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MACHADO DE ASSIS
PAPEIS AVULSOS
O ALIENISTA--THEORIA DO MEDALHÃO
A CHINELA TURCA
NA ARCA--D. BENEDICTA--O SEGREDO DO BONZO
O ANNEL DE POLYCRATES
O EMPRESTIMO--A SERENISSA REPUBLICA
O ESPELHO
UMA VISITA DE ALCIBIADES--VERBA TESTAMENTARIA
RIO DE JANEIRO
Typographia e Lithographia a vapor, Encadernação e Livraria
LOMBAERTS & C.
7--_Rua dos Ourives_--7
1882
OBRAS DO AUTOR
Memorias Posthumas de Braz Cubas
Papeis Avulsos
Helena
Yayá Garcia
Ressurreição
A mão e a luva
Historias da meia noite
Contos Fluminenses
Americanas
Phalenas
Chrysalidas
Tu só, tu, puro amor
ADVERTENCIA
Este titulo de _Papeis avulsos_ parece negar ao livro uma certa
unidade; faz crer que o autor colligiu varios escriptos de ordem
diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem
essa. Avulsos são elles, mas não vieram para aqui como passageiros, que
acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família,
que a obrigação do pae fez sentar á mesma mesa.
Quanto ao genero delles, não sei que diga que não seja inutil. O
livro está nas mãos do leitor. Direi sómente, que se ha aqui paginas
que parecem meros contos, e outras que o não são, defendo-me das
segundas com dizer que os leitores das outros podem achar nellas
algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O
evangelista, descrevendo a famosa besta apocalyptica, accrescentava
(XVII, 9): "E aqui ha sentido, que tem sabedoria." Menos a sabedoria,
cubro-me com aquella palavra. Quanto a Diderot, ninguem ignora que
elle, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava
a um amigo que os escrevesse tambem. E eis a razão do encyclopedista: é
que quando se faz um conto, o espirito fica alegre, o tempo escoa-se, e
o conto da vida acaba sem a gente dar por isso.
Deste modo, venha donde vier o reproche[1], espero que dahia mesmo virá
a absolvição.
Machado de Assis
Outubro de 1882.
[1]Cerca de dous annos para cá, recebi duas cartas anonymas, escriptas
por pessôa intelligente e sympathica, em que me foi notado o uso
do vocabulo _reproche._ Não sabendo como responda ao meu estimavel
correspondente, aproveito esta occasião.
_Reproche_ não é gallicismo. Nem _reproche_ nem _reprochar._ Moraes
cita, para o verbo, este trecho dos _Ined._ II fl. 259: "hum non tinha
que _reprochar_ ao outro;" e aponta os logares de Fernando de Lucena,
Nunes de Leão e D. Francisco Manoel de Mello, em que se encontra o
substantivo _reproche._ Os hespanhoes tambem os possuem.
Resta a questão de euphonia. _Reproche_ não parece mal soante. Tem
contra si o desuso. Em todo caso, o vocabulo que lhe está mais proximo
no sentido, _exprobração_, acho que é insupportavel. Dahi a minha
insistencia em preferir o outro, devendo notar-se que não o vou buscar
para dar ao estylo um verniz de extranheza, mas quando a ideia o traz
comsigo.
O ALIENISTA
I
DE COMO ITAGUAHY GANHOU UMA CASA DE ORATES
As chronicas da villa de ltaguahy dizem que em tempos remotos vivera
alli um certo medico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra
e o maior dos medicos do Brazil, de Portugal e das Hespanhas. Estudara
em Coimbra e Padua. Aos trinta e quatro annos regressou ao Brazil,
não podendo el-rei alcançar delle que ficasse em Coimbra, regendo a
universidade, ou era Lisboa, expedindo os negocios da monarchia.
--A sciencia, disse elle a Sua Magestade, é o meu emprego unico;
ltaguahy é o meu universo.
Dito isto, metteu-se em ltaguahy, e entregou-se de corpo e alma ao
estudo da sciencia, alternando as curas com as leituras, e demonstrando
os theoremas com cataplasmas. Aos quarenta annos casou com D. Evarista
da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco annos, viuva de
um juiz de fóra, e não bonita nem sympathica. Um dos tios delle,
caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de
semelhante escolha e disse-lh'o. Simão Bacamarte explicou-lhe que
D. Evarista reunia condições physiologicas e anatomicas de primeira
ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso,
e excellente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos,
sãos e intelligentes. Se além dessas prendas,--unicas dignas da
preoecupação de um sabio, D. Evarista era mal composta de feições,
longe de lastimal-o, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco
de preterir os interesses da sciencia na contemplação exclusiva, miuda
e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu ás esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos
robustos nem mofinos. A indole natural da sciencia é a longanimidade;
o nosso medico esperou tres annos, depois quatro, depois cinco. Ao
cabo desse tempo fez um estudo profundo da materia, releu todos os
escriptores arabes e outros, que trouxera para Itaguahy, enviou
consultas ás universidades italianas e allemãs, e acabou por aconselhar
á mulher um regimen alimenticio especial. A illustre dama, nutrida
exclusivamente com a bella carne de porco de Itaguahy, não attendeu
ás admoestações do esposo; e á sua resistencia,--explicavel, mas
inqualificavel,--devemos a total extincção da dynastia dos Bacamartes.
