--Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista, depois de

acompanhar o barbeiro ate á porta. Eis ahi dous lindos casos de doença

cerebral. Os symptomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são

positivos. Quanto á toleima dos que o acclamaram não é preciso outra

prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.--Dous lindos casos!

--Viva o illustre Porfirio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam

o barbeiro á porta.

O alienista espiou pela janella, e ainda ouviu este resto de uma

pequena falla do barbeiro ás trinta pessoas que o acclamavam.

--... porque eu vélo, podeis estar certos disso, eu vélo pela execução

das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor

maneira. Só vos recommendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do

governo...

--Viva o illustre Porfirio! bradaram as trinta vozes, agitando os

chapéos.

--Dous lindos casos! murmurou o alienista.

X

A RESTAURAÇÃO

Dentro de cinco dias, o alienista metteu na Casa Verde cerca de

cincoenta acclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo,

atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia

abertamente nas ruas, que o Porfirio estava «vendido ao ouro de Simão

Bacamarte,» phrase que congregou em torno de João Pina a gente mais

resoluta da villa. Porfirio, vendo o antigo rival da navalha á testa

da insurreição, comprehendeu que a sua perda era irremediavel, se

não désse um grande golpe; expediu dous decretos, um abolindo a Casa

Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com

grandes phrases, que o acto de Porfirio era um simples apparato, um

engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois cahia Porfirio

ignominiosamente, e João Pina assumia a difficil tarefa do governo.

Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao

vice-rei e de outros actos inauguraes do governo anterior, deu-se

pressa em os fazer copiar e expedir; accrescentam os chronistas, e

aliás sub entende-se, que elle lhes mudou os nomes, e onde o outro

barbeiro fallára de uma camara corrupta, fallou este de «um intruso

eivado das más doutrinas francesas, e contrario aos sacrosantos

interesses de Sua Magestade, etc.»

Nisto entrou na villa uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu

a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfirio,

e bem assim a de uns cincoenta e tantos individuos, que declarou

mentecaptos; e não só lhe deram esses, como afiançaram entregar-lhe

mais desenove sequazes do barbeiro, que convaleciam das feridas

apanhadas na primeira rebellião.

Este ponto da crise de Itaguahy marca tambem o grau maximo da

influencia de Simão Bacamarte. Tudo quanto quiz, deu-se-lhe; e uma das

mais vivas provas do poder do illustre medico achamol-a na promptidão

com que os vereadores, restituidos a seus logares, consentiram

em que Sebastião Freitas tambem fosse recolhido ao hospicio. O

alienista, sabendo da extraordinaria inconsistencia das opiniões desse

vereador, entendeu que era um caso pathologico, e pediu-o. A mesma

cousa aconteceu ao boticario. O alienista, desde que lhe fallaram

da momentanea adhesão de Crispim Soares á rebellião dos Cangicas,

comparou-a á approvação que sempre recebera delle, ainda na vespera,

e mandou captural-o. Crispim Soares não negou o facto, mas explicou-o

dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebellião

triumphante, e deu como prova a ausencia de nenhum outro acto seu,

accrescentando que voltára logo á cama, doente. Simão Bacamarte não

o contrariou; disse, porém, aos circumstantes que o terror tambem é

pae da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais

caracterisados.

Mas a prova mais evidente da influencia de Simão Bacamarte foi a

docilidade com que a camara lhe entregou o proprio presidente.

Este digno magistrado tinha declarado em plena sessão, que não se

contentava, para laval-o da affronta dos Cangicas, com menos de trinta

almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por

boca do secretario da camara, enthusiasmado de tamanha energia. Simão

Bacamarte começou por metter o secretario na Casa Verde, e foi d'alli á

camara, á qual declarou que o presidente estava padecendo da «demencia

dos touros», um genero que elle pretendia estudar, com grande vantagem

para os povos. A camara a principio hesitou, mas acabou cedendo.

