AOS DIPLOMATAS DESCONTENTES

Se suas excellencias, os senhores secretarios e addidos de ministros e

embaixadores se queixam da parcimonia dos seus ordenados--e accusam de

mesquinhos os governos, indifferentes ao esplendor dos enviados que

representam este Portugal, tão pomposamente representado em tempos

antigos--bem sei eu onde elles podem, se quizerem, colher as provas de

liberalidade dos governos absolutos com que confundam a sovinaria dos

governos liberaes.

Um diplomata, que brilhou nos tempos prosperos, e me lembra, como

exemplo, é Duarte Ribeiro de Macedo. Dizem d'elle os biographos, e

particularmente José Maria da Costa e Silva, que nunca enviado portuguez

a Paris tão grandes honras recebeu na côrte de Luiz XIV. Nove annos alli

residiu o solerte diplomata, ganhando de dia para dia a consideração de

Portugal e os gabos dos ministros com quem lidou.

Em 1668 nol-o descreve Costa e Silva melhorado na florente carreira, já

como enviado ordinario.

Não nos diz que ordenados Duarte Ribeiro recebe, nem que luxos estadeia

na côrte de França; mas do contexto de duas cartas suas e ineditas,

facil nos é conjecturar o despendio, o fausto, a ostentação quasi

reprehensivel d'aquelle representante, se o não quizerem desculpar por

elle ser algum tanto poeta.

Os periodos, que vão lêr-se, devem pruir de inveja os espiritos

descontentes dos senhores secretarios, addidos, e enviados de hoje em

dia; conformem-se no entanto, confrontando o Portugal de Duarte Ribeiro

de Macedo com o Portugal dos que hoje em dia o representam, a jantarem

em restaurantes de 2 francos por cabeça.

Vejamos as scintillações de estylo de um enviado ordinario na

embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As

cartas datadas em 1669 e 1670 são adereçadas ao regedor das justiças, D.

Rodrigo de Menezes.

«...... Dir-lhe-hei a v. s.ª como passo ha quatro mezes. Jeronymo José

da Costa me assistiu dous, mas porque a tardança dos provimentos o fazia

desconfiar, não quiz valer-me d'elle, e pedi 1:000 francos ao conde de

S. Comberg, dizendo-lhe que era para um emprego meu. Não me atrevi a

escrever que achava este recurso, para que não désse causa a maior

descuido. Já estão pagos estes dous credores; mas não estou livre de

cuidar que recahirei no mesmo achaque. Creia v. s.ª que não sei como

acerto a servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que

me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o

provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O que

n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher, e

confesso a v. s.ª que não posso servir com taes faltas. Se eu disser a

v. s.ª o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e Inglaterra

ha v. s.ª de se admirar! Sua alteza, pela mercê que me faz, a qualquer

carta minha manda logo acudir: a falta está da parte dos executores das

suas ordens... etc.»

Se este periodo não deixa bem definida a situação brilhante do enviado

ordinario, ha outro mais explicito:

«... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobrões

emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas, e entro

em quarto mez de empenho. Até a carne para comer me trazem fiada...

Tire-me v. s.ª d'aqui ainda que seja á custa da liberdade.»

D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e

patriotica vaidade no serviço de Portugal é que os biographos

deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado ordinario a

Paris, alli _fôra recebido com grandes honrarias_ (diz Costa e Silva)

_poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros_, e tantas e tamanhas

que até fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.

E, como prova de que a sua abastança não era fineza, mas sim obrigação

da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que Duarte Ribeiro, _no

longo prazo de nove annos que se demorou em França, no exercido d'esta

missão importante, promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era

dotado os interesses e vantagens da nação que representava_.

Da comparação da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza dos

diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca fiada porque

era um inepto, ao passo que os seus successores no officio andam por lá

saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o

equilibrio internacional.

[27] D. Pedro, o regente, irmão de Affonso VI.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12) · 第 20 / 36 题