Mas a sciencia tem o ineffavel dom de curar todas as magoas; o nosso
medico mergulhou inteiramente no estudo e na pratica da medicina. Foi
então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a attenção,--o
recanto psychico, o exame da pathologia cerebral. Não havia na
colonia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante materia,
mal explorada, ou quasi inexplorada. Simão Bacamarte comprehendeu que
a sciencia lusitana, e particularmente a brazileira, podia cobrir-se
de «louros immarcessiveis,»--expressão usada por elle mesmo, mas em um
arroubo de intimidade domestica; exteriormente era modesto, segundo
convém aos sabedores.
--A saude da alma, bradou elle, é a occupação mais digna do medico.
--Do verdadeiro medico, emendou Crispim Soares, boticario da villa, e
um dos seus amigos e comensaes.
A vereança de Itaguahy, entre outros peccados de que é arguida pelos
chronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada
louco furioso era trancado em uma alcova, na propria casa, e, não
curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do beneficio
da vida; os mansos andavam á solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu
desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença á camara para
agasalhar e tratar no edificio que ia construir todos os loucos de
Itaguahy e das demais villas e cidades, mediante um estipendio, que
a camara lhe daria quando a familia do enfermo o não podesse fazer.
A proposta excitou a curiosidade de toda a villa, e encontrou grande
resistencia, tão certo é que difficilmente se desarraigam habitos
absurdos, ou ainda máus. A idéa de metter os loucos na mesma casa,
vivendo em commum, pareceu em si mesma um symptoma de demencia, e não
faltou quem o insinuasse á propria mulher do medico.
--Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigario do logar, veja
se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre,
sempre, não é bom, vira o juizo.
D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe «que estava
com desejos», um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer
tudo o que a elle lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquelle
grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a
intenção da esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dalli
foi á camara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com
tanta eloquencia, que a maioria resolveu autorisal-o ao que pedira,
votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento,
alojamento e mantimento dos doudos pobres. A materia do imposto não
foi facil achal-a, tudo estava tributado em Itaguahy. Depois de
longos estudos, assentou-se em permittir o uso de dous pennachos nos
cavallos dos enterros. Quem quizesse emplumar os cavallos de um coche
mortuario pagaria dois tostões á camara, repetindo-se tantas vezes esta
quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do fallecimento e
a da ultima benção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos calculos
arithmeticos do rendimento possivel da nova taxa: e um dos vereadores,
que não acreditava na empreza do medico, pediu que se relevasse o
escrivão de um trabalho inutil.
--Os calculos não são precisos, disse elle, porque o Dr. Bacamarte não
arranja nada. Quem é que viu agora metter todos os doudos dentro da
mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o medico arranjou tudo. Uma vez
empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na rua Nova,
a mais bella rua de Itaguahy naquelle tempo, tinha cincoenta janellas
por lado, um pateo no centro, e numerosos cubiculos para os hospedes.
Como fosse grande arabista, achou no Koran que Mahomet declara
veneraveis os doudos, pela consideração de que Allah lhes tira o juizo
para que não pequem. A idéa pareceu-lbe bonita e profunda, e elle a fez
gravar no frontespicio da casa; mas, como tinha medo ao vigario, e por
tabella ao bispo, attribuiu o pensamento a Benedicto VIII, merecendo
com essa fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço,
a vida daquelle pontifice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asylo, por allusão á côr das janellas,
que pela primeira vez appareciam verdes em Itaguahy. Inaugurou-se com
immensa pompa; de todas as villas e povoações proximas, e até remotas,
e da propria cidade do Rio de Janeito, correu gente para assistir
ás ceremonias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam
recolhidos; e os parentes tiveram occasião de ver o carinho paternal
e a caridade christã com que elles iam ser tratados. D. Evarista,
contentissima com a gloria do marido, vestira-se luxuosamente,
cobriu-se de joias, flôres e sedas. Ella foi uma verdadeira rainha
naquelles dias memoraveis; ninguem deixou de ir visital-a duas e trez
vezes, apezar dos costumes caseiros e recatados do seculo, e não só a
cortejavam como a louvavam; porquanto,--e este facto é um documento
altamente honroso para a sociedade do tempo,--porquanto viam nella
a feliz esposa de um alto espirito, de um varão illustre, e, se lhe
tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas publicas; Itaguahy tinha
finalmente uma casa de Orates.
II
TORRENTE DE LOUCOS
Tres dias depois, n'uma expansão intima com o boticario Crispim Soares,
desvendou o alienista o mysterio do seu coração.
--A caridade, Sr. Soares, entra de certo no meu procedimento, mas entra
como tempero, como o sal das cousas, que é assim que interpreto o dito
de S. Paulo aos Corinthios: «Se eu conhecer quanto se pode saber, e
não tiver caridade, não sou nada.» O principal nesta minha obra da
Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos grãos,
classificar-lbe os casos, descobrir emfim a causa do phenomeno e o
remedio universal. Este é o mysterio do meu coração. Creio que com isto
presto um bom serviço á humanidade.
--Um excellente serviço, corrigiu o boticario.
--Sem este asylo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; elle
dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.
--Muito maior, accrescentou o outro.