Dahi em diante foi uma collecta desenfreada. Um homem não podia dar

nascença ou curso á mais simples mentira do mundo, ainda daquellas que

aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo mettido na

Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de

charadas, de anagrammas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia,

os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé

enfunado, ninguem escapava aos emissarios do alienista. Elle respeitava

as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras

cediam a um impulso natural, e as segundas a um vicio. Se um homem era

avaro ou prodigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; dahi a allegação

de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns

chronistas crêem que Simão Bacamarte, nem sempre procedia com lisura, e

citam em abono da affirmação (que não sei se póde ser aceita) o facto

de ter alcançado da camara uma postura autorisando o uso de um anel

de prata no dedo pollegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem

outra prova documental ou tradiccional, declarasse ter nas veias duas

ou tres onças de sangue godo. Dizem esses chronistas que o fim secreto

da insinuação á camara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre

delle; mas, comquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negocio

depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu

á Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se póde definir,

sem temeridade, o verdadeiro fim do illustre medico. Quanto á razão

determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos

usaram do annel, é um dos pontos mais obscuros da historia de Itaguahy;

a opinião mais verosimil é que elles foram recolhidos por andarem a

gesticular, á tôa, nas ruas, em casa, na egreja. Ninguem ignora que

os doudos gesticulam muito. Em todo caso é uma simples conjectura; de

positivo nada ha.

--Onde é que este homem vae parar? diziam os principaes da terra. Ah!

se nós tivessemos apoiado os Cangicas...

Um dia de manhã,--dia em que a camara devia dar um grande baile,--a

villa inteira ficou abalada com a noticia de que a propria esposa do

alienista fôra mettida na Casa Verde. Ninguem acreditou; devia ser

invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista

fôra recolhida ás duas horas da noite. O padre Lopes correu ao

alienista e interrogou-o discretamente ácerca do facto.

--Já ha algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido.

A modestia com que ella vivera em ambos os matrimonios não podia

conciliar-se com o furor das sedas, velludos, rendas e pedras preciosas

que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei

a observal-a. Suas conversas eram todas sobre esses objectos; se eu

lhe fallava das antigas côrtes, inquiria logo da fórma dos vestidos

das damas; se uma senhora a visitava, na minha ausencia, antes de

me dizer o objecto da visita, descrevia-me o trajo, approvando umas

cousas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendissima hade

lembrar-se, propôz-se a fazer annualmente um vestido para a imagem de

Nossa Senhora da matriz. Tudo isto eram symptomas graves; esta noite,

porém, declarou-se a total demencia. Tinha escolhido, preparado,

enfeitado o vestuario que levaria ao baile da camara municipal; só

hesitava entre um collar de granada e outro de saphyra. Ante-hontem

perguntou-me qual delles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe

ficava bem. Hontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de

jantar fui achal-a calada e pensativa.--Que tem? perguntei-lhe.--Queria

levar o collar de granada, mas acho o de saphyra tão bonito!--Pois

leve o de saphyra.--Ah! mas onde fica o de granada?--Emfim, passou a

tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e

meia, accordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a

diante dos dous collares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro.

Era evidente a demencia; recolhi-a logo.

O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objectou nada. O

alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era

de «mania sumptuaria,» não incuravel, e em todo caso digno de estudo.

--Conto pôl-a boa dentro de seis semanas, concluiu elle.

A abnegação do illustre medico deu-lhe grande realce. Conjecturas,

invenções, desconfianças, tudo cahiu por terra, desde que elle não

duvidou recolher á Casa Verde a propria mulher, a quem amava com todas

as forças da alma. Ninguem mais tinha o direito de resistir-lhe,--menos

ainda o de attribuir-lhe intuitos alheios á sciencia. Era um grande

homem austero, Hippocrates forrado de Catão.

XI

O ASSOMBRO DE ITAGUAHY

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a villa,

ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser póstos na rua.

--Todos?

--Todos.

--É impossivel; alguns, sim, mas todos...

--Todos. Assim o disse elle no officio que mandou hoje de manhã á

camara.

