A DANÇA

Gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes.

Ha lendas medonhas, casos que eriçam os cabellos, castigos infligidos a

dançarinos. Leiam na _Floresta_ do padre Manoel Bernardes a lenda dos

_Bailarinos_. Pois ainda ha passagens mais escandalosas e funestas, por

causa das danças; mas já não ha quem as apregôe com virtuosa ira. Não ha

ninguem que, ao outro dia de um baile, clame na local ou no folhetim que

um scelerado ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem dançava, e

dizer-lhe: _vêr-te e amar-te foi obra de um momento_. Sabem todos que as

phrases assim ardentes queimam as senhoras; mas ninguem propõe que os

estylistas d'esta força sejam chamados ao commissariado; ou que as damas

sujeitas a ouvil-os se vistam de amiantho, se Deus as não fadou com a

virtude incombustivel de salamandras.

Verdade é que o transigir com os maus costumes vem de longe. Temos o

exemplo de exemplares varões a quem competia pôr cobro aos bailes. Aqui

tenho eu um _Tratado dos principaes fundamentos da dança_, publicado em

1767, pelo mestre d'aquella viciosa pantomima, Natal Jacome Bonem, e

licenciado pelo _santo officio_, e pelo _ordinario_! Fr. Caetano de S.

José, eremita augustiniano, doutor em theologia, provincial da ordem,

etc., foi o encarregado de censurar officialmente o manuscripto do

_Tratado da dança_. Se este frade estivesse no prumo da sua missão,

deixava-se cahir, com todo peso de sua gravidade, sobre o mestre Natal,

e esborrachava-o e mais ao incendiario manuscripto.

Com bastante pejo das fraquezas d'este proximo, e para escarmento de

futuros frades censores de futuras danças, reproduzo a opinião de fr.

Caetano de S. José:

«_Não me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se

não estendeu para a arte de dança nem ainda a curiosidade dos meus

estudos: sei que algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da

disciplina ecclesiastica uma bem severa reprehensão e merecida

prohibição fundada na solemne profissão que fazem os que pelo sacramento

da regeneração se formam membros vivos de Jesus Christo e filhos

espirituaes da santa Igreja; não ignoro tambem que outras tem o justo

louvor com o exemplo de um rei santo como David, dançando na presença da

arca do testamento. Se os preceitos da presente arte, expostos na

verdade com toda a modestia se ordenarem para o uso d'estas e outras de

semelhante decencia e honestidade, nem serão oppostos á santidade dos

costumes, assim como o não são aos pontos essenciaes da nossa santa fé.

É o que posso informar_, etc.»

Então que é o que informou o frade? Parece dizer que, se esta _Arte de

dança_ leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o santo rei David

dançava adiante da arca, então sim, publique-se o livreco; mas, se o

author intenta regambolear as tibias de suas discipulas em gavotas,

cirandas e outros bailados lubricos, n'esse caso o santo officio

delibere o que lhe parecer.

Ora eu já vi, em Braga, dançar o santo David. Era um _cancan_ a só, um

requebro desnalgado, um alçar de perna bruta e rija que, se apanhasse a

arca, daria com ella na cara do sol.

Voltando ao livro do francez Natal Bonem, acho n'elle excellentes

preceitos de educação que seriam, em substancia e fórma, bem cabidos

n'um dos compendios do snr. João Felix Pereira. O cap. VI, por exemplo:

_Do modo que as senhoras devem andar, e se deve apresentar._ (Vê-se que

era mais forte em dança que em grammatica). Ahi vai o capitulo na

integra. É lyrico, delicado e muito de aproveitar:

«Não duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de não

saber ensinar, senão aos homens; senão mostrára zelo, e attenção para a

instrucção do bello sexo: ellas, que são a alma da dança, e que lhe dão

todo o brilhante, que ella tem; e parece que a natureza a reveste de

mais graça; porque sem a presença das senhoras a dança não está tão

animada; são ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulação, que

se encontra entre ellas, e em nós, quando dançamos ambos, principalmente

com aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais

agradavel em uma companhia, que de vêr dançar duas pessoas de um e outro

sexo com seriedade; que de applausos, e que de gostos para os

circumstantes.

«Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que

tóco igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexões são

necessarias para as senhoras, ellas devem voltar os pés para fóra,

estender os joelhos, ainda que muitas pessoas pretendem, que não se lhes

conheçam estes defeitos, mas por tirar este engano, principalmente para

as senhoras moças, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o não façam;

não quero senão o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho

de vestir, e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem

andar, que está escripto para os homens, e se encontrarão com outro ar,

e conhecerão, que de ter a cabeça direita, o corpo fica com maior

firmeza, e os joelhos estendidos, os passos são mais seguros; tenho

feito uma reflexão, que me parece muito justa sobre o modo de saber

levar bem a cabeça, e é que uma senhora por muito engraçada, que seja em

seu modo de levar a cabeça, fará julgar differentemente de si, v. g. se

ella a levar direita, o corpo bem posto, sem affectação se dirá; eis

aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir com

negligencia, se lhe chamará preguiçosa; se a deixa cahir para diante;

bizonha, e se a leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e

outras muitas cousas, que não escrevo por não ser proluxo: desejo que

todas as senhoras não façam o modo facil, que se vem descrever, para que

não cáiam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.

«Para bem andar é preciso ter a cabeça direita, os hombros baixos, os

braços retirados para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as

suas mãos uma em cima da outra, com um leque na mão, e principalmente

sem affectação.»

Não escrevia em estylo apocalyptico.

* * * * *

Este francez que tanto polira e lapidára o bruto diamante das damas

lisbonenses da côrte de D. José I, tinha uma filha esbeltissima,

engraçada de todos os amavios francezes, e muito esquiva aos amores dos

discipulos de seu pai, até á hora fatal em que o pé, n'um difficil passo

de minuete com o deus frecheiro, lhe escorregou em ladeira de flôres,

e... ella lá vai com o conde-barão d'Alvito embrenhar-se nas florestas

de Cintra.

O mestre de dança bravejou, pediu vingança ás leis, ao direito

internacional, ao ministro omnipotente Sebastião José de Carvalho. O

ministro e as justiças sorriram, sob capa, do atribulado dançarino. O

marquez de Pombal, esse então era tão caroavel de francezas, que ainda,

aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a uma, que por

signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade. Veja _Historia do

reinado d'el-rei D. José_, pelo snr. Soriano, tom. II, pag. 649 e seg.

Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando, sobre a

affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos

enviavam uns aos outros:

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12) · 第 33 / 36 题