em acudir ao chamado; dous minutos depois estava alli, na minha sala,
perto da parede; mas não era a sombra impalpavel que eu cuidára ter
evocado pelos methodos da nossa escola; era o proprio Alcibiades, carne
e osso, vero homem, grego authentico, trajado á antiga, cheio d'quella
gentileza e desgarre com que usava arengar ás grandes assembléas de
Athenas, e tambem, um pouco, aos seus patáus. V. Ex., tão sabedor da
historia, não ignora que tambem houve patáus em Athenas; sim, Athenas
tambem os possuiu, e esse precedente é uma desculpa. Juro a V. Ex. que
não acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho dos sentidos, não
podia acabar de crer que tivesse alli, em minha casa, não a sombra de
Alcibiades, mas o proprio Alcibiades redivivo. Nutri ainda a esperança
de que tudo aquillo não fosse mais do que o effeito de uma digestão mal
rematada, um simples effluvio do chylo, através da luneta de Plutarcho;
e então esfreguei os olhos, fitei-os, e...
--Que me queres? perguntou elle.
Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto fallava e fallava
grego, o mais puro attico. Era elle, não havia duvidar que era elle
mesmo, um morto de vinte seculos, restituido á vida, tão cabalmente
como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão. Era claro
que, sem o pensar, acabava eu de dar um grande passo na carreira do
espiritismo; mas, ai de mim! não o entendi logo, e deixei-me ficar
assombrado. Elle repetiu a pergunta, olhou em volta de si e sentou-se
n'uma poltrona. Como eu estivesse frio e tremulo (ainda o estou agora)
elle que o percebeu, fallou-me com muito carinho, e tratou de rir
e gracejar para o fim de devolver-me o socego e a confiança. Habil
como outr'ora! Que mais direi a V. Ex.? No fim de poucos minutos
conversavamos os dous, em grego antigo, elle repotreado e natural,
eu pedindo a todos as santos do céu a presença de um criado, de uma
visita, de uma patrulha, ou, se tanto fosse necessario,--de um incendio.
Escusado é dizer a V. Ex. que abri mão da idéa de o consultar ácerca
do vestuario moderno; pedira um espectro, não um homem «de verdade»,
como dizem as crianças. Limitei-me a responder ao que elle queria;
pediu-me noticias de Athenas, dei-lh'as; disse-lhe que ella era
emfim a cabeça de uma só Grecia, narrei-lhe a dominação musulmana, a
independencia, Botzaris, lord Byron. O grande homem tinha os olhos
pendurados da minha bocca; e, mostrando-me admirado de que os mortos
lhe não houvessem contado nada, explicou-me que á porta, do outro mundo
afrouxavam muito os interesses d'este. Não vira Botzaris nem lord
Byron,--em primeiro logar, porque é tanta e tantissima a multidão de
espiritos, que estes se fazem naturalmente desencontrados; em segundo
logar, porque elles lá congregam-se, não por nacionalidades ou outra
ordem, senão por categorias de indole, costume e profissão: assim é que
elle Alcibiades, anda no grupo dos politicos elegantes e namorados,
com o duque de Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc. Em
seguida pediu-me noticias actuaes; relatei-lhe o que sabia, em resumo;
fallei-lhe do parlamento hellenico e do methodo alternativo com que
Bulgaris e Comondouros, estadistas seus patricios, imitam Disraeli e
Gladstone, revesando-se no poder, e, assim como estes, a golpes de
discurso. Elle, que foi um magnifico orador, interrompeu-me:
--Bravo, athenienses!
Se entro n'estas minucias é para o fim de nada omittir do que possa
dar a V. Ex. o conhecimento exacto do extraordinario caso que lhe
vou narrando. Já disse que Alcibiades escutava-me com avidez;
accrescentarei que era esperto e arguto; entendia as cousas sem largo
dispendio de palavras. Era tambem sarcastico; ao menos assim me pareceu
em um ou dois pontos da nossa conversação; mas no geral d'ella,
mostrava-se simples, attento, correcto, sensivel e digno. E gamenho,
note V. Ex., tão gamenho como outr'ora; olhava de soslaio para o
espelho, como fazem as nossas e outras damas d'este seculo, mirava os
borzeguins, compunha o manto, não saia de certas attitudes esculpturaes.
--Vá, continúa, dizia-me elle, quando eu parava de lhe dar noticias.