De facto, o alienista officiára á camara expondo:--1°, que verificára

das estatisticas da villa e da Casa Verde, que quatro quintos da

população estavam aposentados naquelle estabelecimento; 2°, que esta

deslocação de população levára-o a examinar os fundamentos da sua

theoria das molestias cerebraes, theoria que excluia do dominio da

razão todos os casos em que o equilibrio das faculdades, não fosse

perfeito e absoluto; 3°, que desse exame e do facto estatistico

resultára para elle a convicção de que a verdadeira doutrina não era

aquella, mas a opposta, e portanto que se devia admittir como normal e

exemplar o desequilibrio das faculdades, e como hypotheses pathologicas

todos os casos em que aquelle equilibrio fosse ininterrupto; 4°, que á

vista disso, declarava á camara que ia dar liberdade aos reclusos da

Casa Verde e agazalhar nella as pessoas que se achassem nas condições

agora expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade scientifica,

não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da camara

egual dedicação; 6°, que restituia á camara e aos particulares a somma

do estipendio recebido para alojamento dos suppostos loucos, descontada

a parte effectivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a

camara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.

O assombro de Itaguahy for grande; não foi menor a alegria dos parentes

e amigos dos reclusos. Jantares, dansas, luminarias, musicas, tudo

houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas

por não interessarem ao nosso proposito; mas foram esplendidas,

tocantes e prolongadas.

E vão assim as cousas humanas! No meio do regosijo produzido pelo

officio de Simão Bacamarte, ninguem advertia na phrase final do § 4°,

uma phrase cheia de experiencias futuras.

XII

O FINAL DO** § 4°

Apagaram-se as luminarias, reconstituiram-se as familias, tudo parecia

reposto uos antigos eixos. Reinava a ordem, a camara exercia outra

vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o proprio presidente e

o vereador Freitas tornaram aos seus logares. O barbeiro Porfirio,

ensinado pelos acontecimentos, tendo «provado tudo,» como o poeta disse

de Napoleão, e mais alguma cousa, porque Napoleão não provou a Casa

Verde, o barbeiro achou preferivel a gloria obscura da navalha e da

tesoura ás calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado;

mas a população da villa implorou a clemencia de Sua Magestade; dahi

o perdão. João Pina foi absolvido, attendendo-se a que elle derrocára

um rebelde. Os chronistas pensam que deste facto é que nasceu o nosso

adagio:--ladrão que furta a ladrão, tem cem annos de perdão;--adagio

immoral, é verdade, mas grandemente util.

Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum

resentimento ficou dos actos que elle praticára; accrescendo que

os reclusos da Casa Verde, desde que elle os declarara plenamente

ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido

enthusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial

manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e

jantares. Dizem as chronicas que D. Evarista a principio tivera ideia

de separar-se do consorte, mas a dôr de perder a companhia de tão

grande homem venceu qualquer resentimento de amor-proprio, e o casal

veiu a ser ainda mais feliz do que antes.

Não menos intima ficou a amizade do alienista e do boticario. Este

concluiu do officio de Simão Bacamarte que a prudencia e a primeira

das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a magnanimidade

do alienista que, ao dar-lhe a liberdade, ostendeu-lhe a mão de amigo

velho.

--É um grande homem, disse elle á mulher, referindo aquella

circumstancia.

Não é preciso fallar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim

Brito e outros, especialmente nomeados neste escripto; basta dizer

que puderam exercer livremente os seus habitos anteriores. O proprio

Martim Brito, recluso por um discurso em que louvára emphaticamente D.

Evarista, fez agora outro em honra do insigne medico--«cujo altissimo

genio, elevando as azas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos

os demais espiritos da terra.»

--Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me não

arrependo de o haver restituido á liberdade.

Entretanto, a camara, que respondera ao officio de Simão Bacamarte, com

a resalva de que opportunamente estatuiria em relação ao final do §

4°, tratou emfim de legislar sobre elle. Foi adoptada, sem debate, uma

postura autorisando o alienista a agazalhar na Casa Verde as pessoas

qne se achassem no gozo do perfeito equilibrio das faculdades mentaes.

