--Diga. [added part of sentence]--**Somente não deves empregar a

ironia, esse movimento ao canto da boca cheio do mysterios, inventado

por algum grego da decadencia, contrahido** por Luciano, transmittido

a Swift e Voltaire, feição propria dos scepticos e desabusados. Não.

Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda,

franca, sem biocos, nem véus, que se mette pela cara dos outros, estala

com uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os

suspensorios. Usa a chalaça. Que é isto?

--Meia noite.

--Meia noite? Entras nos teus vinte e dois annos, meu peralta; estás

definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te

disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa d'esta noite vale

o_ Principe_ de Machiavelli. Vamos dormir.

FIM DA THEORIA DO MEDALHÃO

A CHINELA TURCA[1]

Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correcto laço de

gravata que appareceu naquelle anno de 1850, e annunciam-lhe a visita

do major Lopo Alves. Notai que é de noite, e passa de nove horas.

Duarte estremeceu e tinha duas razões para isso. A primeira era ser o

major, em qualquer occasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo.

A segunda é que elle preparava-se justamente para ir ver, em um baile,

os mais finos cabellos louros e os mais pensativos olhos azues, que

este nosso clima, tão avaro delles, produzira. Datava de uma semana

aquelle namoro. Seu coração, deixando-se prender entre duas valsas,

confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declaração em regra, que

elles pontualmente transmittiram á moça, dez minutos antes da ceia,

recebendo favoravel resposta logo depois do chocolate. Tres dias

depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo geito que levavam as

cousas não era de admirar que, antes do fim do anno, estivessem ambos

a caminho da egreja. Nestas circumstancias, a chegada de Lopo Alves

era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da familia, companheiro de

seu finado pae no exercito, tinha jus o major a todos os respeitos.

Impossivel despedil-o ou tratal-o com frieza. Havia felizmente uma

circumstancia attenuante; o major era aparentado com Cecilia, a moça

dos olhos azues; em caso de necessidade, era um voto seguro.

Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com

um rolo debaixo do braço e os olhos fitos no ar, parecia totalmente

alheio á chegada do bacharel.

--Que bom vento o trouxe a Catumby a semelhante hora? perguntou Duarte,

dando á voz uma expressão de prazer, aconselhada não menos pelo

interesse que pelo bom tom.

--Não** sei se o vento que me trouxe é bom ou mau, respondeu o major

sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento

rijo. Vai sahir?

--Vou ao Rio Comprido.

--Já sei; vae á casa da viuva Menezes. Minha mulher e as pequenas já lá

devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que é cedo, não?

Lopo Alves tirou o relogio e viu que eram nove horas e meia. Passou

a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a

sentar-se e disse:

--Dou-lhe uma noticia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz

um drama.

--Um drama! exclamou o bacharel.

--Que quer? Desde creança padeci destes achaques litterarios. O serviço

militar não foi remedio que me curasse, foi um palliativo. A doença

regressou com a força dos primeiros tempos. Já agora não ha remedio se

não deixal-a, e ir simplesmente ajudando a natureza.

Duarte recordou-se de que effectivamente o major fallava n'outro tempo

de alguns discursos inauguraes, duas ou tres nenias e boa somma de

artigos que escrevera ácerca das campanhas do Rio da Prata. Havia

porém muitos annos que Lopo Alves deixára em paz os generaes platinos

e os defuntos; nada fazia suppôr que a molestia volvesse, sobre tudo

caracterisada por um drama. Esta circumstancia explical-a-hia o

bacharel, se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes, assistira

á representação de uma peça do genero ultra-romantico, obra que lhe

agradou muito e lhe suggeriu a idéa de affrontar as luzes do tablado.

Não entrou o major nestas minuciosidades necessarias, e o bacharel

ficou sem conhecer o motivo da explosão dramatica do militar. Nem

o soube, nem curou disso. Encareceu muito as faculdades mentaes do

major, manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sahir

triumpliante naquella estréa, prometteu que o recommendaria a alguns

amigos que tinha no _Correio Mercantil_, e só estacou e empallideceu

quando viu o major, tremulo de bem-aventurança, abrir o rolo que trazia

comsigo.

