ausencia da ultima lettra do nome Nebraska. Porque motivo foi elle
escripto incompletamente? Não se póde dizer que por fadiga ou amor da
brevidade, pois só falta a ultima lettra, um simples _a._ Carencia de
espaço? Tambem não; vede; ha ainda espaço para duas ou tres syllabas.
Logo, a falta é intencional, e a intenção não póde ser outra senão
chamar a attenção do leitor para a lettra _k_, ultima escripta,
desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um effeito mental, que
nenhuma lei destruiu, a lettra reproduz-se no cerebro de dois modos,
a fórma graphica, e a fórma sonica: _k_ e _ca._ O defeito, pois, no
nome escripto, chamando os olhos para a lettra final, incrusta desde
logo no cerebro esta primeira syllaba: _Ca._ Isto posto, o movimento
natural do espirito é ler o nome todo; volta-se ao principio, á inicial
_ne_, do nome _Nebrask._--_Cané._--Resta a syllaba do meio, _bras_,
cuja reducção a esta outra syllaba _ca_, ultima do nome Caneca, é a
cousa mais demonstravel do mundo. E, todavia, não a demonstrarei,
visto faltar-vos o preparo necessario ao entendimento da significação
espiritual ou philosophica da syllaba, suas origens e effeitos,
phases, modificações, consequencias logicas e syntaxicas, deductivas
ou inductivas, symbolicas e outras. Mas, supposta a demonstração, ahi
fica a ultima prova, evidente clara, da minha affirmação primeira pela
annexação da syllaba _ca_ ás duas _Cane_, dando este nome Caneca.
A lei emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova
testemunhal e interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma
innovação, o córte simultaneo de meia pollegada na altura e outra
meia na largura do sacco. Esta emenda não evitou um pequeno abuso na
eleição dos alcaides, e o sacco foi restituido ás dimensões primitivas,
dando-se-lhe, todavia, a fórma triangular. Comprehendeis que esta fórma
trazia consigo uma consequencia: ficavam muitas bolas no fundo. D'ahi a
mudança para a fórma cylindrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma
ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triangulo, e
então adoptou-se a fórma de um crescente, etc. Muitos abusos, descuidos
e lacunas tendem a desapparecer, e o restante terá egual destino, não
inteiramente, de certo, pois a perfeição não é d'este mundo, mas na
medida e nos termos do conselho de um dos mais circumspectos cidadãos
da minha republica, Erasmus, cujo ultimo discurso sinto não poder
dar-vos integralmente. Encarregado de notificar a ultima resolução
legislativa ás dez damas, incumbidas de urdir o sacco eleitoral,
Erasmus contou-lhes a fabula de Penelope, que fazia e desfazia a famosa
teia, á espera do esposo Ulysses.
--Vós sois a Penelope da nossa republica, disse elle ao terminar;
tendes a mesma castidade, paciencia e talentos. Refazei o sacco, amigas
minhas, refazei o sacco, até que Ulysses, cançado de dar ás pernas,
venha tomar entre nós o logar que lhe cabe. Ulysses é a Sapiencia.
[1]Este escripto, publicado primeiro na _Gazeta de Noticias_, como
outros do livro, é o unico em que ha um sentido restricto:--as nossas
alternativas eleitoraes. Creio que terão entendido isso mesmo, atravez
da fórma allegorica.
FIM DA SERENISSIMA REPUBLICA
O ESPELHO
ESBOÇO DE UMA NOVA THEORIA DA ALMA HUMANA
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, varias questões de
alta transcendencia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor
alteração aos espiritos. A casa ficava no morro de Santa Thereza, a
sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se mysteriosamente
com o luar que vinha de fóra. Entre a cidade, com as suas agitações
e aventuras, e o céu, em que as estrellas pestanejavam, atravez de
uma atmosphera limpida e socegada, estavam os nossos quatro ou cinco
investigadores de cousas metaphysicas, resolvendo amigavelmente os mais
arduos problemas do universo.
