Ouvidor, em pleno marquez de Paraná. Era um endiabrado, um derramado,
planeava todas as cousas possiveis, e até contrarias, um livro,
um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma
historia, um libello politico, uma viagem á Europa, outra ao sertão
de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura
politica, e archeologia, e philosophia, e theatro, etc., etc., etc. Era
um sacco de espantos[1]. Quem conversava com elle sentia vertigens.
Imagine uma cachoeira de idéas e imagens, qual mais original, qual mais
bella, ás vezes extravagante, ás vezes sublime. Note que elle tinha a
convicção dos seus mesmos inventos. Um dia, por exemplo, acordou com
o plano de arrazar o morro do Castello, a troco das riquezas que os
jesuitas alli deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil
contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil
contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente
os objectos, deu-me dous tocheiros de ouro.
Z
Realmente...
A
Ah! impagavel. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do conego
Benigno, e resolveu ir logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade
mysteriosa. Expoz-me o plano, descreveu-me a architectura provavel da
cidade, os templos, os palacios, genero etrusco, os ritos, os vasos, as
roupas, os costumes...
Z
Era então doudo?
A
Originalão apenas. Odeio os carneiros de Panurgio, dizia elle, citando
Rabelais: _Comme vous sçaves estre du mouton le naturel, tousjours
suivre le premier, quelque part qu'il aille._ Comparava a trivialidade
a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes comer um máu bife
em mesa separada.
Z
Entretanto, gostava da sociedade.
A
Gostava da sociedade, mas não amava os socios. Um amigo nosso, o
Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que é que elle respondeu?
Respondeu com um apologo, em que cada socio figurava ser uma cuia
d'agua, e a sociedade uma banheira.--Ora, eu não posso lavar-me em
cuias d'agua, foi a sua conclusão.
Z
Nada modesto. Que lhe disse o Pires?
A
O Pires achou o apologo tão bonito que o metteu n'uma comedia, d'ahi
a tempos. Engraçado é que o Xavier ouviu o apologo no theatro, e
applaudiu-o muito, com enthusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a
voz do sangue... Isto leva-me á explicação da actual miseria do Xavier.
Z
É verdade, não sei como se possa explicar que um nababo...
A
Explica-se facilmente. Elle espalhava idéas á direita e á esquerda,
como o céu chove, por uma necessidade physica, e ainda por duas razões.
A primeira é que era impaciente, não soffria a gestação indispensavel
á obra escripta. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão
vasta de cousas, que mal poderia fixar-se em qualquer dellas. Se não
tivesse o verbo fluente, morreria de congestão mental; a palavra era
um derivativo. As paginas que então fallava, os capitulos que lhe
borbotavam da bocca, só precisavam de uma arte de os imprimir no
ar, e depois no papel, para serem paginas e capitulos excellentes,
alguns admiraveis. Nem tudo era limpido; mas a porção limpida superava
a porção turva, como a vigilia de Homero paga os seus cochillos.
Espalhava tudo, ao acaso, ás mãos cheias, sem ver onde as sementes iam
cahir; algumas pegavam logo...
Z
Como a das cuias.
A
Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixão das cousas bellas, e,
uma vez que a arvore fosse pomposa e verde, não lhe perguntava nunca
pela semente sua mãe. Viveu assim longos annos, despendendo á tôa, sem
calculo, sem fructo, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro
prodigo. Com tal regimen, que era a ausencia de regimen, não admira que
ficasse pobre e miseravel. Meu amigo, a imaginação e o espirito têm
limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade
dos homens, nada conheço inexgotavel debaixo do sol, O Xavier não
só perdeu as idéas que tinha, mas até exhauriu a faculdade de as
crear; ficou o que sabemos. Que moeda rara se lhe vê hoje nas mãos?
que sestercio de Horacio? que drachma de Pericles? Nada. Gasta o seu
logar-commum, rafado das mãos dos outros, come á mesa redonda, fez-se
trival, chôcho...
Z
Cuia, emfim.
A
Justamente: cuia.
Z
Pois muito me conta. Não sabia nada disso. Fico inteirado; adeus.
A
Vai a negocio?
Z
Vou a um negocio.
A
Dá-me dez minutos?
Z
Dou-lhe quinze.
V
Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida do Xavier.
