O que o leitor sabe sobejamente da historia seria impertinencia
repetir-lh'o no romance.
A revolução de 1640 é tão fallada, desde a escola de instrucção primaria
até ás festividades rhetoricas de cada 1.º de dezembro, que a pessoa
intelligente em cuja mão este livrinho tem o prestimo de a livrar de ler
outro peor, me está pedindo que dê vivas á independencia nacional e
passe ávante.
Seja assim, para agradar a V. Ex.ª e não defraudar historiadores que não
tem, quando historiam, analoga consideração com os novellistas.
O duque de Bragança era já D. João IV; e Domingos Leite Pereira, desde
Janeiro de 1641, era escrivão da correição do civel da corte, logar que
rendia para mais de trezentos mil reis--quantia valiosissima n'aquelle
tempo. Além d'isso fôra-lhe facultado arrendar o officio e continuar
exercendo o posto de secretario do marquez de Gouvêa, mordomo-mór de
el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquez, indo
semanalmente á côrte, levava comsigo no coche o seu secretario: e bem
que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admittiu ao
gabinete de despacho o diserto moço folgando de o ouvir remedar alguns
bassos e tiples da capella real da princeza Margarida. É notorio que D.
João IV foi muito caroavel de musica; e, sendo analphabeto em quasi
tudo, publicou em 1649 uma _Defesa da musica_ em lingua castelhana, para
dar bom exemplo de patriotismo aos escriptores coevos. (_Nota 6.ª_)
Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a
distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte trez annos,
esbelto, valoroso, bemquisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os paes
d'estas meninas viam o escrivão da correição do civel, o secretario do
conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes.
Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de
tantos meritos! nem fama publica de vicios, em epoca tão eivada da
corrupção da mocidade! Bastava a honrar-lhe os creditos de bom christão
ser elle sobrinho de fr. Gaspar de Sancta Thereza, já prior de
franciscanos, e tão bom patriota que havia sido elle o primeiro que déra
a ideia de despregar o braço de Jezus crucificado afim de persuadir ao
povo revolto no 1.º de dezembro que a imagem do Redemptor desencravára a
mão da haste da cruz para abençoar o povo que lhe estendia os devotos
braços banhados de sangue!
O manuscripto que vai architectando este livro, ao entrar no periodo
amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: «sahiram-lhe muitos
cazamentos.» E, nomeando algumas noivas de nascimento illustre, repára e
nota que o escrivão do civel se esquivasse a aparentar-se com familias
primaciaes regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito
parenta da casa de Bragança e descendente de reis. (_Nota 7.ª_)
Passava então por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em
Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, João
Bernardes, de alcunha o _Traga-malhas_. Aos quinze annos era a moça tão
tentadora, os fidalgos tão tentadiços, e a honra das familias tão
menosprezada, que a mãe de Maria Izabel fez voto ao sancto Antonio de
fr. Bartholomeu dos Martyres accender-lhe luz toda a noute para que lhe
vigiasse a filha emquanto ella fosse solteira: tamanha era a falta de
illuminação e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! (_Nota 8.ª_)
Como era filha unica e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em
moeda, Maria teve mestre de escripta em casa--um padre de boa fama, do
qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e
esclarecida, por consequencia um optimo cazamento para filho segundo de
caza illustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite.
Foi o tio fr. Gaspar quem lhe fallou o cazamento, por ser muito da
familia Traga-malhas, e director espiritual da mãe da noiva.
Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de
cazar-se; porém, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas
palavras tão candidas que mais o pareciam pelo que o rosto respiráva de
amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.
No entretanto, quando tudo era alegria na familia, Maria Isabel
escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao sancto Antonio do
sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante,
formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e então
verá que tal era elle que o sancto, se o não fez, foi por que realmente
não pôde.
O escrivão do civel da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos
invejosos, quando annunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e
redobrou a inveja das congratulações ao saber-se que o rico tanoeiro
dotára a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente
computarmos o valor de dez mil cruzados n'aquelle anno de 1642, basta
saber-se que, no anno anterior, o mais opulento negociante de Lisboa,
Pedro de Baeça, thesoureiro da alfandega, condemnado á morte em
supplicios atrozes, como cumplice na conjuração de alguns fidalgos
contra D. João IV, offereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta
mil cruzados!
Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo
rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquez
de Gouvêa assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano
deu a benção nupcial aos conjuges, e uma preciosa gargantilha de
diamantes á esposada, por ordem de sua irmã, e de seu cunhado, pais do
desposado.