Porque quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que fallavam; mas,
além d'elles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja esportula no debate não passava de um o outro resmungo
de approvação. Esse homem tinha a mesma edade dos companheiros, entre
quarenta e cincoenta annos, era provinciano, capitalista, intelligente,
não sem instrucção, e, ao que parece, astuto e caustico. Não discutia
nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a
discussão era a fórma polida do instincto batalhador,. que jaz no
homem, como uma herança bestial; e acerescentava que os seraphins e os
cherubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual
e eterna. Como désse esta mesma resposta maquella noite, contestou-lh'a
um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz.
Jacobina (assim se chamava elle) reflectiu um instante, e respondeu:
--Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, succedeu que este casmurro usou
da palavra, e não dous ou tres minutos, mas trinta ou quarenta. A
conversa, em seus meandros, veiu a cair na natureza da alma, ponto que
dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença;
não só o accordo, mas a mesma discussão, tornou-se difficil, senão
impossivel, pela multiplicidade de questões que se deduziram do tronco
principal, e um pouco, talvez, pela inconsistencia dos pareceres. Um
dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião,--uma conjectura,
ao menos.
--Nem conjectura, nem opinião, redarguiu elle; uma ou outra póde dar
logar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem
ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que
resalta a mais clara demonstração acerca da materia de que se trata. Em
primeiro logar, não ha uma só alma, ha duas...
--Duas?
--Nada menos de duas almas. Cada creatura humana traz duas almas
comsigo: uma que olha de dentro para fóra, outra que olha de fóra para
dentro... Espantem-se á vontade; pódem ficar de bocca aberta, dar de
hombros, tudo; não admitto replica. Se me replicarem, acabo o charuto
e vou dormir. A alma exterior póde ser um espirito, um fluido, um
homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Ha casos, por exemplo,
em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa;--e
assim tambem a polka, o voltarete, um livro, uma machina, um par de
botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o officio dessa
segunda alma é transmittir a vida, como a primeira; as duas completam
o homem, que é, metaphysicamente fallando, uma laranja. Quem perde uma
das metades, perde naturalmente metade da existencia; e casos ha, não
raros, em que a perda da alma exterior implica a da existencia inteira.
Shylock, por exemplo. A alma exterior daquelle judeu eram os seus
ducados; perdel-os equivalia a morrer, «Nunca mais verei o meu ouro,
diz elle a Tubal; _é um punhal que me enterras no coração_». Vejam bem
esta phrase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para elle.
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
--Não?
--Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não alludo a certas almas
absorventes, como a patria, com a qual disse o Camões que morria, e
o poder, que foi a alma exterior de Cesar e de Cromwell. São almas
energicas e exclusivas; mas ha outras, embora energicas, de natureza
mudavel. Ha cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros
annos, foi um chocalho ou um cavallinho de páu, e mais tarde uma
provedoria de irmandade, supponhamos. Pela minha parte, conheço uma
senhora,--na verdade, gentilissima,--que muda de alma exterior cinco,
seis vezes por anno. Durante a estação lyrica é a opera; cessando a
estação, a alma exterior substitue-se por outra: um concerto, um baile
do Cassino, a rua do Ouvidor, Petropolis...
--Perdão; essa senhora quem é?
--Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se
Legião... E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado
d'essas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao
episodio de que lhes fallei. Um episodio dos meus vinte e cinco annos...
Os quatro companheiros, anciosos de ouvir o caso promettido, esqueceram
a controversia. Santa curiosidade! tu não és só a ama da civilisação,
és tambem o pomo da concordia, fructa divina, de outro sabor que não
aquelle pomo da mythologia. A sala, até ha pouco ruidosa de physica e
metaphysica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina,
que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memorias. Eis aqui como
elle começou a narração:
--Tinha vinte e cinco annos, era pobre, e acabava de ser nomeado
alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi
em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me
o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na
villa, note-se bem, houve alguns despeitados; chôro e ranger de dentes,
como na Escriptura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha
muitos candidatos e que estes perderam. Supponho tambem que uma parte
do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distincção.
