«Eu detesto os heroes todos», disse um dia José Estevão[13]. «Os heroes
são excepções monstruosas da nossa natureza; podemos vangloriar-nos de
vermos os seres da nossa especie exceder as condições ordinarias da
nossa existencia, mas essa vaidosa satisfação custa sempre cara. Os
heroes são uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que dispõem,
em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo:
que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de
mais nobre e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre,
ainda que por diversos modos, os que se esquecem da humildade do berço
commum, ou lhes esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou
lh'a deixa apontada á indignação publica para que os aborreçam.»
[13] Discurso sobre o apresamento da _Charles et George_.
O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina
encarnação do espirito heroico. Simplesmente se illudia e errava quando,
ao analysar o valor d'esses seres da nossa especie, «excepções da
natureza», de que podemos orgulhar-nos, sem duvida, por «excederem as
condições ordinarias da nossa existencia», affirmava, peremptoriamente e
sem reservas, que «essa vaidosa satisfação custa sempre cara, e «os
heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispõem, em proveito
das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e sacrificam
aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.»
Porque a nós, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de José
Estevão,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jámais o
vimos dispor, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da
honra da nação, antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do
proprio sangue e pelo risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E
muito menos soubemos que a providencia quizesse castigal-o, ella que
instantemente nos aponta a sua sepultura, não para a aborrecermos mas
para a adorarmos, ella que da sua memoria fez um culto salutar e
purificador. O ingenuo, desconhecendo a que regiões o genio o erguia e
em que mundos de claridade o trazia combatendo, condemnou o heroismo ao
deparar-lhe com a perversão e tomando-a pelo seu caracter unico e
consequencia. Num desejo vehemente da punição dos seus crimes, esquecia
as virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em
homens d'eleição, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar
humanidade transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a
candidez d'alma o offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos,
passaria na terra agitada de paixões, sem que o heroismo o pervertesse,
e sem que os seus triumphos, que foram magnificos, o cegassem, nem o seu
poder, que foi largo e duradouro, constante, conseguisse degenerar em
vaidade, capricho, mentira, insensatez e crueldade a energia e o fulgor
que só pela justiça se inflamavam e a nenhuma sollicitação de baixeza
jámais responderam.
Para o homem consagrado por instigação da consciencia a uma missão
sobre-humana, por ella sujeito á obediencia e imperio de forças
sobrenaturaes divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu
intimo habitam e o vigiam e regulam em todos os apetites e tendencias,
ora condemnando, ora absolvendo, ora reprimindo, ora incitando, não ha
senão tres soluções da crise moral, em que necessariamente tem de
debater-se ao iniciar da vida consciente e ao escolher caminho entre as
aspirações e as tentações do mundo. Perante os conflictos eternos do bem
e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se os sentiu, ai
d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem repouso
lh'o exige; perante essa interrogação temerosa, sómente tres estradas vê
abertas:
--a abdicação, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade
premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento
absoluto, resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples
contemplação, passiva e paciente, por effeito da identificação com a
alegria do universo, ou na acceitação da dôr, como inexoravel, e
procurando então a salvação em si, descrendo da possibilidade de
modificar a fatalidade e se lhe oppôr;
--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que
só na dissolução do proprio sêr encontrará a paz; e
--a acção, o voto heroico, derivado da confiança e fé na vontade e no
esforço dos homens, a conversão immediata do sonho em motivos de
proceder e tentativa de realisação, para resgatar d'angustias e produzir
na terra a tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.
Ora, entre estes tres modos de sêr, José Estevão, por temperamento, por
educação e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o
involvia, foi dominado pelo arrebatamento heroico.
Nada temeu como a inacção. Foi para elle a suprema desgraça. Em 1852,
fallando de Saldanha e relembrando que havia sido perseguido durante o
seu ministerio, disse n'uma expontanea confissão, e valiosa para a
comprehensão do seu caracter: «Nenhum soffrimento da minha carreira
politica me custou tanto como essa perseguição. Um homisio d'um anno,
não estando bastante compromettido para me resignar aos martyrios d'uma
emigração, não podendo exercitar livremente no paiz as faculdades mais
nobres do espirito, nem cultivar as relações de parentesco e amizade,
instigado pela minha innocencia legal a comparecer deante dos tribunaes,
constrangido pelo pundonor a ser carcereiro de mim mesmo, vendo dos
incertos paradeiros das minhas curtas e enfadonhas peregrinações cair
num mar de sangue a estrella brilhante da revolução europeia, recebendo
e abraçando no meu captiveiro os meus cumplices já absolvidos e
restituidos á liberdade, de que por tal causa eu era o unico privado,
tudo isto compozéra para mim n'aquelles tempos uma d'estas situações
equivocas, fastidiosas e mortificantes, que entristece mais do que as
desgraças profundas e irremediaveis»[14].
