--Uma escriptura de gratidão, explicou o Custodio; venho pedir-lhe um

grande favor, um favor indispensavel, e conto que o meu amigo...

--Se estiver nas minhas mãos...

--O negocio é excellente, note-se bem; um negocio magnifico. Nem eu

me mettia a incommodar os outros sem certeza do resultado. A cousa

está prompta; foram já encommendas para a Inglaterra; e é provavel que

dentro de dois mezes esteja tudo montado, é uma industria nova. Somos

tres socios; a minha parte são cinco contos. Venho pedir-lhe esta

quantia, a seis mezes,--ou a tres, com juro modico...

--Cinco contos?

--Sim, senhor.

--Mas, Sr. Custodio, não posso, não disponho de tão grande quantia. Os

negocios andam mal; e ainda que andassem muito hem, não poderia dispôr

de tanto. Quem é que póde esperar cinco contos de um modesto tabellião

de notas?

--Ora, se o senhor quizesse...

--Quero, de certo; digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena,

accommodada aos meus recursos, não teria duvida em adiantal-a, Mas

cinco contos! Creia que é impossivel.

A alma do Custodio cahiu de bruços. Subira pela escada de Jacob até

o céu; mas em vez de descer como os anjos no sonho biblico, rolou

abaixo e cahiu de bruços. Era a ultima esperança; e justamente por ter

sido inesperada, é que elle suppoz que fosse certa, pois, como todos

os corações que se entregam ao regimen do eventual, o do Custodio

era supersticioso. O pobre diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo

os milhões de agulhas que a fabrica teria de produzir no primeiro

semestre. Calado, com os olhos no chão, esperou que o tabellião

continuasse, que se compadecesse, que lhe désse alguma aberta; mas

o tabellião, que lia isso mesmo na alma do Custodio, estava tambem

calado, girando entre os dedos a boceta de rapé, respirando grosso,

com um certo chiado nazal e implicante. Custodio ensaiou todas as

attitudes; ora pedinte, ora general. O tabellião não se mexia. Custodio

ergueu-se.

--Bem,disse elle, com uma pontasinha de despeito, ha de perdoar o

incomodo...

--Não ha que perdoar; eu é que lhe peço desculpa de não poder servil-o,

como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada, muito

menos, não teria duvida; mas...

Estendeu a mão ao Custodio, que com a esquerda pegara machinalmente

no chapéu. O olhar empanado do Custodio exprimia a absorpção da

alma d'elle, apenas convalecida da quéda, que lhe tirára as ultimas

energias. Nenhuma escada mysteriosa, nenhum céu; tudo voara a um

piparote do tabellião. Adeus, agulhas! A realidade veio tomal-o outra

vez com as suas unhas de bronze. Tinha de voltar ao precario, ao

adventicio, ás velhas contas, com os grandes zeros arregalados e os

cifrões retorcidos á laia de orelhas, que continuariam a fital-o e

a ouvil-o, a ouvil-o e a fital-o, alongando para elle os algarismos

implacaveis de fome. Que quéda! e que abysmo! Desenganado, olhou para o

tabelião com um gesto de despedida; mas, uma idéa subita clareou-lhe a

noute do cerebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servil-o,

e com prazer; porque não seria uma quantia menor? Já agora abria mão

da empreza; mas não podia fazer o mesmo a uns alugueis atrazados, a

dous ou tres credores, etc., e uma somma razoavel, quinhentos mil

réis, por exemplo, uma vez que o tabellião tinha a boa vontade de

emprestar-lh'os, vinham a ponto. A alma do Custodio impertigou-se;

vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades, nem

temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os

quinhentos mil réis, que elle ia ver surdir da algibeira do tabellião,

como um alvará de liberdade.

--Pois bem, disse elle, veja o que me póde dar, e eu irei ter com

outros amigos... Quanto?

--Não posso dizer nada a este respeito, porque realmente só uma cousa

muito modesta.

--Quinhentos mil réis?

--Não; não posso.

--Nem quinhentos mil réis?

--Nem isso, replicou firme o tabellião. De que se admira? Não lhe nego

que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, não ando com ellas no

bolso; e tenho certas obrigações particulares... Diga-me, não está

empregado?

--Não, senhor.

--Olhe; dou-lhe cousa melhor do que quinhentos mil réis; fallarei ao

ministro da justiça, tenho relações com elle, e...

