Maria Isabel, querendo passar a Castella, offereceu os seus predios da
Tanoaria a varios compradores que lh'os haviam desejado; mas a alienação
dos bens seria nulla sem consenso do marido, e nulla tambem em quanto
elle não houvesse respondido á justiça, que o esbulhára dos seus direitos.
Recorreu a dama ao mordomo-mór, que não antevira o embaraço, nem podia
removêl-o. A consternada senhora sahiu do gabinete do marquez,
desattendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o
resultado da intervenção de um ministro mais influente no real animo. O
mordomo-mór lembrara-se de Antonio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de
D. João IV.
Seguiu d'alli, com a filha, para o paço da Ribeira, e entrou no Arco de
Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim
porque debaixo d'aquelle arco havia entrada franca de serventia para uma
casa onde estava uma roda, como a das portarias monasticas, e sobre a
roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo
que a campainha tocasse, D. João IV enviava alguem a reconhecer a
pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquelle
meio menos ordinario.
Estava o rei com Antonio de Cavide na sua pomposa bibliotheca de musica,
situada na porção do palacio chamada o _Quarto do Forte_, quando ouviu
tanger a sineta.
--Vá ver quem é--disse o rei sorrindo--Olhe que não vá ser algum burro
lazarento...
Emquanto o secretario de estado vai e volta, saibamos que allusão é
aquella do burro lazarento, visto que Diogo de Paiva e Andrade no'l-a
transmittiu nas suas _Memorias_, por vezes citadas n'este livro. Foi que
uma vez entrara um jumento vadio no recinto da sineta, e começou a
trincar a corda no intento provavel de a comer. Ora como a sineta
repicava tão ligeira quanto a fome do tangedor esgarçava no cordel, D.
João IV, que estava só, e extranhára o pressuroso dos toques, desceu
pessoalmente á casa da roda, e perguntou quem era. Como ninguem lhe
respondesse, mandou averiguar se a pessoa que tocára já teria subido á
saleta de espera. O enviado voltou annunciando a sua magestade que
encontrara um burro muito magro. El-rei ordenou logo que o levassem ás
cavallariças reaes, com recommendação de o tratarem fartamente; e
accrescentou; «Semelhante pretendente não póde ter outro requerimento.»
Não me consta que D. João IV, em toda a sua vida, dissesse ou fizesse
coisa de tanto espirito. A não ser coevo de sua magestade aquelle burro
faminto, morreriam ambos ignorados, sendo digna de escriptura a
lembrança que os dois tiveram.
Voltou no entanto Antonio Cavide com ridentissimo semblante, e disse:
--Mal pensava eu, real senhor, quando ha pouco tentava pintar o esbelto
rosto da mulher de Domingos Leite, que ella tão perto estava de
desmentir na presença de vossa Magestade a pallida copia que eu fiz!...
--Foi ella que tocou?!--acudiu o rei entre alegre e maravilhado.
--Ella, meu senhor, acompanhada da filha. Pede audiencia; e, apezar de
coberta de lagrimas, nunca houve orvalho que aljofarasse mais purpurinas
rosas!..
--Estou a ver se me falla em verso, Cavide!--disse o rei escondendo a
custo a commoção da curiosidade--Mande-as entrar na primeira sala.
O secretario de estado correu o reposteiro da sala de espera e disse a
Maria Isabel:
--Sua magestade houve por bem admittir a vossa mercê á sua real
presença; queira entrar n'esta sala, e esperar el-rei nosso senhor.
A esposa de Domingos Leite com difficuldade se sustinha nas pernas,
chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito
como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se d'ella olhando-a com
susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapeçarias e colgaduras
de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quaes lampejavam
contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de
tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes,
jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos
jardins do paço da Ribeira, redomas de christal, relogios de Inglaterra
com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas
n'aquelle palacio, que já então pompeava primasias sobre as mais
esplendidas côrtes da Europa, graças á baixella da duquesa de Mantua,
que nunca lhe foi restituida.