E tinham razão. De todas as villas e arraiaes visinhos affluiam loucos
á Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaniacos, era toda
a familia dos desherdados do espirito. Ao cabo de quatro mezes, a Casa
Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubiculos: mandou-se
annexar uma galeria de mais trinte e sete. O padre Lopes confessou que
não imaginara a existencia de tantos doudos no mundo, e menos ainda
o inexplicavel de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e
villão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente, um
discurso academico, ornado de tropos, de antitheses, de apostrophes,
com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cicero, Apuleo e
Tertuliano. O vigario não queria acabar do crer. Que! um rapaz que elle
vira, tres mezes antes, jogando peteca na rua!
--Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que
Vossa Reverendissima está vendo. Isto é todos os dias.
--Quanto a mim, tornou o vigario, só se póde explicar pela confusão
das linguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escriptura;
provavelmente, confundidas antigamente as linguas, é facil trocal-as
agora, desde que a razão não trabalhe...
--Essa póde ser, com effeito, a explicação divina do phenomeno,
concordou o alienista, depois de reflectir um instante, mas não
é impossivel que haja tambem alguma razão humana, e puramente
scientifica, e disso trato...
--Vá que seja, e fico ancioso. Realmente!
Os loucos por amor eram tres ou quatro, mas só dous espantavam pelo
curioso do delirio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco
annos, suppunha-se estrella d’alva, abria os braços e alargava as
pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas
esquecidas a perguntar se o sol já tinha sahido para elle recolher-se.
O outro andava sempre, sempre, sempre, á roda das salas ou do pateo, ao
longo dos corredores, á procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a
quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga,
armou-se de uma garrucha, e sahiu-lhes no encalço; achou-os duas horas
depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes
de crueldade. O ciume satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então
começou aquella ancia de ir ao fim do mundo á cata dos fugitivos.
A mania das grandezas tinha exemplares notaveis. O mais notavel era um
pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava ás paredes (porque não
olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:
--Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou
David, David engendrou a purpura, a purpura engendrou o duque, o duque
engendrou o marquez, o marquez engendrou o conde, que sou eu.
Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco,
seis vezes seguidas:
--Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Outro da mesma especie era um escrivão, que se vendia por mordomo
do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir
boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a
outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não fallo dos casos
de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se
João de Deus, dizia agora ser o deus João, e promettia o reino dos
céos a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois
desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no
dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrellas se
despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera
de Deus. Assim o escrevia elle no papel que o alienista lhe mandava
dar, menos por caridade do que por interesse scientifico.
Que, na verdade, a paciencia do alienista era ainda mais extraordinaria
do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que
assombrosa. Simão Bacamarte começou por organisar um pessoal de
administração; e, aceitando essa idéa ao boticario Crispim Soares,
aceitou-lhe tambem dous sobrinhos, a quem incumbiu da execução de
um regimento que lhes deu, approvado pela camara, da distribuição
da comida e da roupa, e assim tambem da escripta, etc. Era o melhor
que podia fazer, para sómente cuidar do seu officio.--A Casa Verde,
disse elle ao vigario, é agora uma especie de mundo, em que ha o
governo temporal e o governo _espiritual._ E o padre Lopes ria deste
pio trocado,--e accrescentava,--com o unico fim de dizer tambem uma
chalaça:--Deixe estar, deixe estar, que hei de mandal-o denunciar ao
papa.
Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma
vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em
duas classes principaes: os furiosos e os mansos; dahi passou ás
sub-classes, monomanias, delirios, allucinações diversas. Isto feito,
começou um estudo aturado e continuo; analysava os habitos de cada
louco, as horas do accesso, as aversões, as sympathias, as palavras,
os gestos, as tendencias; inquiria da vida dos enfermos, profissão,
costumes, circumstancias da revelação morbida, accidentes da infancia
e da mocidade, doenças de outra especie, antecedentes na familia,
uma devassa, emfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E
cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um
phenomeno extraordinario. Ao mesmo tempo estudava o melhor regimen, as
substancias medicamentosas, os meios curativos e os meios palliativos,
não só os que vinham nos seus amados arabes, como os que elle mesmo
descobria, á força de sagacidade e paciencia. Ora, todo esse trabalho
levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda
comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto
antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro
do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.
III
DEUS SABE O QUE FAZ!
A illustre dama, no fim de dous mezes, achou-se a mais desgraçada
das mulheres; cahiu em profunda melancholia, ficou amarella, magra,
comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma
queixa ou reproche, porque respeitava nelle o seu marido e senhor, mas
padecia calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe
perguntasse o marido o que é que tinha, respondeu tristemente que nada;
depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se considerava
tão viuva como dantes. E accrescentou:
--Quem diria nunca que meia duzia de lunaticos...
Não acabou a phrase; ou antes, acabou-a levantando os olhos ao
tecto,--os olhos, que eram a sua feição mais insinuante,--negros,
grandes, lavados de uma luz humida, como os da aurora. Quanto ao
gesto, era o mesmo que empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu
era casamento. Não dizem as chronicas se D. Evarista brandiu aquella
arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a sciencia, out pelo
menos, decepar-lhe as mãos; mas a conjectura é verosimil. Em todo caso,
o alienista, não lhe attribuiu outra intenção. E não se irritou o
grande homem, não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não
deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veiu
quebrar a superficie da fronte quieta como a agua de Botafogo. Talvez
um sorriso lhe descerrou os labios, por entre os quaes filtrou esta
palavra macia como o oleo do _Cantico_:
--Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.
