E ninguem lhe respondia; todos repetiam qne era um homem perfeitamente

ajuizado. A mesma demanda que elle trazia com o barbeiro, ácerca de uns

chãos da villa, era filha da obscuridade de um alvará, e não da cobiça

ou odio. Um excellente caracter o Coelho. Os unicos desafeiçoados que

tinha eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos, ou allegando

andar com pressa, mal o viam de longe dobravam as esquinas, entravam

nas lojas, etc. Na verdade, elle amava a boa palestra, a palestra

comprida, gostada a sorvos largos, e assim é que nunca estava só,

preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas não desdenhando os

outros. O padre Lopes, que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho,

nunca o via desligar-se de uma pessoa que não declamasse e emendasse

este trecho:

La bocca solevò dal fero pasto

Quel _seccatore..._

mas uns sabiam do odio do padre, e outros pensavam que isto era uma

oração em latim.

VI

A REBELIÃO

Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma

representação á camara. A camara recusou aceital-a, declarando que a

Casa Verde era uma instituição publica, e que a sciencia não podia ser

emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua.

--Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos.

A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam

d'alli levantar a bandeira da rebellião, e destruir a Casa Verde;

que ltaguahy não podia continuar a servir de cadaver aos estudos e

experiencias de um despota; que muitas pessoas estimaveis, algumas

distinctas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubiculos

da Casa Verde; que o despotismo scientifico do alienista complicava-se

do espirito de ganancia, visto que os loucos, ou suppostos taes, não

eram tratados de graça: as familias, e em falta dellas a camara, pagavam

ao alienista...

--É falso, interrompeu o presidente.

--Falso?

--Ha cerca de duas semanas recebemos um officio do illustre medico,

em que nos declara que, tratando de fazer experiencias de alto valor

psychologico, desiste do estipendio votado pela camara, bem como nada

receberá das familias dos enfermos.

A noticia deste acto tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma

dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas nenhum

interesse alheio á sciencia o instigava; e para demonstrar o erro era

preciso alguma cousa mais do que arruaças e clamores, isto disse o

presidente, com applauso de toda a camara. O barbeiro, depois de alguns

instantes de concentração, declarou que estava investido de um mandato

publico, e não restituiria a paz a Itaguahy antes de vêr por terra a

Casa Verde,--«essa Bastilha da razão humana»,--expressão que ouvira a

um poeta local, e que elle repetiu com muita emphasis. Disse, e a um

signal todos sairam com elle.

Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento,

á rebellião, á luta, ao sangue. Para accrescentar ao mal, um dos

vereadores, que apoiara o presidente, ouvindo agora a denominação

dada pelo barbeiro á Casa Verde--«Bastilha da razão humana»,--achou-a

tão elegante, que mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso

decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o

presidente, indignado, manifestasse em temos energicos o seu pasmo, o

vereador fez esta reflexão:

--Nada tenho que ver com a sciencia; mas se tantos homens em quem

suppomos juizo são reclusos por dementes, quem nos aflirma que o

alienado não é o alienista?

Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra,

e fallou ainda por algum tempo com prudencia, mas com firmesa. Os

collegas estavam attonitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos,

désse o exemplo da ordem e do respeito á lei, não aventasse as suas

idéas na rua, para não dar corpo e alma á rebellião, que era por ora

um turbilhão de atomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco a

effeito da outra: Sebastião Freitas prometteu suspender qualquer acção,

reservando-se o direito de pedir pelos meios legaes a reducção da Casa

Verde. E repetia com sigo, namorado:--Bastilha da razão humana!

Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas

pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve

ser mencionada, porque ella deu o nome á revolta; chamavam-lhe o

Cangica,--e o movimento ficou celebre com o nome de revolta dos

Cangicas. A acção podia ser restricta,--visto que muita gente, ou por

medo, ou por habitos de educação, não descia á rua; mas o sentimento

era unanime, ou quasi unanime, e os trezentos que caminhavam para

a Casa Verde,--dada a diferença de Paris a Itaguahy,--podiam ser

comparados aos que tomaram a Bastilha.

