Mas a fortuna é caprichosa. Quinze dias depois do casamento, chegou a

noticia do obito do desembargador. Não descrevo a dôr de D. Benedicta;

foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca, vieram

ter com ella; D. Benedicta chorou todas as lagrymas de uma esposa

austera e fidelissima. Depois da missa do setimo dia, consultou a filha

e o genro ácerca da ideia de ir ao Pará, erigir um tumulo ao marido, e

beijar a terra em que elle repousava. Mascarenhas trocou um olhar com

a mulher; depois disse á sogra que era melhor irem juntos, porque elle

devia seguir para o Norte dahi a tres mezes em commissão do governo. D.

Benedicta recalcitrou um pouco, mas aceitou o prazo, dando desde logo

todas as ordens necessarias á construcção do tumulo. O tumulo fez-se;

mas a commissão não veiu, e D. Benedicta não pôde ir.

Cinco mezes depois, deu-se um pequeno incidente na familia. D.

Benedicta mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o genro,

com o pretexto de uma interrupção na obra, propoz acabal-a. D.

Benedicta consentiu, e o acto era tanto mais honroso para ella, quanto

que o genro começava a parecer-lhe insupportavel com a sua excessiva

disciplina, com as suas teimas, impertinencias, etc. Verdadeiramente,

não havia teimas: nesse particular, o genro de D. Benedicta contava

tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava; deixava que ella

propria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que isto mesmo a

mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul;

Eulalia, gravida, ficou com a mãe.

Foi por esse tempo que um negociante, viuvo, teve ideia de cortejar

D. Benedicta. O primeiro anno da viuvez estava passado D. Benedicta

acolheu a ideia com muita sympathia, embora sem alvoroço. Defendia-se

comsigo; allegava a edade e os estudos do filho, que em breve estaria a

caminho de S. Paulo, deixando-a só, sosinha no mundo. O casamento seria

uma consolação, uma companhia. E comsigo, na rua ou em casa, nas horas

disponiveis, aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação

vivaz e subita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da

morte do marido, pode-se dizer que era viuva. O negociante gozava do

melhor conceito: a escolha era excellente.

Não casou. O genro tornou do Sul, a filha deu á luz um menino robusto

e lindo, que foi a paixão da avó durante os primeiros mezes. Depois,

o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedicta achou-se

só e triste; o filho não bastava aos seus affectos. A ideia de viajar

tornou a rutilar-lhe na mente, mas como um phosphoro, que se apaga

logo. Viajar sosinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou

melhor ficar. Uma companhia lyrica, adventicia, sacudiu-lhe o torpor, e

restituiu-a á sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a ideia do

casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado,

tambem viuvo.

--Casarei? não casarei?

Uma noite, volvendo D. Benedicta este problema, á janella da casa de

Botafogo, para onde se mudara desde alguns mezes, viu um singular

expectaculo. Primeiramente uma claridade opaca, especie de luz coada

por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteiro á janella.

Nesse quadro appareceu-lhe uma figura vaga e transparente, trajada de

nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam

todos no ar. A figura veiu até ao peitoril da janella de D. Benedicta;

e de um gesto somnolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas

palavras sem sentido:

--Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e

casas... casando...

D. Benedicta ficou atterrada, sem poder mexer-se; mas ainda teve a

força de perguntar á figura quem era. A figura achou um principio de

riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira

ao nascimento de D. Benedicta: Meu nome é Velleidade, concluiu; e, como

um suspiro, dispersou-se na noite e no silencio.

FIM DE D. BENEDICTA

O SEGREDO DO BONZO[1]

CAPITULO INEDITO DE FERNÃO MENDES PINTO

Atraz deixei narrado o que se passou n'esta cidade Fucheo, capital do

reino de Bungo, com o padre mestre Francisco, e de como el-rey se houve

com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao

padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina

não menos curiosa que saudavel ao espirito, e digna de ser divulgada a

todas as republicas da christandade.