D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas
vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma pallida sombra
do que hoje é, todavia era alguma cousa mais do que Itaguahy. Ver
o Rio de Janeiro, para ella, equivalia ao sonho do hebreu captivo.
Agora, principalmente, que o marido assentára de vez naquella povoação
interior, agora é que ella perdera as ultimas esperanças de respirar
os ares da nossa boa cidade; e justamente agora é que elle a convidava
a realisar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não pôde
dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão Bacamarte pegou-lhe
na mão e sorriu,--um sorriso tanto ou quanto philosophico, além de
conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento:--«Não ha remedio
certo para as dôres da alma; esta senhora definha, porque lhe parece
que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se.» E porque era
homem estudioso tomou nota da observação.
Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se,
entretanto; limitou-se a dizer ao marido, que, se elle não ia, ella não
iria tambem, porque não havia de metter-se sózinha pelas estradas.
--Irá com sua tia, redarguiu o alienista.
Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quizera
pedil-o nem insinual-o, em primeiro logar porque seria impôr grandes
despezas ao marido, em segundo logar porque era melhor, mais methodico
e racional que a proposta viesse delle.
--Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem
convicção.
--Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda hontem o
escripturario prestou-me contas. Queres ver?
E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-lactea
de algarismos. E depois levou-a ás arcas, onde estava o dinheiro. Deus!
eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões
sobre dobrões; era a opulencia. Emquanto ella comia o ouro com os seus
olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais
perfida das allusões.
--Quem diria que meia duzia de lunaticos...
D. Evarista comprehendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:
--Deus sabe o que faz!
Tres mezes depois effectuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher
do boticario, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em
Lisboa, e que de aventura achava-se em Itaguahy, cinco ou seis pagens,
quatro mucamas, tal foi a comitiva que a população viu dalli sahir em
certa manhã do mez de maio. As despedidas foram tristes para todos,
menos para o alienista. Comquanto as lagrimas de D. Evarista fossem
abundantes e sinceras, não chegaram a abalal-o. Homem de sciencia, e só
de sciencia, nada o consternava fóra da sciencia; e se alguma cousa o
preoccupava naquella occasião, se elle deixava correr pela multidão um
olhar inquieto e policial, não era outra cousa mais do que a idéa de
que algum demente podia achar-se alli misturado com a gente de juizo.
--Adeus! soluçaram emfim as damas e o boticario.
E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos
entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão
Bacamarte alongava os seus pelo horisonte adiante, deixando ao cavallo
a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do genio e do vulgo! Um
fita o presente, com todas as suas lagrimas e saudades, outro devassa o
futuro com todas as suas auroras.
IV
UMA THEORIA NOVA
Ao passo que D. Evarista, em lagrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro,
Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa idéa arrojada e
nova, propria a alargar as bases da psychologia. Todo o tempo que lhe
sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou
de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assumptos, e
virgulando as fallas de um olhar que mettia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã,--eram passadas tres semanas,--estando Crispim Soares
occupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o
mandava chamar.
--Trata-se de negocio importante, segundo elle me disse, aecrescentou o
portador.
Crispim empallideceu. Que negocio importante podia ser, se não alguma
triste noticia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este
topico deve ficar claramente definido, visto insistirem nelle os
chronistas: Crispim amava a mulher, e, desde trinta annos, nunca
estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monologos que
elle fazia agora, e que os famulos lhe ouviam muita vez:--«Anda, bem
feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesaria? Bajulador, torpe
bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te;
anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miseravel. Dizes
_amen_ a tudo, não é? ahi tens o lucro, biltre!--E muitos outros nomes
feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo.
Daqui a imaginar o effeito do recado é um nada. Tão depressa elle o
recebeu como abriu mão das drogas e voou á Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria propria de um sabio, uma
alegria abotoada de circumspecção até o pescoço.
--Estou muito contente, disse elle.
--Noticias do nosso povo? perguntou o boticario com a voz tremula.
O alienista fez um gesto magnifico, e respondeu:
--Trata-se de cousa mais alta, trata-se de uma experiencia scientifica.
Digo experiencia, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha
idéa; nem a sciencia é outra cousa, Sr. Soares, se não uma investigação
constante. Trata-se, pois, de uma experiencia, mas uma experiencia que
vai mudar a face da terra. A loucura, objecto dos meus estudos, era até
agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um
continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticario. Depois
explicou compridamente a sua idéa. No conceito delle a insania abrangia
uma vasta superficie de cerebros; e desenvolveu isto com grande cópia
de raciocinios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na
historia e em ltaguahy; mas, como um raro espirito que era, reconheceu
o perigo de citar todos os casos de Itaguahy, e refugiou-se na
historia. Assim, apontou com especialidade alguns personagens celebres,
Socrates, que tinha um demonio familiar, Pascal, que via um abysmo á
esquerda, Mahomet, Caracalla, Domiciano, Caligula, etc., uma enfiada
de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e
entidades ridiculas. E porque o boticario se admirasse de uma tal
promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma cousa, e até
accrescentou sentenciosamcnte:
--A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a serio.
--Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares lovantando as mãos
ao céu.