D. Evarista teve noticia da rebellião antes que ella chegasse; veiu

dar-lh'a uma de suas crias. Ella provava nessa occasião um vestido do

seda,--um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,--e não quiz

crer.

--Hade ser alguma patuscada, dizia ella mudando a posição de um

alfinete. Benedicta, vê se a barra está boa.

--Está, sinhá, respondia a mucama de cocaras no chão, está boa. Sinhá

vira um bocadinho. Assim, Está muito boa.

--Não é patuscada, não, senhora; elles estão gritando:--Morra o Dr.

Bacamarte! o tyranno! dizia o moleque assustado.

--Cala a hoca, tolo! Benedicta, olha ahi do lado esquerdo; não parece

qne a costura está um pouco enviezada? A risca azul não segue até

abaixo; está muito feio assim; é preciso descozer para ficar egualzinho

e...

--Morra o Dr. Bacamarte! morra o tyranno! uivaram fóra trezentas vozes.

Era a rebellião que desembocava na rua Nova.

D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu

um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu

instinctivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D.

Evarista, não dera credito, teve um instante de triumpho, um certo

movimento subito, imperceptivel, entranhado, de satisfação moral, ao

ver que a realidade vinha jurar por elle.

--Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.

D. Evarista, se não resistia facilmente ás commoções de prazer, sabia

entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu á sala

interior onde o marido estudava. Quando ella alli entrou, precipitada,

o illustre medico escrutava um texto de Averróes, os olhos delle,

empanados pela cogitação, subiam do livro ao tecto e baixavam do tecto

ao livro, cégos para a realidade exterior, videntes para os profundos

trabalhos mentaes. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que

elle lhe désse attenção; á terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha,

se estava doente.

--Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lagrimas.

O alienista attendeu então; os gritos approximavam-se, terriveis,

ameaçadores; elle comprehendeu tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar

em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranquillo,

foi deposital-o na estante. Como a introducção do volume desconcertasse

um pouco a linha dos dous tomos contiguos, Simão Bacamarte cuidou de

corrigir esse defeito minimo, e, aliás, interessante. Depois disse á

mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.

--Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você...

Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda

que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama

curvou a cabeça, obediente e chorosa.

--Abaixo a Casa Verde! bradavam os Cangicas.

O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou alli no

momento em que a rebellião tambem chegava e parava, defronte, com

as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de

desespero.--Morra! morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto

do alienista assomou na varanda. Simão Bacamarte fez um signal pedindo

para fallar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação.

Então, o barbeiro agitando o chapéo, afim de impôr silencio á turba,

conseguiu aquietar os amigos, e declarou ao alienista que podia fallar,

mas accrescentou que não abusasse da paciencia, do povo como fizera até

então.

--Direi pouco, ou até não direi nada, se fôr preciso. Desejo saber

primeiro o que pedis.

--Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa

Verde seja demolida ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão.

--Não entendo.

--Entendeis bem, tyranno; queremos dar liberdade ás victimas do vosso

odio, capricho, ganancia...

O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era cousa

visivel aos olhos da multidão; era uma contracção leve de dous ou tres

musculos, nada mais. Sorriu e respondeu:

--Meus senhores, a sciencia é cousa seria, e merece ser tratada com

seriedade. Não dou razão dos meus actos de alienista a ninguem, salvo

aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde,

estou prompto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo,

não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em commissão dos

outros, a vir ver commigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque

seria dar-vos mão do meu systema, o que não farei a leigos, nem a

rebeldes.