Mas eu não podia mais. Entrado no inextricavel, no maravilhoso, achava
tudo possivel, não atinava porque razão, assim, como elle vinha ter
commigo ao tempo, não iria eu ter com elle á eternidade. Esta idéa
gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a
hora do Cassino, a morte é o ultimo dos sarcasmos. Se pudesse fugir...
Animei-me: disse-lhe que ia a um baile.
--Um baile? Que cousa é um baile?
Expliquei-lh'o.
--Ah! ver dansar a pyrrhica!
--Não, emendei eu, a pyrrhica já lá vai. Cada seculo, meu caro
Alcibiades, muda de dansas como muda de ideias. Nos já não dansamos as
mesmas cousas do seculo passado; provavelmente o seculo XX não dansará
as d'este. A pyrrhica, foi-se, com os homens de Plutarcho e os numes de
Hesiodo.
--Com os numes?
Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabára, que as academias do seculo
passado ainda lhe deram abrigo, mas sem-convicção, nem alma, que as
mesmas bebedeiras arcadicas,
Evohé! padre Bassareu!
Evohé! etc.
honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos, essas mesmas
estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em longe, accrescentei,
um ou outro poeta, um o outro prosador allude aos restos da theogonia
pagã, mas só o faz por gala ou brinco, ao passo que a sciencia reduziu
todo o Olympo a uma symbolica. Morto, tudo morto.
--Morto Zeus?
--Morto.
--Dyonisos, Aphrodita?...
--Tudo morto.
O homem de Plutarcho levantou-se, andou um pouco, contendo a
indignação, como se dissesse comsigo, imitando o outro:--Ah! se lá
estou com os meus athenienses!--Zeus, Dyonisos, Aphrodita... murmurava
de quando em quando. Lembrou-me então que elle fôra uma vez accusado
de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo d'onde vinha aquella
indignação posthuma, e naturalmente postiça. Esquecia-me,--um devoto
do grego!--esquecia-me que elle era tambem um refinado hypocrita, um
illustre dissimulado. E quasi não tive tempo de fazer esse reparo,
porque Alcibiades, detendo-se repentinamente declarou-me que iria ao
baile commigo.
--Ao baile? repeti attonito.
--Ao baile, vamos ao baile.
Fiquei atterrado, disse-lhe que não, que não era possivel, que não o
admittiriam, com aquelle trajo; pareceria doudo; salvo se elle queria
ir lá representar alguma comedia de Aristophanes, accrescentei rindo,
para disfarçar o medo. O que eu queria era deixal-o, entregar-lhe
a casa, e uma vez na rua, não iria ao Cassino, iria ter com V. Ex.
Mas o diabo do homem não se movia; escutava-me com os olhos no chão,
pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a cuidar que o pesadelo ia
acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava alli com as minhas
calças, os meus sapatos e o meu seculo.
--Quero ir ao baile, repetiu elle. Já agora não vou sem comparar as
dansas.
--Meu caro Alcibiades, não acho prudente um tal desejo. Eu teria
certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar
no Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos athenienses; mas os
outros homens de hoje, os rapazes, as moças, os velhos... é impossivel.
--Porque?
--Já disse; imaginarão que és um doudo ou um comediante, porque essa
roupa...
--Que tem? A roupa muda-se. Irei á maneira do seculo. Não tens alguma
roupa que me emprestes?
Ia a dizer que não; mas occorreu-me logo que o mais urgente era sair,
e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e então
disse-lhe que sim.
--Pois bem, tornou elle levantando-se, irei á maneira do seculo. Só
peço que te vistas primeiro, para eu aprender e imitar-te depois.
Levantei-me tambem, e pedi-lhe que me acompanhasse. Não se moveu logo;
estava assombrado. Vi que só então reparara nas minhas calças brancas;
olhava para ellas com os olhos arregalados, a bocca aberta; emfim,
perguntou por que motivo trazia aquelles canudos de panno. Respondi que
por maior commodidade; accrescentei que o nosso seculo, mais recatado
e util do que artista, determinára trajar de um modo compativel com o
seu decóro e gravidade. Demais nem todos seriam Alcibiades. Creio que o
lisongeei com isto; elle sorriu e deu de hombros.
--Emfim!
