AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS MINUETES

Toda a terra falla e diz

que roubára assim á toa

certo Páris de Lisboa

uma Helena de Paris;

e que o rapto vingar quiz

seu pai que todo se abraza

por lhe levarem de casa,

ainda em peça, a melhor joia;

mas, porque não ardeu Troya,

ficou o velho uma braza.

A Páris lhe foi forçosa

esta eleição por estrella

não só como grega bella,

mas como deusa formosa.

Como a viu tão carinhosa,

tão bonita, tão astuta,

tão gordita, tão enxuta,

Páris lhe deu a maçã

e ella gosta da fruta.

Etc.

O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da phrase. Que

tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro,

injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irrisão

obrigava-o a transpôr as fronteiras com o coração despedaçado! Reinava

D. José I, o amante da marqueza de Tavora, então viuva, e já consolada

da perda do marido, que o amante lhe mandára degolar e queimar no

cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O

erario a trasbordar de milhões e os subterraneos de lagrimas!

Comecei com danças e acabei com lagrimas. É no que as danças param

ordinariamente. Ou ellas não fossem invenção do diabo, como diz o meu

oratoriano Bernardes.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12) · 第 34 / 36 题