(PADRE SENNA FREITAS--FRANCISCO GOMES D'AMORIM)
PADRE SENNA FREITAS, _No Presbyterio e no Templo_, vol. II. Livraria
Internacional. Porto, 1874. 8.º 344 pag.--A presteza no apparecimento do
segundo tomo, correspondeu á affectuosa curiosidade que o primeiro
suscitou com raro exito. O relevante merito dos artigos subpostos ao
titulo NO PRESBYTERIO, confirma-se e consubstancia-se nos trechos
pareneticos, e nos discursos em assembléas catholicas. Avantajam-se os
dotes do escriptor na descripção do Brazil sertanejo, onde se lhe
acrisolou a vocação nos maviosos, bem que duros sacrificios tão
ardentemente commettidos com o alegre rosto da confiança em Deus.
Dos donaires e graças da elocução do snr. padre Senna Freitas nos
dispensamos de repetir justissimos louvores. Que se recommende um livro,
quando a indolencia publica o não procurou, é esse o dever corrente da
boa critica, e o timbre da leal camaradagem n'esta milicia das letras;
porém, depois que a sancção indeclinavel do senso publico formou
conceito do escriptor, a repetição do elogio é superfluidade, senão
aggravo do leitor que muito bem póde sentir-se de que o ousem ensinar a
conhecer as excellencias da obra inculcada. Farei tão sómente algumas
breves reflexões á substancia d'este livro.
Nas prégações feitas pelo operoso sacerdote nos sertões do Ceará e
Bahia, posto que se esteja revelando que o missionario forcejou por
atemperar-se á razão pouco alumiada dos seus ouvintes, os conceitos
resaltam na eloquencia, e o letrado alliga-se elegantemente ao
doutrinario sempre na esphera d'uma illustrada theologia. Se o snr.
padre Senna Freitas tivesse a peito acommodar-se á tosca percepção do
seu auditorio, contava-lhe casos com que lhe apavorasse a credulidade,
prodigios, intervenções ultra-naturaes na região dos vicios ordinarios,
a diplomacia infesta do demonio trajando á humana, e os requintes da
virtude do homem trajando á divina. Os discursos d'este discreto
missionario não se afeiam d'essas deformidades tão bastas nas missões
que pelas nossas aldeias espancam o dôce anjo das santissimas verdades
de Jesus Christo. Por onde se vê que o snr. Senna Freitas, conformemente
a um grande mestre de oratoria sagrada, fez como suas as advertencias do
sapientissimo e religiosissimo Cenaculo: «...Quanta será a culpa do
prégador que omittir a propria illustração para que, faltando-lhe esta,
passe a entreter a credulidade do povo em acontecimentos, reclamados
pela verdade? Deixará o protestante de lançar mão d'esta ignorancia para
pretender salvar o seu injusto improperio contra os bons usos da nossa
igreja? O ouvinte illustrado não radica no fundo de sua alma, a respeito
do prégador, um conceito de homem inhabil? Conceito na verdade opposto
quanto é possivel á reputação que deve ter quem quizer persuadir[28].»
N'estes discursos, e mais largamente nos que o snr. Senna Freitas
proferiu nas assembléas catholicas do Porto e de Braga, ha passagens de
acurada eloquencia que o descostume em taes occasiões poderia acoimar de
nimiamente litterarias e destoantes do lugar e do auditorio. Seria
injusto o reparo. O estylo espalmado não é rigorosamente um signal de
predestinação. Quintiliano póde entrar no templo com o orador christão
sem catechese nem baptismo. S. João Chrysostomo formou o seu estylo na
leitura dos versos de Aristophanes; e o citado arcebispo de Evora
recommenda aos alumnos da arte concionatoria que leiam os poemas de Sá
de Miranda, promiscuamente com os mais selectos pagãos, sem levantar mão
dos SS. Padres.