Custodio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um

movimento natural, ou uma diversão astuciosa para não conversar do

emprego, é o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial

ao caso. O essencial é que elle teimou na supplica. Não podia dar

quinhentos mil réis? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, não

para a empreza, pois adoptava o conselho dos amigos: ia recusal-a. Os

duzentos mil réis, visto que o tabellião estava disposto a ajudal-o,

eram para uma necessidade urgente,--«tapar um buraco.» E então relatou

tudo, respondeu á franqueza com franqueza: era a regra da sua vida.

Confessou que, ao tratar da grande empreza, tivera em mente acudir

tambem a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente

ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posição. Eram

duzentos e poucos mil réis; e dez, parece; mas aceitava duzentos...

--Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, emfim, nem os

duzentos mil réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, estão

acima das minhas forças n'esta occasião. N'outra póde ser, e não tenho

duvida, mas agora...

--Não imagina os apuros em que estou!

--Nem cem, repito. Tenho tido muitas difficuldades n'estes ultimos

tempos. Sociedades, subscripções, maçonaria... Custa-lhe crêr, não é?

Naturalmente: um proprietario. Mas, meu amigo, é muito bom ter casas:

o senhor é que não conta os estragos, os concertos, as pennas d'agua,

as decimas, o seguro, os calotes, etc. São os buracos do pote, por onde

vai a maior parte da agua...

--Tivesse eu um pote! suspirou Custodio.

--Não digo que não. O que digo é que não basta ter casas para não ter

cuidados, despezas, e até credores... Creia o senhor que tambem eu

tenho credores.

--Nem cem mil réis!

--Nem cem mil réis, peza-me dizel-o, mas é a verdade. Nem cem mil réis.

Que horas são?

Levantou-se, e veiu ao meio da sala. Custodio veiu tambem, arrastado,

desesperado. Não podia acabar de crer que o tabellião não tivesse

ao menos cem mil réis. Quem é que não tem cem mil réis consigo?

Cogitou uma scena pathetica, mas o cartorio abria para a rua; seria

ridiculo. Olhou para fóra. Na loja fronteira, um sujeito apreçava

uma sobrecasaca, á porta, porque entardecia depressa, e o interior

era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o freguez examinava o

panno com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro... Este

incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de

aposentar o paletó que trazia. Mas nem cincoenta mil réis podia dar-lhe

o tabellião. Custodio sorriu;--não de desdem, não de raiva, mas de

amargura e duvida; era impossivel que elle não tivesse cincoenta mil

réis. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! Não; falso tudo; tudo

mentira.

Custodio tirou o lenço, alisou a chapéu devagarinho; depois guardou o

lenço, concertou a gravata, com um ar mixto de esperança e despeito.

Viera cerceando as azas á ambição, pluma a pluma; restava ainda uma

pennugem curta e fina, que lhe mettia umas velleidades de voar. Mas o

outro, nada. Vaz Nunes cotejava o relogio da parede com o do bolso,

chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por

todos os poros impaciencia e fastio. Estavam a pingar as cinco; deram,

emfim, e o tabellião, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era

tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu

o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a

carteira... Oh! a carteira! Custodio viu esse utensilio problematico,

apalpou-o com os olhos, invejou a alpaca, invejou a casimira, quiz ser

algibeira, quiz ser o couro, a materia mesma do precioso receptaculo.

Lá vae ella; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabellião

abotoou-se. Nem vinte mil réis! Era impossivel que não levasse alli

vinte mil réis, pensava elle; não diria duzentos, mas vinte, dez que

fossem...

--Prompto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapéu na cabeça.

Era o fatal instante. Nenhuma palavra do tabellião, um convite ao

menos, para jantar; nada; findára tudo. Mas os momentos supremos pedem

energias supremas. Custodio sentiu toda força d'este logar-commum, e,

subito, como um tiro, perguntou ao tabellião se não lhe podia dar ao

menos dez mil réis.

--Quer ver?

E o tabellião desabotoou o paletó, tirou a carteira, abriu-a, e

mostrou-lhe duas notas de cinco mil réis.

--Não tenho mais, disse elle; o que posso fazer é repartil-os com o

senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?

Custodio aceitou os cinco mil réis, não triste, ou de má cara, mas

risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a Asia Menor. Era

o jantar certo. Estendeu a mão ao outro, agradeceu-lhe o obsequio,

despediu-se até breve,--um _até breve_ cheio de affirmações implicitas.

Depois sahiu; o pedinte esvaiu-se á porta do cartorio; o general é que

foi por alli abaixo, pisando rijo, encarando fraternalmente os inglezes

do commercio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes.