Aceite o meu braço, e vamos andando. Vai para a Praça? Vamos juntos.
Um caso interessantissimo. Foi alli por 1869 ou 70, não me recordo;
elle mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cerebro
gasto, chupado, esteril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem,
nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora,--«uma bonita
rosa»; fallava do luar saudoso, do sacerdocio da imprensa, dos jantares
opiparos, sem accrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa
chaparia de algibebe. Começára a ficar hypocondriaco; e, um dia,
estando á janella, triste, desabusado das cousas, vendo-se chegado a
nada, aconteceu passar na rua um taful a cavallo. De repente, o cavallo
corcoveou, e o taful veiu quasi ao chão; mas sustentou-se, e metteu
as esporas e o chicote no animal; este empina-se, elle teima; muita
gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o
cavallo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de
admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte do cavalleiro. Então
o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavalleiro não tivesse animo
nenhum; não quiz cahir diante de gente, e isso lhe deu a força de domar
o cavallo. E d'ahi veiu uma idéa: comparou a vida a um cavallo chucro
ou manhoso; e accrescentou sentenciosamente: Quem não fôr cavalleiro,
que o pareça. Realmente, não era uma idéa extraordinaria; mas a penuria
do Xavier tocara a tal extremo, que esse crystal pareceu-lhe um
diamante. Elle repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de varios modos,
ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento;
ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.;
e tão alegre, tão alegre como casa de pobre em dia de perú. De noite,
sonhou que effectivamente montava um cavallo manhoso, que este
pinoteava com elle e o sacudia a um brejo. Accordou triste; a manhã,
que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; metteu-se a lêr
e a scismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do annel de Polycrates?
Z
Francamente, não.
A
Nem eu; mas aqui vai o que me disse o Xavier. Potycrates governava
a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que
começou a receiar alguma viravolta da Fortuna, e, para applacal-a
antecipadamente, determinou fazer um grande sacrificio: deitar ao mar
o annel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim
fez; mas a Fortuna andava tão apostada em cumulal-o de obsequios, que
o annel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a
cozinha do rei, que assim voltou á posse do annel. Não affirmo nada
a respeito d'esta anedocta; foi elle quem me contou, citando Plinio,
citando...
Z
Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a
um cavallo, mas...
A
Nada d'isso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambotico do pobre
diabo. Experimentemos a fortuna, disse elle; vejamos se a minha idéa,
lançada ao mar, póde tornar ao meu poder, como o annel de Polycrates,
no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca
mais lhe ponha a mão.
Z
Ora essa!
A
Não é estrambotico? Polycrates experimentára a felicidade; o Xavier
quiz tentar o caiporismo; intenções diversas, acção indentica. Saiu de
casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assumpto, e acabou
dizendo o que era a vida, um cavallo chucro ou manhoso, e quem não fôr
cavalleiro que o pareça. Dita assim, esta phrase era talvez fria; por
isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o
desconsolo dos annos, o mallogro dos esforços, ou antes os effeitos da
imprevidencia, e quando o peixe ficou de bocca aberta, digo, quando
a commoção do amigo chegou ao cume, foi que elle lhe atirou o annel,
e fugiu a metter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se,
não é impossivel; mas agora começa a juntar-se á realidade uma alta
dóse de imaginação. Seja o que fôr, repito o que elle me disse. Cerca
de tres semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no _Leão de
Ouro_ ou no _Globo_, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma
phrase sua, talvez com a troca de um adjectivo. «Meu pobre annel, disse
elle, eis-te emfim no peixe de Polycrates.» Mas a idéa bateu as azas
e voou, sem que elle pudesse guardal-a na memoria. Resignou-se. Dias
depois, foi convidado a um baile: era um antigo companheiro dos tempos
de rapaz, que celebrava a sua recente distincção nobiliaria. O Xavier
aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o
sorvete e o chá ouviu de um grupo de pessoas que louvavam a carreira de
barão, a sua vida prospera, rigida, modelo, ouviu comparar o barão a
um cavalleiro emerito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava
a cavallo. Mas o panegyrista explicou que a vida não é mais do que um
cavallo chucro ou manhoso, sobre o qual ou se ha de ser cavalleiro ou
parecel-o, e o barão era-o excellente. «--Entra, meu querido annel,
disse o Xavier, entra no dedo de Polycrates.» Mas de novo a idéa bateu
as azas, sem querer ouvil-o. Dias depois...