Um dia, andando a passeio com Diogo Meirelles, n'esta mesma cidade

Fucheo, n'aquelle anno de 1552, succedeu deparar-se-nos um ajuntamento

de povo, á esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que

discorria com grande abundancia de gestos e vozes. O povo, segundo

o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões sómente, e

todos embasbacados. Diogo Meirelles, que melhor conhecia a lingua da

terra, pois alli estivera muitos mezes, quando andou com bandeira de

veniaga (agora occupava-se no exercicio da medicina, que estudara

convenientemente, e em que era eximio) ia-me repetindo pelo nosso

idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte:--Que

elle não queria outra cousa mais do que affirmar a origem dos grillos,

os quaes procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua

nova; que este descobrimento, impossivel a quem não fosse, como elle,

mathematico, physico e philosopho, era fructo de dilatados annos de

applicação, experiencia e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas

emfim, estava feito, e todo redundava em gloria do reino de Bungo, e

especialmente da cidade Fucheo, cuja filho era; e, se por ter aventado

tão sublime verdade, fosse necessario aceitar a morte, elle a aceitaria

alli mesmo, tão certo era que a sciencia valia mais do que a vida e

seus deleites.

A multidão, tanto que elle acabou, levantou um tumulto de acclamações,

que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem,

bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau que descobriu a origem dos

grillos. E todos se foram com elle ao alpendre de um mercador, onde lhe

deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverencias, á maneira

d'este gentio, que é em extremo obsequioso e cortezão.

Desandando o caminho, vinhamos nós, Diogo Meirelles e eu, fallando

do singular achado da origem dos grillos, quando, a pouca distancia

d'aquelle alpendre, obra de seis credos, não mais, achámos outra

multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficámos

espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meirelles, visto que

tambem este fallava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da

oração. E dizia este outro, com grande admiração e applauso da gente

que o cercava, que emfim descobrira o principio da vida futura, quando

a terra houvesse de ser inteiramente destruida, e era nada menos

que uma certa gota de sangue de vacca; d'ahi provinha a excellencia

da vacca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse

distincto animal era procurado por muitos homens á hora de morrer;

descobrimento que elle podia affirmar com fé e verdade, por ser obra

de experiencias repetidas e profunda cogitação, não desejando nem

pedindo outro galardão mais que dar gloria ao reino de Bungo e receber

d'elle a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutára

esta falla com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem

ao dito alpendre, com a differença que o trepou a uma charola; alli

chegando, foi regalado com obsequios eguaes aos que faziam a Patimau,

não havendo nenhuma distincçao entre elles, nem outra competencia nos

banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.

Ficámos sem saber nada d'aquillo, porque nem nos parecia casual

a semelhança exacta dos dous encontros, nem racional ou crivel a

origem dos grillos, dada por Patimau, ou o principio da vida futura,

descoberto por Langurú, que assim se chamava o outro. Succedeu, porém,

costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a

fallar a Diogo Meirelles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos,

em que o alparqueiro chamou as mais galantes cousas a Diogo Meirelles,

taes como--ouro da verdade e sol do pensamento,--contou-lhe este o

que viramos e ouviramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande

alvoroço:--Póde ser que elles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem

que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas

pegadas ao monte Coral. E porque ficassemos cubiçosos de ter alguma

noticia da doutrina, consentiu Titané em ir comnosco no dia seguinte ás

casas do bonzo, e accrescentou:--Dizem que elle não a confia a nenhuma

pessoa, se não ás que de coração se quizerem filiar a ella; e, sendo

assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir;

e se fôr boa, chegaremos a pratical-a á nossa vontade.

No dia seguinte, ao modo concertado, fomos ás casas do dito bonzo,

por nome Pomada, um ancião de cento e oito annos, muito lido e sabido

nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquella

gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se

finavam de puro ciume. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem

eramos e o que queriamos, iniciou-nos primeiro com varias ceremonias e

bugiarias necessarias á recepção da doutrina, e só depois d'ella é que

alçou a voz para confial-a e explical-a.

