o que todos desejamos. Vou em teu serviço. O mais tardar ámanhã,
terás a ordem do ministro valido D. Luiz de Haro.