--Estava agora mesmo escrevendo o seu nome, continuou.

--Sim?

--Estou escrevendo a meu marido, e fallo da senhora. Não lhe repito

o que escrevi, mas imagine que fallei muito mal da senhora, que era

antipathica, insupportavel, massante, aborrecida... Imagine!

--Imagino, imagino. Pode accrescentar que, apezar de ser tudo isso, e

mais alguma cousa, apresento-lhe os meus respeitos.

--Como ella tem graça para dizer as cousas! commentou D. Benedicta

olhando para a filha.

Eulalia sorriu sem convicção. Sentada na cadeira fronteira á mãe, ao

pé da outra ponta do sophá em que estava D. Maria dos Anjos,--Eulalia

dava á conversação das duas a somma de attenção que a cortezia lhe

impunha, e nada mais, Chegava a parecer aborrecida; cada sorriso que

lhe abria a bocca era de um amarello pallido, um sorriso de favor. Uma

das tranças,--era de manhã, trazia o cabello em duas tranças caidas

pelas costas abaixo,--uma dellas servia-lhe de pretexto a alheiar-se de

quando em quando, porque puxava-a para a frente e contava-lhe os fios

do cabello,--ou parecia contal-os. Assim o creu D. Maria dos Anjos,

quando lhe lançou uma ou duas vezes os olhos, curiosa, desconfiada.

D. Benedicta é que não via nada; via a amiga, a feiticeira, como lhe

chamou duas ou tres vezes,--«feiticeira como ella só.»

--Já!

D. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras visitas; mas

foi obrigada a ficar ainda alguns minutos, a pedido da amiga. Como

trouxesse um mantelete de renda preta, muito elegante, D. Benedicta

disse que tinha um egual, e mandou buscal-o. Tudo demoras. Mas a mãe

do Leandrinho estava tão contente! D. Benedicta enchia-lhe o coração;

achava nella todas as qualidades que melhor se ajustavam á sua alma

e aos seus costumes, ternura, confiança, enthusiasmo, simplicidade,

uma familiaridade cordial e prompta. Veiu o mantelete; vieram

offerecimentos de alguma cousa, um doce, um licor, um refresco; D.

Maria dos Anjos não aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de

que iriam jantar com ella naquella semana.

--Quinta-feira, disse D. Benedicta.

--Palavra?

--Palavra.

--Que quer que lhe faça se não fôr? Hade ser um castigo bem forte.

--Bem forte? Não me falle mais.

D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga; depois

abraçou e beijou tambem a Eulalia, mas a effusão era muito menor

de parte a parte. Uma e outra mediam-se, estudavam-se, começavam a

comprehender-se. D. Benedicta levou a amiga até o patamar da escada,

depois foi á janella para vel-a entrar no carro; a amiga, depois de

entrar no carro, poz a cabeça de fóra, olhou para cima, e disse-lhe

adeus, com a mão.

--Não falte, ouviu?

--Quinta-feira.

Eulalia já não estava na sala; D. Benedicta correu a acabar a carta.

Era tarde: não relatára o jantar da vespera, nem já agora podia

fazel-o. Resumiu tudo; encareceu muito as novas relações; emfim,

escreveu estas palavras:

«O conego Roxo fallou-me em casar Eulalia com o filho de D. Maria dos

Anjos; é um moço formado em direito este anno; é conservador, e espera

uma promotoria, agora, se o Itaborahy não deixar o ministerio. Eu

acho que o casamento é o melhor possivel. O Dr. Leandrinho (é o nome

delle) é muito bem educado; fez um brinde a você, cheio de palavras tão

bonitas, que eu chorei. Eu não sei se Eulalia quererá ou não; desconfio

de outro sujeito que outro dia esteve comnosco nas Larangeiras. Mas

você que pensa? Devo limitar-me a aconselhal-a, ou impor-lhe a nossa

vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade; mas não

quero fazer nada sem que você me diga, O melhor seria se você viesse

cá.»

Acabou e fechou a carta; Eulalia entrou nessa occasião, ella deu-lh'a

para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem

saber que tratava della e do seu futuro, D. Benedicta deixou-se cair

no sophá, cançada, exhausta. A carta era muito comprida apezar de não

dizer tudo; e era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas!

