noticia do obito do desembargador. Não descrevo a dôr de D. Benedicta;
foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca, vieram
ter com ella; D. Benedicta chorou todas as lagrymas de uma esposa
austera e fidelissima. Depois da missa do setimo dia, consultou a filha
e o genro ácerca da ideia de ir ao Pará, erigir um tumulo ao marido, e
beijar a terra em que elle repousava. Mascarenhas trocou um olhar com
a mulher; depois disse á sogra que era melhor irem juntos, porque elle
devia seguir para o Norte dahi a tres mezes em commissão do governo. D.
Benedicta recalcitrou um pouco, mas aceitou o prazo, dando desde logo
todas as ordens necessarias á construcção do tumulo. O tumulo fez-se;
mas a commissão não veiu, e D. Benedicta não pôde ir.
Cinco mezes depois, deu-se um pequeno incidente na familia. D.
Benedicta mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o genro,
com o pretexto de uma interrupção na obra, propoz acabal-a. D.
Benedicta consentiu, e o acto era tanto mais honroso para ella, quanto
que o genro começava a parecer-lhe insupportavel com a sua excessiva
disciplina, com as suas teimas, impertinencias, etc. Verdadeiramente,
não havia teimas: nesse particular, o genro de D. Benedicta contava
tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava; deixava que ella
propria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que isto mesmo a
mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul;
Eulalia, gravida, ficou com a mãe.
Foi por esse tempo que um negociante, viuvo, teve ideia de cortejar
D. Benedicta. O primeiro anno da viuvez estava passado D. Benedicta
acolheu a ideia com muita sympathia, embora sem alvoroço. Defendia-se
comsigo; allegava a edade e os estudos do filho, que em breve estaria a
caminho de S. Paulo, deixando-a só, sosinha no mundo. O casamento seria
uma consolação, uma companhia. E comsigo, na rua ou em casa, nas horas
disponiveis, aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação
vivaz e subita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da
morte do marido, pode-se dizer que era viuva. O negociante gozava do
melhor conceito: a escolha era excellente.
Não casou. O genro tornou do Sul, a filha deu á luz um menino robusto
e lindo, que foi a paixão da avó durante os primeiros mezes. Depois,
o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedicta achou-se
só e triste; o filho não bastava aos seus affectos. A ideia de viajar
tornou a rutilar-lhe na mente, mas como um phosphoro, que se apaga
logo. Viajar sosinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou
melhor ficar. Uma companhia lyrica, adventicia, sacudiu-lhe o torpor, e
restituiu-a á sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a ideia do
casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado,
tambem viuvo.
--Casarei? não casarei?
Uma noite, volvendo D. Benedicta este problema, á janella da casa de
Botafogo, para onde se mudara desde alguns mezes, viu um singular
expectaculo. Primeiramente uma claridade opaca, especie de luz coada
por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteiro á janella.
Nesse quadro appareceu-lhe uma figura vaga e transparente, trajada de
nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam
todos no ar. A figura veiu até ao peitoril da janella de D. Benedicta;
e de um gesto somnolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas
palavras sem sentido:
--Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e
casas... casando...
D. Benedicta ficou atterrada, sem poder mexer-se; mas ainda teve a
força de perguntar á figura quem era. A figura achou um principio de
riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira
ao nascimento de D. Benedicta: Meu nome é Velleidade, concluiu; e, como
um suspiro, dispersou-se na noite e no silencio.
FIM DE D. BENEDICTA
O SEGREDO DO BONZO[1]
CAPITULO INEDITO DE FERNÃO MENDES PINTO
Atraz deixei narrado o que se passou n'esta cidade Fucheo, capital do
reino de Bungo, com o padre mestre Francisco, e de como el-rey se houve
com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao
padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina
não menos curiosa que saudavel ao espirito, e digna de ser divulgada a
todas as republicas da christandade.