[14] Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 115.
O heroe, exaltado na impaciencia d'acção, a tudo poderá sujeitar-se,
toda a dôr e sacrificio poderá acceitar d'animo sereno, menos aquelle
estado de sequestro do mundo e de intervenção nos seus feitos, que
significa a annulação completa de todas as faculdades, a condemnação ao
espectaculo da propria esterilidade, dia a dia sentida e verificada. E
José Estevão, victima docil do seu temperamento e partilhando da sorte
d'aquelles a quem por sua gloria coube igual dote no livro do destino,
não pôde resignar-se com o terror d'esse apartamento violento, para elle
peior do que a morte, porque era a immobilidade junta á constancia da
aspiração, o tumulo sem a paz da inconsciencia. Chorou-o como o mais
angustioso tormento. Desde que, moço quasi imberbe, se armou cavalleiro
na batalha da Cruz dos Marouços, até que a morte o arrebatou, anciado e
ainda quente das pugnas parlamentares, luctou com a rigidez d'uma
tenacidade épica pela justiça e pela verdade, confiado na victoria do
seu reino, que os corações como o seu haviam de estabelecer na terra,
por um trabalho gigantesco, antecipadamente certos de que o triumpho ou
a derrota serão sempre objecto e resultado da capacidade humana e suas
façanhas.
O temperamento heroico não se inocula por artes pedagogicas, por
contingencias do acaso ou por virtude de simples condições externas; ou
uma scentelha inominada e intima o accendeu, ou influencia alguma,
alheia a essa vibração, poderá creal-o. Se José Estevão o possuiu e
d'elle foi luminoso reflexo, é que o trouxe quando viu a luz, ou que
alguma fada lhe bafejou o berço. Esse espirito era seu, propriamente
seu; e foi elle que derramou da sua robusta figura d'athleta a
irradiação de claridade que a engrandeceu.
Todavia, sem embargo, as condições transitorias, se não pódem gerar o
heroismo, podem favorecel-o ou atrophial-o, deixando-o consumir esteril
na inercia e na obscuridade; podem prohibir-lhe toda a expansão,
contrariar-lhe os impetos ou negar-lhe ensejo de se alargarem. E José
Estevão teve a fortuna de vir ao mundo n'uma epoca em que a educação
classica e a exaltação do civismo, provocado pelo ardor das paixões
politicas, se mostraram singularmente propicias a revelar-lhe e
fortalecer-lhe o caracter.
Primeiro, a educação. Nunca houve escola que valesse o humanismo latino
para despertar o ardor heroico. Nem o estudo dos gregos, tão repassado
de philosophia, serenidade e belleza, o poderia supprir para este fim.
E, como todos os portuguezes cultos do seu tempo, José Estevão teve essa
educação unicamente embebida de Virgilio, de Tito Livio, de Cicero e de
Horacio, de feitos de guerra, glorias militares e grandeza civica.
Sahia-se da escola a sonhar com o senado e as legiões romanas,
suspirando pela hora de prostrarmos vencidos os inimigos da patria e
receber entre os applausos das multidões freneticas os louros da
victoria, com aquella intensidade de desejo e commoção que os mestres
nos communicavam facilmente, n'um insensivel e involuntario contagio,
porque em alto grau a sentiam tambem. Durante mezes e annos não se
fallava d'outra cousa; nenhuma se encontrára superior, nenhuma nos
merecera maior admiração, nenhuma constituia aspiração mais nobre.