Disse isto o alienista, e a multidão ficou attonita; era claro que não

esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. Mas o assombro

cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multidão com muita

gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O

barbeiro tornou logo a si, e, agitando o chapéo, convidou os amigos á

demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi

nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição

do governo; pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde, e derrocando

a influencia do alienista, chegaria a apoderar-se da camara, dominar

as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguahy. Desde alguns

annos que elle forcejava por ver o seu nome incluido nos pellouros para

o sorteio dos vereadores, mas era recusado por não ter uma posição

compativel com tão grande cargo. A occasião era agora ou nunca. Demais

fôra tão longe na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez a

forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do alienista diminuira o

furor dos sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso

de indignação, e quiz bradar-lhes:--Canalha! covardes!--mas conteve-se,

e rompeu deste modo:

--Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de ltaguahy está nas

vossas mãos dignas e heroicas. Destruamos o carcere de vossos filhos

e paes, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de

vós mesmos. Ou morrereis a pão e agua, talvez a chicote, ua masmorra

daquelle indigno.

A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou, congregou-se toda em

derredor do barbeiro. Era a revolta que tomava a si da ligeira syncope,

e ameaçava arrazar a Casa Verde.

--Vamos! bradou Porfirio agitando o chapéo.

--Vamos! repetiram todos.

Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche,

entrava na rua Nova.

VII

O INESPERADO

Chegados os dragões em frente aos Cangicas, houve um instante de

estupefacção; os Cangicas não queriam crer que a força publica fosse

mandada contra elles; mas o barbeiro comprehendeu tudo e esperou. Os

dragões pararam, o capitão intimou á multidão que se dispersasse; mas,

comquanto uma parte della estivesse inclinada a isso, a outra parte

apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos

alevantados:

--Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadaveres, podeis

tomal-os; mas só os cadaveres; não levareis a nossa honra, o nosso

credito, os nossos direitos, e com elles a salvação da Itaguahy.

Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais

natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse tambem um

excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões;

confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os

Cangicas. O momento foi indescriptivel. A multidão urrou furiosa;

alguns, trepando ás janellas das casas, ou correndo pela rua fóra,

conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de colera, indignada,

animada pela exhortação do barbeiro. A derrota dos Cangicas estava

imininente, quando um terço dos dragões,--qualquer que fosse o motivo,

as chronicas não o declaram,--passou subitamente para o lado da

rebellião. Este inesperado reforço deu alma aos Cangicas, ao mesmo

tempo que lançou o desanimo ás fileiras da legalidade. Os soldados

fieis não tiveram coragem de atacar os seus proprios camaradas, e, um a

um, foram passando para elles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o

aspecto das cousas era totalmente outro. O capitão estava de um lado,

com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte.

Não teve remedio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.

A revolução triumphante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos

ás casas proximas, e guiou para a camara. Povo e tropa fraternisavam,

davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguahy, ao «illustre Porfirio.»

Este ia na frento, empunhando tão destramente a espada, como se ella

fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A victoria cingia-lhe

a fronte de um nimbo mysterioso. A dignidade de governo começava a

enrijar-lhe os quadris.

Os vereadores, ás janellas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a

tropa capturára a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma

petição ao vice-rei para que mandasse dar um mez de soldo aos dragões,

«cujo denodo salvou Itaguahy do abysmo a que o tinha lançado uma

cáfila de rebeldes.» Esta phrase foi proposta por Sebastião Freitas, o

vereador dissidente, cuja defeza dos Cangicas tanto escandalisára os

collegas. Mas bem depressa a illusão se desfez. Os vivas ao barbeiro,

os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes noticia da

triste realidade. O presidente não desanimou:--Qualquer que seja a

nossa sorte, disse elle, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua

Magestade e do povo.--Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia

servir á corôa e á villa sahindo pelos fundos e indo conferenciar com o

juiz de fóra, mas toda a camara rejeitou esse alvitre.

D'ahi a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes,

entrava na sala da vereança, e intimava á camara a sua queda. A

camara não resistiu, entregou-se, e foi dalli para a cadeia. Então os

amigos do barbeiro propozeram-lhe que assumisse o governo da villa,

em nome de Sua Magestade. Porfirio aceitou o encargo, embora não

desconhecesse (accrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que

não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que elles

promptamente annuiram. O barbeiro veiu á janella, e communicou ao povo

essas resoluções, quo o povo ratificou, acclamando o barbeiro. Este

tomou a denominação de--«Protector da villa em nome de Sua Magestade e

do povo.»--Expediram-se logo varias ordens importantes, communicações

officiaes do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com

muitos protestos de obediencia ás ordens de Sua Magestade; finalmente,

uma proclamação ao povo, curta, mas energica:

«Itaguahyenses!