Um dia, andando a passeio com Diogo Meirelles, n'esta mesma cidade
Fucheo, n'aquelle anno de 1552, succedeu deparar-se-nos um ajuntamento
de povo, á esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que
discorria com grande abundancia de gestos e vozes. O povo, segundo
o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões sómente, e
todos embasbacados. Diogo Meirelles, que melhor conhecia a lingua da
terra, pois alli estivera muitos mezes, quando andou com bandeira de
veniaga (agora occupava-se no exercicio da medicina, que estudara
convenientemente, e em que era eximio) ia-me repetindo pelo nosso
idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte:--Que
elle não queria outra cousa mais do que affirmar a origem dos grillos,
os quaes procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua
nova; que este descobrimento, impossivel a quem não fosse, como elle,
mathematico, physico e philosopho, era fructo de dilatados annos de
applicação, experiencia e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas
emfim, estava feito, e todo redundava em gloria do reino de Bungo, e
especialmente da cidade Fucheo, cuja filho era; e, se por ter aventado
tão sublime verdade, fosse necessario aceitar a morte, elle a aceitaria
alli mesmo, tão certo era que a sciencia valia mais do que a vida e
seus deleites.
A multidão, tanto que elle acabou, levantou um tumulto de acclamações,
que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem,
bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau que descobriu a origem dos
grillos. E todos se foram com elle ao alpendre de um mercador, onde lhe
deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverencias, á maneira
d'este gentio, que é em extremo obsequioso e cortezão.
Desandando o caminho, vinhamos nós, Diogo Meirelles e eu, fallando
do singular achado da origem dos grillos, quando, a pouca distancia
d'aquelle alpendre, obra de seis credos, não mais, achámos outra
multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficámos
espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meirelles, visto que
tambem este fallava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da
oração. E dizia este outro, com grande admiração e applauso da gente
que o cercava, que emfim descobrira o principio da vida futura, quando
a terra houvesse de ser inteiramente destruida, e era nada menos
que uma certa gota de sangue de vacca; d'ahi provinha a excellencia
da vacca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse
distincto animal era procurado por muitos homens á hora de morrer;
descobrimento que elle podia affirmar com fé e verdade, por ser obra
de experiencias repetidas e profunda cogitação, não desejando nem
pedindo outro galardão mais que dar gloria ao reino de Bungo e receber
d'elle a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutára
esta falla com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem
ao dito alpendre, com a differença que o trepou a uma charola; alli
chegando, foi regalado com obsequios eguaes aos que faziam a Patimau,
não havendo nenhuma distincçao entre elles, nem outra competencia nos
banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.
Ficámos sem saber nada d'aquillo, porque nem nos parecia casual
a semelhança exacta dos dous encontros, nem racional ou crivel a
origem dos grillos, dada por Patimau, ou o principio da vida futura,
descoberto por Langurú, que assim se chamava o outro. Succedeu, porém,
costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a
fallar a Diogo Meirelles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos,
em que o alparqueiro chamou as mais galantes cousas a Diogo Meirelles,
taes como--ouro da verdade e sol do pensamento,--contou-lhe este o
que viramos e ouviramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande
alvoroço:--Póde ser que elles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem
que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas
pegadas ao monte Coral. E porque ficassemos cubiçosos de ter alguma
noticia da doutrina, consentiu Titané em ir comnosco no dia seguinte ás
casas do bonzo, e accrescentou:--Dizem que elle não a confia a nenhuma
pessoa, se não ás que de coração se quizerem filiar a ella; e, sendo
assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir;
e se fôr boa, chegaremos a pratical-a á nossa vontade.
No dia seguinte, ao modo concertado, fomos ás casas do dito bonzo,
por nome Pomada, um ancião de cento e oito annos, muito lido e sabido
nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquella
gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se
finavam de puro ciume. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem
eramos e o que queriamos, iniciou-nos primeiro com varias ceremonias e
bugiarias necessarias á recepção da doutrina, e só depois d'ella é que
alçou a voz para confial-a e explical-a.