Quanto á ideia de ampliar o territorio da loucura, achou-a o boticario
extravagante; mas a modestia, principal adorno de seu espirito, não lhe
sofreu confessar outra cousa além de um nobre enthusiasmo; declarou-a
sublime e verdadeira, e acerescentou que era «caso de matraca.» Esta
expressão não tem equivalente no estylo moderno. Naquelle tempo,
Itaguahy, que como as demais villas, arraiaes e povoações da colonia,
não dispunha de imprensa, tinha dous modos de divulgar uma noticia:
ou por meio de cartazes manuscriptos e pregados na porta da camara e
da matriz;--ou por meio de matraca. Eis em que consistia este segundo
uso. Contractava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas
do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a
matraca, reunia-se gente, e elle annunciava o que lhe incumbiam,--um
remedio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eeclesiastico, a melhor thesoura da villa, o mais bello discurso do
anno, etc. O systema tinha inconvenientes para a paz publica; mas
era conservado pela grande energia de divulgação que possuia. Por
exemplo, um dos vereadores,--aquelle justamente que mais se oppuzera á
creação da Casa Verde,--desfructava a reputação de perfeito educador
de cobras e macacos, e aliás nunca domesticára um só desses bichos;
mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os mezes. E
dizem as chronicas que algumas pessoas affirmavam ter visto cascaveis
dansando no peito do vereador; affirmação perfeitamente falsa, mas só
devida á absoluta confiança no systema. Verdade, verdade; nem todas as
instituições do antigo regimen, mereciam o desprezo do nosso seculo.
--Ha melhor do que annunciar a minha ideia, é pratical-a, respondeu o
alienista á insinuação do boticario.
E o boticario, não divergindo sensivelmente deste modo de ver,
disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.
--Sempre haverá tempo de a dar á matraca, concluiu elle.
Simão Bacamarte reflectiu ainda um instante, e disse:
--Suppondo o espirito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares,
é ver se posso extrahir a perola, que é a razão; por outros termos,
demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão
é o perfeito equilibrio de todas as faculdades; fora dahi insania,
insania, e só insania.
O vigario Lopes, a quem elle confiou a nova theoria, declarou lisamente
que não chegava a entendel-a, que era uma obra absurda, e, se não
era absurda, era de tal modo collossal que não merecia principio de
execução.
--Com a definição actual, que é a de todos os tempos, accrescentou, a
loucura e a razão estão perperfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma
acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?
Sobre o labio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de
uma intenção de riso, em que o desdem vinha casado á commiseração;
mas nenhuma palavra sahiu de suas egregias entranhas. A sciencia
contentou-se em estender a mão á theologia,--com tal segurança, que a
theologia não soube emfim se devia crêr em si ou na outra. Itaguahy e o
universo ficavam á beira de uma revolução.
V
O TERROR
Quatro dias depois, a população do Itaguahy ouviu consternada, a
noticia de que um certo Costa fôra recolhido á Casa Verde.
--Impossivel!
--Qual impossivel! foi recolhido hoje de manhã.
--Mas, na verdade, elle não merecia... Ainda em cima! depois de tanto
que elle fez...
Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguahy. Herdára
quatrocentos mil cruzados em boa moeda de el-rei D. João V, dinheiro
cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para
viver «até o fim do mundo.» Tão depressa recolheu a herança, como
entrou a dividil-a em emprestimos, sem usura, mil cruzados a um, dous
mil a outro, trezentos a este, oitocentos áquelle, a tal ponto que, no
fim de cinco annos, estava sem nada, Se a miseria viesse de chofre, o
pasmo de Itaguahy seria enorme; mas veiu de vagar; elle foi passando da
opulencia á abastança, da abastança á mediania, da mediania á pobreza,
da pobreza á miseria, gradualmente. Ao cabo daquelles cinco annos,
pessoas que levavam o chapeu ao chão, logo que elle assomava no fim da
rua, agora batiam-lhe no hombro, com intimidade, davam-lhe piparotes no
nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano, risonho. Nem se lhe
dava de ver que os menos cortezes eram justamente os que tinham ainda
a divida em aberto; ao contrario, parece que os agazalhava com maior
prazer, e mais sublime resignação. Um dia, como um desses incuraveis
devedores lhe atirasse uma chalaça grossa, e elle se risse della,
observou um desaffeiçoado, com certa perfidia:--«Você supporta esse
sujeito para ver se elle lhe paga.» Costa não se deteve um minuto, foi
ao devedor e perdoou-lhe a divida.--«Não admira, retorquiu o outro; o
Costa abriu mão de uma estrella, que está no céu.» Costa era perspicaz,
entendeu que elle negava todo o merecimento ao acto, attribuindo-lhe
a intenção de rejeitar o que não vinham metter-lhe na algibeira. Era
tambem pundonoroso e inventivo; duas horas depois achou um meio de
provar que lhe não cabia um tal labéo: pegou de algumas dobras, e
mandou-as de emprestimo ao devedor.
--Agora espero que...--pensou elle sem concluir a phrase.
Esse ultimo rasgo do Costa persuadiu a credulos e incredulos; ninguem
mais pôz em duvida os sentimentos cavalheirescos daquelle digno
cidadão. As necessidades mais acanhadas sahiram á rua, vieram bater-lhe
á porta, com os seus chinellos velhos, com as suas capas remendadas. Um
verme, entretanto, roia a alma do Costa: era o conceito do desaffecto.