--Agradeço-lhe as suas boas intenções, disse Lopo Alves, e acceito o

obsequio que me promette; antes delle, porém, desejo outro. Sei que

é intelligente e lido; ha de me dizer francamente o que pensa deste

trabalho. Não lhe peço elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se

achar que não é bom, diga-o sem rebuço.

Duarte procurou desviar aquelle calix de amargura; mas era difficil

pedil-o, e impossivel alcançal-o. Consultou melancholicamente o

relogio, que marcava nove horas e cincoenta e cinco minutos, emquanto o

major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscripto.

--Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que são rapazes e o

que são bailes. Descanse que ainda hoje dansará duas ou tres valsas

com _ella_, se a tem, ou com ellas. Não acha melhor irmos para o seu

gabinete?

Era indifferente, para o bacharel, o lugar do supplicio; accedeu ao

desejo do hospede. Este, com a liberdade que lhe davam as relações,

disse ao moleque que não deixasse entrar ninguem. O algoz não queria

testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou logar

ao pé da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e

o desespero n'uma vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer

palavra para ir mais depressa ao termo.

O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicação produziu um calafrio

no ouvinte. Nada havia de novo naquellas cento e oitenta paginas, senão

a lettra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as _ficelles_

e até o estylo dos mais acabados typos do romantismo desgrenhado. Lopo

Alves cuidava pôr por obra uma invenção, quando não fazia mais do que

alinhavar as suas reminiscencias. N'outra occasião, a obra seria um

bom passatempo. Havia logo no primeiro quadro, especie de prologo, uma

creança roubada á familia, um envenenamento, dous embuçados, a ponta de

um punhal e quantidade de adjectivos não menos afiados que o punhal. No

segundo, quadro dava-se conta da morte de um dos embuçados, que devia

ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tyranno do

septimo. Além da morte apparente do embuçado, havia no segundo quadro

o rapto da menina, já então moça de desesete annos, um monologo que

parecia durar igual praso, e o roubo de um testamento.

Eram quasi onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro.

Duarte mal podia conter a colera; era já impossivel ir ao Rio Comprido.

Não é fóra de proposito conjecturar que, se o major expirasse naquelle

momento, Duarte agradecia a morte como um beneficio da Providencia.

Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas

a leitura de um máu livro é capaz de produzir phenomenos ainda mais

espantosos. Accresce que, emquanto aos olhos carnaes do bacharel

apparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fulgiam-lhe

ao espirito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecilia;

via-a com os olhos azues, a tez branca e rosada, o gesto delicado e

gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da

viuva Menezes. Via aquillo, e ouvia mentalmente a musica, a palestra,

o sôar dos passos, e o ruge-ruge das sedas; emquanto a voz rouquenha e

sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os dialogos, com a

impassibilidade de uma grande convicção.

Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. Meia noite

soára desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que

o major enrolava outra vez o manuscripto, erguia-se, impertigava-se,

cravava nelle uns olhos odientos e máus, e saia arrebatadamente do

gabinete. Duarte quiz chamal-o, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os

movimentos. Quando pôde dominar-se, ouviu o bater do tacão rijo e

colerico do dramaturgo na pedra da calçada. Foi á janella; nada viu nem

ouviu; autor e drama tinham desapparecido.

--Porque não fez elle isso ha mais tempo? disse o rapaz suspirando.

O suspiro mal teve tempo de abrir as azas e sair pela janella fóra,

em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veiu

annunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo.

--A esta hora! exclamou Duarte.

--A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta

ou a qualquer hora, póde a policia entrar na casa do cidadão, uma vez

que se trata de um delicto grave.

--Um delicto!

--Creio que me conhece...

--Não tenho essa honra.

--Sou empregado na policia.

--Mas que tenho eu com o senhor? de que delicto se trata?

--Pouca cousa: um furto. O senhor é accusado de haver subtrahido

uma chinela turca. Apparentemente não vale nada ou vale pouco a tal

chinela. Mas ha chinela e chinela. Tudo depende das circumstancias.

O homem disse isto com um riso sarcastico, e cravando no bacharel

uns olhos de inquisidor. Duarte não sabia sequer da existencia do

objecto roubado. Concluiu que havia equivoco de nome, e não se

zangou com a injuria irrogada á sua pessoa, e de algum modo á sua

classe, attribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado

da policia, accrescentando que não era motivo, em todo caso, para

incommodal-o a semelhante hora.