Haveis de entender, começou elle, que a virtude e o saber, tem duas
existencias parallelas, uma no sugeito que as possue, outra no espirito
dos que o ouvem ou contemplam. Se puzerdes as mais sublimes virtudes
e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitario, remoto de
todo contacto com outros homens, é como se elles não existissem. Os
fructos de uma larangeira, se ninguem os gostar, valem tanto como as
urzes e plantas bravias, e, se ninguem os vir, não valem nada; ou, por
outras palavras mais energicas, não ha expectaculo sem expectador. Um
dia, estando a cuidar n'estas cousas, considerei que, para o fim de
allumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos annos,
e, aliás, nada chegaria a valer sem a existencia de outros homens que
me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o
mesmo effeito, poupando taes trabalhos, e esse dia posso agora dizer
que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.
N'este ponto, afiámos os ouvidos e ficámos pendurados da boca do bonzo,
o qual, como lhe dissesse Diogo Meirelles que a lingua da terra me não
era familiar, ia fallando com grande pausa, porque eu nada perdesse.
E continuou dizendo:--Mal podeis adivinhar o que me deu idéa da nova
doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão
luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no pincaro de uma
torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma
tal pedra, com taes quilates de luz, não existiu nunca, e ninguem
jámais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que
a viu com os seus proprios olhos. Considerei o caso, e entendi que,
se uma cousa póde existir na opinião, sem existir na realidade, e
existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das
duas existencias parallelas a única necessaria é a da opinião, não a
da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado
especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me
a verifical-o por experiencias; o que alcancei, em mais de um caso, que
não relato, por vos não tomar o tempo. Para comprehender a efficacia
do meu systema, basta advertir que os grillos não podem nascer do ar e
das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova, e por outro lado,
o principio da vida futura não está em uma certa gotta de sangue de
vacca; mas Patimáu e Langurú, varões astutos, com tal arte souberam
metter estas duas idéas no animo da multidão, que hoje desfructam a
nomeada de grande physicos e maiores philosophos, e tem comsigo pessoas
capazes de dar a vida por elles.
Não sabiamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo
contentamento e admiração. Elle interrogou-nos ainda algum tempo,
compridamente, ácerca da doutrina e dos fundamentos d'ella, e depois de
reconhecer que a entendiamos, incitou-nos a pratical-a, a divulgal-a
cautelosamente, não porque houvesse nada contrario ás leis divinas ou
humanas, mas porque a má comprehensão d'ella podia damnal-a e perdel-a
em seus primeiros passos; emfim, despediu-se de nós com a certeza
(são palavras suas) de que abalavamos d'alli com a verdadeira alma de
pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome d'elle, lhe
era em extremo agradavel.
Com effeito, antes de cair a tarde, tinhamos os tres combinado em pôr
por obra uma idéa tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro
o que se póde haver em moeda, senão tambem o que traz consideração e
louvor, que é outra e melhor especie de moeda, comquanto não dê para
comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, á guisa de
experiencia, metter cada um de nós, no animo da cidade Fucheo, uma
certa convicção, mediante a qual houvessemos os mesmos beneficios
que desfructavam Patimau e Langurú; mas, tão certo é que o homem não
olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas
maneiras, cobrando da experiencia ambas as moedas, isto é, vendendo
tambem as suas alparcas: ao que nos não oppuzemos, por nos parecer que
nada tinha isso com o essencial da doutrina.
Consistiu a experiencia de Titané em uma cousa que não sei como diga
para que a entendam. Usam n'este reino de Bungo, e em outros d'estas
remotas partes, um papel feito de casca de canella moida e gomma,
obra mui prima, que elles talham depois em pedaços de dois palmos de
comprimento, e meio de largura, nos quaes desenham com vivas e variadas
côres, e pela lingua do paiz, as noticias da semana, politicas,
religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das
fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes
mares, ou em guerra, que a ha frequente, ou de veniaga. E digo as
noticias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito
dias, em grande copia, e distribuidas ao gentio da terra, a troco
de uma esportula, que cada um dá de bom grado para ter as noticias
primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quiz melhor
esquina que este papel, chamado pela nossa lingua _Vida e claridade
das cousas mundanas e celestes_, titulo expressivo, ainda que um tanto
derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar
noticias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as
quaes não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas
d'elle Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo,
por serem mui solidas e graciosas; que nada menos de vinte e dous
mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do explendor
das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse creado
o titulo honorifico de «alparca do Estado», para recompensa dos que
se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram
grossissimas as encommendas feitas de todas as partes, ás quaes elle
Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela gloria que d'alli
provinha á nação; não recuando, todavia, do proposito em que estava e
ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cincoenta corjas das
ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rey e o repetia agora;
emfim, que apezar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida
em toda a terra, elle sabia os deveres da moderação, e nunca se
julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da gloria do reino de
Bungo.