Uma camara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua

Magestade e do povo. A opinião publica tinha-a condemnado; um punhado

de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Magestade,

acaba de a dissolver ignominiosamente, e por unanime consenso da villa,

foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Magestade se sirva ordenar

o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguahyenses! não vos peço

se não que me rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a

paz e a fazenda publica, tão desbaratada pela camara que ora findou ás

vossas mãos. Contai com o meu sacrificio, e ficai certos de que a coroa

será por nós.

O Protector da villa em nome de Sua Magestade e do povo

Porfirio Caetano das Neves.»

Toda a gente advertiu no absoluto silencio desta proclamação ácerca

da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indicio dos

projectos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto

que, no meio mesmo desses graves successos, o alienista mettera na

Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre ellas duas senhoras,

sendo um dos homens aparentado com o Protector. Não era um repto, um

acto intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira, e a villa

respirou com a esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro

horas estaria a ferros, e destruido o terrivel carcere.

O dia acabou alegremente. Emquanto o arauto da matraca ia recitando

de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e

jurava morrer em defeza do illustre Porfirio. Poucos gritos contra a

Casa Verde, prova de confiança na acção do governo. O barbeiro fez

expedir um acto declarando feriado aquelle dia, e entabolou negociações

com o vigario para a celebração de um _Te-Deum_, tão conveniente era

aos olhos delle a conjuncção do poder temporal com o espiritual; mas o

padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.

--Em todo caso, Vossa Reverendissima não se alistará entre os inimigos

do governo? disse-lhe o barbeiro dando á physionomia um aspecto

tenebroso.

Ao que o padre Lopes respondeu, sem responder:

--Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?

O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e

os principaes da villa, toda a gente o acclamava. Os mesmos principaes,

se o não acclamavam, não tinham saido contra elle. Nenhum dos almotacés

deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as familias abençoavam

o nome daquelle que ia emfim libertar Itaguahy da Casa Verde e do

terrivel Simão Bacamarte.

VIII

AS ANGUSTIAS DO BOTICARIO

Vinte e quatro horas depois dos successos narrados no capitulo

anterior, o barbeiro saiu do palacio do governo--foi a denominação

dada á casa da camara--, com dous ajudantes de ordens, e dirigiu-se á

residencia de Simão Bacamarte. Não ignorava elle que era mais decoroso

ao governo mandal-o chamar; o receio, porém, de que o alienista não

obedecesse, obrigou-o a parecer tolerante e moderado.

Não descrevo o terror do boticario ao ouvir dizer que o barbeiro ia á

casa do alienista.--Vae prendel-o, pensou elle. E redobraram-lhe as

angustias. Com effeito, a tortura moral do boticario naquelles dias

de revolução excede a toda a descripção possivel. Nunca um homem se

achou em mais apertado lance:**--a privança do alienista chamava-o

ao lado deste, a victoria do barbeiro attrahia-o ao barbeiro. Já a

simples noticia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma,

porque elle sabia a unanimidade do odio ao alienista; mas a victoria

final foi tambem o golpe final. A esposa, senhora mascula, amiga

particular de D. Evarista, dizia que o lugar delle era ao lado de Simão

Bacamarte; ao passo que o coração lhe bradava que não, que a causa do

alienista estava perdida, e que ninguem, por acto proprio, se amarra a

um cadaver. Fel-o Catão, é verdade, _sed victa Catoni_, pensava elle,

relembrando algumas palestras habituaes do padre Lopes; mas Catão não

se atou a uma causa vencida, elle era a propria causa vencida, a causa

da republica; o seu acto, portanto, foi de egoista, de um miseravel

egoista; minha situação é outra. Insistindo, porém, a mulher, não achou

Crispim Soares outra sahida em tal crise senão adoecer; declarou-se

doente, e metteu-se na cama.