Ora, a mim se me figura que os lanços em que o espirito do snr. Senna
Freitas mais esplende são os que mais contenciosos parecem no seu
austero apostolado. E é talvez por isso que elles mais se ataviam do
fasto das locuções bem feitas. Quero fallar do seu azedume contra os
romances que não viu rubricados por alguns nomes de boa fama, e
aureolados dos suppositicios nimbos dos bemaventurados. Eu de mim direi
que tenho escripto muitos romances maus, por mal urdidos ou mal
escriptos; mas, se é licito comparar grandezas com insignificancias, sou
a pensar que nem as novellas do conselheiro Rodrigues de Bastos levaram
ninguem ao paraiso, nem as minhas abysmaram no barathro pessoa que as
lêsse. O que não affirmo é se algum dos meus editores foi, mediante
ellas levado... _á gloria_--que com certeza não é a melhor ascensão que
elles, editores, hão de agradecer-nos.
O snr. Senna Freitas póde dar-me de suspeito em materia que tanto por
casa ou pela roupa me toca. Não me queixarei, em quanto me for licito e
airoso defender as pessoas que o severo escriptor deplora sujeitas á
contaminação dos maus romances.
Não, meu amigo. As novellas, que adoçam a peçonha das paixões
peccaminosas, quem as lê? Toda a gente, á excepção das pessoas
rigorosamente religiosas que parecem temer-se do contagio, como se a
consciencia do dever lhes não fosse bastante cordão sanitario contra a
infecção das idéas dissolventes.
Ha tantissimas damas de irreprehensivel estylo de vida que, na sua
mocidade, releram aquellas despeitoradas folias de Paulo de Kock! Ha ahi
tanta senhora de boa nota que lê os _Romances para homens_!
Creio e sei que ha romances protervos quanto ás infamias que tecem o
enredo; mas ainda não vi algum em que as torpezas sejam aconselhadas
pelo author como saluberrimas e honorificas.
Diga-se o que por diversos modos está repetido: os maus costumes são os
primogenitos de Adão, e mais antigos que as novellas. A grande
bibliotheca dos maus livros que estragaram o genero humano estava dentro
da maçã ou do pêcego que Eva trincou. Póde ser que os romancistas
desmoralisados, se os ha, sejam os pomareiros da arvore maldita; mas o
certo é que hoje em dia, as descendentes da Eva paradisiaca, se o pomo
lhes trava, depuram os labios nas faces dôces de seus filhos, e de sobra
sabem que não é com tal fruta que se enganam os modernos Adões.
Estes reparos não desdouram as fortes e convictas idéas do snr. Senna
Freitas ácerca da imprensa jornalistica e das litteraturas dramatica e
romantica. O illustre sacerdote está no seu posto, e o sustenta com a
maxima dignidade e superior talento.
* * * * *
Como não sei quando terei tão bom azo de apontar a um assumpto que, de
seu, me occorre n'este momento, pedirei aqui ao primeiro orador da
tribuna sagrada em Portugal, o snr. conego bracharense Joaquim Alves
Matheus que publique as suas orações ineditas. Se o divulgal-as
redundasse meramente em gloria sua propria, não iria eu ferir com
phrases de vulgar lisonja a modestia d'aquelle professor illustre;
porém, se o proveito d'essa publicação reverte em lição para prégadores,
em deleite para crentes, e secreto abalo para incredulos, a abstenção do
snr. Alves Matheus é menos louvavel, e por nenhuma maneira conforme aos
deveres que se alligam ao seu ministerio. O talento de quem converte em
luz da alma o que outros obscurecem nas paginas dos livros santos, é
mais de nós, os vacillantes á orla dos abysmos, que dos bemquistos da
alta inspiração, e dos que, velejando nos escarceus da vida, tem no céo
a estrella do seu norte, e na terra a dupla ancora da fé e da sciencia.
Alves Matheus é o mais correcto e elevado orador que ainda ouvi. Conhece
todas as vozes que sôam dentro da alma. Dá o terrivel estremecer do
enthusiasmo no arrobamento das idéas grandes, e vibra as palavras
gementes que abrem o dulcissimo espirar das lagrimas.
