MANIA E HYPOCONDRIA

Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e

amigos que o enterrassem, porque o seu corpo começava a apodrecer. Tres

vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e

fingiram que o levavam ao cemiterio; porém, no caminho, estavam uns

homens pactuados com os parentes á espera do sahimento; e, quando a

tumba ia passando, começaram a dizer em voz alta:

--Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle

biltre, aquelle perversissimo scelerado!

O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:

--Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para

vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os mortos

não se vingam.

Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando

as injurias.

Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da mortalha, e

correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes

pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa que o atormentava.

O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque

havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.

Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro

scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em França. É a

_Hygiene das dôres_, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que

nos illustram, alegram a gente com estas passagens que não são vulgares

entre os maniacos portuguezes.

* * * * *

Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca

sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria

horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa;

estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não atormentassem, etc.

Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais

acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou banhos

egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil.

Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com

igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a

elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de

cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachundé chinez, o talekamapala

dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á

_escova electrica_, ao _restaurador da vida_. Tudo em vão. Parece

incrivel uma cousa tão verdadeira!

A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua

molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o

homem dos seus atrozes flagicios.

Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não podia

estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia,

estendia a perna.

--Então o senhor que mais quer?--perguntou o medico.

--Valha-me Deus, queria fazer isto!--e levantava a perna com a maior

presteza e facilidade.

O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si,

riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.

D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como

quatro), e de se estar marasmando.

Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen que o medico

não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico,

pediu explicações.

--Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga--disse o medico.

--É verdade!--disse pasmadamente o enfermo--é verdade! eu não tinha

reparado.

E ou por estar convencido ou por imitação, riu-se tambem com o medico.

Este livro da _Hygiene das dôres_ não é dos mais imprestaveis no

catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se

modificam pela explosão das lagrimas, outras pelo espirro, e algumas

pelas convulsões do riso.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12) · 第 19 / 36 题