Mas isso mesmo acabou; trez mezes depois veiu este pedir-lhe uns cento
e vinte cruzados com promessa de restituir-lh'os dahi a dous dias; era
o residuo da grande herança, mas era tambem uma nobre desforra: Costa
emprestou o dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente não teve
tempo de ser pago; cinco mezes depois era recolhido á Casa Verde.
Imagina-se a consternação de Itaguahy, quando soube do caso. Não se
fallou em outra cousa, dizia-se que o Costa ensandecera, ao almoço,
outros que de madrugada; e contavam-se os accessos, que eram furiosos,
sombrios, terriveis,--ou mansos, e até engraçados, conforme as versões.
Muita gente correu á Casa Verde, e achou o pobre Costa, tranquillo,
um pouco espantado, faltando com muita clareza, e perguntando porque
motivo o tinham levado para alli. Alguns foram ter com o alienista.
Bacamarte approvava esses sentimentos de estima e compaixão, mas
accrescentava que a sciencia era a sciencia, e que elle não podia
deixar na rua um mentecapto. A ultima pessoa que intercedeu por elle
(porque depois do que vou contar ninguem mais se atreveu a procurar o
terrivel medico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista
disse-lhe confidencialmente que esse digno homem não estava no perfeito
equilibrio das faculdades mentaes, á vista do modo como dissipára os
cabedaes que...
--Isso, não! isso não! interrompeu a boa senhora com energia. Se elle
gastou tão depressa o que recebeu, a culpa não é delle.
--Não?
--Não, senhor. Eu lhe digo como o negocio se passou. O defuncto meu tio
não era máu homem; mas quando estava furioso era capaz de nem tirar
o chapéo ao Santissimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer,
descobriu que um escravo lhe roubára um boi; imagine como ficou. A
cara era um pimentão; todo elle tremia, a boca escumava; lembra-me
como se fosse hoje. Então um homem feio, cabelludo, em mangas de
camiza, chegou-se a elle e pediu agua. Meu tio (Deus lhe falle n'alma!)
respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para
elle, abriu a mão em ar de ameaça, e rogou esta praga:--«Todo o seu
dinheiro não hade durar mais de sete annos e um dia, tão certo como
isto ser o _sino salamão!_» E mostrou o sino salamão impresso no braço.
Foi isto, meu senhor; foi esta praga daquelle maldito.
Bacamarte espetára na pobre senhora um par de olhos agudos como
punhaes. Quando ella acabou, estendeu-lhe a mão polidamente, como se
o fizesse á propria esposa do vice-rei, e convidou-a a ir fallar ao
primo. A misera acreditou; elle levou-a á Casa Verde e encerrou-a na
galeria dos allucinados.
A noticia desta aleivosia do illustre Bacamarte lançou o terror á
alma da população. Ninguem queria acabar de crer, que, sem motivo,
sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora
perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder
por um infeliz. Commentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros;
edificou-se um romance, umas finezas namoradas que o alienista outr'ora
dirigira á prima do Costa, a indignação do Costa e o desprezo da prima.
E dahi a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alienista, a vida
de estudos que elle levava, pareciam desmentir uma tal hypotbese.
Historias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um dos mais
credulos chegou a murmurar que sabia de outras cousas, não as dizia,
por não ter certeza plena, mas sabia, quasi que podia jurar.
--Você, que é intimo delle, não nos podia dizer o que ha, o que houve,
que motivo...
Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e
curiosa, dos amigos attonitos, era para elle uma consagração publica.
Não havia duvidar; toda a povoação sabia emfim que o privado do
alienista era elle, Crispim, o boticario, o collaborador do grande
homem e das grandes cousas; dahi a corrida á botica. Tudo isso dizia
o carão jocundo e o riso discreto do boticario, o riso e o silencio,
porque elle não respondia nada; um, dous, trez monosyllabos, quando
muito, soltos, seccos, encapados no fiel sorriso, constante e miudo,
cheio de mysterios scientificos, que elle não podia, sem desdouro nem
perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.
--Ha cousa, pensavam os mais desconfiados.
Um desses limitou-se a, pensal-o, deu de hombros e foi embora. Tinha
negocios pessoaes. Acabava de construir uma casa sumptuosa. Só a casa
bastava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais,--a mobilia,
que elle mandara vir da Hungria e da Hollanda, segundo contava, e que
se podia ver do lado de fóra, porque as janellas viviam abertas,--e
o jardim, que era uma obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que
enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma
casa magnifica, jardim pomposo, mobilia rara. Não deixou o negocio das
albardas, mas repousava delle na contemplação da casa nova, a primeira
de Itaguahy, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais nobre do que a
da camara. Entre a gente illustre da povoação havia choro e ranger
de dentes, quando se pensava, ou se fallava, ou se louvava a casa do
albardeiro,--um simples albardeiro, Deus do céu!
--Lá está elle embasbacado, diziam os transeuntes, de manhã.
De manhã, com effeito, era costume do Matheus estatelar-se, no meio do
jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, até que
vinham chamal-o para almoçar. Os visinhos, embora o comprimentassem
com certo respeito, riam-se por traz delle, que era um gosto. Um
desses chegou a dizer que o Matheus seria muito mais economico, e
estaria riquissimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigramma
inintelligivel, mas que fazia rir ás bandeiras despregadas.
--Agora lá está o Matheus a ser contemplado, diziam á tarde.
