era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais solida; e o
effeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade
predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte,
applicando á therapeutica o methodo da estrategia militar, que toma uma
fortaleza por um ponto, se por outro o não póde conseguir.
No fim de cinco mezes e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados!
O vereador Galvão tão cruelmente affligido de moderação e equidade,
teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio
deixou um testamento ambiguo, e elle obteve uma boa interpretação,
corrompendo os juizes, e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade
do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que
não teve parte na cura: foi a simples _vis medicatrix_ da natureza.
Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. Sabendo o alienista que elle
ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma
analyse critica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incumbencia,
e em boa hora o fez; ao cabo de dous mezes possuia um livro e a
liberdade. Quanto á senhora do boticario, não ficou muito tempo na
cellula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos.
--Porque é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ella todos os dias.
Respondiam-lhe** ora uma cousa, ora outra; afinal disseram-lhe a
verdade inteira. A digna matrona, não pôde conter a indignação e a
vergonha. Nas explosões da colera escaparam-lhe** expressões soltas e
vagas, como estas:
--Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas á
custa de unguentos falsificados e pôdres... Ah! tratante!...
Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a
accusação contida nestas palavras, bastavam ellas para mostrar que a
excellente senhora estava emfim restituida ao perfeito desequilibrio
das faculdades; e promptamente lhe deu alta.
Agora, se imaginaes que o alienista ficou radiante ao ver sair o ultimo
hospede da Casa Verde, mostraes com isso que ainda não conheceis o
nosso homem. _Plus ultra!_ era a sua divisa. Não lhe bastava ter
descoberto a theoria verdadeira da loucura; não o contentava ter
estabelecido em Itaguahy o reinado da razão. _Plus ultra!_ Não ficou
alegre, ficou preoccupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a
theoria nova tinha, em si mesma, outra e novissima theoria.
--Vejamos, pensava elle; vejamos se chego enfim á ultima verdade.
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais
rica bibliotheca dos dominios ultramarinos de Sua Magestade. Um amplo
chambre de damasco, preso á cintura por um cordão de seda, com borlas
de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo magestoso e
austero do illustre alienista. A cabelleira cobria-lhe uma extensa e
nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da sciencia. Os pés,
não delgados e femininos, não graudos e mariolas, mas proporcionados
ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não
passavam de simples e modesto latão. Vede a differença:--só se lhe
notava luxo naquillo que era de origem scientifica; o que propriamente
vinha delle trazia a côr da moderação e da singelleza, virtudes tão
ajustadas á pessôa de um sabio.
Era assim que elle ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta
bibliotheca, mettido em si mesmo, estranho a todas as cousas que não
fosse o tenebroso problema da pathologia cerebral. Subito, parou. Em
pé, deante de uma janella, com o cotovello esquerdo apoiado na mão
direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou elle a
si:
--Mas deveras estariam elles doudos, e foram curados por mim,--ou
o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito
desequilibrio do cerebro?
E cavando por ahi abaixo, eis o resultado a que chegou: os cerebros
bem organisados que elle acabava de curar, eram tão desequilibrados
como os outros. Sim, dizia elle comsigo, eu não posso ter a pretenção
de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova;uma e outra
cousa existiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o illustre alienista teve duas sensações
contrarias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por
vêr que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes
trabalhos, lucta ingente com o povo, podia affirmar esta verdade:--não
havia loucos em Itaguahy; Itaguahy não possuia um só mentecapto.
Mas tão depressa esta idéa lhe refrescara a alma, outra appareceu
que neutralisou o primeiro effeito; foi a idéa da duvida. Pois que!
Itaguahy não possuiria um unico cerebro concertado? Esta conclusão tão
absoluta, não seria por isso mesmo erronea, e não vinha, portanto,
destruir o largo e magestoso edificio da nova doutrina psychologica?
A afflicção do egregio Simão Bacamarte é definida pelos chronistas
itaguahyenses como uma das mais medonhas tempestades moraes que tem
desabado sobre o homem. Mas as tempestades só atterram os fracos; os
fortes enrijam-se contra ellas e fitam o trovão. Vinte minutos depois
allumiou-se a physionomia do alienista de uma suave claridade.