Posto que o tapete abafasse as passadas d'el-rei, Maria Isabel ouviu-o
nas palpitações do coração; e já estava em joelhos, quando um sumilher
da cortina correu o reposteiro com um ringido de aço estridente que,
digamol-o assim, aggravava mais o terror do lance.
D. João IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da
ampla porta; e, n'este conflicto, a filha do burguez João Bernardes
Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante
que cobria a cabeça da menina.
Orçava então o rei pelos quarenta e tres annos. Não obstante as bexigas,
que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava
vivacissima a graça dos olhos azues, mais risonhos que os labios, nos
escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da
violenta caracterisação de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo
de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de
inclemencias de tempo, quando nas monterias da tapada de Villa-Viçosa
dispendia selvaticamente os melhores annos da existencia. Dá a perceber
o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no _Portugal Restaurado_, que
D. João era tão desregrado na alimentação que anticipara a caduquez do
corpo. O historiador aulico, se lhe dessem trella, e alforria no
pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que
rustico e sujo, communicar-nos-hia a intemperança do espadaúdo sugeito,
cevando-se nas lubricidades que adelgaçam as mais maçorras e rijas
compleições.
Não se pense, porem, que o rei de Portugal n'aquelle dia trajasse
immundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hydropesia.
Vestia um _pourpoint_ (gibão) de panno preto, refegado no peito, sem
guarnições até baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da
camisa derrubada sobre a gola d'aquella vestimenta que muitas vezes
usava, da vil droga chamada estamenha. (_Nota 20.ª_)
Os cabelos loiros, mas tosquiados quasi rentes, descampavam-lhe a
fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a
sciencia phrenologica de Spurzheim não fosse um lôgro nas cabeças da
raça dos braganças, não collaboradas.
Calçava meia de sêda escura e sapato de veludo com um simples botão, sem
os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e até
os pecuniosos da classe média se ajaesavam.
Como já vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e
perturbadissima a entrada d'el-rei.
Caminhando a passo vagaroso para ella, D. João IV parou a pequena
distancia, e disse-lhe:
--Levantae-vos, senhora!
E como ella permanecesse em joelhos e anciada, o rei insistiu:
--Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adoração.
Vamos! a pé!
Sua magestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa,
mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do
quadrupede da sinêta; mas não o arguamos de canhêstro ou pecco de
phrases, dado que, a respeito da sua eloquencia, o referido conde da
Ericeira nos diga que não costumando o rei a empregar as _palavras mais
polidas, usava d'ellas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia
fazia estudo do que em outros podera ser defeito_.[4]
D'esta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de
mero homem em presença da mulher que ultrapassava toda a bellesa imaginada.
Maria Isabel, apesar de ter meia face vellada no rebuço do
capotilho--descortezia que ella ignorava por desconhecer ceremonias
palacianas--deixava metade do rosto aos deleites da admiração, e a outra
metade á curiosidade dos desejos, como diria na sua rhetorica farfalhuda
Antonio Cavide.
Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado,
acercou-se mais o rei, e poz a mão na face de Angela, dizendo:
--És muito galante, menina!
A mãe relançou a vista menos timida á face de D. João, e, como lhe
encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a creança, absôrta
na contemplação do rei.
--Sentae-vos, senhora--continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando
de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguem lhe
espreitava tão insolita cortezia ou tamanho abatimento da magestade.
--Se vossa magestade não quer ouvir-me de joelhos, peço que me deixe
supplicar de pé a sua misericordia--balbuciou Maria.
--Sentae-vos e dizei. Tudo que o rei poder fazer-vos sem gravame da
justiça e direito de seus vassallos, ser-vos-ha feito. Vindes pedir-me
que absolva vosso marido de um crime publico? não sou eu quem hade
sentencial-o ou absolvel-o.
--Não peço tanto a vossa magestade, meu Senhor...
--Que quereis então?
--Ir com minha filha para Madrid.
--Quereis ir para Domingos Leite?--perguntou o rei com estranhesa.