A razão deste outro dito era que, de tarde, quando as familias sahiam
a passeio (jantavam cedo) usava o Matheus postar-se á janella, bem no
centro, vistoso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, attitude
senhoril, e assim ficava duas e tres horas até que anoitecia de todo.
Pode crer-se que a intenção do Matheus era ser admirado e invejado,
posto que elle não a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao boticario,
nem ao padre Lopes, seus grandes amigos. E entretanto não foi outra a
allegação do boticario, quando o alienista lhe disse que o albardeiro
talvez padecesse do amor das pedras, mania que elle Bacamarte
descubrira e estudava desde algum tempo. Aquillo de contemplar a casa...
--Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.
--Não?
--Hade perdoar-me, mas talvez não saiba que elle de manhã examina a
obra, não a admira; de tarde, são os outros que o admirara a elle e á
obra.--E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o
cahir da noite.
Uma volupia scientifica alumiou os olhos de Simão Bacamarte. Ou elle
não conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quiz,
interrogando o Crispim, do que confirmar alguma noticia incerta ou
suspeita vaga. A explicação satisfel-o; mas como tinha as alegrias
proprias de um sabio, concentradas, nada viu o boticario que fizesse
suspeitar uma intenção sinistra. Ao contrario, era de tarde, e o
alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Deus! era a primeira
vez que Simão Bacamarte dava ao seu privado tamanha honra; Crispim
ficou tremulo, atarantado, disse que sim, que estava prompto. Chegaram
duas ou tres pessoas de fóra, Crispim mandou-as mentalmente a todos os
diabos; não só atrazavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte
elegesse alguma dellas, para acompanhal-o, e o dispensasse a elle. Que
impaciencia! que afflicção! Emfim, sahiram. O alienista guiou para os
lados da casa do albaideiro, viu-o á janella, passou cinco, seis vezes
por diante, devagar, parando, examinando as attitudes, a expressão do
rosto. O pobre Matheus, apenas notou que era objecto da curiosidade
ou admiração do primeiro vulto de ltaguahy, redobrou de expressão,
deu outro relevo ás attitudes... Triste! triste! não fez mais do que
condemnar-se; no dia seguinte, foi recolhido á Casa Verde.
--A Casa Verde é um carcere privado, disse um medico sem clinica.
Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Carcere
privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oéste de
ltaguahy,--a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu
á captura do pobre Matheus, vinte e tantas pessoas,--duas ou tres
de consideração,--foram recolhidas á Casa Verde. O alienista dizia
que só eram admittidos os casos pathologicos, mas pouca gente lhe
dava credito. Succediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de
dinheiro, castigo de Deus, monomania do proprio medico, plano secreto
do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguahy qualquer germen
de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro
e mingua daquella cidade, mil outras explicações, que não explicavam
nada, tal era o producto diario da imaginação publica.
Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a tia, a mulher
do Crispim Soares, e toda a mais comitiva,--ou quasi toda,--que algumas
semanas antes partira de Itaguahy. O alienista foi recebel-a, com o
boticario, o padre Lopes, os vereadores, e varios outros magistrados.
O momento em que D. Evarista poz os olhos na pessoa do marido é
considerado pelos chronistas de tempo como um dos mais sublimes da
historia moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas,
ambas extremas, ambas egregias. D. Evarista soltou um grito, balbuciou
uma palavra, e atirou-se ao consorte, de um gesto que não se pode
melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não
assim o illustre Bacamarte; frio como um diagnostico, sem desengonçar
por um instante a rigidez scientifica, estendeu os braços á dona, que
caiu nelles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dons minutos, D.
Evarista recebia os comprimentos dos amigos, e o prestito punha-se em
marcha.
D. Evarista era a esperança de Itaguahy; contava-se com ella para
minorar o flagello da Casa Verde. Dahi as acclamações publicas, a
immensa gente que atulhava as ruas, as flammulas, as flores e damascos
ás janellas. Com o braço apoiado no do padre Lopes,--porque o eminente
Bacamarte confiára a mulher ao vigario, e acompanhava-os a passo
meditativo,--D. Evarista voltava a cabeça a um lado e outro, curiosa,
inquieta, petulante. O vigario indagava do Rio de Janeiro, que elle
não vira desde o vice-veinado anterior; o D. Evarista respondia,
enthusiasmada, que era a cousa mais bella que podia haver no mundo.
O Passeio Publico estava acabado, um paraiso, onde ella fôra muitas
vezes, o a rua das Bellas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah!
o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas,--feitas de metal e
despejando agua pela bocca fóra. Uma cousa galantissima. O vigario
dizia que sim, que o Ro de Janeiro devia estar agora muito mais bonito.
Se já o era neutro tempo! Não admira, maior do que Itaguahy, e de mais
a mais séde do governo... Mas não se pode dizer que Itaguahy fosse
feio; tinha bellas casas, a casa do Matheus, a Casa Verde....
--A proposito de Casa Verde, disso o padre Lopes escorregando
habilmente para o assumpto da occasião, a senhora vem achal-a muito
cheia de gente.
--Sim?
--É verdade. Lá está o Matheus...
--O albardeiro?
--O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano,
e...
--Tudo isso doudo?
--Ou quasi doudo, obtemperou o padre.
--Mas então?
O vigario derreou os cantos da boca, á maneira de quem não sabe nada,
ou não quer dizer tudo; resposta vaga, que se não póde repetir a outra
pessoa, por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinario
que toda aquella gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos?