--Sim, ha de ser isso, pensou elle.
Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os caracteristicos do perfeito
equilibrio mental e moral; pareceu-lhe que possuia a sagacidade, a
paciencia, a perseverança, a tolerancia, a veracidade, o vigor moral,
a lealdade, todas as qualidades emfim que pódem formar um acabado
mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era
illusão; mas sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de
amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi affirmativa.
--Nenhum defeito?
--Nenhum, disse em côro a assembléa.
--Nenhum vicio?
--Nada.
--Tudo perfeito?
--Tudo.
--Não, impossivel, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa
superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificencia. A
sympathia é que vos faz fallar. Estudo-me e nada acho que justifique os
excessos da vossa bondade.
A assembléa insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes
explicou tudo com este conceito digno de um observador.
--Sabe a razão porque não vê as suas elevadas qualidades, que aliás
todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as
outras:--a modestia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e
triste, e ainda mais alegre do que triste. Acto continuo, recolheu-se á
Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que
estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem suggestões nem
lagrimas o detiveram um só instante. A questão é scientifica, dizia
elle; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu.
Reuno em mim mesmo a theoria e a pratica.
--Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em
lagrimas.
Mas o illustre medico, com os olhos accesos da convicção scientifica,
trancou os ouvidos á saudade da mulher, e brandamente a repelliu.
Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e á cura de si
mesmo. Dizem os chronistas que elle morreu dalli a dezesete mezes,
no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns
chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além delle,
em ltaguahy; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde
que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato
duvidoso, pois é attribuido ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara
as qualidades do grande homem. Seja como fôr, effectuou-se o enterro
com muita pompa e rara solemnidade.
THEORIA DO MEDALHÃO
DIALOGO
--Estás com somno?
--Não, senhor.
--Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janella. Que horas são?
--Onze.
--Sahiu o ultimo conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta,
chegaste aos teus vinte e um annos. Ha vinte e um annos, no dia 5 de
agosto de 1854, vinhas tu á luz, um pirralho de nada, e estás homem,
longos bigodes, alguns namoros...
--Papai...
--Não te ponhas com denguices, e fallemos como dous amigos sérios.
Fecha aquella porta; vou dizer-te cousas importantes. Senta-te e
conversemos. Vinte e um annos, algumas apolices, urn diploma, pódes
entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na
industria, no commercio, nas lettras ou nas artes. Ha infinitas
carreiras diante de ti, Vinte e um annos, meu rapaz, formam apenas a
primeira syllaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apezar
de precoces, não foram tudo aos vinte e um annos. Mas, qualquer que
seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e
illustre, ou pelo menos notavel, que te levantes acima da obscuridade
commum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os premios são poucos,
os mallogrados innumeros, e com os suspiros de uma geração é que
se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não ha planger,
nem imprecar, mas aceitar as cousas integralmente, com seus onus e
precalços, glorias e desdouros, e ir por diante.
--Sim, senhor.
--Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para
a velhice, assim tambem é de boa pratica social acautellar um
officio para a hypothese de que os outros falhem, on não indemnisem
sufificientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho
hoje, dia da tua maioridade.
--Creia que lhe agradeço; mas que officio, não me dirá?
--Nenhum me parece mais util e cabido que o de medalhão. Ser medalhão
foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém as instrucções de
um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, alem
das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho,
ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exhuberancia,
os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que
aos quarenta e cinco annos possas entrar francamente no regimen do
aprumo e do compasso. O sabio que disse: «a gravidade é um mysterio do
corpo», definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade
com aquella outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou
emanação do espirito; essa é do corpo, tão sómente do corpo, um signal
da natureza ou uin geito da vida. Quanto á edade de quarenta e cinco
annos...
--É verdade, porque quarenta e cinco annos?
--Não é, como podes suppôr, ura limite arbitrario, filho do puro
capricho; é a data normal do phenomeno. Geralmente, o verdadeiro
medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta o cinco e cincoenta
annos, comquanto alguns exemplos se dêm eutre os cincoenta e cinco e
os sessenta; mas estes são raros. Ha-os tambem de quarenta annos, e
outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia,
vulgares. Não fallo dos de vinte e cinco annos: esse madrugar é
privilegio do genio.