III

Era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas! Esta palavra, fecho do

capitulo passado, explica a longa prostração de D. Benedicta. Meia hora

depois de cair no sophá, ergueu-se um pouco, e percorreu o gabinete com

os olhos, como procurando alguma cousa. Essa cousa era um livro. Achou

o livro, e podia dizer achou os livros, pois nada menos de tres estavam

alli, dous abertos, um marcado em certa pagina, todos em cadeiras. Eram

tres romances que D. Benedicta lia ao mesmo tempo. Um delles, note-se,

custou-lhe não pouco trabalho. Deram-lhe noticia na rua, perto de casa,

com muitos elogios; chegara da Europa na vespera. D. Benedicta ficou

tão enthusiasmada, que apezar de ser longe e tarde, arrepiou caminho e

foi ella mesmo compral-o, correndo nada menos de tres livrarias. Voltou

anciosa, namorada do livro, tão namorada que abriu as folhas, jantando,

e leu os cinco primeiros capitulos naquella mesma noute. Sendo preciso

dormir, dormiu; no dia seguinte não pôde continuar, depois esqueceu-o.

Agora, porém, passados oito dias, querendo lêr alguma cousa,

aconteceu-lhe justamente achal-o á mão.

--Ah!

E eil-a que torna ao sophá, que abre o livro com amor, que mergulha

o espirito, os olhos e o coração na leitura tão desastradamente

interrompida. D. Benedicta ama os romances, é natural; e adora os

romances bonitos, é naturalissimo. Não admira que esqueça tudo para

lêr este; tudo, até a licção de piano da filha, cujo professor chegou

e saiu, sem que ella fosse á sala. Eulalia despediu-se do professor;

depois foi ao gabinete, abriu a porta, caminhou pé ante pé até o sophá,

e acordou a mãe com um beijo.

--Dorminhoca!

--Ainda chove?

--Não, senhora; agora parou.

--A carta foi?

--Foi; mandei o José a toda a pressa. Aposto que mamãe esqueceu-se de

dar lembranças a papae? Pois olhe, eu não me esqueço nunca.

D. Benedicta bocejou. Já não pensava na carta; pensava no collete que

encommendára á Charavel, um collete de barbatanas mais molles do que o

ultimo. Não gostava de barbatanas duras; tinha o corpo mui sensivel.

Eulalia fallou ainda algum tempo do pae, mas calou-se logo, e vendo no

chão o livro aberto, o famoso romance, apanhou-o, fechou-o, pol-o em

cima da mesa. Nesse momento vieram trazer uma carta a D. Benedicta; era

do conego Roxo, que mandava perguntar se estavam em casa naquelle dia,

porque iria ao enterro dos ossos.

--Pois não! bradou D. Benedicta; estamos em casa, venha, póde vir.

Eulalia escreveu o bilhetinho de resposta. D'ahi a tres quartos de

hora fazia o conego a sua entrada na sala de D. Benedicta. Era um bom

homem o conego, velho amigo daquella casa, na qual, além de trinchar

o perú nos dias solemnes, como vimos, exercia o papel de conselheiro,

e exercia-o com lealdade e amor. Eulalia, principalmente, merecia-lhe

muito; vira-a pequena, galante, travessa, amiga delle, e criou-lhe uma

affeição paternal, tão paternal que tomára** a peito casal-a bem, e

nenhum noivo melhor do que o Leandrinho, pensava o conego, Naquelle

dia, a idéa de ir jantar com ellas era antes um pretexto; o conego

queria tratar o negocio directamente com a filha do desembargador.

Eulalia, ou porque adivinhasse isso mesmo, ou porque a pessoa do conego

lhe lembrasse o Leandrinho, ficou logo preoccupada, aborrecida.

Mas, preoccupada ou aborrecida, não quer dizer triste ou desconsolada.

Era resoluta, tinha têmpera, podia resistir, e resistiu, declarando

ao conego, quando elle naquella noute lhe fallou do Leandrinho, que

absolutamente não queria casar.

--Palavra de moça bonita?

--Palavra de moça feia.

--Mas, porque?

--Porque não quero.

--E se mamãe quizer?

--Não quero eu.

--Máu! isso não é bonito, Eulalia.

Eulalia deixou-se estar. O conego ainda tornou ao assumpto, louvou

as qualidades do candidato as esperanças da familia, as vantagens do

casamento; ella ouvia tudo, sem contestar nada. Mas quando o conego

formulava de um modo directo a questão, a resposta invariavel era esta:

--Já disse tudo.

--Não quer?