--Hade perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela

de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de

finissimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é

turca só pela forma, mas tambem pela origem. A dona, que é uma de

nossas patricias mais viajeiras, esteve, ha cerca de tres annos no

Egypto, onde a comprou a um judeu. A historia, que este alumno de

Moysés referiu ácerca daquelle producto da industria musulmana, é

verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa.

Mas não vem ao caso dizel-a. O que importa saber é que ella foi roubada

e que a policia tem denuncia contra o senhor.

Neste ponto do discurso, chegára-se o homem á janella; Duarte suspeitou

que fosse um doudo ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita,

porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que

lhe lançaram as mãos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos

que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um

carro, onde o metteram á força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e

mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo

do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu á

desfilada.

--Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia

impunemente furtar chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez

com ellas... e rir ainda por cima do genero humano.

Ouvindo aquella allusão á dama dos seus pensamentos, Duarte teve um

calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival

supplantado. Ou a allusao seria casual e extranha á aventura? Duarte

perdeu-se n'um cipoal de conjecturas, em quanto o carro ia sempre

andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.

--Quaesquer que sejam os meus crimes, supponho que a policia...

--Nós não somos da policia, interrompeu friamente o homem magro.

--Ah!

--Este cavalheiro e eu fazemos um par. Elle, o senhor e eu faremos um

terno. Ora, terno não é melhor que par; não é, não póde ser. Um casal é

o ideal. Provavelmente não me entendeu?

--Não, senhor.

--Ha de entender logo mais.

Duarte resignou-se á espera, enfronhou-se no silencio, derreou o corpo,

e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois

estacavam os cavallos.

--Chegámos, disse o homem gordo.

Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e offereceu-o ao bacharel

para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro

observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. Não resistiu

o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, d'ahi a pouco, ranger

uma porta; duas pessoas,--provavelmente as mesmas que o acompanharam

no carro,--seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade

de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes

desconhecidas, palavras soltas, phrases truncadas. Afinal pararam;

disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu;

mas ao desvendar-se, não viu ninguem mais.

Era uma sala vasta, assaz illuminada, trastejada com elegancia e

opulencia. Era talvez sobre posse a variedade dos adornos; comtudo, a

pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Os bronzes, charões,

tapetes, espelhos,--a copia infinita de objectos que enchiam a sala,

era tudo da melhor fabrica. A vista daquillo restituiu a serenidade de

animo ao bacharel; não era provavel que alli morassem ladrões.

Reclinou-se o moço indolentemente na ottomana... Na ottomana! esta

circumstancia trouxe á memoria do rapaz o principio da aventura e o

roubo da chinela. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a

tal chinela era já agora mais que problematica. Cavando mais fundo

no terreno das conjecturas, pareceu-lhe achar uma explicação nova

e definitiva. A chinela vinha a ser pura metaphora; tratava-se do

coração de Cecilia, que elle roubára, delicto de que o queria punir o

já imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras

mysteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno; um casal é o

ideal.

--Ha de ser isso, concluiu Duarte; mas quem será esse pretendente

derrotado?

Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina

de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por effeito de

uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por elle

deitou-lhe a benção, e foi sair por outra porta rasgada na parede

fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a

olhar sem ver, estupido de todos os sentidos. O inesperado daquella

apparição baralhou totalmente as ideias anteriores a respeito

da aventura. Não teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova

explicação, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por

ella outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a elle

e o convidou a seguil-o. Duarte não oppoz resistencia. Sairam por

uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos

alumiados, foram dar a outra sala, que só o era por duas velas postas

em castiçaes de prata. Os castiçaes estavam sobre uma meza larga. Na

cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cincoenta e

cinco annos; era uma figura athletica, farta de cabellos na cabeça e na

cara.

--Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala.

--Não, senhor.

--Nem é preciso. O que vamos fazer exclue absolutamente a necessidade

de qualquer apresentação. Saberá em primeiro logar que o roubo da

chinela foi um simples pretexto...

--Oh! de certo! interrompeu Duarte.

--Um simples pretexto, continuou o velho, para trazel-o a esta nossa

casa. A chinela não foi roubada; nunca sahiu das mãos da dona. João

Rufino, vá buscar a chinella.