Lembra-me de alguns rapazes, que se davam commigo, e passaram a
olhar-me de revez, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas
pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo
o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias,
D. Marcolina, viuva do capitão Peçanha, que morava a muitas leguas da
villa, n'um sitio escuso e solitario, desejou ver-me, e pediu que fosse
ter com ella e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pagem, que d'ahi
á dias tornou á villa, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no
sitio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mez,
pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me tambem o seu alferes. Achava-me
um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que
tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em
toda a provincia não havia outro que me puzesse o pé adiante. E sempre
alferes; era alferes para cá alferes para lá, alferes a toda a hora.
Eu pedia-lhe que me chamasse Joãosinho, como d'antes; e ella abanava
a cabeça, bradando que não, que era o «senhor alferes». Um cunhado
d'ella, irmão do finado Peçanha, que alli morava, não me chamava de
outra maneira. Era o «senhor alferes», não por gracejo, mas a serio,
e á vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na
mesa tinha eu o melhor logar, e era o primeiro servido. Não imaginam.
Se lhes disser que o enthusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de
mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnifica, que
destoava do resto da casa, cuja mobilia era modesta e simples... Era
um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdára da mãe, que
o comprára a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João
VI. Não sei o que havia n'isso de verdade; era a tradicção. O espelho
estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido
em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos angulos superiores da
moldura, uns enfeites de madreperola e outros caprichos do artista.
Tudo velho, mas bom...
--Espelho, grande?
--Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho
estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que
a demovessem do proposito; respondia que não fazia falta, que era só
por algumas semanas, e finalmente que o «senhor alferes» merecia muito
mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, attenções, obsequios,
fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade
ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
--Não.
--O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas
equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse á outra;
ficou-me uma parte minima de humanidade. Aconteceu então que a alma
exterior, que era d'antes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças,
mudou de natureza, e passou a ser a cortezia e os rapapés da casa,
tudo o que me fallava do posto, nada do que me fallava do homem. A
unica parte do cidadão que ficou commigo foi aquella que entendia
com o exercicio da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.
Custa-lhes acreditar, não?
--Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
--Vai entender. Os factos explicarão melhor os sentimentos; os factos
são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça
namorada; e, se bem me lembro, um philosopho antigo demonstrou o
movimento andando. Vamos aos factos. Vamos ver como, ao tempo em que
a consciencia do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e
intensa. As dôres humanas, as alegrias humanas se eram só isso, mal
obtinham de mim uma compaixão apathica ou um sorriso de favor. No
fim de tres semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente
alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma noticia grave; uma
de suas filhas, casada com um lavrador residente d'alli a cinco
leguas, estava mal e á morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era
mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse
com ella, e a mim que tomasse conta do sitio. Creio que, se não
fosse a afflicção, disporia o contrario; deixaria o cunhado, e iria
commigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa.
Confesso-lhes que desde logo senti uma grande oppressão, alguma cousa
semelhante ao effeito de quatro paredes de um carcere, subitamente
levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava
agora limitada a alguns espiritos boçaes. O alferes continuava a
dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciencia mais
debil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortezias,
que de certa maneira compensava a affeição dos parentes e a intimidade
domestica interrompida. Notei mesmo, n'aquella noite, que elles
redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes de minuto
a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes ha de ser coronel;
nhô alferes ha de casar com moça bonita, filha de general; um concerto
de louvores e prophecias, que me deixou extatico. Ah! perfidos! mal
podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
--Matal-o?
--Antes assim fosse.
--Cousa peior?
--Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por
outros, ou de movimento proprio, tinham resolvido fugir durante a
noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguem, entre quatro
paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum
folego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguem, um
molequinho que fosse. Gallos e gallinhas tão sómente, um par de mulas,
que philosophavam a vida, sacudindo as moscas, e tres bois. Os mesmos
cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que
isto era melhor do que ter morrido? era peior. Não por medo; juro-lhes
que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada,
durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do damno causado á
tia Marcolina; fiquei tambem um pouco perplexo, não sabendo se devia ir
ter com ella, para lhe dar a triste noticia, ou ficar tomando conta da
casa. Adoptei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque,
se a minha prima enferma estava mal, eu ia sómente augmentar a dor da
mãe, sem remedio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha
voltasse n'aquelle dia ou no outro, visto que tinham sahido havia já
trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestigio d'elle; e á tarde
comecei a sentir uma sensação como de pessoa que houvesse perdido
toda a acção nervosa, e não tivesse consciencia da acção muscular. O
irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda
aquella semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias
foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação
mais cansativa. As horas batiam de seculo a seculo, no velho relogio
da sala, cuja pendula, _tic-tac, tic-tac_, feria-me a alma interior,
como um piparote continuo do eternidade. Quando, muitos annos depois,
li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este
famoso estribilho: _Never, for ever!--For ever, never!_ confesso-lhes
que tive um calafrio: recordei-me d'aquelles dias medonhos. Era
justamente assim que fazia o relogio da tia Marcolina:--_Never, for
ever!--For ever, never!_ Não eram golpes de pendula, era um dialogo do
abysmo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse
mais silenciosa. O silencio era o mesmo que de dia. Mas a noite era
a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. _Tic-tac,
tic-tac._ Ninguem nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro,
ninguem em parte nenhuma... Riem-se?
--Sim, parece que tinha um pouco de medo.
--Oh! fôra bom se eu podesse ter medo! Viveria. Mas o caracteristico
d'aquella situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo
vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicavel. Era como um
defuncto andando, um somnambulo, um boneco mecanico. Dormindo, era
outra cousa. O somno dava-me allivio, não pela razão commum de ser
irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse
phenomeno:--o somno, eliminando a necessidade de uma alma exterior,
deixava actuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente,
no meio da familia e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me
chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e promettia-me o
posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me
viver. Mas quando accordava, dia claro, esvaia-se com o somno, a
consciencia do meu ser novo e unico,--porque a alma interior perdia
a acção exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não
tornar... Não tornava. Eu sahia fóra, a um lado e outro, a ver se
descobria algum signal de regresso. _Sœur Anne, sœur Anne, ne vois-tu
rien venir?_ Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda franceza. Nada
mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para
casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. _Tic-tac,
tic-tac._ Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janellas,
assobiava. Em certa occasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um
artigo politico, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente;
sentei-me e tracei no papel algumas palavras e phrases soltas, para
intercalar no estylo. Mas o estylo, como a tia Marcolina, deixava-se
estar. _Sœur Anne, sœur Anne..._ Cousa nenhuma. Quando muito via
negrejar a tinta e alvejar o papel.
--Mas não comia?
--Comia mal, fructas, farinha, conservas, algumas raizes tostadas ao
fogo, mas supportaria tudo alegremente, se não fora a terrivel situação
moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos,
lyras de Gonzaga, oitavas de Camões, decimas, uma anthologia em trinta
volumes. Ás vezes fazia gymnastica; outras dava beliscões nas pernas;
mas o effeito era só uma sensação physica de dôr ou de cançaço, e
mais nada. Tudo silencio, um silencio vasto, enorme, infinito, apenas
sublinhado pelo eterno _tic-tac_ da pendula. _Tic-tac, tic-tac..._
--Na verdade, era de enlouquecer.
--Vão ouvir cousa peior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só,
não olhára uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não
tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e
dois, ao mesmo tempo, n'aquella casa solitaria; e se tal explicação é
verdadeira, nada prova melhor a contradicção humana, porque no fim de
oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente
de achar-me dois. Olhei e recuei. O proprio vidro parecia conjurado
com o resto do universo; não me estampou a figura nitida e inteira,
mas vaga, esfumada, diffusa, sombra de sombra. A realidade das leis
physicas não permitte negar que o espelho reproduziu-me textualmente,
com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não
foi a minha sensação. Então tive medo; attribui o phenomeno á excitação
nervosa em que andava; receiei ficar mais tempo, e enlouquecer.--Vou-me
embora, disse commigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao
mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas
disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando commigo,
tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrepito, affligindo-me
a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando,
olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma diffusão de
linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me.