A leitura d'esta noticia commoveu naturalmente a toda a cidade Fucheo,
não se fallando em outra cousa durante toda aquella semana. As alparcas
de Titané, apenas estimadas, começaram de ser buscadas com muita
curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois não
deixou elle de entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e
extraordinarias anedoctas ácerca da sua mercadoria. E dizia-nos com
muita graça:--Vêde que obedeço ao principal da nossa doutrina, pois não
estou persuadido da superioridade das taes alparcas, antes as tenho
por obra vulgar, mas fil-o crer ao povo, que as vem comprar agora,
pelo preço que lhes taxo. Não me parece, atalhei, que tenhaes cumprido
a doutrina em seu rigor e substancia, pois não nos cabe inculcar aos
outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que
não possuimos; este é, ao certo, o essencial d'ella.
Dito isto, assentaram os dous que era a minha vez de tentar a
experiencia, o que immediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas
as suas partes, por não demorar a narração da experiencia de Diogo
Meirelles, qne foi a mais decisiva das tres, e a melhor prova d'esta
deliciosa invenção do bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que
tinha de musica e charamella, em que aliás era mediano, lembrou-me
congregar os principaes de Fucheo para que me ouvissem tanger o
instrumento; os quaes vieram, escutaram e foram-se repetindo que nunca
antes tinham ouvido cousa tão extraordinaria. E confesso que alcancei
um tal resultado com o só recurso dos ademanes, da graça em arquear os
braços para tomar a charamella, que me foi trazida em uma bandeja de
prata, da rigidez do busto, da uncção com que alcei os olhos ao ar, e
do desdem e ufania com que os baixei á mesma assembléa, a qual neste
ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de enthusiasmo,
que quasi me persuadiu do meu merecimento.
Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiencias, foi
a de Diogo Meirelles. Lavrava então na cidade uma singular doença,
que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam
metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão
que era molesto carregar tamanho peso. Comquanto os physicos da terra
propuzessem extrahir os narizes inchados, para allivio e melhoria
dos enfermos, nenhum d'estes consentia em prestar-se ao curativo,
preferindo o excesso á lacuna, e tendo por mais aborrecivel que nenhuma
outra cousa a ausencia daquelle orgão. N'este apertado lance mais de
um recorria á morte voluntaria, como um remedio, e a tristeza era
muita em toda a cidade Fucheo. Diogo Meirelles, que desde algum tempo
praticava a medicina, segundo ficou dito atraz, estudou a molestia
e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes
era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto
valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia,
persuadir os infelizes ao sacrificio. Então occorreu-lhe uma graciosa
invenção. Assim foi que, reunindo muitos physicos, philosophos, bonzos,
autoridades e povo, communicou-lhes que tinha um segredo para eliminar
o orgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado
por um nariz são, mas de pura natureza metaphysica, isto é, inacessivel
aos sentidos humanos, e comtudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o
cortado; cura esta praticada por elle em varias partes, e muito aceita
aos physicos de Malabar. O assombro da assembléa foi immenso, e não
menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria
não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metaphysica do
nariz, cedia entretanto á energia das palavras de Diogo Meirelles, ao
tom alto e convencido com que elle expoz e definiu o sem remedio. Foi
então que alguns philosophos, alli presentes, um tanto envergonhados do
saber de Diogo Meirelles, não quizeram ficar-lhe atraz, e declararam
que havia bons fundamentos para uma tal invenção, visto não ser o homem
todo outra cousa mais do que um producto da idealidade transcendental;
donde resultava que podia trazer, com toda a verosimilhança, um nariz
metaphysico, e juravam ao povo que o effeito era o mesmo.