Entretanto, custava-lhe duvidar; o marido era um sabio, não recolheria
ninguem á Casa Verde sem prova evidente de loucura.
--Sem duvida... sem duvida... ia pontuando o vigario.
Tres horas depois, cerca de cincoenta convivas sentavam-se em volta
da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista
foi o assumpto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a
casta, metaphoras, amplificações, apologos. Ella era a esposa do novo
Hippocrates, a musa da sciencia, anjo, divina, aurora, caridade, vida,
consolação; trazia nos olhos duas estrellas, segundo a versão modesta
de Crispim Soares, e dous sóes, no conceito de um vereador. O alienista
ouvia essas cousas um tanto enfastiado, mas sem visivel impaciencia.
Quando muito dizia ao ouvido da mulher, que a rhetorica permittia taes
arrojos sem significação. D. Evarista fazia esforços para adherir a
esta opinião do marido; mas, ainda descontando tres quartas partes das
louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores,
por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco annos, pintalegrete
acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o
nascimento de D. Evarista era explicado polo mais singular dos reptos.
«Deus, disse elle, depois de dar ao universo o homem e a mulher,
esse diamante e essa perola da corôa divina (e o orador arrastava
triumphalmente esta phrase de uma ponta a outra da mesa) Deus quiz
vencer a Deus, e creou D. Evarista.»
D. Evarista baixou os olhos com exemplar modestia. Duas senhoras,
achando a cortezanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do
dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pareceu-lhes nublado
de suspeitas, de ameaças, e, provavelmente, de sangue. O atrevimento
foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que
removesse qualquer episodio tragico,--ou que o adiasse, ao menos,
para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma dellas, a mais piedosa,
chegou a admittir, comsigo mesma, que D. Evarisla não merecia nenhuma
desconfiança, tão longe estava de ser attrahente ou bonita. Uma
simples agua-morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem eguaes,
o que seria do amarello? E esta ideia fel-a tremer outra vez, embora
menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito, e,
levantados todos, foi ter com elle e fallou-lhe do discurso. Não lhe
negou que era era improviso brilhante, cheio de rasgos magnificos.
Seria delle mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou
tel-a-hia encontrado em algum autor que...? Não, senhor; era delle
mesmo; achou-a naquella occasião e parecera-lhe adequada a um arroubo
oratorio. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas
ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôz uma ode
á queda do marquez de Pombal, em que dizia que esse ministro era o
«dragão asperrimo do Nada,» esmagado pelas «garras vingadoras do Todo»;
e assim outras, mais ou menos fóra do commum; gostava das ideias
sublimes e raras, das imagens grandes e nobres...
--Pobre moço! pensou o alienista. E continuou comsigo:--Trata-se de um
caso do lesão cerebral; phenomeno sem gravidade, mas digno de estudo...
D. Evarista ficou estupefacta quando soube, tres dias depois, que o
Martim Brito fôra alojado na Casa Verde. Um moço que tinha idéas tão
bonitas! As duas senhoras attribuiram o acto a ciumes do alienista. Não
podia ser outra cousa; realmente a declaração do moço fôra audaciosa de
mais.
Ciumes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos
José Borges do Couto Leme, pessoa estimavel, o Chico das Cambraias,
folgazão emerito, o escrivão Fabricio, e ainda outros? O terror
accentuou-se. Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doudo.
As mulheres, quando os maridos saiam, mandavam accender uma lamparina
a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns não
andavam fóra sem um ou dous capangas. Positivamente o terror. Quem
podia, emigrava. Um desses fugitivos, chegou a ser preso a duzentos
passos da villa. Era um rapaz de trinta annos, amavel, conversado,
polido, tão polido que não cumprimentava alguem sem levar o chapéu ao
chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distancia de dez a vinte braças
para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, ás vezes a um
menino, como acontecera ao filho do juiz de fóra. Tinha a vocação
das cortezias. De resto, devia as boas relações da sociedade, não só
aos dotes pessoaes, que eram raros, como á nobre tenacidade com que
nunca desanimava deante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras
feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado n'uma casa, não
a deixava mais, nem os da casa o deixavam a elle, tão gracioso era o
Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apezar de se saber estimado, teve
medo quando lhe disseram um dia, que o alienista o trazia de olho; na
madrugada seguinte fugiu da villa, mas foi logo apanhado e couduzido á
Casa Verde.
--Devemos acabar com isto!
--Não pode continuar!
--Abaixo a tyrania!
--Despota! violento! Golias!
Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa mas não tardava a
hora dos gritos. O terror crescia: avisinhava-se a rebellião. A
idéa de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse
capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o
barbeiro Porfirio a expendesse na loja, com grandes gestos de
indignação. Note-se,--e essa é uma das laudas mais puras desta sombria
historia,--note-se que o Porfirio, desde que a Casa Verde começára
a povoar-se tão extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros
pela applicação assidua de sanguesugas que dalli lhe pediam: mas o
interesse particular, dizia elle, deve ceder ao interesse publico. E
accrescentava:--é preciso derrubar o tyranno! Note-se mais que elle
soltou esse grito justamente no dia em Simão Bacamarte fizera recolher
á Casa Verde um homem que trazia com elle uma demanda, o Coelho.
--Não me dirão em que é que o Coelho é doudo? bradou o Porfirio.