Haveis de entender, começou elle, que a virtude e o saber, tem duas

existencias parallelas, uma no sugeito que as possue, outra no espirito

dos que o ouvem ou contemplam. Se puzerdes as mais sublimes virtudes

e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitario, remoto de

todo contacto com outros homens, é como se elles não existissem. Os

fructos de uma larangeira, se ninguem os gostar, valem tanto como as

urzes e plantas bravias, e, se ninguem os vir, não valem nada; ou, por

outras palavras mais energicas, não ha expectaculo sem expectador. Um

dia, estando a cuidar n'estas cousas, considerei que, para o fim de

allumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos annos,

e, aliás, nada chegaria a valer sem a existencia de outros homens que

me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o

mesmo effeito, poupando taes trabalhos, e esse dia posso agora dizer

que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.

N'este ponto, afiámos os ouvidos e ficámos pendurados da boca do bonzo,

o qual, como lhe dissesse Diogo Meirelles que a lingua da terra me não

era familiar, ia fallando com grande pausa, porque eu nada perdesse.

E continuou dizendo:--Mal podeis adivinhar o que me deu idéa da nova

doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão

luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no pincaro de uma

torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma

tal pedra, com taes quilates de luz, não existiu nunca, e ninguem

jámais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que

a viu com os seus proprios olhos. Considerei o caso, e entendi que,

se uma cousa póde existir na opinião, sem existir na realidade, e

existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das

duas existencias parallelas a única necessaria é a da opinião, não a

da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado

especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me

a verifical-o por experiencias; o que alcancei, em mais de um caso, que

não relato, por vos não tomar o tempo. Para comprehender a efficacia

do meu systema, basta advertir que os grillos não podem nascer do ar e

das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova, e por outro lado,

o principio da vida futura não está em uma certa gotta de sangue de

vacca; mas Patimáu e Langurú, varões astutos, com tal arte souberam

metter estas duas idéas no animo da multidão, que hoje desfructam a

nomeada de grande physicos e maiores philosophos, e tem comsigo pessoas

capazes de dar a vida por elles.

Não sabiamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo

contentamento e admiração. Elle interrogou-nos ainda algum tempo,

compridamente, ácerca da doutrina e dos fundamentos d'ella, e depois de

reconhecer que a entendiamos, incitou-nos a pratical-a, a divulgal-a

cautelosamente, não porque houvesse nada contrario ás leis divinas ou

humanas, mas porque a má comprehensão d'ella podia damnal-a e perdel-a

em seus primeiros passos; emfim, despediu-se de nós com a certeza

(são palavras suas) de que abalavamos d'alli com a verdadeira alma de

pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome d'elle, lhe

era em extremo agradavel.

Com effeito, antes de cair a tarde, tinhamos os tres combinado em pôr

por obra uma idéa tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro

o que se póde haver em moeda, senão tambem o que traz consideração e

louvor, que é outra e melhor especie de moeda, comquanto não dê para

comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, á guisa de

experiencia, metter cada um de nós, no animo da cidade Fucheo, uma

certa convicção, mediante a qual houvessemos os mesmos beneficios

que desfructavam Patimau e Langurú; mas, tão certo é que o homem não

olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas

maneiras, cobrando da experiencia ambas as moedas, isto é, vendendo

tambem as suas alparcas: ao que nos não oppuzemos, por nos parecer que

nada tinha isso com o essencial da doutrina.

Consistiu a experiencia de Titané em uma cousa que não sei como diga

para que a entendam. Usam n'este reino de Bungo, e em outros d'estas

remotas partes, um papel feito de casca de canella moida e gomma,

obra mui prima, que elles talham depois em pedaços de dois palmos de

comprimento, e meio de largura, nos quaes desenham com vivas e variadas

côres, e pela lingua do paiz, as noticias da semana, politicas,

religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das

fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes

mares, ou em guerra, que a ha frequente, ou de veniaga. E digo as

noticias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito

dias, em grande copia, e distribuidas ao gentio da terra, a troco

de uma esportula, que cada um dá de bom grado para ter as noticias

primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quiz melhor

esquina que este papel, chamado pela nossa lingua _Vida e claridade

das cousas mundanas e celestes_, titulo expressivo, ainda que um tanto

derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar

noticias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as

quaes não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas

d'elle Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo,

por serem mui solidas e graciosas; que nada menos de vinte e dous

mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do explendor

das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse creado

o titulo honorifico de «alparca do Estado», para recompensa dos que

se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram

grossissimas as encommendas feitas de todas as partes, ás quaes elle

Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela gloria que d'alli

provinha á nação; não recuando, todavia, do proposito em que estava e

ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cincoenta corjas das

ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rey e o repetia agora;

emfim, que apezar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida

em toda a terra, elle sabia os deveres da moderação, e nunca se

julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da gloria do reino de

Bungo.

