a terra de Sem; e iremos ás tendas um do outro, e partiremos o pão da
alegria e da concordia.»
13.--E tendo Sem approvado a divisão, perguntou a Japhet: «Mas o rio? a
quem pertencerá a agua do rio, a corrente?
14.--«Porque nós possuimos as margens, e não estatuimos nada a respeito
da corrente.» E respondeu Japhet, que podiam pescar de um e outro lado;
mas, divergindo o irmão, propôz dividir o rio em duas partes, fincando
um pau no meio. Japhet, porem, disse que a corrente levaria o pau.
15.--E tendo Japhet respondido asssim, acudiu o irmão:--«Pois que te
não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não
haja conflicto, podes levantar um muro, dez ou doze covados, para lá da
tua margem antiga.
16.--«E se com isto perdes alguma cousa, nem é grande a differença, nem
deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concordia entre
nós, segundo é a vontade do Senhor.»
17.--Japhet porém replicou:--«Vae bugiar! Com que direito me tiras a
margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Por ventura és
melhor do que eu.
18.--«Ou mais bello, ou mais querido de meu pae? que direito tens de
violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia?
19.--«Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as
margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-hei
como Caim matou a seu irmão.»
20.--Ouvindo isto, Cham atemorisou-se muito, e começou a aquietar os
dous irmãos,
21.--Os quaes tinham os olhos do tamanho de figos e cor de braza, e
olhavam-se cheios de colera e desprezo.
22.--A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.
CAPITULO B
1.--Ora, Japhet, tendo curtido a colera, começou a espumar pela boca, e
Okam fallou-lhe palavras de brandura,
2.--Dizendo:--«Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher
e a mulher de Sem.»
3.--Um e outro, porém, recusaram dizendo, que o caso era de direito e
não de persuasão.
4.--E Sem propoz a Japhet que compensasse os dez covados perdidos,
medindo outros tantos nos fundos da terra delle. Mas Japhet respondeu:
5.--«Por que me não mandas logo para os confins do mundo? Já te não
contentas com quinhentos covados; queres quinhentos e dez, e eu que
fique com quatrocentos e noventa.
6.--«Tu não tens sentimentos moraes? não sabes o que é justiça? não ves
que me esbulhas descaradamente? e não percebes que eu saberei defender
o que é meu, ainda com risco de vida?
7.--«E que, se é preciso correr sangue, o sangue hade correr já e já,
8.--«Para te castigar a soberba e lavar a tua iniquidade?»
9.--Então Sem avançou para Japhet; mas Cham interpoz-se, pondo uma das
mãos no peito de cada um;
10.--Emquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do diluvio,
tinham vivido na mais doce concordia, ouvindo o rumor das vozes, vieram
espreitar a briga dos dous irmãos, e começaram a vigiar-se um ao outro.
11.--E disse Cham:--«Ora, pois, tenho uma ideia maravilhosa, que ha de
accommodar tudo;
12.--«A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos.
Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pae, e ficarei
com o rio e as duas margens, dando-me vós uns vinte covados cada um.»
13.--E Sem e Japhet riram com desprezo e sarcasmo, dizendo:--«Vae
plantar tamaras! Guarda a tua ideia para os dias da velhice.» E puxaram
as orelhas e o nariz de Cham; e Japhet, mettendo dous dedos na boca,
imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.
14.--Ora, Cham envergonhado e irritado, espalmou a mão dizendo:--«Deixa
estar!» e foi d'alli ter com o pae e as mulheres dos dous irmãos.
15.--Japhet porém disse a Sem:--«Agora que estamos sós, vamos decidir
este grave caso, ou seja de lingua ou de punho. Ou tu me cedes as duas
margens, ou eu te quebro uma costella.»
16.--Dizendo isto, Japhet ameaçou a Sem com os punhos fechados,
emquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: «Não te cedo
nada, gatuno!»
17.--Ao que Japhet retorquiu irado: «gatuno és tu!»