--Lá vai o Porfirio á casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a mulher no dia

seguinte á cabeceira da cama; vai acompanhado de gente.

--Vai prendel-o, pensou o boticario.

Uma idéa traz outra; o boticario imaginou que, uma vez preso o

alienista, viriam tambem buscal-o a elle, na qualidade de complice.

Esta idéa foi o melhor dos visicatorios. Crispim Soares ergueu-se,

disse que estava bom, que ia sahir; e apesar de todos os esforços

e protestos da consorte, vestiu-se e sahiu. Os velhos chronistas

são unanimes em dizer que a certeza de que o marido ia collocar-se

nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do

boticario; e notam, com muita perspicacia, o immenso poder moral de uma

illusão; porquanto, o boticario caminhou resolutamente ao palacio do

governo, não á casa do alienista. Alli chegando, mostrou-se admirado de

não ver o barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adhesão,

não o tendo feito desde a vespera por enfermo. E tossia com algum

custo. Os altos funccionarios que lhe ouviam esta declaração, sabedores

da intimidade do boticario com o alienista, comprehenderam toda a

importancia da adhesão nova, e trataram a Crispim Soares com apurado

carinho; affirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha

ido á Casa Verde, a negocio importante, mas não tardava. Deram-lhe

cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do illustre

Porfirio era a de todos os patriotas; ao que o boticario ia repetindo

que sim, que nunca pensára outra cousa, que isso mesmo mandaria

declarar Sua Magestade.

IX

DOUS LINDOS CASOS

Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que

não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer. Só

uma cousa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente á

destruição da Casa Verde.

--Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa,

engana-se em attribuir ao governo intenções vandalicas. Com razão ou

sem ella, a opinião crê que a maior parte dos doudos alli mettidos

estão era seu perfeito juizo, mas o governo reconhece que a questão

é puramente scientifica, e não cogita em resolver com posturas as

questões scientificas. Demais, a Casa Verde é uma instituição publica;

tal a aceitamos das mãos da camara dissolvida. Ha, entretanto,--por

força que ha de haver um alvitre intermedio que restitua o socego ao

espirito publico.

O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava

outra cousa, o arrazamento do hospicio, a prisão delle, o desterro,

tudo, menos...

--O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não

attender á grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma

céga piedade, que lhe dá em tal caso legitima indignação, póde exigir

do governo certa ordem de actos; mas este, com a responsabilidade que

lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a

nossa situação. A generosa revolução que hontem derrubou uma camara

villipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrazamento da

Casa Verde; mas pode entrar no animo do governo eliminar a loucura?

Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para

discriminal-a, reconhecel-a? Tambem não; é materia de sciencia.

Logo, em assumpto tão melindroso, o governo não póde, não deve, não

quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de

certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo

saberá obedecer. Um dos alvitres aceitaveis, se Vossa Senhoria não

indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde aquelles enfermos

que estiverem quasi curados, e bem assim os maniacos de pouca monta,

etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerancia e

benignidade.

--Quantos mortos e feridos houve hontem no conflicto? perguntou Simão

Bacamarte, depois de uns tres minutos.

O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze

mortos e vinte e cinco feridos.

--Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou trez vezes o

alienista.

E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que

elle ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria

resposta. E fez-lhe varias perguntas ácerca dos successos da vespera,

ataque, defeza, adhesão dos dragões, resistencia da camara, etc.,

ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundancia, insistindo

principalmente no descredito em que a camara cahira. O barbeiro

confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos

principaes da villa, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto.

O govemo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já

com a sympathia, senão com a benevolencia do mais alto espirito de

Itaguahy, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre

e austera physionomia daquelle grande homem, que ouvia calado, sem

desvanecimento, nem modestia, mas impassivel como um deus de pedra.

Papeis Avulsos · 第 2 / 13 段