A leitura d'esta noticia commoveu naturalmente a toda a cidade Fucheo,

não se fallando em outra cousa durante toda aquella semana. As alparcas

de Titané, apenas estimadas, começaram de ser buscadas com muita

curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois não

deixou elle de entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e

extraordinarias anedoctas ácerca da sua mercadoria. E dizia-nos com

muita graça:--Vêde que obedeço ao principal da nossa doutrina, pois não

estou persuadido da superioridade das taes alparcas, antes as tenho

por obra vulgar, mas fil-o crer ao povo, que as vem comprar agora,

pelo preço que lhes taxo. Não me parece, atalhei, que tenhaes cumprido

a doutrina em seu rigor e substancia, pois não nos cabe inculcar aos

outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que

não possuimos; este é, ao certo, o essencial d'ella.

Dito isto, assentaram os dous que era a minha vez de tentar a

experiencia, o que immediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas

as suas partes, por não demorar a narração da experiencia de Diogo

Meirelles, qne foi a mais decisiva das tres, e a melhor prova d'esta

deliciosa invenção do bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que

tinha de musica e charamella, em que aliás era mediano, lembrou-me

congregar os principaes de Fucheo para que me ouvissem tanger o

instrumento; os quaes vieram, escutaram e foram-se repetindo que nunca

antes tinham ouvido cousa tão extraordinaria. E confesso que alcancei

um tal resultado com o só recurso dos ademanes, da graça em arquear os

braços para tomar a charamella, que me foi trazida em uma bandeja de

prata, da rigidez do busto, da uncção com que alcei os olhos ao ar, e

do desdem e ufania com que os baixei á mesma assembléa, a qual neste

ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de enthusiasmo,

que quasi me persuadiu do meu merecimento.

Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiencias, foi

a de Diogo Meirelles. Lavrava então na cidade uma singular doença,

que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam

metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão

que era molesto carregar tamanho peso. Comquanto os physicos da terra

propuzessem extrahir os narizes inchados, para allivio e melhoria

dos enfermos, nenhum d'estes consentia em prestar-se ao curativo,

preferindo o excesso á lacuna, e tendo por mais aborrecivel que nenhuma

outra cousa a ausencia daquelle orgão. N'este apertado lance mais de

um recorria á morte voluntaria, como um remedio, e a tristeza era

muita em toda a cidade Fucheo. Diogo Meirelles, que desde algum tempo

praticava a medicina, segundo ficou dito atraz, estudou a molestia

e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes

era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto

valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia,

persuadir os infelizes ao sacrificio. Então occorreu-lhe uma graciosa

invenção. Assim foi que, reunindo muitos physicos, philosophos, bonzos,

autoridades e povo, communicou-lhes que tinha um segredo para eliminar

o orgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado

por um nariz são, mas de pura natureza metaphysica, isto é, inacessivel

aos sentidos humanos, e comtudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o

cortado; cura esta praticada por elle em varias partes, e muito aceita

aos physicos de Malabar. O assombro da assembléa foi immenso, e não

menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria

não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metaphysica do

nariz, cedia entretanto á energia das palavras de Diogo Meirelles, ao

tom alto e convencido com que elle expoz e definiu o sem remedio. Foi

então que alguns philosophos, alli presentes, um tanto envergonhados do

saber de Diogo Meirelles, não quizeram ficar-lhe atraz, e declararam

que havia bons fundamentos para uma tal invenção, visto não ser o homem

todo outra cousa mais do que um producto da idealidade transcendental;

donde resultava que podia trazer, com toda a verosimilhança, um nariz

metaphysico, e juravam ao povo que o effeito era o mesmo.