Subitamente por uma inspiração inexplicavel, por um impulso sem
calculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha
idéa...
--Diga.
--Estava a olhar para o vidro, com uma persistencia de desesperado,
contemplando as proprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem
de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são
capazes de adivinhar.
--Mas, diga, diga.
--Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, apromptei-me de todo;
e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes
digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de
menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava,
emfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sitio, dispersa
e fugida com os escravos, eil-a recolhida no espelho. Imaginai um
homem que, pouco a pouco emerge de um lethargo, abre os olhos sem ver,
depois começa a ver, distingue as pessoas dos objectos, mas não conhece
individualmente uns nem outros; emfim, sabe que este é Fulano, aquelle
é Sicrano; aqui está uma cadeira, alli um sofá. Tudo volta ao que era
antes do somno. Assim foi commigo. Olhava para o espelho, ia de um lado
para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não
era mais um automato, era um ente animado. D'ahi em diante, fui outro.
Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante
do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, tres horas,
despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de
solidão, sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
FIM DO ESPELHO
UMA VISITA DE ALCIBIADES[1]
CARTA DO DESEMBARGADOR X... AO CHEFE DE POLICIA DA CORTE
_Corte, 20 de setembro de 1875._
Desculpe V. Ex. o tremido da lettra e o desgrenhado do estylo;
entendel-os-ha d'aqui a pouco.
Hoje, á tardinha, acabado o jantar, em quanto esperava a hora do
Cassino, estirei-me no sofá e abri um tomo de Plutarcho. V. Ex., que
foi meu companheiro de estudos, ha de lembrar-se que eu, desde rapaz,
padeci esta devoção do grego; devoção ou mania, que era o nome que
V. Ex. lhe dava, e tão intensa que me ia fazendo reprovar em outras
disciplinas. Abri o tomo, e succedeu o que sempre se dá commigo
quando leio alguma cousa antiga: transporto-me ao tempo e ao meio
da acção ou da obra. Depois de jantar é excellente. Dentro de pouco
acha-se a gente n'uma via romana, ao pé de um portico grego ou na
loja de um grammatico. Desapparecem os tempos modernos, a insurreição
da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, o circo
Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga, e de graça. Uma
verdadeira digestão litteraria.
Foi o que se deu hoje. A pagina aberta acertou de ser a vida de
Alcibiades. Deixei-me ir ao sabor da loquella attica; d'ahi a nada
entrava nos jogos olympicos, admirava o mais guapo dos athenienses,
guiando magnificamente o carro, com a mesma firmeza e donaire com que
sabia reger as batalhas, os cidadãos e os proprios sentidos. Imagine V.
Ex. se vivi! Mas, o moleque entrou e accendeu o gaz; não foi preciso
mais para fazer voar toda a archeologia da minha imaginação. Athenas
volveu á historia, em quanto os olhos me cabiam das nuvens, isto é, nas
calças de brim branco, no paletó de alpaca e nos sapatos de cordovão. E
então reflecti commigo:
--Que impressão daria ao illustre atheniense o nosso vestuario moderno?
Sou espiritista desde alguns mezes. Convencido de que todos os systemas
são puras nihilidades, resolvi adoptar o mais recreativo d'elles. Tempo
virá em que este não seja só recreativo, mas tambem util á solução dos
problemas historicos; é mais summario evocar o espirito dos mortos,
do que gastar as forças criticas, e gastal-as em pura perda, porque
não ha raciocinio nem documento que nos explique melhor a intenção de
um acto do que o proprio autor do acto. E tal era o meu caso d'esta
noite. Conjecturar qual fosse a impressão de Alcibiades era despender
o tempo, sem outra vantagem, além do gosto de admirar a minha propria
habilidade. Determinei portanto, evocar o atheniense; pedi-lhe que
comparecesse em minha casa, logo, sem demora.