18.--Isto dito, avançaram um para o outro e atracaram-se. Japhet tinha
o braço rijo e adestrado; Sem era forte na resistencia. Então Japhet,
segurando o irmão pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: «De quem
é o rio?»
19.--E respondendo Sem:--«É meu!» Japhet fez um gesto para derrubal-o;
mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe,
Japhet, porém, espumando de colera, tornou a apertar o irmão, e os dous
luctaram braço a braço,
20.--Suando e bufando como touros.
21.--Na lucta, cairam e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue
saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia Japhet,
22.--Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os egualmente, e elles
luctavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia
como se de novo se houvessem aberto as cataratas do céu.
23.--Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé, ao mesmo
tempo que seu filho Cham, que lhe appareceu clamando: «Meu pae, meu
pae, se de Caim se tomará vingança sete vezes, e de Lamech setenta
vezes sete, o que será de Japhet e Sem?»
24.--E pedindo Noé que explicasse o dito, Cham referiu a discordia dos
dous irmãos, e a ira que os animava, e disse:--«Correi a aquietal-os.»
Noé disse:--«Vamos.»
25.--A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.
CAPITULO C
1.--Eis aqui chegou Noé ao logar onde luctavam os dous filhos,
2.--E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de
Japhet, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e
sangrenta.
3.--Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do
irmão, e este começou a bradar: «Larga-me, larga-me.»
4.--Ouvindo os brados, as mulheres de Japhet e Sem acudiram tambem ao
logar da lucta, e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: «O que
será de nós? A maldição cahiu sobre nós e nossos maridos.»
5.--Noé, porém, lhes disse: «Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu
verei de que se trata, e ordenarei o que fôr justo .» E caminhando para
os dous combatentes,
6.--Bradou: «Cessae a briga. Eu, Noé, vosso pae, o ordeno e mando.» E
ouvindo os dous irmãos o pae, detiveram-se subitamente, e ficaram longo
tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum d'elles.
7.--Noé continuou: «Erguei-vos, homens indignos da salvação e
merecedores do castigo que feriu os outros homens.»
8.--Japhet e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço
e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham luctado com
unhas e dentes, instigados de odio mortal.
9.--O chão tambem estava alagado de sangue, e as sandalias de um e
outro, e os cabellos de um e outro,
10.--Como se o peccado os quizera marcar com o sello da iniquidade.
11.--As duas mulheres, porém, chegaram-se a elles, chorando e
acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração. Japhet e Sem não
attendiam a nada, e estavam com os olhos no chão, medrosos de encarar
seu pae.
12.--O qual disse: «Ora, pois, quero saber o motivo da briga.»
13.--Esta palavra accendeu o odio no coração de ambos. Japhet, porém,
foi o primeiro que falou e disse:
14.--«Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para
levantar a minha tenda, quando as aguas houverem desapparecido e a arca
descer, segundo a promessa do Senhor;
15.--«E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: «Não te
contentas com quinhentos covados e queres mais dez? «E elle me
respondeu: «Quero mais dez e as duas margens do rio que ha de dividir a
minha terra da tua terra.»
16.--Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Japhet,
perguntou ao irmão: «Que respondes?»
17.--E Sem disse: «--Japhet mente, porque eu só lhe tomei os dez
covados de terra, depois que elle recusou dividir o rio em duas partes;
e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que elle
medisse outros dez covados nos fundos das terras delle,
18.--«Para compensar o que perdia; mas a iniquidade de Caim fallou
nelle, e elle me feriu a cabeça, a cara e as mãos.»
19.--E Japhet interrompeu-o dizendo: «Porventura não me feriste tambem?
Não estou ensanguentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço;
olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.»
20.--Indo Noé fallar, notou que os dous filhos de novo pareciam
desafiar-se com os olhos. Então disse: «Ouvi!» Mas os dous irmãos,
cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando:--«De quem é o
rio?»--«O rio é meu.»
21.--E só a muito custo puderam Noé, Cham e as mulheres de Sem e
Japhet, conter os dous combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em
grande copia.
22.--Noé, porém, alçando a voz, bradou:--Maldito seja o que me não
obedecer. Elle será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete,
mas setecentas vezes setenta.