Seguimos para o meu quarto de vestir, e comecei a mudar de roupa, ás
pressas. Alcibiades sentou-se mollemente n'um divan, não sem elogial-o,
não sem elogiar o espelho, a palhinha, os quadros.--Eu vestia-me, como
digo, ás pressas, ancioso por sahir á rua, por metter-me no primeiro
tilbury que passasse...
--Canudos pretos! exclamou elle.
Eram as calças pretas que eu acabava de vestir. Exclamou e riu, um
risinho em que o espanto vinha mesclado de escarneo, o que offendeu
grandemente o meu melindre de homem moderno. Porque, note V. Ex., ainda
que o nosso tempo nos pareça digno de critica, e até de execração,
não gostamos de que um antigo venha mofar d'elle ás nossas barbas.
Não respondi ao atheniense; franzi um pouco o sobr'olho e continuei a
abotoar os suspensorios. Elle perguntou-me então por que motivo usava
uma cor tão feia...
--Feia, mas séria, disse-lhe. Olha, entretanto, a graça do córte, vê
como cai sobre o sapato, que é de verniz, embora preto, e trabalhado
com muita perfeição.
E vendo que elle abanava a cabeça:
--Meu caro, disse-lhe, tu pódes certamente exigir que o Jupiter
Olympico seja o emblema eterno da majestade: é o dominio da arte
ideal, desinteressada, superior aos tempos que passam e aos homens que
os acompanham. Mas a arte de vestir é outra cousa. Isto que parece
absurdo ou desgracioso é perfeitamente racional e bello,--bello á nossa
maneira, que não andamos a ouvir na rua os rhapsodas recitando os seus
versos, nem os oradores os seus discursos, nem os philosophos as suas
philophias. Tu mesmo, se te acostumares a ver-nos, acabarás por gostar
de nós, porque...
--Desgraçado! bradou elle atirando-se a mim.
Antes de entender a causa do grito e do gesto, fiquei sem pinga de
sangue. A causa era uma illusão. Como eu passasse a gravata á volta do
pescoço e tratasse de dar o laço. Alcibiades suppoz que ia enforcar-me,
segundo confessou depois. E, na verdade, estava pallido, tremulo, em
suores frios. Agora quem se riu fui eu. Ri-me, e expliquei-lhe o uso
da gravata, e notei que era branca, não preta, posto usassemos tambem
gravatas pretas. Só depois de tudo isso explicado é que elle consentiu
em restituir-m'a. Atei-a emfim, depois vesti o collete.
--Por Aphrodita! exclamou elle. És a cousa mais singular que jamais
vi na vida e na morte. Estás todo cor da noite--uma noite com tres
estrellas apenas--continuou apontando para os botões do peito. O mundo
deve andar immesamente melancholico, se escolheu para uso uma cor tão
morta e tão triste. Nós eramos mais alegres; viviamos...
Não pode concluir a phrase; eu acabava de enfiar a casaca, e a
consternação do atheniense foi indescriptivel. Cahiram-lhe os braços,
ficou suffocado, não podia articular nada, tinha os olhos cravados em
mim, grandes, abertos. Creia V. Ex. que fiquei com medo, e tratei de
apressar ainda mais a sabida.
--Estás completo? perguntou-me elle.
--Não: falta o chapéu.
--Oh! venha alguma cousa que possa corrigir o resto! tornou Alcibiades
com voz supplicante. Venha, venha. Assim pois, toda a elegancia que
vos legamos está reduzida a um par de canudos fechados e outra par de
canudos abertos (e dizia isto levantando-me as abas da casaca), e tudo
d'essa cor enfadonha e negativa? Não não posso crel-o! Venha alguma
cousa que corrija isso. O que é que falta, dizes tu?
--O chapéo.
--Põe o que te falta, meu caro, põe o que te falta.
Obedeci; fui d'alli ao cabide, despendurei o chapéu, e pul-o na
cabeça. Alcibiades olhou para mim, cambaleou e caiu. Corri ao illustre
atheniense, para levantal-o, mas (com dor o digo) era tarde; estava
morto, morto pela segunda vez. Rogo a V. Ex. se digne de expedir suas
respeitaveis ordens para que o cadaver seja transportado ao necroterio,
e se proceda ao corpo de delicto, relevando-me de não ir pessoalmente á
casa de V. Ex. agora mesmo (dez da noite) em attenção ao profundo abalo
por que acabo de passar, o que aliás farei amanhã de manhã, antes das
oito.