--Não.

O desconsolo do bom conego era profundo e sincero. Queria casal-a bem,

e não achava melhor noivo. Chegou a interrogal-a discretamente, sobre

se tinha alguma preferencia em outra parte. Mas Eulalia, não menos

discretamente, respondia que não, que não tinha nada; não queria nada;

não queria casar. Elle creu que era assim, mas receiou tambem que não

fosse assim; faltava-lhe o trato sufficiente das mulheres para lêr

atravez de uma negativa. Quando referiu tudo a D. Benedicta, esta ficou

assombrada com os termos da recusa; mas tornou logo a si, e declarou ao

padre que a filha não tinha vontade, faria o que ella quizesse, e ella

queria o casamento.

--Já agora nem espero resposta do pae, concluiu; declaro-lhe que

ella ha de casar. Quinta-feira vou jantar com D. Maria dos Anjos, e

combinaremos as cousas.

--Devo dizer-lhe, ponderou o conego, que D. Maria dos Anjos não deseja

que se faça nada á força.

--Qual força! Não é preciso força.

O conego reflectiu um instante:--Em todo caso, não violentaremos

qualquer outra affeição que ella possa ter, disse elle.

D. Benedicta não respondeu nada; mas comsigo, no mais fundo de

si mesma, jurou que, houvesse o que houvesse, acontecesse o que

acontecesse, a filha seria nora de D. Maria dos Anjos. E ainda comsigo,

depois de sair o conego:--Tinha que ver! um tico de gente, com fumaças

de governar a casa!

A quinta-feira raiou. Eulalia,--o tico de gente, levantou-se fresca,

lepida, loquaz, com todas as janellas da alma abertas ao sopro azul da

manhã. A mãe acordou ouvindo um trecho italiano, cheio de melodia; era

ella que cantava, alegre, sem affectação, com a indifferença das aves

que cantam para si ou para os seus, e não para o poeta, que as ouve e

traduz na lingua immortal dos homens. D. Benedicta afagara muito a idéa

de a vêr abatida, carrancuda, e gastára uma certa somma de imaginação

em compôr os seus modos, delinear os seus actos, ostentar energia e

força. E nada! Em vez de uma filha rebelde, uma creatura gárrula e

submissa. Era começar mal o dia; era sair apparelhada para destruir uma

fortaleza, e dar com uma cidade aberta, pacifica, hospedeira, que lhe

pedia o favor de entrar e partir o pão da alegria e da concordia. Era

começar o dia muito mal.

A segunda causa do tedio de D. Benedicta foi um ameaço de enxaqueca,

ás tres horas da tarde; um ameaço, ou uma suspeita de possibilidade de

ameaço. Chegou a transferir a visita, mas a filha ponderou que talvez a

visita lhe fizesse bem, e em todo caso, era tarde para deixar de ir. D.

Benedicta não teve remedio, aceitou o reparo. Ao espelho, penteando-se,

esteve quasi a dizer que definitivamente ficava; chegou a insinual-o á

filha.

--Mamãe veja que D. Maria dos Anjos conta com a senhora, disse-lhe

Eulalia.

--Pois sim, redarguiu a mão, mas não prometti ir doente.

Emfim, vestiu-se, calçou as luvas, deu as ultimas ordens; e devia

doer-lhe muito a cabeça, porque os modos eram arrebitados, uns modos

de pessoa constrangida ao que não quer. A filha animava-a muito,

lembrava-lhe o vidrinho dos saes, instava que saissem, descrevia a

anciedade de D. Maria dos Anjos, consultava de dous em dous minutos

o pequenino relogio, que trazia na cintura, etc. Uma amofinação,

realmente.

--O que tu estás é me amofinando, disse-lhe a mãe.

E saiu, saiu exasperada, com uma grande vontade de esganar a filha,

dizendo comsigo que a peior cousa do mundo era ter filhas. Os filhos

ainda vá: criam-se, fazem carreira por si; mas as filhas!

Felizmente, o jantar de D. Maria dos Anjos aquietou-a; e não digo

que a enchesse de grande satisfação, porque não foi assim. Os modos

de D. Benedicta não eram os do costume; eram frios, seccos, ou quasi

seccos; ella, porém, explicou de si mesma a differença, noticiando o

ameaço da enxaqueca, noticia mais triste do que alegre, e que, aliás,

alegrou a alma de D. Maria dos Anjos, por esta razão fina e profunda:

antes a frieza da amiga fosse originada na doença do que na quebra do

affecto. Demais, a doença não era grave. E que fosse grave! Não houve

naquelle dia mãos presas, olhos nos olhos, manjares comidos entre

caricias mutuas; não houve nada do jantar de domingo. Um jantar apenas

conversado; não alegre, conversado; foi o mais que alcançou o conego.