Nunca o céu lhe pareceu tão azul, nem a tarde tão limpida; todos os

homens traziam na retina a alma da hospitalidade. Com a mão esquerda no

bolso das calças, elle apertava amorosamente os cinco mil réis, residuo

de uma grande ambição, que ainda ha pouco sahira contra o sol, n'um

impeto de aguia, e ora habita modestamente as azas de frango rasteiro.

FIM DO EMPRESTIMO

A SERENISSIMA REPUBLICA[1]

(CONFERENCIA DO CONEGO VARGAS)

Meus senhores,

Antes de communicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para

o nosso paiz, deixai que vos agradeça a promptidão com que acudistes

ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas não

ignoro tambem,--e fora ingratidão ignoral-o,--que um pouco de sympathia

pessoal se mistura á vossa legitima curiosidade scientifica. Oxalá

possa eu corresponder a ambas.

Minha descoberta não é recente; data do fim do anno de 1876. Não a

divulguei então,--e, a não ser o _Globo_, interessante diario d'esta

capital, não a divulgaria ainda agora,--por uma razão que achará facil

entrada no vosso espirito. Esta obra de que venho fallar-vos, carece de

retoques ultimos, de verificações e experiencias complementares. Mas

o _Globo_ noticiou que um sabio inglez descobriu a linguagem phonica

dos insectos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para

a Europa e aguardo as respostas com anciedade. Sendo certo, porém,

que pela navegação aerea, invento do padre Bartholomeo, é glorificado

o nome estrangeiro, emquanto o do nosso patricio mal se póde dizer

lembrado dos seus naturaes, determinei evitar a sorte do insigne

Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, á face do

universo, que muito antes d'quelle sabio, o fóra das ilhas britannicas,

um modesto naturalista descobriu cousa identica, e fez com ella obra

superior.

Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Aristoteles,

se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regimen social ás

aranhas? Aristoteles responderia negativamente, com vós todos, porque

é impossivel crer que jámais se chegasse a organisar socialmente

esse articulado arisco, solitario, apenas disposto ao trabalho, e

difficilmente ao amor. Pois bem, esse impossivel fil-o eu.

Ouço um riso, no meio do sussuro de curiosidade. Senhores, cumpre

vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente

porque não a conheceis. Amais o cão, prezaes o gato e a gallinha,

e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia

como o gato, não cacareja como a gallinha, não zune nem morde como o

mosquito, não nos leva o sangue e o somno como a pulga. Todos esses

bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma

formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso assucar e

nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia.

A aranha, senhores, não nos afflige nem defrauda; apanha as moscas,

nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de

paciencia, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto

aos seus talentos, não ha duas opiniões. Desde Plinio até Darwin, os

naturalistas do mundo inteiro formam um só côro de admiração em torno

d'esse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do

vosso creado destroe em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses

juizos, se me sobrasse tempo; a materia, porém, excede o prazo, sou

constrangido a abrevial-a. Tenho-os aqui, não todos, mas quasi todos;

tenho, entre elles, esta excellente monographia de Buchner, que com

tanta subtileza estudou a vida psychica dos animaes. Citando Darwin

e Buchner, é claro que me restrinjo á homenagem cabida a dois sabios

de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o

proclamam) as theorias gratuitas e erroneas do materialismo.

Sim, senhores, descobri uma especie araneida que dispõe do uso

da falla; colligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e

organisei-os socialmente. O primeiro exemplar d'essa aranha maravilhosa

appareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão

colorida, dorso rubro, com listras azues, transversaes, tão rapida nos

movimentos, e ás vezes tão alegre, que de todo me captivou a attenção.

No dia seguinte vieram mais tres, e as quatro tomaram posse de um

recanto de minha chacara. Estudei-as longamente; achei-as admiraveis.

Nada, porém, se póde comparar ao pasmo que me causou a descoberta do

idioma araneida, uma lingua, senhores, nada menos que uma lingua rica e

variada, com a sua estructura syntaxica, os seus verbos, conjugações,

declinações, casos latinos e fórmas onomatopaicas, uma lingua que estou

grammaticando para uso das academias, como o fiz summariamente para

meu proprio uso. E fil-o, notai bem, vencendo difficuldades asperrimas

com uma paciencia extraordinaria. Vinte vezes desanimei; mas o amor

da sciencia dava-me forças para arremetter a um trabalho, que hoje

declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.