[1]Este escripto teve um primeiro texto, que reformei totalmente mais
tarde, não aproveitando mais do que a ideia. O primeiro foi dado com um
pseudonymo e passou despercebido.
FIM DE UMA VISITA DE ALCIBIADES
VERBA TESTAMENTARIA
«... Item, é minha ultima vontade que o caixão em que o meu corpo
houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, á
rua da Alfandega. Desejo que elle tenha conhecimento d'esta disposição,
que tambem será publica. Joaquim Soares não me conhece; mas é digno da
distincção, por ser dos nossos melhores artistas, e um dos homens mais
honrados da nossa terra...»
Cumpriu-se á risca esta verba testamentaria. Joaquim Soares fez o
caixão em que foi mettido o corpo do pobre Nicoláu B. de C.; fabricou-o
elle mesmo, _con amore_; e, no fim, por um movimento cordial,
pediu licença para não receber nenhuma renumeração. Estava pago;
o favor do defunto era em si mesmo um premio insigne. Só desejava
uma cousa: a copia authentica da verba. Deram lh'a; elle mandou-a
encaixilhar e pendurar de um prego, na loja. Os outros fabricantes
de caixões, passado o assombro, chamaram que o testamento era um
desproposito. Felizmente,--e esta é uma das vantatagens do estado
social,--felizmente, todas as demais classes adiaram que aquella
mão, saindo do abysmo para abençoar a obra de um operario modesto,
praticára** uma acção rara e magnanima. Era em 1855; a população estava
mais conchegada; não se fallou de outra cousa. O nome do Nicoláu reboou
por muitos dias na imprensada corte, d'onde passou á das provincias.
Mas a vida universal é tão variada, os successos accumulam-se em tanta
multidão, e com tal presteza, e, finalmente, a memoria dos homens é tão
fragil, que um dia chegou em que a acção de Nicoláu mergulhou de todo
no olvido.
Não venha restaural-a. Esquecer é uma necessidade. A vida é uma
lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o
caso escripto. Obra de lapis e esponja. Não, não venho restaural-a.
Ha milhares de acções tão bonitas, ou ainda mais bonitas do quo
a do Nicoláu, e comidas do esquecimento. Venho dizer que a verba
testamentaria não é um effeito sem causa; venho mostrar uma das maiores
curiosidades morbidas d'este seculo.
Sim, leitor amado, vamos entrar em plena pathologia. Esse menino que
ahi vês, nos fins do seculo passado (em 1855, quando morreu, tinha o
Nicoláu sessenta e oito annos), esse menino não é um producto são, não
é um organismo perfeito.--Ao contrario, desde os mais tenros annos,
manifestou por actos reiterados que ha n'elle algum vicio interior,
alguma falha organica. Não se póde explicar de outro modo a obstinação
com que elle corre a destruir os brinquedos dos outros meninos, não
digo os que são eguaes aos d'elle, ou ainda inferiores, mas os que
são melhores ou mais ricos. Menos ainda se comprehende que, nos casos
em que o brinquedo é unico, ou somente raro, o joven Nicoláu console
a victima com dons ou tres pontapés; nunca menos de um. Tudo isso é
obscuro. Culpa do pae não póde ser. O pae era um honrado negociante
ou commissario (a maior parte das pessoas a que aqui se dá o nome do
commerciantes, dizia o marquez de Lavradio, nada são que uns simples
commissarios), que viveu com certo luzimento, no ultimo quartel do
seculo, homem rispido, austero, que admoestava o filho, e, sendo
necessario, castigava-o. Mas nem admoestações, nem castigos, valiam
nada. O impulso interior do Nicoláu era mais efficaz do que todos os
bastões paternos; e, uma ou duas vezes por semana, o pequeno reincidia
no mesmo delicto. Os desgostos da familia eram profundos. Deu-se mesmo
um caso, que, por suas gravissimas consequencias, merece ser contado.
