Toda a terra falla e diz
que roubára assim á toa
certo Páris de Lisboa
uma Helena de Paris;
e que o rapto vingar quiz
seu pai que todo se abraza
por lhe levarem de casa,
ainda em peça, a melhor joia;
mas, porque não ardeu Troya,
ficou o velho uma braza.
A Páris lhe foi forçosa
esta eleição por estrella
não só como grega bella,
mas como deusa formosa.
Como a viu tão carinhosa,
tão bonita, tão astuta,
tão gordita, tão enxuta,
Páris lhe deu a maçã
e ella gosta da fruta.
Etc.
O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da phrase. Que
tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro,
injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irrisão
obrigava-o a transpôr as fronteiras com o coração despedaçado! Reinava
D. José I, o amante da marqueza de Tavora, então viuva, e já consolada
da perda do marido, que o amante lhe mandára degolar e queimar no
cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O
erario a trasbordar de milhões e os subterraneos de lagrimas!
Comecei com danças e acabei com lagrimas. É no que as danças param
ordinariamente. Ou ellas não fossem invenção do diabo, como diz o meu
oratoriano Bernardes.