E porque a experiencia da camara tivesse sido dolorosa, estabeleceu

ella a clausula, de que a autorisação era provisoria, limitada a um

anno, para o fim de ser experimentada a nova theoria psychologica,

podendo a camara, antes mesmo daquelle prazo, mandar fechar a Casa

Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem publica. O

vereador Freitas propôz tambem a declaração de que em nenhum caso

fossem os vereadores recolhidos ao asylo dos alienados: clausula que

foi aceita, votada o incluida na postura, apezar das reclamações do

vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a camara,

legislando sobre uma experiencia scientifica, não podia excluir as

pessoas dos seus membros das consequencias da lei; a excepção era

odiosa e ridicula. Mal proferira estas duras palavras, romperam os

vereadores em altos brados contra a audacia e insensatez do collega;

este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a excepção.

--A vereança, concluiu elle, não nos dá nenhum poder especial nem nos

elimina do espirito humano.

Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restricções. Quanto

á exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento

se fosse compellido a recolhel-os á Casa Verde; a clausula, porém,

era a melhor prova de que elles não padeciam do perfeito equilibrio

das faculdades mentaes. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão,

cujo acerto na objecção feita, e cuja moderação na resposta dada

ás invectivas dos collegas mostravam da parte delle um cerebro bem

organisado; pelo que, rogava á camara que lh'o entregasse. A camara,

sentindo-se ainda aggravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou o

pedido do alienista, e votou unanimamente a entrega.

Comprehende-se que, pela theoria nova, não bastava um facto ou um dito,

para recolher alguem á Casa Verde; era preciso um longo exame, um vasto

inquerito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi

capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticario quarenta

dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação.

Crispim Soares sahiu de casa espumando de colera, e declarando ás

pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tyranno.

Um sujeito, adversario do alienista, ouvindo na rua essa noticia,

esqueceu os motivos de dissidencia, e correu á casa de Simão Bacamarte

a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato

ao procedimento do adversario, e poucos minutos lhe bastaram para

conhecer a rectidão dos seus sentimentos, a boa fé, o respeito humano,

a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o á Casa Verde.

--Um caso destes é raro, disse elle á mulher pasmada. Agora esperemos o

nosso Crispim.

Crispim Soares entrou. A dôr vencera a raiva, o boticario não arrancou

as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe

que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão

cerebral; ia examinal-a com muita attenção; mas antes disso não podia

deixal-a na rua. E parecendo-lhe vantajoso reunil-os, porque a astucia

e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a belleza moral que

elle descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:

--O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará,

com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.

A proposta collocou o pobre boticario na situação do asno de Buridan.

Queria viver com a mulher, mas temia voltar á Casa Verde; e nessa

luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da difficuldade,

promettendo que se incumbiria de vêr a amiga e transmittir os recados

de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este

ultimo rasgo do egoismo pusillanime pareceu sublime ao alienista.

Ao cabo de cinco mezes estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas

Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa,

espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo,

levava-o com a mesma alegria com que ontrora os arrebanhava ás duzias.

Essa mesma desproporção confirmava a theoria nova; achára-se enfim a

verdadeira pathologia cerebral. Um dia, conseguiu metter na Casa Verde

o juiz de fóra; mas procedia com tanto escrupulo, que o não fez senão

depois de estudar minuciosamente todos os seus actos, e interrogar os

principaes da villa. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas

perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em

quem reconheceu um tal conjuncto de qualidades moraes e mentaes,

que era perigoso deixal-o na rua. Mandou prendel-o; mas o agente,

desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiencia; foi ter com um

compadre, demandado por um testamento falso, e deu-lhe de conselho que

tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão.

--Então, parece-lhe...?

--Sem duvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual fôr, e

confie-lhe a causa.

O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento,

e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. Não se negou o advogado,

estudou os papeis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes

que o testamento era mais que verdadeiro. A innocencia do réu foi

solemnemente proclamada pelo juiz, e a herança passou-lhe ás mãos.