--Sim, real Senhor.
--É elle que vos chama?
--Saberá vossa magestade que eu, desde que elle partiu, nunca mais tive
noticias suas.
--Apezar d'isso, quereis ir... Quem vos priva?
--Quiz vender parte dos meus bens, e a justiça não m'o permitte nem
permittirá ainda que meu marido assigne os contractos.
--Porque é essa a lei dos criminosos--volveu gravemente o rei--Vindes
pedir-me que submetta a lei á minha vontade particular? O que não posso
fazer como homem, n'este caso, tambem o não posso fazer como principe.
Eu não subordino a justiça: sou-lhe subordinado. Porém, como homem,
poderei prestar-vos um serviço, se o quizerdes acceitar. Dar-vos-hei
meios para irdes a Castella; e emquanto lá os carecerdes, remediar-vos-hei.
Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarcha. Brilhavam-lhe as
lagrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo
timido de vassallo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha.
--Eu queria--murmurou ella--levar a meu marido o que herdei de meus
paes; mas agradeço a vossa magestade a esmola que me offerece.
--Não é esmola; é emprestimo. Quando a sentença remover os estorvos que
vos privam de vender os bens, então me pagareis. Entretanto, sabeis se
vosso marido vos receberá graciosamente?
--Não sei, meu senhor...
--Ouvi dizer que elle, desde a morte de certa pessoa, vos não fallára
mais. É verdade?
--Sim, meu senhor.
--E esse despreso não impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira,
porque a vossa sorte me está prendendo extraordinariamente a attenção.
Amaes Domingos Leite?
Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embaraço:
--Casei com elle por paixão, e foi a paixão que me cegou...--e aqui
reteve-se vexada e confusa.
--Sei o que vos custa a dizer:--acudiu o rei--passae adiante, Maria Isabel.
A suavidade com que D. João proferiu os dois nomes parecia arrasar uma
alta barreira, erecta entre os desiguaes interlocutores. Aquelle tom de
benevola confiança--o vêr ella seu nome na memoria d'el-rei--deu-lhe
umas largas á alma, uns assomos de vaidade, um desafôgo analogo ao dos
pulmões que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadiço.
--Dizei,--proseguiu elle--O desamor com que Domingos Leite recusou
perdoar-vos uma culpa, que devia ser attenuada pela innocencia com que a
praticastes, foi causa a que a vossa paixão se desvanecesse... Errei o
meu juiso?
--É verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em acceitar o seu
galanteio; mas não o seria... se não fosse tão innocente.
--Ainda assim, é compaixão ou amor que vos resolve a procural-o em
Hespanha?
--É esta creança que chora por elle; e é a afflicção que eu sinto quando
me lembro das afflicções com que meu marido se separou da filha...
--E de vós, não?!--redarguiu elle com perfida admiração.
--Parecia querer perdoar-me n'essa hora...
--Bem. Perguntae-lhe se vos perdôa. Se elle vos disser que sim, ide, e
contae commigo. Lembro-vos, comtudo, que em Madrid Domingos Leite é
recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e
que o sr. D. Filippe IV, attendendo aos merecimentos de tal façanha, o
honrou com o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Não sei se elle
vos acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se
derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão
mal considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu
marido.
--Esse boato é uma calumnia, senhor!--exclamou ella com os olhos sêccos
e o rubor nas faces.
--Não m'o digaes a mim, que eu já vol-o disse. Li o processo com o maior
empenho; quiz salvar vosso marido; já vêdes que se alguem duvida da
vossa innocencia de esposa, não sou eu. Como quer que seja, em materia
tão melindrosa, não sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza.
Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e dê a carta ao meu
secretario de estado Antonio Cavide, que elle a fará entregar
directamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-ha entregue.
--Ah!--suspirou a formosa--se o meu nome anda tão infamado em Madrid,
meu marido não me responde... Elle desprezava-me, quando toda a gente
ignorava a minha desgraça; que fará agora que é maior deshonra para elle
reconciliar-se commigo!..