Amavel conego! As disposições de Eulalia, naquelle dia, cumularam-n'o

de esperanças; o riso que brincava nella, a maneira expansiva da

conversa, a docilidade com que se prestava a tudo, a tocar, a cantar,

e o rosto affavel, meigo, com que ouvia e fallava ao Leandrinlio, tudo

isso foi para a alma do conego uma renovação de esperanças. Logo hoje é

que D. Benedicta estava doente! Realmente, era caiporismo.

D. Benedicta reanimou-se um pouco, á noite, depois do jantar. Conversou

mais, discutiu um projecto de passeio ao Jardim Botanico, chegou mesmo

a propor que fosse logo no dia seguinte; mas Eulalia advertiu que era

prudente esperar um ou dous dias até que os effeitos da enxaqueca

desapparecessem de todo: e o olhar que mereceu á mãe, em trocado

conselho, tinha a ponta aguda de um punhal. Mas a filha não tinha

medo dos olhos maternos. De noite, ao despentear-se, recapitulando o

dia, Eulalia repetiu consigo a palavra que lhe ouvimos, dias antes, á

janella:

--Isto acaba.

E, satisfeita de si, antes de dormir, puxou uma certa gaveta, tirou

uma caixinha, abriu-a, aventou um cartão de alguns centimetros de

altura,--um retrato. Não era retrato de mulher, não só por ter bigodes,

como por estar fardado; era, quando muito, um official de marinha.

Se bonito ou feio, é materia de opinião. Eulalia achava-o bonito; a

prova é que o beijou, não digo uma vez, mas tres. Depois mirou-o, com

saudade, tornou a fechal-o e guardal-o.

Que fazias tu, mãe cautellosa e rispida, que não vinhas arrancar ás

mãos e á boca da filha um veneno tão subtil e mortal? D. Benedicta, á

janella, olhava a noite, entre as estrellas e os lampeões de gaz, com

a imaginação vagabunda, inquieta, roida de saudades e desejos. O dia

tinha-lhe saido mal, desde manhã. D. Benedicta confessava, naquella

doce intimidade da alma consigo mesma, que o jantar de D. Maria

dos Anjos não prestára para nada, e que a propria amiga não estava

provavelmente nos seus dias de costume. Tinha saudades, não sabia bem

de que, e desejos, que ignorava. De quando em quando, bocejava ao modo

preguiçoso e arrastado dos que caem de somno; mas se alguma cousa

tinha era fastio,--fastio, impaciencia, curiosidade. D. Benedicta

cogitou seriamente em ir ter com o marido; e tão depressa a idéa do

marido lhe penetrou no cerebro, como se lhe apertou o coração de

saudades e remorsos, e o sangue pulou-lhe n'um tal impeto de ir ver o

desembargador que, se o paquete do Norte estivesse na esquina da rua e

as malas promptas, ella embarcaria logo e logo. Não importa; o paquete

devia estar prestes a sair, oito ou dez dias; era o tempo de arranjar

as malas. Iria por tres mezes sómente, não era preciso levar muita

cousa. Eil-a que se consola da grande cidade fluminense, da similitude

dos dias, da escassez das cousas, da persistencia das caras, da mesma

fixidez das modas, que era um dos seus arduos problemas:--porque é que

as modas hão de durar mais de quinze dias?

--Vou, não ha que ver, vou ao Pará, disse ella a meia voz.

Com effeito, no dia seguinte, logo de manhã, communicou a resolução á

filha, que a recebeu sem abalo. Mandou ver as malas que tinha, achou

que era preciso mais uma, calculou o tamanho, e determinou compral-a.

Eulalia, por uma inspiração subita:

--Mas, mamãe, nós não vamos por tres mezes?

--Tres... ou dous.

--Pois, então, não vale a pena. As duas malas chegam.

--Não chegam.

--Bem; se não chegarem, pode-se comprar na vespera. E mamãe mesmo

escolhe; é melhor do que mandar esta gente que não sabe nada.