Guardo para outro recinto a descripção technica do meu arachnide, e a

analyse da lingua. O objecto d'esta conferencia é, como disse, resalvar

os direitos da sciencia brazileira, por meio de um protesto em tempo;

e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior á

do sabio de Inglaterra. Devo demonstral-o, e para este ponto chamo a

vossa attenção.

Dentro de um mez tinha commigo vinte aranhas; no mez seguinte cincoenta

e cinco; em Março de 1877 contava quatrocentas e noventa. Duas forças

serviram principalmente á empreza de as congregar:--o emprego da lingua

d'ellas, desde que pude discernil-a um pouco, e o sentimento de terror

que lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo

idioma, fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde então

adoraram-me. E vede o beneficio d'esta illusão. Como as acompanhasse

com muita attenção e miudeza, lançando em um livro as observações

que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus peccados, e

fortaleceram-se ainda mais na pratica das virtudes. A flauta tambem foi

um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, ellas são doudas por

musica.

Não bastava associal-as; era preciso dar-lhes um governo idoneo.

Hesitei na escolha; muitos dos actuaes pareciam-me bons, alguns

excellentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma

fórma vigente de governo ficava exposta a comparações que poderiam

amesquinhal-a. Era-me preciso, ou achar uma fórma nova, ou restaurar

alguma outra abandonada. Naturalmente adoptei o segundo alvitre, e nada

me pareceu mais acertado do que uma republica, á maneira de Veneza, o

mesmo molde, e até o mesmo epitheto. Obsoleto, sem nenhuma analogia, em

suas feições geraes, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda

a vantagem de um mecanismo complicado,--o que era metter á prova as

aptidões politicas da joven sociedade.

Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os differentes modos

eleitoraes da antiga Veneza, figurava o do sacco e bolas, iniciação

dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Mettiam-se as bolas com

os nomes dos candidatos no sacco, e extrahia-se annualmente um certo

numero, ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras publicas.

Este systema fará rir aos doutores do suffragio; a mim não. Elle exclue

os desvarios da paixão, os desazos da inepcia, o congresso da corrupção

e da cobiça. Mas não foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um

povo tão eximio na fiação de suas teias, o uso do sacco eleitoral era

de facil adaptação, quasi uma planta indigena.

A proposta foi acceita. Serenissima Republica pareceu-lhes um titulo

magnifico, roçagante, expansivo, proprio a engrandecer a obra popular.

Não direi, senhores, que a obra chegou á perfeição, nem que lá chegue

tão cedo. Os meus pupillos não são os solarios de Campanella ou os

utopistas de Morus; formam um povo recente, que não póde trepar de um

salto ao cume das nações seculares. Nem o tempo é operario que ceda a

outro a lima ou o alvião; elle fará mais e melhor do que as theorias do

papel, validas no papel e mancas na pratica. O que posso affirmar-vos

é que, não obstante as incertezas da idade, elles caminham, dispondo

de algumas virtudes, que presumo essenciaes á duração de um Estado.

Uma d'ellas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciencia de

Penelope, segundo vou mostrar vos.

Com effeito, desde que comprehenderam que no acto eleitoral estava a

base da vida publica, trataram de o exercer com a maior attenção. O

fabrico do sacco foi uma obra nacional. Era um sacco de cinco polegadas

de altura e tres de largura, tecido com os melhores fios, obra solida

e espessa. Para compol-o foram acclamadas dez damas principaes, que

receberam o titulo de mães da republica, além de outros privilegios

e fóros. Uma obra-prima, podeis crel-o. O processo eleitoral é

simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem

certas condições, e são escriptas por um official publico, denominado

«das inscripções». No dia da eleição, as bolas são mettidas no sacco

e tiradas pelo official das extracções, até perfazer o numero dos

elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza,

serve aqui ao provimento de todos os cargos.

A eleição fez-se a principio com muita regularidade; mas, logo depois,

um dos legisladores declarou que ella fora viciada, por terem entrado

no sacco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembléa

verificou a exactidão da denuncia, e decretou que o sacco, até alli

de tres pollegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a

capacidade do sacco, restringia-se o espaço á fraude, era o mesmo que

supprimil-a. Aconteceu, porém, que na eleição seguinte, um candidato

deixou de ser inscripto na competente bola, não se sabe se por descuido

ou intenção do official publico. Este declarou que não se lembrava

de ter visto o illustre candidato, mas aecrescentou nobremente que

não era impossivel que elle lhe tivesse dado o nome; neste caso não

houve exclusão, mas distracção. A assembléa, diante de um phenomeno

psychologico ineluctavel, como é a distracção, não pôde castigar

o official; mas, considerando que a estreiteza do sacco podia dar

logar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as tres

pollegadas.