O distincto jurisconsulto deveu a esta experiencia a liberdade. Mas

nada escapa a um espirito original e penetrante. Sirnão Bacamarte, que

desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciencia, a moderação

daquelle agente, reconheceu a habilidade e o tino com que elle levára

a cabo uma experiencia tão melindrosa e complicada, e determinou

recolhel-o immediatamente á Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos

melhores cubiculos.

Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de

modestos, isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição moral;

outra de tolerantes, outra de veridicos, outra de simplices, outra de

leaes, outra de magnanimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc.

Naturalmente, as familias e os amigos dos reclusos bradavam contra

a theoria; e alguns tentaram compellir a camara a cassar a licença.

A camara, porem, não esquecera a linguagem do vereador Galvão, e se

cassasse a licença, vel-o-hia na rua, e restituido ao logar; pelo que,

recusou. Simão Bacamarte officiou aos vereadores, não agradecendo, mas

felicitando-os por esse acto de vingança pessoal.

Desenganados da legalidade, alguns principaes da villa recorreram

secretamente ao barbeiro Porfirio e afiançaram-lhe todo o apoio

de gente, dinheiro e influencia na côrte, se elle se puzesse á

testa de outro movimento contra a camara e o alienista. O barbeiro

respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a

transgredir as leis, mas que elle se emendára, reconhecendo o erro

proprio e a pouca consistencia da opinião dos seus mesmos sequazes; que

a camara entendera autorisar a nova experiencia do alienista, por um

anno: cumpria, ou esperar o fim do praso, ou requerer ao vice-rei, caso

a mesma camara rejeitasse o pedido. Jámais aconselharia o emprego de um

recurso que elle viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e

ferimentos que seriam o seu eterno remorso.

--O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente

secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principaes da villa.

Dous dias depois o barbeiro era recolhido á Casa Verde.--Preso por ter

cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.

Chegou o fim do praso, a camara autorisou um praso supplementar de seis

mezes para ensaio dos meios therapeuticos. O desfecho deste episodio da

chronica itaguahyense, é de tal ordem, e tão inesperado, que merecia

nada menos de dez capitulos de exposição; mas contento-me com um, que

será o remate da narrativa, e um dos mais bellos exemplos de convicção

scientifica e abnegação humana.

XIII

PLUS ULTRA!

Era a vez da therapeutica. Simão Bacamarte, activo e sagaz em descobrir

enfermos, excedeu-se ainda na diligencia e penetração com que

principiou a tratal-os. N'este ponto todos os chronistas estão de pleno

accordo: o illustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais

viva admiração em Itaguahy.

Com effeito, era difficil imaginar mais racional systema therapeutico.

Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que

em cada um d'elles excedia ás outras, Simão Bacamarte cuidou em attacar

de frente a qualidade predominante. Supponhamos um modesto. Elle

applicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento opposto; e

não ia logo ás dóses maximas,--graduava-as, conforme o estado, a edade,

o temperamento, a posição social do enfermo. Ás vezes bastava uma

casaca, uma fita, uma cabelleira, uma bengala, para restituir a razão

ao alienado: em outros casos a molestia era mais rebelde; recorria

então aos aneis de brilhantes, ás distincções honorificas, etc. Houve

um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a

desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o

fim de o apregoar como um rival de Garção e de Pindaro.

--Foi um santo remedio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um

santo remedio.

Outro doente, tambem modesto, oppoz a mesma rebeldia á medicação; mas

não sendo escriptor, (mal sabia assignar o nome) não se lhe podia

applicar o remedio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para

elle o lugar de secretario de Academia dos Encobertos estabelecida

em Itaguahy. Os logares de presidente e secretarios eram de nomeação

regia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o

tratamento de Excellencia e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O

governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que

o não pedia como premio honorifico ou distincção legitima, e sómente

como um meio therapeutico para um caso difficil, o governo cedeu

excepcionalmente á supplica; e ainda assim não o fez sem extraordinario

esforço do ministro de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do

alienado. Foi outro santo remedio.

--Realmente, é admiravel! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e

enfunada dos dois ex-dementes.

Papeis Avulsos · 第 3 / 13 段