23.--«Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum
ajuste a respeito do logar em que levantareis as tendas.»
24.--Depois ficou meditabundo.
25.--E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do tecto estava
levantada, bradou com tristeza:
26.--«Elles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos
limites. O que será quando vierem a Turquia e a Russia?»
27.--E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pae.
28.--A arca, porém, continuava a boiar sobre as aguas do abysmo.
D. BENEDICTA
UM RETRATO
I
A cousa mais ardua do mundo, depois do officio de governar, seria dizer
a edade exacta de D. Benedicta. Uns davam-lhe quarenta annos, outros
quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia
aos vinte e nove; mas esta opinião, eivada de intenções occultas,
carecia daquelle cunho de sinceridade que todos gostamos de achar
nos conceitos humanos. Nem eu a cito, senão para dizer, desde logo,
que D. Benedicta foi sempre um padrão de bons costumes. A astucia do
corretor não fez mais do que indignal-a, embora momentaneamente; digo
momentaneamente. Quanto ás outras conjecturas, oscillando entre os
trinta e seis e os quarenta e cinco, não desdiziam das feições de D.
Benedicta, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas,
se alguma cousa admira é que houvesse supposições neste negocio, quando
bastava interrogal-a para saber a verdade verdadeira.
D. Benedicta fez quarenta e dous annos no domingo desenove de setembro
de 1869. São seis horas da tarde; a meza da familia está ladeada de
parentes e amigos, em numero de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas
dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram
sempre alludir francamente á edade da dona da casa. Além disso, vêem-se
alli, á meza, uma moça e um rapaz, seus filhos; este é, de certo, no
tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a moça, Eulalia, contando
dezoito annos, parece ter vinte e um, tal é a severidade dos modos e
das feições.
A alegria dos convivas, a excellencia do jantar, certas negociações
matrimoniaes incumbidas ao conego Roxo, aqui presente, e das quaes se
fallará mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso dá
á festa um caracter intimo e feliz. O conego levanta-se para trinchar
o perú. D. Benedicta acatava esse uso nacional das casas modestas de
confiar o perú a um dos convivas, em vez de o fazer retalhar fóra da
meza por mãos servis, e o conego era o pianista daquellas occasiões
solemnes. Ninguem conhecia melhor a anatomia do animal, nem sabia
operar com mais presteza. Talvez,--e este phenomeno fica para os
entendidos,--talvez a circumstancia do canonicato augmentasse ao
trinchante, no espirito dos convivas, uma certa somma de prestigio,
que elle não teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de
mathematicas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um
estudante ou um amanuense, sem a lição do longo uso, poderia dispor da
arte consummada do conego? É outra questão importante.
Venhamos, porém, aos demais convivas, que estão parados, conversando;
reina o borborinho proprio dos estomagos meio regalados, o riso da
natureza que caminha para a repleção; é um instante de repouso.
D. Benedicta falla, como as suas visitas, mas não falla para todas,
senão para uma, que está sentada ao pé della. Essa é uma senhora gorda,
sympathica, muito risonha, mãe de um bacharel de vinte e dous annos,
o Leandrinho, que está sentado defronte dellas. D. Benedicta não se
contenta de fallar á senhora gorda, tem uma das mãos desta entre as
suas; e não se contenta de lhe ter presa a mão, fita-lhe uns olhos
namorados, vivamente namorados. Não os fita, note-se bem, de um modo
persistente e longo, mas inquieto, miudo, repetido, instantaneo. Em
todo caso, ha muita ternura naquelle gesto; e, dado que não a houvesse,
não se perderia nada, porque D. Benedicta repete com a boca a D. Maria
dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito:--que está encantada,
que considera uma fortuna conhecel-a, que é muito sympathica, muito
digna, que traz o coração nos olhos, etc., etc., etc. Uma de suas
amigas diz-lhe, rindo, que está com ciumes.
--Que arrebente! responde ella, rindo tambem.
E voltando-se para a outra:
--Não acha? ninguém deve metter-se com a nossa vida.