N'esse interim, senhores, falleceu o primeiro magistrado, e tres

cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas so dous importantes,

Hazeroth e Magog, os proprios chefes do partido rectilineo e do partido

curvilineo. Devo explicar-vos estas denominações. Como elles são

principalmente geometras, é a geometria que os divide em politica.

Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios rectos, é

o partido rectilineo;--outros pensam, ao contrario, que as teias

devem ser trabalhadas com fios curvos,--é o partido curvilineo. Ha

ainda um terceiro partido, mixto e central, com este postulado:--as

teias devem ser urdidas de fios rectos e fios curvos; é o partido

recto-curvilineo; e finalmente, uma quarta divisão politica, o partido

anti-recto-curvilineo, que fez taboa rasa de todos os principios

litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra

transparente e leve, em que não ha linhas de especie alguma. Como

a geometria apenas puderia dividil-os, sem chegar a apaixonal-os,

adoptaram uma symbolica. Para uns, a linha recta exprime os bons

sentimentos, a justiça, a probidade, a inteireza, a constancia, etc.,

ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajulação,

a fraude, a deslealdade, a perfidia, são perfeitamente curvos. Os

adversarios respondem que não, que a linha curva é a da virtude

e do saber, porque é a expressão da modestia e da humildade; ao

contrario, a ignorancia, a presumpção, a toleima, a parlapatice, são

rectas, duramente rectas. O terceiro partido, menos anguloso, menos

exclusivista, desbastou a exageração de uns e outros, combinou os

contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a exacta copia

do mundo pliysico e moral. O quarto limita-se a negar tudo.

Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas sahiram do sacco,

é verdade, mas foram inutilisadas, a do primeiro por faltar a primeira

lettra do nome, a do segundo por lhe faltar a ultima. O nome restante

e triumphante era o de um argentario ambicioso, politico obscuro,

que subiu logo á poltrona ducal, com espanto geral da republica.

Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre os louros do

vencedor; requereram uma devassa. A devassa mostrou que o official das

inscripções intencionalmente viciara a orthographia de seus nomes. O

official confessou o defeito e a intenção; mas explicou-os dizendo

que se tratava de uma simples ellipse; delicto, se o era, puramente

litterario. Não sendo possivel perseguir ninguem por defeitos de

ortographia ou figuras de rhetorica, pareceu acertado rever a lei.

Nesse mesmo dia ficou decretado que o sacco seria feito de um tecido de

malhas, atravez das quaes as bolas pudessem ser lidas pelo, publico,

e, _ipso facto_, pelos mesmos candidatos, que assim teriam tempo de

corrigir as inscripções.

Infelizmente, senhores, o commentario da lei é a eterna malicia. A

mesma porta aberta á lealdade serviu á astucia de um certo Nabiga, que

se conchavou com o official das extracções, para haver um logar na

assembléa. A vaga era uma, os candidatos tres; o official extrahiu as

bojas com os olhos no complice, que só deixou, de abanar negativamente

a cabeça, quando a bola pegada foi a sua. Não era preciso mais para

condemnar a idéa das malhas. A assembléa, com exemplar paciencia,

restaurou o tecido espesso do regimen anterior; mas, para evitar outras

ellipses, decretou a vallidação das bolas cuja inscripção estivesse

incorrecta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome inscripto o

proprio nome do candidato.

Este novo estatuto deu logar a um caso novo e imprevisto, como ides

ver. Tratou-se de eleger um collector de esportulas, funccionario

encarregado de cobrar as rendas publicas, sob a fórma de esportulas

voluntarias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um

certo Nebraska. A bola extrahida foi a de Nebraska. Estava errada, é

certo, por lhe faltar a ultima letra; mas, cinco testemunhas juraram,

nos termos da iei, que o eleito era o proprio e unico Nebraska da

republica. Tudo parecia findo, quando o candidato Caneca requereu

provar que a bola extrahida não trazia o nome de Nebraska, mas o

delle. O juiz de paz deferiu ao peticionario. Veiu então um grande

philologo,--talvez o primeiro da republica, além de bom metaphysico, e

não vulgar mathemathico,--o qual provou a cousa nestes termos:

Papeis Avulsos · 第 10 / 13 段