O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela

não tinha nenhum diamante, nem fôra comprada a nenhum judeu do Egypto;

era, porém, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenhez.

Duarte ouviu as explicações, e, reunindo todas as forças, perguntou

resolutamente:

--Mas, senhor, não me dirá de uma vez o que querem de mim e o que estou

fazendo nesta casa?

--Vae sabel-o, respondeu tranquillamente o velho.

A porta abriu-se e appareceu o homem magro com a chinela na mão.

Duarte, convidado a approximar-se da luz, teve occasião de verificar

que a pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim

finissimo; no assento do pé, estufado e forrado de seda cor azul,

rutilavam duas lettras bordadas a ouro.

--Chinela de creança, não lhe parece? disse o velho.

--Supponho que sim.

--Pois suppõe mal; é chinela de moça.

--Será; nada tenho com isso.

--Perdão! tem muito, porque vae casar com a dona.

--Casar! exclamou Duarte.

--Nada menos. João Rufino, vá buscar a dona da chinela.

Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando á porta, levantou

o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro

da sala. Não era mulher, era uma sylphide, uma visão de poeta, uma

creatura divina. Era loura; tinha os olhos azues, como os de Cecilia,

extaticos, uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver delle. Os

cabellos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça, um

como resplendor de santa; santa sómente, não martyr, porque o sorriso

que lhe desabrochava os labios, era um sorriso de bem-aventurança, como

raras vezes hade ter tido a terra. Um vestido branco, de finissima

cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas fórmas aliás

desenhava, pouco para os olhos, mais muito para a imaginação.

Um rapaz, como o bacharel, não perde o sentimento da elegancia, ainda

em lances daquelles. Duarte, ao ver a moça, compoz o chambre, apalpou

a gravata e fez uma ceremoniosa cortezia, a que ella correspondeu com

tamanha gentileza e graça, que a aventura começou a parecer muito menos

atterradora.

--Meu caro doutor, esta é a noiva.

A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de

casar.

--Tres cousas vae o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente

o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a

terceira engolir certa droga do Levante...

--Veneno! interrompeu Duarte.

--Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu.

Duarte estava pallido e frio. Quiz fallar, não pôde; um gemido, sequer,

não lhe saiu do peito. Rolaria ao chão, se não houvesse alli perto uma

cadeira em que se deixou cair.

--O senhor, continuou o velho, tem uma fortunasinha de cento e

cincoenta contos. Esta perola será a sua herdeira universal. João

Rufino, vá buscar o padre.

O padre entrou, o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco

antes; entrou e foi direito ao moço, ingrolando somnolentamente um

trecho de Nehemias ou qualquer outro proplieta menor; travou-lhe da mão

e disse:

--Levante-se!

--Não! não quero! não me casarei!

--E isto? disse da meza o velho apontando-lhe uma pistola.

--Mas então é um assassinato?

--É; a differença está no genero de morte: ou violenta com isto, ou

suave com a droga. Escolha!

Duarte suava e tremia. Quiz levantar-se e não pôde. Os joelhos batiam

um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse baixinho:

--Quer fugir?

--Oh! sim! exclamou, não com os labios, que podia ser ouvido, mas com

os olhos em que poz toda a vida que lhe restava.

--Vê aquella janella? Está aberta; embaixo fica um jardim. Atire-se

d'alli sem medo.

--Oh! padre! disse baixinho o bacharel.

--Não sou padre, sou tenente do exercito. Não diga nada.

A janella estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma nesga do céu,

já meio claro. Duarte não hesitou, colligiu todas as forças, deu um

pulo do logar onde estava e atirou-se a Deus misericordia por alli

abaixo. Não era grande altura, a quéda foi pequena; ergueu-se o moço

rapidamente, mas o homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo.

--Que é isso? perguntou elle rindo.

Duarte não respondeu, fechou os punhos, bateu com elles violentamente

nos peitos do homem e deitou a correr pela jardim fóra. O homem não

caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impressão,

seguiu no encalço do fugitivo. Começou então uma carreira vertiginosa.