A assembléa acclamou a Diogo Meirelles; e os doentes começaram de
buscal-o, em tanta copia, que elle não tinha mãos a medir. Diogo
Meirelles desnarigava-os com muitissima arte; depois estendia
delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes
substitutos, colhia um e applicava-o ao logar vasio. Os enfermos, assim
curados e suppridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no
lugar do orgão cortado; mas, certos e certissimos de que alli estava o
orgão substituto, e que este era inacessivel aos sentidos humanos, não
se davam por defraudados, e tornavam aos seus officios. Nenhuma outra
prova quero da efficacia da doutrina e do fructo d'esse experiencia,
senão o facto de que todos os desnarigados de Diogo Meirelles
continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo
relatado para gloria do bonzo e beneficio do mundo.
[1]Como se terá visto, não ha aqui um simples _pastiche_, nem esta
imitação foi feita com o fim de provar forças, trabalho que, se fosse
só isso, teria bem pouco valor. Era-me preciso, para dar a possivel
realidade á invenção, collocal-a a distancia grande, no espaço e no
tempo; e para tornar a narração sincera, nada me pareceu melhor do que
attribuil-a ao viajante escriptor que tantas maravilhas disse. Para os
curiosos accrescentarei que as palavras: _Atraz deixei narrado o que
se passou nesta cidade Fucheo,_--foram escriptas com o fim de suppor o
capitulo intercalado nas _Peregrinações_, entre os caps. CCXIII e CCXIV.
O bonzo do meu escripto chama-se Pomada, e pomadistas os seus
sectarios. _Pomada e pomadista_ são locuções familiares da nossa terra:
é o nome local do charlatão e do charlatanismo.
FIM DO SEGREDO DO BONZO
O ANNEL DE POLYCRATES
A
Lá vai o Xavier.
Z
Conhece o Xavier?
A
Ha que annos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas prodigo...
Z
Que rico? que prodigo?
A
Rico e prodigo, digo-lhe eu. Bebia perolas diluidas em nectar. Comia
linguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achal-o vulgar
e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita
de pó de diamante. E mulheres! Nem toda a pompa de Salomão póde dar
idéa do que éra o Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha
grega, a tez romana, a exhuberancia turca, todas as perfeições de uma
raça, todas as prendas de um clima, tudo era admittido no harem do
Xavier. Um dia enamorou-se loucamente de uma senhora de alto cothurno,
e enviou-lhe de mimo tres estrellas do Cruzeiro, que então contava
sete, e não pense que o portador foi ahi qualquer pé rapado. Não,
senhor. O portador foi um dos archanjos de Milton, que o Xavier chamou
na occasião em que elle cortava o azul para levar a admiração dos
homens ao seu velho pai inglez. Era assim o Xavier. Capeava os cigarros
com um papel de crystal, obra finissima, e, para accendel-os, trazia
comsigo uma caixinha de raios do sol. As colxas da cama eram nuvens
purpureas, e assim tambem a esteira que forrava o sophá de repouso, a
poltrona da secretaria e a rede. Sabe quem lhe fazia o café, de manhã?
A Aurora, com aquelles mesmos dedos côr de rosa, que Homero lhe poz.
Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a riqueza pódem dar, o raro, o
exquisito, o maravilhoso, o indescriptivel, o inimaginavel, tudo teve e
devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna,
fortuna! Onde estão agora as perolas, os diamantes, as estrellas, as
nuvens purpureas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por agua abaixo; o nectar
virou zurrapa, os cochins são a pedra dura da rua, não manda estrellas
ás senhoras, nem tem archanjos ás suas ordens...
Z
Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier, ha de ser outro. O Xavier
nababo! Mas o Xavier que alli vai nunca teve mais de duzentos mil réis
mensaes; é um homem poupado, sobrio, deita-se com as gallinhas, accorda
com os gallos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem.
Se alguma expede aos amigos é pelo carreio. Não é mendigo, nunca foi
nababo.
A
Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você
falla de Martha, eu fallo-lhe de Maria; fallo do Xavier especulativo...
Z
Ah!--Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada d'elle.
Que livro, que poema, que quadro...
A
Desde quando o conhece?
Z
Ha uns quinze annos.
A