--Quem sabe? O coração humano faz mudanças de que não sabemos dar causa
nem rasão. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje,
que amanhã Antonio Cavide, ou alguem com recado seu, irá procurar vossa
carta.
E, voltando-se para a menina, perguntou:
--Como te chamas, linda?
--Angela--respondeu a creança.
--Criada de vossa magestade--accrescentou a mãe muito desvanecida da
regia curiosidade.
--Pois que dizeis que é minha criada--volveu D. João IV--minha criada
fica sendo desde hoje, e virá exercer o seu officio, quando a edade lh'o
permittir. No emtanto, o seu nome será registrado no livro das açafatas
da rainha, desde já.
--Ajoelha a sua magestade, e pede-lhe licença para lhe beijar a
mão--disse Maria Isabel com transporte.
O rei colheu a menina nos braços, e disse:
--Eu é que lhe beijo estas duas rosas do rosto, que fazem lembrar os
cherubins. Uma reflexão--proseguiu o rei de subito--não diga Maria
Isabel a seu marido que eu nomeei sua filha criada do paço. Seria muito
dolorosa para mim semelhante nova dada a um homem, que não póde ser
galardoado emquanto não fôr absolvido. Tendes entendido?
--Esteja vossa magestade segurissimo de que eu não direi que fallei a
vossa magestade.
--Ainda melhor, ainda melhor. Nem uma palavra que prenda commigo.
Maria levantou-se indecisa se lhe cumpria despedir-se ou ser despedida
d'el-rei.
--Quereis sair? Esperae,--disse D. João--que eu vou mandar-vos o meu
secretario de estado para vos acompanhar á liteira.
--Vim a pé, real senhor.
--Ah! sim? Não obstante, esperae.
Sahiu o rei, beijando outra vez Angela, e deteve-se breves minutos com o
secretario, que sahiu a dar ordens a um pagem, que as foi transmittir a
um moço da estribeira.
Voltou Cavide outra vez á presença do amo.
D. João IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa
fronte, clamava enthusiasta:
--Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquez... Não ha dama no paço
que lhe ganhe!.. Oh! que soberba creatura! tem musica na voz a
feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada!
Cavide ria-se e esfregava as mãos.
--Isto não é para rir, meu caro!..--obstou o rei--Querem vêr que eu
estou apaixonado!..
N'este lance grave, que as expressões do rei e a cara do valido tornavam
ridiculo, o pagem disse por detraz do reposteiro que o moço da
estribeira enviára dizer que a liteira das açafatas estava no pateo do
norte.
--Vá! ordenou o rei ao secretario.
Antonio Cavide entrou na sala, onde ficára Maria Isabel, e inclinando a
cabeça, disse:
--Sigam-me vossas senhorias.[5]
E, descendo ao pateo onde estava a liteira com lacaios de libré da casa
real, deu a mão a Maria Isabel para ajudal-a a subir.
--Eu vim a pé...--gaguejou a mulher de Domingos Leite, não percebendo o
convite do fidalgo.
--Sei isso; mas sua magestade manda conduzir na competente liteira a sua
açafatasinha e mais sua mãe, muito minha senhora.
E, ao mesmo tempo que dizia isto mui galãmente, tomou Angela nos braços,
e sentou-a no almadraque inferior; depois, offereceu o hombro á mãe,
fechou a portinhola, e disse ao lacaio da frente:
--A casa de suas senhorias é na Porta do Salvador.
A liteira partiu com as cortinas fechadas. O instincto do pejo imprimira
aquelle impensado impulso ao braço da mulher do expatriado.
E D. João IV, que de uma janella que abria sobre o terreiro, presenciára
o fecharem-se as cortinas da liteira, dizia depois a Cavide:
--Aquelle recato pagára-lh'o eu com milhões, se o meu coração não
valesse mais que elles!...
O confidente ouviu isto com a maior circumspecção.
O castigo supremo dos validos é não poderem escancarar sinceras
gargalhadas nas faces dos reis.