Z
Adivinho o resto: uma serie de encontros e fugas do mesmo genero.
A
Justo.
Z
Mas, emfim, apanhou-o um dia.
A
Um dia só, e foi então que me contou o caso digno de memoria. Tão
contente que elle estava n'esse dia! Jurou-me que ia escrever, a
proposito d'isto, um conto fantastico, á maneira de Edgard Poe, uma
pagina fulgurante, pontuada de mysterios,--são as suas proprias
expressões;--e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o annel
fugira-lhe outra vez. «Meu caro A, disse-me elle, com um sorriso fino
e sarcastico; tens em mim o Polycrates do caiporismo; nomeio-te meu
ministro honorario e gratuito.» D'ahi em diante foi sempre mesma coisa.
Quando elle suppunha pôr a mão em cima da idéa, ella batia as azas,
plas, plas, plas, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro
peixe a engolia e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que
elle me contou n'aquelle dia, quero dizer-lhe tres...
Z
Não posso; lá se vão os quinze minutos.
A
Conto-lhe só tres. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia emfim
agarrar a fugitiva, e fincal-a perpetuamente no cerebro. Abriu um
jornal de opposição, e leu estupefacto estas palavras: «O ministerio
parece ignorar que a politica é, como a vida, um cavallo chucro ou
manhoso, e, não podendo ser bom cavalleiro, porque nunca o foi, devia
ao menos parecer que o é.» Ah! emfim! exclamou o Xavier, cá estás
engastado no bucho do peixe; já me não podes fugir.» Mas, em vão! a
idéa fugia-lhe, sem deixar outro vestigio mais do que uma confusa
reminiscencia. Sombrio, desesperado, começou a andar, a andar, até que
a noite caiu; passando por um theatro, entrou; muita gente, muitas
luzes, muita alegria; o coração aquietou-se-lhe. Cumulo de beneficios:
era uma comedia do Pires, uma comedia nova. Sentou-se ao pé do autor,
applaudiu a obra com enthusiasmo, com sincero amor de artista e de
irmão. No segundo acto, scena VIII, estremeceu. «D. Eugenia, diz o
galan a uma senhora, o cavallo póde ser comparado á vida, que é também
um cavallo chucro ou manhoso; quem não for bom cavalleiro, deve cuidar
de parecer que o é.» O autor, com o olhar timido, espiava no rosto do
Xavier o effeito d'aquella reflexão, emquanto o Xavier repetia a mesma
supplica das outras vezes;--«Meu querido annel...
Z
_Et nunc et semper..._ Venha o ultimo encontro, que são horas.
A
O ultimo foi primeiro. Já lhe disse que o Xavier transmittira a idéa
a um amigo. Uma semana depois da comedia cae o amigo doente, com tal
gravidade que em quatro dias estava á morte. O Xavier corre a vel-o;
e o infeliz ainda o pôde conhecer, estender-lhe a mão fria e tremula,
cravar-lhe um longo olhar baço da ultima hora, e, com a voz sumida,
echo do sepulchro, soluçar-lhe: «Cá voou, meu caro Xavier, o cavallo
chucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão: se fui mau cavalleiro,
não sei; mas forcejei por parecel-o bom.» Não se ria; elle contou-me
isto com lagrimas. Contou-me tambem que a idéa ainda esvoaçou alguns
minutos sobre o cadaver, faiscando as bellas azas de christal, que
elle cria ser diamante; depois estalou um risinho de escarneo, ingrato
e parricida, e fugiu como das outras vezes, mettendo-se no cerebro de
alguns sujeitos, amigos da casa, que alli estavam, tranzidos de dor, e
recolheram com saudade esse pio legado do defuncto. Adeus.
[1]Em algumas linhas escriptas para dar o ultimo adeus a Arthur de
Oliveira, meu triste amigo, disse que era elle o original deste
personagem. Menos a vaidade, que não tinha, e salvo alguns rasgos mais
accentuados, este Xavier era o Arthur. Para completal-o darei aqui
mesmo aquellas linhas impressas na _Estação_ de 31 de Agosto ultimo:
"Quem não tratou de perto este rapaz, morto a 21 do mez corrente, mal
poderá entender a admiração e saudade que elle deixou.