--Entendo.
--Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo
o cuidado nas idéas que houveres de nutrir para uso alheio e proprio.
O melhor será não as ter absolutamente; cousa que entenderás bem,
imaginando, por exemplo, um actor defraudado do uso de um braço. Elle
pode, por um milagre de artificio, dissimular o defeito aos olhos da
platéa; mas era muito melhor dispor dos dous. O mesmo se dá com as
idéas; póde-se, com violencia, abafal-as, escondel-as até á morte; mas
nem essa habilidade é commum, nem tão constante esforço conviria ao
exercicio da vida.
--Mas quem lhe diz que eu....
--Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inopia
mental, conveniente ao uso deste nobre officio. Não me refiro tanto á
fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas n'uma esquina,
e vice-versa, porque esse facto, posto indique certa carencia de idéas,
ainda assim póde não passar de uma traição da memoria. Não; refiro-me
ao gesto correcto e perfilado com que usas expender francamente as tuas
sympathias ou antipathias ácerca do córte de um collete, das dimensões
de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis ahi um symptoma
eloquente, eis ahi uma esperança. No entanto, podendo acontecer
que, com a edade, venhas a ser affligido de algumas idéas proprias,
urge apparelhar fortemente o espirito. As idéas são de sua natureza
expontaneas e subitas; por mais que as sofremos, ellas irrompem e
precipitam-se. Dahi a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente
delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
--Creio que assim seja; mas um tal obstaculo é invencivel.
--Não é; ha um meio; é lançar mão de um regimen debilitante, ler
compendios de rhetorica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete,
o dominó e o whist são remedios approvados. O whist tem até a rara
vantagem de acostumar ao silencio, que é a fórma mais accentuada
da circumpecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da
gymnastica, embora ellas façam repousar o cerebro; mas por isso mesmo
que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a actividade perdidas.
O bilhar é excellente.
--Como assim, se tambem é um exercicio corporal?
--Não digo que não, mas ha cousas em que a observação desmente a
theoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as
estatisticas mais escrupulosas mostram que tres quartas partes dos
habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas
ruas, mormente nas de recreio e parada é utilissimo, com a condição de
não andares desacompanhado, porque a solidão é officina de idéas, e o
espirito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, póde adquirir
uma tal ou qual actividade.
--Mas se eu não tiver á mão um amigo apto e disposto a ir commigo?
--Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatorios,
em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa
da atmosphera do logar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não
são propicias ao nosso fim; e, não obstante, ha grande conveniencia
em entrar por ellas, de quando em quando, não digo ás occultas, mas
ás escancaras. Pódes resolver a difficuldade de um modo simples: vai
alli fallar do boato do dia, da anecdota da semana, de um contrabando,
de uma calumnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras
interrogar directamente os leitores habituaes das bellas chronicas
de Mazade: 75 por cento desses estimaveis cavalheiros repetir-te-hão
as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudavel. Com
este regimen, durante oito, dez, dezoito mezes--supponhamos dous
annos,--reduzes o intellecto, por mais prodigo que seja, á sobriedade,
á disciplina, ao equilibrio commum. Não trato do vocabulario, porque
elle está sub-entendido no uso das idéas; ha de ser naturalmente
simples, tibio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...
--Isto é o diabo! Não poder adornar o estylo, de quando em quando....
--Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hydra
de Lerna, por exemplo, a cabeça de Meduza, o tonel das Danaides,
as azas de Icaro, e outras, que romanticos, classicos e realistas
empregam sem desar, quando precisam d'ellas. Sentenças latinas, ditos
historicos, versos celebres, brocardos juridicos, maximas, é de bom
aviso trazel-os comtigo para os discursos de sobremesa, do felicitação,
ou de agradecimento. _Caveant, consules_ é um excellente fecho de
artigo politico; o mesmo direi do _Si vis pacem para bellum._ Alguns
costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a n'uma phrase
nova, original e bella, mas não te aconselho esse artificio: seria
desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porem, que
afinal não passa de mero adorno, são as phrases feitas, as locuções
convencionaes, as formulas consagradas pelos annos, incrustadas na
memoria individual e publica. Essas formulas têm a vantagem de não
obrigar os outros a um esforço inutil. Não as relaciono agora, mas
fal-o-hei por escripto. De resto, o mesmo officio te irá ensinando os
elementos d'essa arte difficil de pensar o pensado. Quanto á utilidade
de um tal systema, basta figurar uma hypothese. Faz-se uma lei,
executa-se, não produz effeito, subsiste o mal. Eis ahi uma questão
que póde aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inqurrito
pedantesco, a uma collecta fastidiosa de documentos e observações,
analyse das causas provaveis, causas certas, causas possiveis, um
estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal,
da manipulação do remedio, das circumstancias da applicação; materia,
enfim, para todo nm andaime de palavras, conceitos, e desvarios.
Tu poupas aos teus semelhantes todo esse immenso aranzel, tu dizes
simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes!--E esta phrase
synthetica, transparente, limpida, tirada ao peculio commum, resolve
mais depressa o problema, entra pelos espiritos como um jorro subito de
sol.
--Vejo por ahi que vosmecê condemna toda e qualquer applicação de
processos modernos.
--Entendamo-nos. Condemno a applicação, louvo a denominação. O mesmo
direi de toda a recente terminologia scientifica; deves decoral-a.
Com quanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa attitude de
deus Termino, e as sciencias sejam obra do movimento humano, como
tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo.
E de duas uma:--ou ellas estarão usadas e divulgadas d'aqui a trinta
annos, ou conservar-se-hão novas: no primeiro caso, pertencem-te de
fôro proprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para
mostrar que tambem és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a
que leis, casos e phenomenos responde toda essa terminologia; porque o
methodo de interrogar os proprios mestres e officiaes da sciencia, nos
seus livros, estudos e memorias, além de tedioso e cançativo, traz o
perigo de inocular ideas novas, e é radicalmente falso. Accresce que
no dia em que viesses a assenhoriar-te do espirito d'aquellas leis e
formulas, serias provavelmente levado a empregal-as com um tal ou qual
comedimento, como a costureira--esperta e afreguezada,--que, segundo um
poeta, classico,
Quanto mais panno tem, mais poupa o córte,
Menos monte alardea de retalhos;
e este phenomeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria
scientifico.
--Upa, que a profissão é difficil.
--E ainda não chegamos ao cabo.
--Vamos a elle.
--Não te fallei ainda dos beneficios da publicidade. A publicidade
é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar á força, de
pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, cousas miudas, que antes
exprimem a constancia do affecto do que o atrevimento e a ambição.
Que D. Quixote solicite os favores della mediante acções heroicas ou
custosas, é um sestro proprio d'esse illustre lunatico. O verdadeiro
medalhão tem outra politica. Longe de inventar um _Tratado scientifico
da creação dos carneiros_, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a
fórma de um jantar, cuja noticia não pode ser indifferente aos seus
concidadãos. Uma noticia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu
nome ante os olhos do mundo. Commissões ou deputações para felicitar um
agraciado, um benemerito, um forasteiro, tem singulares merecimentos,
e assim as irmandades e associações diversas, sejam mythologicas,
cynegeticas ou coreographicas. Os successos de certa ordem, embora de
pouca monta, podem ser trazidas a lume, comtanto que ponham em relevo
a tua pessoa. Explico-me. Se caires de um carro, sem outro damno, além
do susto, é util mandal-o dizer aos quatro ventos, não pelo facto em
si, que é insignificante, mas pelo effeito de recordar um nome caro ás
affeições geraes. Percebeste?
--Percebi.