Principiou na alcôva conjugal, quando os anjos do amor e da ventura
deviam vedar os umbraes d'ella á tristeza e á desgraça, uma secretissima
lucta de desconfiança e lagrimas, de invectivas affrontosas e juramentos
de mãos erguidas. Quem diria que, áquella hora alta da noite, uma
formosa mulher, com as tranças desatadas em serpentes pelas espaduas
convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lagrimas, soluçava:
--Eu te juro que nunca amei outro homem! Não intendo as perguntas que me
fazes! Fui creada no regaço de minha mãe! Nunca sahi de casa senão para
a igreja, e sempre com minha mãe! Os homens que para mim olhavam uma vez
não me tornavam a ver... Não me perguntes se amei alguem n'este mundo,
que mettes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no
Tejo com a minha vergonha!..
Já se vai vendo que o padre Sancto Antonio do nicho assistia de longe e
neutral a este lance.
A luz do dia seguinte não alvorejou na alma entenebrecida de Domingos
Leite Pereira. Apenas rompeu a manhã, o noivo sahiu do thalamo como de
um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre
de pharmacia Estevão de Lima. Admittido á escrevaninha do matutino
boticario do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anceio de
intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse
elle ao sabio em poucas e tartamudas palavras a ignorancia que o
atormentava.
Estevão de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os oculos da testa sobre o
promontorio do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas
estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia
sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou
João Rodrigues de Castello Branco) Abraham Nehemias, Thomaz Rodrigues da
Veiga, Antonio Luiz, João Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Affonso
Rodrigues de Guevara.
Quando desempoava o ultimo, affirmou o douto boticario:
--Este physico é chavão na materia, se bem me recordo.
E, percorrendo a lista alphabetica das coisas notaveis, poz o dedo
infallivel na questão subjeita, e disse ao offegante interlocutor:
--Veja isso a paginas 488, columna 1.ª
O contheudo da columna 1.ª da pagina 488 da obra admiravel, chamada _De
re anatomica_, não se reproduz, em respeito ás damas que se dispensam de
saber anatomia, apezar da senhora Deraisme, certa adversaria conspicua
de Dumas, para a qual o saber sciencias da organisação humana é coisa
util ás damas maridadas.
Qualquer que fosse, porém, o contexto da pagina consoladora, é certo que
na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria,
e tanto era o desafogo, e desoppresso o respirar do moço, que se abraçou
no seu antigo mestre, exclamando:
--Vossa mercê apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da mão o ferro
uxoricida!
--Ó mentecapto!--volveu Estevão de Lima--Quem querias tu matar?!
--Ella que me infamára aos olhos do homem que m'a atirou aos braços com
uma gargalhada!
--Sobre infamado, matador!--acudiu Estevão--Ruim philosopho és, Domingos
Leite! Se o meu auctor Guevara te não defendesse a esposa com o escudo
da phisica, ainda assim deveras christã e honradamente desligar de ti a
mulher indigna, e salvar tua honra interpondo o juizo do mundo como juiz
na tua causa. A sentenciada seria ella; e tu, se fosses lastimado, não
perderias com isso o direito á veneração dos homens de bem.
--Excellentes rasões...--atalhou Domingos Leite;--mas, sr. Estevão, se
eu um dia fôr enganado, não me dê essas nem outras melhores, que eu não
lh'as escutarei...
Discorreram sobre o assumpto breve espaço, porque Domingos Leite anciava
reconciliar-se com a esposa, pedir-lhe perdão da injuria, indemnisal-a
das perguntas ultrajantes com affagos de noivo apaixonado e repêzo da
injustiça.
Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre, e a surpresou
enfardelando nos bahús os seus vestidos.
--Que fazes?!--perguntou elle já de má sombra.
--Arranjava a minha roupa...
--Com que intento?
--De me voltar a caza de meu pai.
--Fugindo?
--Fugindo, não; livrando-te da mulher innocente que tu cobriste de
affrontamentos.
Demudou-se-lhe o semblante em ares supplicantes, e dobraram-se-lhe os
joelhos aos pés da esposa illibada pela pagina 488, columna 1.ª, do
livro _De re anatomica_ do physico thaumathurgo Affonso Rodrigues de
Guevára.
--Perdoas-me?--balbuciou Domingos Leite, ungindo-lhe a cara de lagrimas.
E ella, que ainda tinha pudor na consciencia, sentiu embargar-se-lhe na
garganta a palavra que perdoava, e ajoelhou tambem apertando-o
freneticamente ao coração.
Amaram-se em redobro desde aquelle momento: elle porque offendera uma
innocente; ella... porque o sancto Antoninho do nicho lhe fizera afinal
o milagre. «E, se não era milagre, diria ella comsigo, onde foi meu
marido desfazer as suas suspeitas? quem o despersuadiu?»
Nós é que sabemos como foi.