"Conheci-o desde que chegou do Rio Grande do Sul, com dezesete
ou dezoito annos de edade; e podem crer que era então o que foi
aos trinta. Aos trinta lera muito, vivera muito; mas toda aquella
pujança de espirito, todo esse raro temperamento litterario que lhe
admiravamos, veiu com a flor da adolescencia; desabrochara com os
primeiros dias. Era a mesma torrente de ideias, a mesma fulguração
de imagens. Ha algumas semanas, em escripto que viu a luz na _Gazeta
de Noticias_, defini a alma de um personagem com esta especie de
hebraismo:--chamei-lhe um sacco de espantos. Esse personagem (posso
agora dizel-o) era, em algumas partes, o nosso mesmo Arthur, com a sua
poderosa loquella e extraordinaria fantazia. Um sacco de espantos. Mas,
se o da minha invenção morreu exhausto de espirito, não aconteceu o
mesmo a Arthur de Oliveira, que pôde alguma vez ficar prostrado, mas
não exhauriu nunca a força genial que possuia.
"Um organismo daquelles era naturalmente irrequieto. Minas o viu,
pouco depois, no collegio dos padres do Caráça, começando os estudos,
que interrompeu logo, para continual-os na Europa. Na Europa travou
relações litterarias de muito peso; Theophilo Gauthier, entre outros,
queria-lhe muito, apreciava-lhe a alta comprehensao artistica, a
natureza impetuosa e luminosa, os deslumbramentos subitos de raio.
_Venez, père de la foudre!_ dizia-lhe elle, mal o Arthur assomava á
porta. E o Arthur, assim definido familiarmente pelo grande artista,
entrava no templo, palpitante da divindade, admirativo como tinha de
ser até á morte. Sim, até á morte. Gauthier foi uma das religiões que
o consolaram. Sete dias antes de o perdermos, isto é, a 14 deste mez,
prostrado na cama, roido pelo dente cruel da tisica, escrevia-me elle
a proposito de um prato do jantar. "O verde das couves espanejava-se
em uma onda de pirão, cor de ouro. A palheta de Ruysdael, pelo
incendido do ouro, não hesitaria um só instante, em assignar esse pirão
_mirabolante_, como diria o grande e divino Theo..." Grande e divino!
Vêde bem que esta admiração é de um moribundo, refere-se a um morto,
e falla na intimidade da correspondencia particular. Onde outra mais
sincera?
"Não escrevo uma biographia. A vida delle não é das que se escrevem; é
das que são vividas, sentidas, amadas, sem jamais poderem converter-se
á narração; tal qual os romances psychologicos, em que a urdidura dos
factos é breve ou nenhuma. Ultimamente, exercia o professorado no
Collegio de Pedro II; mas a doença tomou-o entre as suas tenazes, para
não o deixar mais.
"Não o deixou mais: comeu-lhe a seiva toda; desfibrou-o com a paciencia
dos grandes operarios. Elle, como vimos, prestes a tropeçar na cova,
regalava-se ainda das reminiscencias litterarias, evocava a palheta
de Ruysdael, olhando para a vida que lhe ia sobreviver, a vida da
arte que elle amou com fé religiosa, sem proveito para si, sem
calculo, sem odios, sem invejas, sem desfallecimento. A doença fel-o
padecer muito; teve instantes de dôr cruel, não raro de desespero e
de lagrimas; mas, em podendo, reagia. Encararia alguma vez o enigma
da morte? Poucas horas antes de morrer (perdôem-me esta recordação
pessoal; é necessaria), poucas horas antes de morrer, lia um livro meu,
o das _Memorias Posthumas de Braz Cubas_, e dizia-me que interpretava
agora melhor algumas de suas passagens. Talvez as que entendiam com
a occasião... E dizia-me aquillo serenamente, com uma força de animo
rara, uma resignação de granito. Foi ao sair de uma dessas visitas, que
escrevi estes versos, recordando os arrojos d'elle comparados com o
actual estado. Não lh'os mostrei; e dou-os aqui para os seus amigos:
"Sabes tu de um poeta enorme,
Que andar não usa
No chão, e cuja extranha musa,
Que nunca dorme,
"Calça o pé melindroso e leve,
Como uma pluma,
De folha e flôr, de sol e neve,
Cristal e espuma;
"E mergulha, como Leandro,
A fórma rara
No Pó, no Sena, em Guanabara,
E no Scamandro;
"Ouve a Tupan e escuta a Momo,
Sem controversia,
E tanto adoro o estudo, como
Adora a inercia;
"Ora do fuste, ora da ogiva
Sair parece;
Ora o Deus do occidente esquece
Pelo deus Siva;
"Gosta do estrepito infinito,
Gosta das longas
Solidões em que se ouve o grito
Das arapongas;
"E se ama o rapido besouro,
Que zumbe, zumbe,
E a mariposa que succumbe
Na flamma de ouro,
"Vagalumes e borboletas
Da côr da chamma,
Roxas, brancas, rajadas, pretas,
Não menos ama
"Os hippopotamos tranquillos,
E os elephantes,
E mais os bufalos nadantes,
E os crocodillos,
"Como as girafas e as pantheras,
Onças, condores,
Toda a casta de bestas feras
E voadores.