E ahi tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as offertas,
mais isto, mais aquillo,--um projecto do passeio, outro de theatro, e
promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expansão e calor, que a
outra palpitava de alegria e reconhecimento.
O perú está comido. D. Maria dos Anjos faz um signal ao filho; este
levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:
--Meus senhores, é preciso desmentir esta maxima dos francezes:--_les
absents on tort._Bebamos a alguem que está longe, muito longe,
no espaço, mas perto, muito perto, no coração de sua digna
esposa:--bebamos ao illustre desembargador Proença.
A assembléa não correspondeu vivamente ao brinde; e para comprehendel-o
basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais intimos
disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; emfim,
bebeu-se, mas sem estrepito; ao que parece, para não avivar a dor de D.
Benedicta. Vã precaução! D. Benedicta, não podendo conter-se, deixou
rebentarem-lhe as lagrimas, levantou-se da meza, retirou-se da sala.
D. Maria dos Anjos acompanhou-a. Succedeu um silencio mortal entre os
convivas. Eulalia pediu a todos que continuassem, que a mãe voltava já.
--Mamãe é muito sensivel, disse ella, e a ideia de que papae está longe
de nós...
O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eulalia. Um sujeito, ao
lado delle, explicou-lhe que D. Benedicta não podia ouvir fallar
do marido sem receber um golpe no coração--e chorar logo; ao que o
Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza della, mas estava longe
de suppor que o seu brinde tivesse tão mau effeito.
--Pois era a cousa mais natural, explicou o sujeito, porque ella morre
pelo marido.
--O conego, acudiu Leandrinho, disse-me que elle foi para o Pará ha uns
dous annos...
--Dous annos e meio; foi nomeado desembargador pelo ministerio
Zacharias. Elle queria a relação de S. Paulo, ou da Bahia; mas não pôde
ser e aceitou a do Pará.
--Não voltou mais?
--Não voltou.
--D. Benedicta naturalmente tem medo de embarcar...
--Creio que não. Já foi uma vez á Europa. Se bem me lembro, ella ficou
para arranjar alguns negocios de familia; mas foi ficando, ficando, e
agora...
--Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim... Conhece o
marido?
--Conheço; um homem muito distincto, e ainda moço, forte; não terá
mais de quarenta e cinco annos. Alto, barbado, bonito. Aqui ha tempos
disse-se que elle não teimava com a mulher, porque estava lá de amores
com uma viuva.
--Ah!
--E houve até quem viesse contal-o a ella mesma. Imagine como a pobre
senhora ficou! Chorou uma uma noute inteira, no dia seguinte não quiz
almoçar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.
--Mas não foi?
--Não foi; desfez a viagem d'ahi a tres dias.
D. Benedicta voltou nesse momento, pelo braço de D. Maria dos Anjos.
Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupção, e
sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe
deu, pegando-lhe outra vez na mão.
--Vejo que me quer bem, disse ella.
--A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.
--Mereço? inquiriu ella entre desvanecida e modesta.
E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um verdadeiro
anjo; palavra que ella sublinhou com o mesmo olhar namorado, não
persistente e longo, mas inquieto e repetido. O conego, pela sua parte,
com o fim de apagar a lembrança do incidente, procurou generalisar a
conversa, dando-lhe por assumpto a eleição do melhor doce. Os pareceres
divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de cajú,
alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do
brinde, dizia com os olhos,--não com a boca,--e dizia-o de um modo
astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eulalia, um doce moreno,
corado; dito que a mãe delle interiormente approvava, e que a mãe della
não podia ver, tão entregue estava á contemplação da recente amiga. Um
anjo, um verdadeiro anjo!
II
D. Benedicta levantou-se, no dia seguinte, com a ideia de escrever
uma carta ao marido, uma longa carta em que lhe narrasse a festa da
vespera, nomeasse os convivas e os pratos, descrevesse a recepção
nocturna, e, principalmente, désse noticia das novas relações com
D. Maria dos Anjos. A mala fechava-se ás duas horas da tarde, D.
Benedicta accordára ás nove, e, não morando longe (morava no Campo
da Acclamação), um escravo levaria a carta ao correio muito a tempo.