A assembléa acclamou a Diogo Meirelles; e os doentes começaram de

buscal-o, em tanta copia, que elle não tinha mãos a medir. Diogo

Meirelles desnarigava-os com muitissima arte; depois estendia

delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes

substitutos, colhia um e applicava-o ao logar vasio. Os enfermos, assim

curados e suppridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no

lugar do orgão cortado; mas, certos e certissimos de que alli estava o

orgão substituto, e que este era inacessivel aos sentidos humanos, não

se davam por defraudados, e tornavam aos seus officios. Nenhuma outra

prova quero da efficacia da doutrina e do fructo d'esse experiencia,

senão o facto de que todos os desnarigados de Diogo Meirelles

continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo

relatado para gloria do bonzo e beneficio do mundo.

[1]Como se terá visto, não ha aqui um simples _pastiche_, nem esta

imitação foi feita com o fim de provar forças, trabalho que, se fosse

só isso, teria bem pouco valor. Era-me preciso, para dar a possivel

realidade á invenção, collocal-a a distancia grande, no espaço e no

tempo; e para tornar a narração sincera, nada me pareceu melhor do que

attribuil-a ao viajante escriptor que tantas maravilhas disse. Para os

curiosos accrescentarei que as palavras: _Atraz deixei narrado o que

se passou nesta cidade Fucheo,_--foram escriptas com o fim de suppor o

capitulo intercalado nas _Peregrinações_, entre os caps. CCXIII e CCXIV.

O bonzo do meu escripto chama-se Pomada, e pomadistas os seus

sectarios. _Pomada e pomadista_ são locuções familiares da nossa terra:

é o nome local do charlatão e do charlatanismo.

FIM DO SEGREDO DO BONZO

O ANNEL DE POLYCRATES

A

Lá vai o Xavier.

Z

Conhece o Xavier?

A

Ha que annos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas prodigo...

Z

Que rico? que prodigo?

A

Rico e prodigo, digo-lhe eu. Bebia perolas diluidas em nectar. Comia

linguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achal-o vulgar

e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita

de pó de diamante. E mulheres! Nem toda a pompa de Salomão póde dar

idéa do que éra o Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha

grega, a tez romana, a exhuberancia turca, todas as perfeições de uma

raça, todas as prendas de um clima, tudo era admittido no harem do

Xavier. Um dia enamorou-se loucamente de uma senhora de alto cothurno,

e enviou-lhe de mimo tres estrellas do Cruzeiro, que então contava

sete, e não pense que o portador foi ahi qualquer pé rapado. Não,

senhor. O portador foi um dos archanjos de Milton, que o Xavier chamou

na occasião em que elle cortava o azul para levar a admiração dos

homens ao seu velho pai inglez. Era assim o Xavier. Capeava os cigarros

com um papel de crystal, obra finissima, e, para accendel-os, trazia

comsigo uma caixinha de raios do sol. As colxas da cama eram nuvens

purpureas, e assim tambem a esteira que forrava o sophá de repouso, a

poltrona da secretaria e a rede. Sabe quem lhe fazia o café, de manhã?

A Aurora, com aquelles mesmos dedos côr de rosa, que Homero lhe poz.

Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a riqueza pódem dar, o raro, o

exquisito, o maravilhoso, o indescriptivel, o inimaginavel, tudo teve e

devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna,

fortuna! Onde estão agora as perolas, os diamantes, as estrellas, as

nuvens purpureas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por agua abaixo; o nectar

virou zurrapa, os cochins são a pedra dura da rua, não manda estrellas

ás senhoras, nem tem archanjos ás suas ordens...

Z

Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier, ha de ser outro. O Xavier

nababo! Mas o Xavier que alli vai nunca teve mais de duzentos mil réis

mensaes; é um homem poupado, sobrio, deita-se com as gallinhas, accorda

com os gallos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem.

Se alguma expede aos amigos é pelo carreio. Não é mendigo, nunca foi

nababo.

A

Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você

falla de Martha, eu fallo-lhe de Maria; fallo do Xavier especulativo...

Z

Ah!--Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada d'elle.

Que livro, que poema, que quadro...

A

Desde quando o conhece?

Z

Ha uns quinze annos.

A

Papeis Avulsos · 第 8 / 13 段