"Se não sabes quem elle seja,
Trepa de um salto,
Azul acima, onde mais alto
A aguia negreja;
"Onde morre o clamor iniquo
Dos violentos;
Onde não chega o riso obliquo
Dos fraudulentos.
"Então olha, de cima posto,
Para o oceano;
Verás n'um longo rosto humano
Teu mesmo rosto;
"E has de rir, não do riso antigo,
Potente e largo,
Riso de eterno moço amigo;
Mas de outro amargo,
"Como o riso de um deus enfermo,
Que se aborrece
Da divindade, e que apetece
Tambem um termo...
"Os amigos delle apreciarão o sentido desses versos. O publico, em
geral, nada tem com um homem que passou pela terra sem o convidar para
cousa nenhuma, um forte engenho que apenas soube amar a arte, como
tantos christãos obscuros amaram a Egreja, e amar tambem aos seus
amigos, porque era meigo, generoso e bom."
FIM DO ANNEL DE POLYCRATES
O EMPRESTIMO
Vou divulgar uma anecdota, mas uma anecdota no genuino sentido do
vocabulo, que o vulgo ampliou ás historietas de pura invenção. Esta é
verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu.
Nem ella andou recondita, senão por falta de um espirito repousado, que
lhe achasse a philosophia. Como deveis saber, ha em todas as cousas
um sentido philosophico. Carlyle descobriu o dos colletes, ou, mais
propriamente, o do vestuario; e ninguem ignora que os numeros, muito
antes da loteria do Ypiranga, formavam o systema de Pythagoras. Pela
minha parte creio ter decifrado este caso de emprestimo; ides ver se me
engano.
E, para começar, emendemos Seneca. Cada dia, ao parecer d'aquelle
moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma
vida dentro da vida. Não digo que não; mas porque não accrescentou
elle, que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida
inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma
pasta de ministro, um Banco, uma corôa de visconde, um baculo pastoral.
Aos cincoenta annos, vamos achal-o simples apontador de alfandega, ou
sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta annos, póde algum
Balzac mette-lo em trezentas paginas; porque não hade a vida, que foi a
mestra de Balzac, apertal-o em trinta ou sessenta minutos?
Tinham batido quatro horas no cartorio do tabellião Vaz Nunes, á rua
do Rosario. Os escreventes deram ainda as ultimas pennadas: depois
limparam as pennas de ganço na ponta de seda preta que pendia da gaveta
ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papeis, arrumaram os autos
e os livros, lavaram as mãos; alguns que mudavam de paletot á entrada,
despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos sahiram. Vaz Nunes
ficou só.
Este honesto tabellião era um dos homens mais perspicazes do seculo.
Está morto: podemos elogial-o á vontade. Tinha um olhar de lanceta,
cortante e agudo. Elle adivinhava o caracter das pessoas que o
buscavam para escripturar os seus accordos e resoluções; conhecia
a alma de um testador muito antes de acabar o testamento; farejava
as manhas secretas e os pensamentos reservados. Usava oculos, como
todos os tabelliães de theatro; mas, não sendo myope, olhava por cima
d'elles, quando queria ver, e através d'elles, se pretendia não ser
visto. Finorio como elle só, diziam os escreventes. Em todo o caso,
circumspecto. Tinha cincoenta annos, era viuvo, sem filhos, e, para
fallar como alguns outros serventuarios, roia muito caladinho os seus
duzentos contos de reis.