Duarte ia saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando

arvores, que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o

suor em bica, alteava-se-lhe o peito, as forças iam a perder-se pouco

a pouco; tinha uma das mãos ferida, a camisa salpicada do orvalho

das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser apanhado, o chambre

pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Emfim, cançado, ferido,

offegante, caiu nos degraos de pedra de uma casa, que havia no meio

do ultimo jardim que atravessára. Olhou para traz; não viu ninguem; o

perseguidor não o acompanhara até alli. Podia vir, entretanto; Duarte

ergueu-se a custo, subiu os quatro degráos que lhe faltavam, e entrou

na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa.

Um homem que alli estava, lendo um numero do _Jornal do Commercio_,

pareceu não o ter visto entrar. Duarte cahiu n'uma cadeira. Fitou

os olhos no homem. Era o major Lopo Alves. O major, empunhando a

folha, cujas dimensões iam-se tornando extremamente exiguas, exclamou

repentinamente:

--Anjo do ceu, estás vingado! Fim do ultimo quadro.

Duarte olhou para elle, para a mesa, para as paredes, esfregou os

olhos, respirou á larga.

--Então! Que tal lhe pareceu?

--Ah! excellente! respondeu o bacharel, levantando-se.

--Paixões fortes, não?

--Fortissimas. Que horas são?

--Deram duas agora mesmo.

Duarte acompanhou o major até a porta, respirou que muitas vezes,

apalpou-se, foi até á janella. Ignora-se o que pensou durante os

primeiros minutos; mas, ao cabo de um quarto de hora, eis o que elle

dizia consigo:--Nympha, doce amiga, fantasia inquieta e fertil, tu me

salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituiste-me o

tedio por um pesadelo: foi um bom negocio. Um bom negocio e uma grave

licção: provaste-me que muitas vezes o melhor drama está no espectador

e não no palco.

[1]Este conto foi publicado, pela primeira vez, na _Epocha_, n. 1,

de 14 de Novembro de 1875. Trazia o pseudonymo de _Manassés_, com

que assignei outros artigos daquella folha ephemera. O redactor

principal era um espirito eminente, que a politica veiu tomar ás

lettras: Joaquim Nabuco. Posso dizel-o sem indiscrição. Eramos poucos

e amigos. O programma era não ter programma, como declarou o artigo

inicial, ficando a cada redactor plena liberdade de opinião, pela qual

respondia exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de um

collaborador) era elegante, litterario, attico. A folha durou quatro

numeros.

FIM DA CHINELA TURCA

NA ARCA

TRES CAPITULOS INEDITOS DO GENESIS

CAPITULO A

1.--Então Noé disse a seus filhos Japhet, Sem e Cham:--«Vamos sair da

arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os

animaes. A arca tem de parar no cabeço de uma montanha; desceremos a

ella.

2.--«Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi

dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os

homens. Faze uma arca de madeira; entra nella tu, tua mulher e teus

filhos.

3.--«E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animaes.

4.--«Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens

pereceram, e fecharam-se as cataractas do céu; tornaremos a descer á

terra, e a viver no seio da paz e da concordia.»

5.--Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir

as palavras de seu pae; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das

camaras da arca.

6.--Então Japhet levantou a voz e disse:--«Aprazivel vida vai ser a

nossa. A figueira nos dará o fructo, a ovelha a lan, a vacca o leite, o

sol a cladade e a noite a tenda.

7.--«Porquanto seremos unicos na terra, e toda a terra será nossa, e

ninguem perturbará a paz de uma familia, poupada do castigo que feriu a

todos os homens.

8.--«Para todo o sempre.» Então Sem, ouvindo falar o irmão,

disse:--«Tenho uma ideia.» Ao que Japhet e Cham responderam:--«Vejamos

a tua ideia, Sem.»

9.--E Sem falou a voz de seu coração, dizendo:--«Meu pae tem a sua

familia; cada um de nós tem a sua familia; a terra é de sobra; podiamos

viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer

melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho.»

10.--E respondeu Japhet:--«Acho bem lembrada a idea de Sem; podemos

viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha;

meu pae e Chain descerão para o lado do nascente: eu e Sem para o lado

do poente. Sem occupará duzentos covados de terra, eu outros duzentos.»

11.--Mas dizendo Sem:--«Acho pouco duzentos covados»--, retorquiu

Japhet: «Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a

tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a

propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;

Papeis Avulsos · 第 5 / 13 段