D. Benedicta achou a reflexão judiciosa, e guardou o dinheiro. A filha

sorriu para dentro. Talvez repetisse comsigo a famosa palavra da

janella:--Isto acaba. A mãe foi cuidar dos arranjos, escolha de roupa,

lista das cousas que precisava comprar, um presente para o marido, etc.

Ah! que alegria que elle ia ter! Depois do meio dia sairam para fazer

encommendas, visitas, comprar as passagens, quatro passagens; levavam

uma escrava comsigo. Eulalia ainda tentou arredal-a da idéa, propondo

a transferencia da viajem; mas D. Benedicta declarou peremptoriamente

que não. No escriptorio da Companhia de Paquetes disseram-lhe que o

do Norte saia na sexta-feira da outra semana. Ella pediu as quatro

passagens; abriu a carteirinha, tirou uma nota, depois duas, reflectiu

um instante.

--Basta vir na vespera, não?

--Basta, mas pode não achar mais.

--Bem; o senhor guarde os bilhetes: eu mando buscar.

--O seu nome?

--O nome? O melhor é não tomar o nome; nós viremos tres dias antes de

sair o vapor. Naturalmente ainda haverá bilhetes.

--Pode ser.

--Hade haver.

Na rua, Eulalia observou que era melhor ter comprado logo os bilhetes;

e, sabendo-se que ella não desejava ir para o Norte nem para o Sul,

salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da vespera,

hade suppor-se que a reflexão da moça era profundamente machiavelica.

Não digo que não. D. Benedicta, entretanto, noticiou a viagem aos

amigos e conhecidos, nenhum dos quaes a ouviu espantado. Um chegou a

perguntar-lhe se, enfim, daquella vez era certo. D. Maria dos Anjos,

que sabia da viagem pelo conego, se alguma cousa a assombrou, quando a

amiga se despediu della, foram as attitudes geladas, o olhar fixo no

chão, o silencio, a indifferença. Uma visita de dez minutos apenas,

durante os quaes D. Benedicta disse quatro palavras no principio: Vamos

para o Norte. E duas no fim:--Passe bem. E os beijos? Dous tristes

beijos de pessoa morta.

IV

A viagem não se fez por um motivo supersticioso. D. Benedicta, no

domingo á noute, advertiu que o paquete seguia na sexta-feira, e achou

que o dia era máu. Iriam no outro paquete. Não foram no outro; mas

desta vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano,

e o melhor alvitre em taes casos é não teimar com o impenetravel. A

verdade é que D. Benedicta não foi, mas iria no terceiro paquete, a não

ser um incidente que lhe trocou os planos.

Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. A nova amizade

era uma familia do Andarahy; a festa não se sabe a que proposito foi,

mas deve ter sido explendida, porque D. Benedicta ainda fallava della

tres dias depois. Tres dias! Realmente, era demais. Quanto á familia,

era impossivel ser mais amavel; ao menos, a impressão que deixou na

alma de D. Benedicta foi intensissima. Uso este superlativo, porque

ella mesma o empregou: é um documento humano.

--Aquella gente? Oh! deixou-me uma impressão intensissima.

E toca a andar para Andarahy, namorada de D. Petronilha, esposa do

conselheiro Beltrão, e de uma irmã della, D. Maricota, que ia casar

com um official de marinha, irmão de outro oflicial de marinha, cujos

bigodes, olhos, cara, porte, cabellos, são os mesmos do retrato qu e o

leitor entreviu ha tempos na gavetinha de Eulalia. A irmã casada tinha

trinta e dous annos, e uma seriedade, umas maneiras tão bonitas, que

deixaram encantada a esposa do desembargador. Quanto á irmã solteira

era uma flor, uma flor de cera, outra expressão de D. Benedicta, que

não altero com receio de entibiar a verdade.

Um dos pontos mais obscuros desta curiosa historia é a pressa com

que as relações se travaram, e os acontecimentos se succederam. Por

exemplo, uma das pessoas que estiveram em Andarahy, com D. Benedicta,

foi o official de marinha retratado no cartão particular de Eulalia,

1o tenente Mascarenhas, que o conselheiro Beltrão proclamou futuro

almirante. Vede, porém, a perfídia do official: vinha fardado; e D.

Benedicta, que amava os expectaculos novos, achou-o tão distincto, tão

bonito, entre os outros moços á paisana, que o preferiu a todos, e lh'o

disse. O official agradeceu commovido. Ella offereceu-lhe a casa; elle

pediu-lhe licença para fazer uma visita.