--Quem é? perguntou elle de repente, olhando para a porta da rua.
Estava á porta, parado na soleira, um homem que elle não conheceu
logo, e mal póde reconhecer dahi a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor
de entrar; elle obedeceu, comprimentou-o, estendeu-lhe a mão, e
sentou-se na cadeira ao pé da mesa. Não trazia o acanho natural a um
pedinte; ao contrario, parecia, que não vinha alli senão para dar ao
tabellião alguma cousa preciosissima e rara. E, não obstante, Vaz Nunes
estremeceu e esperou.
--Não se lembra de mim?
--Não me lembro...
--Estivemos juntos uma noite, ha alguns mezes, na Tijuca... Não se
lembra? Em casa do Theodorico, aquella grande ceia de Natal; por signal
que lhe fiz uma saude... Veja se se lembra do Custodio.
--Ah!
Custodio endireitou o busto, que até então inclinara um pouco. Era um
homem de quarenta annos. Vestia pobremente, mas escorado, apertado,
correcto. Usara unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mãos
muito bem talhadas, macias, ao contrario da pelle do rosto, que era
agreste. Noticias minimas, e aliás necessarias ao complemento de um
certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general.
Na rua, andando, sem almoço e sem vintem, parecia levar após si um
exercito. A causa não era outra mais do que o contraste entre a
natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custodio nascera com
a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instincto das
elegancias, o amor do superfluo, da boa chira, das bellas damas, dos
tapetes finos, dos moveis raros, um voluptuoso, e, até certo ponto,
um artista, capaz de reger a villa Torloni ou a galeria Hamilton. Mas
não tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptidão ou pachorra de o ganhar;
por outro lado, precisara viver. _Il faut bien que je vive_, dizia um
pretendente ao ministro Talleyrand. _Je n'en vois pas la necessité_,
redarguiu friamente o ministro. Ninguem dava essa resposta ao Custodio;
davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil reis, e de
taes esportulas é que elle principalmente tirava o albergue e a comida.
Digo que principalmente vivia d'ellas, porque o Custodio não recusava
metter-se em alguns negocios, com a condição de os escolher, e escolhia
sempre os que não prestavam para nada. Tinha o faro das catastrophes.
Entre vinte emprezas, adivinhava logo a insensata, e mettia hombros
a ella, com resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que
as dezenove prosperassem, e a vigesima lhe estourasse nas mãos. Não
importa; apparelhava-se para outra.
Agora, por exemplo, leu um annuncio de alguem que pedia um socio, com
cinco contos de reis, para entrar em certo negocio, que promettia dar,
nos primeiros seis mezes, oitenta a cem contos de lucro, Custodio foi
ter com o annunciante. Era uma grande idéa, uma fabrica de agulhas,
industria nova, de immenso futuro. E os planos, os desenhos da fabrica
os relatorios de Birmingham, os mappas de importação, as respostas dos
alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um
longo inquerito passavam diante dos olhos de Custodio, estrellados de
algarismos, que elle não entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam
dogmaticos. Vinte e quatro horas; não pedia mais de vinte e quatro
horas para trazer os cinco contos. E saiu d'alli, cortejado, amimado
pelo annunciante, que, ainda á porta, o afogou n'uma torrente de
saldos. Mas os cinco contos, menos doceis ou menos vagabundos que os
cinco mil reis, saccudiam incredulamente a cabeça, e deixavam-se estar
nas arcas, tolhidos de medo e de somno. Nada. Oito ou dez amigos, a
quem fallou, disseram-lhe que nem dispunham agora da somma pedida, nem
acreditavam na fabrica. Tinha perdido as esperanças, quando aconteceu
subir a rua do Rozario e ler no portal de um cartorio o nome de Vaz
Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do
tabellião, as phrases com que elle lhe respondeu ao brinde, e disse
comsigo, que este era o salvador da situação.
--Venho pedir-lhe uma escriptura...
Vaz Nunes, armado para outro começo, não respondeu: espiou por cima dos
oculos e esperou.