Demais, chovia; D. Benedicta arredou a cortina da janella, deu com os
vidros molhados; era uma chuvinha teimosa, o céu estava todo brochado
de uma côr pardo-escura, malhada do grossas nuvens negras. Ao longe,
viu fluctuar e voar o panno que cobria o balaio que uma preta levava á
cabeça: concluiu que ventava. Magnifico dia para não sair, e, portanto,
escrever uma carta, duas cartas, todas as cartas de uma esposa ao
marido ausente. Ninguem viria tental-a.
Emquanto ella compõe os babadinhos e rendas do roupão branco, um
roupão de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862, no mesmo
dia anniversario, 19 de Setembro, convido a leitora a observar-lhe
as feições. Vê que não lhe dou Venus; tambem não lhe dou Meduza. Ao
contrario de Meduza, nota-se-lhe o alisado simples do cabello, preso
sobre a nuca. Os olhos são vulgares, mas tem uma expressão bonachã. A
bocca é daquellas que, ainda não sorrindo, são risonhas, e tem esta
outra particularidade, que é uma bocca sem remorsos nem saudades: podia
dizer sem desejos, mas eu só digo o que quero, e só quero fallar das
saudades e dos remorsos. Toda essa cabeça, que não enthusiasma, nem
repelle, assenta sobre um corpo antes alto do que baixo, e não magro
nem gordo, mas fornido na proporção da estatura. Para que fallar-lhe
das mãos? Ha de admiral-as logo, ao travar da penna e do papel, com os
dedos afilados e vadios, dous delles ornados de cinco ou seis anneis.
Creio que é bastante ver o modo porque ella compõe as rendas e os
babadinhos do roupão para comprehender que é uma senhora pichosa, amiga
do arranjo das cousas e de si mesma. Noto que rasgou agora o babadinho
do punho esquerdo, mas é porque, sendo tambem impaciente, não podia
mais «com a vida deste diabo.» Essa foi a sua expressão, acompanhada
logo de um «Deus me perdôe!» que inteiramente lhe extrahiu o veneno.
Não digo que ella bateu com o pé, mas adivinha-se, por ser um gesto
natural de algumas senhoras irritadas. Em todo caso, a colera durou
pouco mais de meio minuto. D. Benedicta foi á caixinha de costura para
dar um ponto no rasgão, e contentou-se com um alfinete. O alfinete caiu
no chão, ella abaixou-se a apanhal-o. Tinha outros, é verdade, muitos
outros, mas não achava prudente deixar alfinetes no chão. Abaixando-se,
aconteceu-lhe ver a ponta da chinela, na qual pareceu-lhe descobrir um
signal branco; sentou-se na cadeira que tinha perto, tirou a chinela, e
viu o que era: era um roidinho de barata. Outra raiva de D. Benedicta,
porque a chinela era muito galante, e fora-lhe dada por uma amiga do
anno passado. Um anjo, um verdadeiro anjo! D. Benedicta fitou os olhos
irritados no signal branco; felizmente a expressão bonachã delles não
era tão bonachã que se deixasse eliminar de todo por outras expressões
menos passivas, e retomou o seu logar. D. Benedicta entrou a virar e
revirar a chinela, e a passal-a de uma para outra mão, a principio com
amor, logo depois machinalmente, até que as mãos pararam de todo, a
chinela caiu no regaço, e D. Benedicta ficou a olhar para o ar, parada,
fixa. Nisto o relogio da sala de jantar, começou a bater horas, D.
Benedicta logo ás primeiras duas, estremeceu:
--Jesus! Dez horas!
E, rapida, calçou a chinela, concertou depressa o punho do roupão,
e dirigisse á escrevaninha, para começar a carta. Escreveu, com
effeito, a data, e um:--«Meu ingrato marido»; emfim, mal traçára estas
linhas:--Você lembrou-se hontem de mim? Eu...» quando Eulalia lhe bateu
á porta, bradando:
--Mamãe, mamãe, são horas de almoçar.