* * * * *
THEATRO DE FRANCISCO GOMES DE AMORIM, socio da academia real das
sciencias de Lisboa. _O cedro vermelho._ 1874. 2 tomos.--São livros de
recreio e estudo estes dous que comprehendem o drama e as notas
relativas. O snr. Gomes de Amorim empenhou poderosas faculdades de
observação nos accessorios com que nos povôa a phantasia, a fim de que
no tecido dramatico fuljam os fios reflexôres da luz local. O drama
seria já excellente sem as notas; com ellas realça de valia, porque nos
ensina particularidades que o poeta photographou, e o historiador
desdenharia. Se tanto lavor e tamanha paciencia de consultação houvessem
de ser embebidos no artificio do drama, e descurados como alheios da
scena, o consciencioso escriptor teria a triste desillusão de se haver
cançado á cata de leitores idoneos e juizes competentes do seu trabalho.
O _Cedro vermelho_, assignalado entre os mais applaudidos dramas que
recordam noites gloriosas do theatro normal, pertence á escóla das
peripecias fortes e commoventes. Impunham-se assombrosos aquelles lances
de viver desconhecido do sertão da America. Francisco Gomes de Amorim
chegára, poucos annos antes, d'essas paragens, por onde havia passado o
portuguez aventureiro, o mercador, o chatim; mas por onde, desde que o
jesuita fôra esponjado da civilisação do indio, nunca mais passára o
talento observador. Por fortuna da arte e desfortuna do artista, Gomes
de Amorim identificára-se aos costumes das raças, tacteára-lhes de perto
o selvagismo, não tanto por seducções de curioso quanto pelo imperioso
estimulo da necessidade. As lagrimas represadas talvez lhe abrissem no
coração os traços que ahi ficaram como thesouro de lembranças,--e quem
sabe se de saudades para elle e para tantos cujas illusões vão morrendo
com o sol poente de cada novo dia!
O drama, executado por aquelles artistas apaixonados de ha dezoito
annos, logrou arrancar da sua atrophia um publico sopitado pela toada
das xacaras, e pela melopêa dengoza das castellãs, e raivas sacrilegas
d'uns amadores quasi todos sarracenos, consoante a praxe dos dramaturgos
archi-romanticos.
Tasso, que aceitára a parte do indio Lourenço, como quem crescia para as
empresas arduas e se apoucava nas trivialidades de galã de vaudeville,
arrebatava o auditorio, e o auditorio arrebatava-o nos braços, desde o
palco ao seu camarim. Houve n'aquelles remotos dias correntes galvanicas
entre o actor e a sala. A paixão coruscava no olhar d'aquelles
interpretes a quem Epiphanio ensinára as fulgurações do terror, e, sobre
tudo, a expressão da intelligencia.
Eu não direi que a arte de hoje arraste crepes ou esteja fria como o
marmore de Gil Vicente na cupula do seu templo.
Não: o que simplesmente receio é que o amaneirado, o arbitrario, que ahi
chamam _crear caractéres_, o pseudo-naturalismo dos actores mais em voga
nos vão desencantando das illusões e amortecendo o enthusiasmo
n'aquelles lances que--segundo a praxe comica--_faziam levantar o povo_.
Tenho recordações d'esse tempo, e algumas prendem com o _Cedro vermelho_
de Gomes de Amorim. Ao relêl-o, como quem folheia paginas em que se
traçaram impressões da mocidade, tive o prazer de renoval-as
admirando-as ainda, e marginando as muitas passagens em que resalta um
bom engenho, e um optimo escriptor. O segundo tomo é prestadio subsidio
para quem, deleitando-se, quizer, em poucas horas, colher noticias
repartidas por tantissimos volumes. É obra de grande merito, e sêl-o-hia
de grande fortuna em outro paiz. Emendêmo-nos. Sejamos dignos dos
talentos que honram a nossa terra.
[28] _Memorias historicas do ministerio no pulpito_, pag. 199 e seg.