--Essa é publicidade constante, barata, facil, de todos os dias; mas ha
outra. Qualquer que seja a theoria das artes, é fora de duvida que o
sentimento da familia, a amisade pessoal e a estima publica instigam á
reproducção das feições de um homem amado ou benemerito. Nada obsta a
que sejas objecto de uma tal distincção, principalmente se a sagacidade
dos amigos não achar em ti repugnancia. Em semelhante caso, não só as
regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como
seria desasado impedir que os amigos o expuzessem em qualquer casa
publica. Dessa maneira o nome fica ligado á pessoa; os que houverem
lido o teu recente discurso (supponhamos) na sessão inaugural da União
dos Cabellereiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa
obra grave, em que a «alavanca do progresso» e o «suor do trabalho»,
vencem as «fauces hiantes» da miseria. No caso de que uma commissão te
leve á casa o retrato, deves agradecer-lhe o obsequio com um discurso
cheio de gratidão e um copo d'agua: é uso antigo, razoavel e honesto.
Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se fôr possível,
uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de
gloria ou regosijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar
á mesa aos _reporters_ dos jornaes. Em todo o caso, se as obrigações
desses cidadãos os retiverem n'outra parte, podes ajudal-os de certa
maneira, redigindo tu mesmo a noticia da festa; e, dado que por um tal
ou qual escrupulo, aliás desculpavel, não queiras com a propria mão
annexar ao teu nome os qualificativos dignos delle, incumbe a noticia a
algum amigo ou parente.
--Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada facil.
--Nem eu te digo outra cousa. É difficil, como tempo, muito tempo, leva
annos, paciencia, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra
promettida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que
triumpham! E tu triumpharás, crê-me. Verás cahir as muralhas de Jerichó
ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado.
Começa nesse dia a tua phase de ornamento indispensavel, de figura
obrigada, de rotulo. Acabou-se a necessidade de farejar occasiões,
commissões, irmandades; ellas virão ter contigo, com o seu ar pesadão
e crú de substantivos desadjectivados, e tu serás o adjectivo dessas
orações opacas, o _odorifero_ das flores, o _anilado_ dos _céus_, o
_prestimoso_ dos cidadãos, o _noticioso_ e _succulento_ dos relatorios.
E ser isso é o principal, porque o adjectivo é a alma do idioma, a sua
porção idealista e metaphysica. O substantivo é a realidade nua e crua,
é o naturalismo do vocabulario.
--E parece-lhe que todo esse officio é apenas um sobresalente para os
_deficits_ da vida?
--De certo; não fica excluida nenhuma outra actividade.
--Nem politica?
--Nem politica. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações
capitaes. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador,
republicano ou ultramontano, com a clausula unica de não ligar nenhuma
idéa especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe sómente a utilidade
do _scibboleth_ biblico.
--Se for ao parlamento, posso occupar a tribuna?
--Podes e deves; é um modo de convocar a attenção publica. Quanto á
materia dos discursos, tens á escolha:--ou os negocios miudos, ou a
metaphysica politica, mas prefere a metaphysica. Os negocios miudos,
força é confessal-o, não desdizem d'aquella chateza de bom tom, propria
de um medalhão acabado; mas, se poderes, adopta a metaphysica;--é mais
facil e mais attrahente. Suppõe que desejas saber porque motivo a 7a
companhia de infantaria foi transferida de Uruguayana para Cangussú;
serás ouvido tão sómente pelo ministro da guerra, que te explicará
em dez minutos as razões d'esse acto. Não assim a metaphysica. Um
discurso de metaphysica politica apaixona naturalmente os partidos
e o publico, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a
pensar e descobrir. N'esse ramo dos conhecimentos humanos tudo está
achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforges da
memoria. Em todo caso, não transcedas nunca os limites de uma invejavel
vulgaridade.
--Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
--Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é infimo.
--Nenhuma philosophia?
--Entendamo-nos: no papel e na lingua alguma, na realidade nada.
«Philosophia da historia,» por exemplo, é uma locução que deves
empregar com frequencia, mas prohibo-te que chegues a outras conclusões
que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a
reflexão, originalidade, etc., etc.
--Também ao riso?
--Como ao riso?
--Ficar serio, muito serio...
--Conforme. Tens um um genio folgasão, prasenteiro, não has de
sofreal-o nem eliminal-o; pódes brincar e rir alguma vez. Medalhão não
quer dizer melancolico. Um grave póde ter seus momentos de expansão
alegre. Sómente,--e este ponto é melindroso...