D. Benedicta abriu a porta, Eulalia beijou-lhe a mão, depois levantou
as suas ao céu:
--Meu Deus! que dorminhoca!
--O almoço está prompto?
--Ha que seculos!
--Mas eu tinha dito que hoje o almoço era mais tarde... Estava
escrevendo a teu pae.
Olhou alguns instantes para a filha, como desejosa de lhe dizer alguma
cousa grave, ao menos difficil, tal era a expressão indecisa e séria
dos olhos. Mas não chegou a dizer nada; a filha repetiu que a almoço
estava na mesa, pegou-lhe do braço e levou-a.
Deixemol-as almoçar á vontade; descancemos nessa outra sala, a de
visitas, sem aliás inventariar os moveis della, como o não fizemos
em nenhuma outra sala ou quarto. Não é que elles não prestem, ou
sejam de máu gosto; ao contrario, são bons. Mas a impressão geral que
se recebe é exquisita, como se ao trastejar daquella casa houvesse
presidido um plano truncado, ou uma successão de planos truncados.
Mãe, filha e filho almoçaram. Deixemos o filho, que nos não importa,
um pirralho de doze annos, que parece ter oito, tão mofino é elle.
Eulalia interessa-nos, não só pelo que vimos de relance no capitulo
passado, como porque, ouvindo a mãe fallar em D. Maria dos Anjos
e no Leandrinho, ficou muito séria e, talvez, um pouco amuada. D.
Benedicta percebeu que o assumpto não era aprazivel á filha, e recuou
da conversa, como alguem que desanda uma rua para evitar um importuno;
recuou e ergueu-se; a filha veiu com ella para a sala de visitas.
Eram onze horas menos um quarto. D. Benedicta conversou com a filha até
depois de meio dia, para ter tempo de descançar o almoço e escrever a
carta. Sabem que a mala fecha ás duas horas. De facto, alguns minutos,
poucos, depois do meio dia, D. Benedicta disse á filha que fosse
estudar piano, porque ella ia acabar a carta. Saiu da sala; Eulalia foi
á janella, relanceou a vista pelo Campo, e, se lhes disser que com uma
pontasinha de tristeza nos olhos, podem crer que é a pura verdade. Não
era todavia, a tristeza dos debeis ou dos indecisos; era a tristeza dos
resolutos, a quem dóe de antemão um acto pela mortificação que hade
trazer a outros, e que, não obstante, juram a si mesmos pratical-o,
e praticam. Convenho que nem todas essas particularidades podiam
estar nos olhos de Eulalia, mas por isso mesmo é que as historias são
contadas por alguem, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar
o escondido. Que era uma tristeza mascula, era;--e que dahi a pouco os
olhos sorriam de um signal de esperança, tambem não é mentira.
--Isto acaba, murmurou ella, vindo para dentro.
Justamente nessa occasião parava um carro á porta, apeava-se uma
senhora, ouvia-se a campainha da escada, descia um moleque a abrir a
cancella, e subia es escadas D. Maria dos Anjos. D. Benedicta, quando
lhe disseram quem era, largou a penna, alvoroçada; vestiu-se á pressa,
calçou-se, e foi á sala.
--Com este tempo! exclamou. Ah! isto é que é querer bem á gente!
--Vim sem esperar pela sua visita, só para mostrar que não gosto de
cerimonias, e que entre nós deve haver a maior liberdade.
Vieram os comprimentos de estylo, as palavrinhas doces, os afagos da
vespera. D. Benedicta não se fartava de dizer que a visita naquelle
dia era uma grande fineza, uma prova de verdadeira amisade; mas queria
outra, accrescentou dahi a um instante, que D. Maria dos Anjos ficasse
para jantar. Esta desculpou-se allegando que tinha de ir a outras
partes; demais, essa era a prova que lhe pedia,--a de ir jantar á casa
della primeiro. D. Benedicta não hesitou, prometteu que sim, naquella
mesma semana.