--Uma visita? Vá jantar comnosco.

Mascarenhas fez uma cortezia de acquiescencia.

--Olhe, disse D. Benedicta, vá amanhã.

Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedicta fallou-lhe da vida do

mar; elle pediu-lhe a filha em casamento. D. Benedicta ficou sem voz,

pasmada. Lembrou-se, é verdade, que desconfiára delle, um dia,** nas

Larangeiras; mas a suspeita acabara. Agora não os vira conversar nem

olhar uma só vez. Em casamento! Mas seria mesmo em casamento? Não podia

ser outra cousa; a attitude séria, respeitosa, implorativa do rapaz

dizia bem que se tratava de um casamento. Que sonho! Convidar um amigo,

e abrir a porta a um genro: era o cumulo do inesperado. Mas o sonho era

bonito; o official de marinha era um galhardo rapaz, forte, elegante,

sympathico, mettia toda a gente no coração, e principalmente parecia

adoral-a, a ella, D. Benedicta. Que magnifico sonho! D. Benedicta,

voltou do pasmo, e respondeu que sim, que Eulalia era sua. Mascarenhas

pegou-lhe na mão e beijou-a filialmente.

--Mas o desembargador? disse elle.

--O desembargador concordará commigo.

Tudo andou assim depressa. Certidões passadas, banhos corridos,

marcou-se o dia do casamento; seria vinte e quatro horas depois de

recebida a resposta do desembargador. Que alegria a da boa mãe! que

actividade no preparo do enxoval, no plano e nas encommendas da

festa, na escolha dos convidados, etc.! Ella ia de um lado para outro,

ora a pé, ora de carro, fizesse chuva ou sol. Não se detinha no mesmo

objecto muito tempo; a semana do enxoval não era a do preparo da

festa, nem a das visitas; alternava as cousas, voltava atraz, com

certa confusão, é verdade. Mas ahi estava a filha para supprir as

faltas, corrigir os defeitos, cercear as demazias, tudo com a sua

habilidade natural. Ao contrario de todos os noivos, este não as

importunava; não jantava todos os dias com ellas, segundo lhe pedia a

dona da casa; jantava aos domingos, e visitava-as uma vez por semana.

Matava as saudades por meio de cartas, que eram continuas, longas e

secretas, como no tempo do namoro. D. Benedicta não podia explicar uma

tal esquivança, quando ella morria por elle; e então vingava-se da

exquisitice, morrendo ainda mais, e dizendo delle por toda a parte as

mais bellas cousas do mundo.

--Uma perola! uma perola!

--E um bonito rapaz, accrescentavam.

--Não é? De truz.

A mesma cousa repetia ao marido nas cartas que lhe mandava, antes

e depois de receber a resposta da primeira. A resposta veiu; o

desembargador deu o seu consentimento, accrescentando que lhe doia

muito não poder vir assistir ás bodas, por achar-se um tanto adoentado;

mas abençoava de longe os filhos, e pedia o retrato do genro.

Cumpriu-se o accordo á risca. Vinte e quatro horas depois de recebida a

resposta do Pará effectuou-se o casamento, que foi uma festa admiravel,

esplendida, no dizer de D. Benedicta, quando a contou a algumas amigas.

Officiou o conego Roxo, e claro é que D. Maria dos Anjos não esteve

presente, e menos ainda o filho. Ella esperou, note-se, até á ultima

hora um billhete de participação, um convite, uma visita, embora se

abstivesse de comparecer; mas não recebeu nada. Estava attonita,

revolvia a memoria a ver se descobria alguma inadvertencia sua que

podesse explicar a frieza das relações; não achando nada, suppoz alguma

intriga. E suppoz mal, pois foi um simples esquecimento. D. Benedicta,

no dia do consorcio, de manhã, teve ideia de que D. Maria dos Anjos não

recebera participação.

--Eulalia, parece que não mandamos participação a D. Maria dos Anjos?

disse ella á filha, almoçando.

--Não sei; mamãe é quem se incumbiu dos convites.

--Parece que não, confirmou D. Benedicta. João, dá cá mais assucar.

O copeiro deu-lhe o assucar; ella, mexendo o chá, lembrou-se do carro

que iria buscar o conego, e reiterou uma ordem da vespera.

Papeis Avulsos · 第 7 / 13 段