O vice-rei, que era então o conde de Rezende, andava preoccupado com a
necessidade de construir um caes na praia de D. Manuel. Isto, que seria
hoje um simples episodio municipal, era n'aquelle tempo, attentas as
proporções escassas da cidade, uma empreza importante. Mas o vice-rei
não tinha recursos; o cofre publico mal podia acudir ás urgencias
ordinarias. Homem de estado, e provavelmente philosopho, engendrou
um expediente não menos suave que proficuo: distribuir, a troco de
donativos pecuniarios, postos de capitão, tenente e alferes. Divulgada
a resolução, entendeu o pae do Nicoláu que era occasião de figurar,
sem perigo, na galeria militar do seculo, ao mesmo tempo que desmentia
uma doutrina brahmanica. Com effeito, está nas leis de Manú, que dos
braços de Brahma nasceram os guerreiros, e do ventre os agricultores
e commerciantes; o pae do Nicoláu, adquirindo o despacho de capitão,
corrigia esse ponto da anatomia gentilica. Outro commerciante, que com
elle competia em tudo, embora familiares e amigos, apenas teve noticia
do despacho, foi tambem levar a sua pedra ao caes. Desgraçadamenteu o
despeito de ter ficado atraz alguns dias, suggeriu-llie um arbitrio
de máu gosto e, no nosso caso, funesto; foi assim que elle pediu ao
vice-rei outro posto de official do caes (tal era o nome dado aos
agraciados por aquelle motivo) para um filho de sete annos. O vice-rei
hesitou; mas o pretendente, além de duplicar o donativo, metteu
grandes empenhos, e o menino saiu nomeado alferes. Tudo correu em
segredo; o pae de Nicoláu só teve noticia do caso no domingo proximo,
na egreja do Carmo, ao ver os dous, pae e filho, vindo o menino com
uma fardinha, que, por galanteria, lhe metteram no corpo. Nicoláu,
que tambem alli estava, fez-se livido; depois, n'um impeto, atirou-se
sobre o joven alferes e rasgou-lhe a farda, antes que os paes pudessem
acudir. Um escandalo. O reboliço do povo, a indignação dos devotos, as
queixas do aggredido, interromperam por alguns instantes as ceremonias
ecclesiasticas. Os paes trocaram algumas palavras acerbas, fóra, no
adro, e ficaram brigados para todo o sempre.
--Este rapaz ha de ser a nossa desgraça! bradava o pae de Nicoláu, em
casa, depois do episodio.
Nicoláu apanhou então muita pancada, curtiu muita dor, chorou, soluçou;
mas de emenda cousa nenhuma. Os brinquedos dos outros meninos não
ficaram menos expostos. O mesmo passou a acontecer ás roupas. Os
meninos mais ricos do bairro não sabiam fora senão com as mais modestas
vestimentas caseiras, unico modo de escapar ás unhas de Nicoláu. Com
o andar do tempo, estendeu elle a aversão ás proprias caras, quando
eram bonitas, ou tidas como taes. A rua em que elle residia, contava
um sem numero de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As cousas
chegaram a tal ponto, que o pae resolveu trancal-o em casa durante
uns tres ou quatro mezes. Foi um palliativo, e, como tal, excellente.
Emquanto durou a reclusão, Nicoláu mostrou-se nada menos que angelico;
fóra d'aquelle séstro morbido, era meigo, docil, obediente, amigo da
familia, pontual nas rezas. No fim dos quatro mezes, o pae soltou-o;
era tempo de o metter com um professor de leitura e grammatica.
--Deixe-o commigo, disse o professor; deixe-o commigo, e com esta
(apontava para a palmatoria)... Com esta, é duvidoso que elle tenha
vontade de maltratar os companheiros.
Frivolo! tres vezes frivolo professor! Sim, não ha duvida, que elle
conseguiu poupar os meninos bonitos e as roupas vistosas, castigando
as primeiras investidas do pobre Nicoláu; mas em que é que este sarou
da molestia? Ao contrario, obrigado a conter-se, a engolir o impulso,
padecia dobrado, fazia-se mais livido, com reflexos de verde bronze; em
certos casos, era compellido a voltar os olhos ou fechal-os, para não
arrebentar, dizia elle. Por outro lado, se deixou de perseguir os mais
graciosos ou melhor adornados, não perdoou aos que se mostravam mais
adiantados no estudo; espancava-os, tirava-lhes os livros, e lançava-os
fóra, nas praias ou no mangue. Rixas, sangue, odios, taes eram os
fructos da vida, para elle, além das dores crueis que padecia, e que a
familia teimava em não entender. Se accrescentarmos que elle não pôde
estudar nada seguidamente, mas a troncos, e mal, como os vagabundos
comem, nada fixo, nada methodico, teremos visto algumas das dolorosas
consequencias do facto morbido, occulto e desconhecido. O pae, que
sonhava para o filho a Universidade, vendo-se obrigado a estrangular
mais essa illusão, esteve prestes a amaldiçoal-o; foi a mãe que o
salvou.
Saiu um seculo, entrou outro, sem desapparecer a lesão do Nicoláu.
Morreu-lhe o pae em 1807 e a mãe em 1809; a irmã casou com um medico
hollandez, treze mezes depois. Nicoláu passou a viver só. Tinha vinte e
tres annos; era um dos petimetres da cidade, mas um singular petimetre,
que não podia encarar nenhum outro, ou fosse mais gentil de feições, ou
portador de algum collete especial, sem padecer uma dor violenta, tão
violenta, que o obrigava ás vezes a trincar o beiço até deitar sangue.
Tinha occasiões de cambalear; outras de escorrer-lhe pelo canto da boca
um fio quasi imperceptivel de espuma. E o resto não era menos cruel.
Nicoláu ficava então rispido; em casa achava tudo máu, tudo incommodo,
tudo nauseabundo; feria a cabeça aos escravos com os pratos, que iam
partir-se tambem, e perseguia os cães, a pontapés; não socegava dez
minutos, não comia, ou comia mal. Emfim dormia; e ainda bem que dormia.
O somno reparava tudo. Acordava lhano e meigo, alma de patriarcha,
beijando os cães entre as orelhas, deixando-se lamber por elles,
dando-lhes do melhor que tinha, chamando aos escravos as cousas mais
familiares e ternas. E tudo, cães e escravos, esqueciam as pancadas da
vespera, e acudiam ás vozes d'elle obedientes, namorados, como se este
fosse o verdadeiro senhor, e não o outro.
Um dia, estando elle em casa da irmã, perguntou-lhe esta por que motivo
não adoptava uma carreira qualquer, alguma cousa em que se oecupasse,
e...
--Tens razão, vou ver, disse elle.
Interveiu o cunhado e opinou por um emprego na diplomacia. O cunhado
principiava a desconfiar de alguma doença e suppunha que a mudança
de clima bastava a restabelecel-o. Nicoláu arranjou uma carta de
apresentação, e foi ter com o ministro de estrangeiros. Achou-o
rodeado de alguns officiaes da secretaria, prestes a ir ao paço, levar
a noticia da segunda quéda de Napoleão, noticia que chegára alguns
minutos antes. A figura do ministro, as circumstancias do momento,
as reverencias dos officiaes, tudo isso deu um tal rebate ao coração
do Nicoláu, que elle não pôde encarar o ministro. Teimou, seis ou
oito vezes, em levantar os olhos, e da unica em que o conseguiu,
fizeram-se-lhe tão vesgos, que não via ninguem, ou só uma sombra, um
vulto, que lhe doia nas pupilas, ao mesmo tempo que a face ia ficando
verde. Nicoláu recuou, estendeu a mão tremula ao reposteiro, e fugiu.
--Não quero ser nada! disse elle á irmã, chegando á casa; fico com
vocês e os meus amigos.
Os amigos eram os rapazes mais antipathicos da cidade, vulgares e
infimos. Nicoláu escolhera-os de proposito. Viver segregado dos
principaes era para elle um grande sacrificio; mas, como teria de
padecer muito mais vivendo com elles, tragava a situação. Isto prova
que elle tinha um certo conhecimento empirico do mal e do palliativo.
A verdade é que, com esses companheiros, desappareciam todas as
perturbações physiologicas do Nicoláu. Elle fitava-os sem lividez,
sem olhos vesgos, sem cambalear, sem nada. Além d'isso, não só elles
lhe poupavam a natural irritabilidade, como porfiavam em tornar-lhe a
vida, senão deliciosa, tranquilla; e para isso, diziam-lhe as maiores
finezas do mundo, em attitudes captivas, ou com uma certa familiaridade
inferior. Nicoláu amava em geral as naturezas subalternas, como os
doentes amam a droga que lhes restituo a saúde; acariciva-as paternal
mente, dava-lhes o louvor abundante e cordial, emprestava-lhes
dinheiro, distribuia-lhes mimos, abria-lhes a alma...