Mandar nos homens e governal-os para os conduzir á gloria era a suprema
elevação e a mais incontestada dignidade. Ignorava-se, e nem se podia
conceber sem desdouro e pejo, a frieza e scepticismo da educação
requintadamente scientifica. Essa estava reservada para as ultimas
decadas do seculo XIX, embora tivesse origem em reflexões e estudos de
longa data iniciados e adeantados, mas que até então eram qualquer cousa
estranha e sobreposta á vida civica, sem influencia na sua base moral. A
invenção de que o egoismo é uma lei tão real e merecedora de respeito
como o desprendimento, e a cobardia tão natural como a coragem; a
justificação de mil baixezas, outrora julgadas abominaveis e criminosas
e hoje fundadas n'um arsenal de razões physiologicas e psychologicas,
retintas todas de rigor scientifico e com pretensões a verdades
essenciaes; este apuro de impudor e de ascenção da animalidade estupida
e cruel á cathegoria d'um modo de ser normal, a negação do sentimento do
dever pela acceitação plena da fatalidade, seja ella qual fôr,
indistincta; o inteiro quebrantamento da vontade que d'ahi resulta; a
reputação de enfermidade atribuida ao genio, ao heroismo, á santidade,
ao simples escrupulo de bem fazer--isso é moderno. Na verdade, só agora
se propagou com louvor e a contento dos sacerdotes da sciencia e dos
profanos. A educação d'outros tempos, da renascença até ao meiado do
seculo XIX, era nas suas consequencias moraes a admiração da magestade
romana, offerecida como o mais alto exemplo aos moços que entravam na
vida e para ella se preparavam; a concepção pagã da robustez, da força,
da ordem e da justiça, a devoção civica posta acima do preceito
religioso, seriam regras supremas na conducta dos homens. O proprio
christianismo que se lhe interpozéra e a abalára, formava capitulo
áparte, já atenuado nos effeitos mysticos e caridosos pelas formas
conciliadoras da egreja catholica, com tanto de Jesus como de Cesar. A
santidade seria apenas para Deus, objecto d'ermitas, de conventos e
d'almas piedosas; para o mundo, o heroismo era cousa mais de venerar e
seguir. Scipião valeria, pelo menos, tanto como S. Paulo; o borburinho
de togas e de lanças não era menos grato aos ouvidos do que o murmurio
das orações e canticos dos templos, nem se cobiçava menos o capacete do
guerreiro do que o resplendor seraphico; a expansão do idealismo
judaico, com os seus martyres, nem de longe se comparava com o brilho
das guerras punicas e dos seus soldados, dos que salvavam a cidade.
Se do berço trouxera o temperamento heroico, José Estevão deveria
sentil-o vivamente acalentado na escola. Os impulsos da sua natureza
propria e o caracter da atmosphera que encontrava nos primeiros annos,
confundiam-se e completavam-se na uniformidade de tendencias.
Ao mesmo tempo, como que rematando a inclinação ingenita, favorecida e
afagada no periodo de formação e desenvolvimento pelas lições dos
experimentados, excitava-lhe o ardor e chamava-o com desusada instancia
o clamor de luctas politicas. Desde creança o ouvia a aproximar-se, cada
vez mais perto da sua terra. O ensejo era unico, magnifico. Se algum dia
houve paixões politicas na historia de Portugal, foi então. A sêde de
liberdade que inflamou o povo romano, renascia. Convinha que se
renovassem os heroes e os tribunos, que a apregoavam e saciavam.
Reabria-se o forum. Viessem os consules administrar justiça;
Para tão alta empreza se aprestou candidamente o iniciado. Soldado ou
magistrado, eil-o descendo ao campo, prompto ao sacrificio, para morrer
ou coroar-se de louros pela fortuna dos homens e só por ella combater. E
partiu ao encontro de toda a sorte de penas, das feridas de batalhas
sangrentas, das amarguras do exilio, da incerteza do seu destino e do
destino d'aquelles que mais amava, da perseguição, da indigencia e da
fome, e, peior ainda, das mordeduras do odio e da inveja d'aquelles cujo
talento e designios escurecia ou contrariava. E tudo soffreu nobremente,
invencivel na inteireza e força do seu coração, que jámais succumbiu ou
esmoreceu. Um dia, n'uma hora solemne, vimol-o erguer-se no pedestal
d'uma sublimada grandeza moral, cimentado por inumeraveis provações,
para proferir estas palavras memoraveis, em que traduziu a isenção
perfeita que de todo o ultrage o defendia, e a victoria ultima da
consciencia e imperio do dever sobre os aggravos do egoismo e do
orgulho:
«Disseram-se injurias: jogaram-se apedreijos. E eu não ouvi as injurias;
e as pedras nem os vestidos me tocaram. O tempo é do paiz: está
adjudicado ao cumprimento das nossas obrigações. Mas é nosso o sangue
que nos corre nas veias; e a sua primeira hypotheca é feita á nossa
honra.»
Como ouviria o rumor da infamia quem seguia sua estrada levado por uma
estrella de justiça?!... A «paixão do bem publico», que havia de reinar
dentro do parlamento[15] enchia-lhe o peito, e d'elle expulsava todo o
sentimento mesquinho. Absorvia-o. Todas as energias do seu braço e da
sua alma lhe estavam consagradas, porque «os caracteres superiores e os
superiores talentos»--e a esse divino bando pertencia, «são aquelles que
teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como força para propugnar
por ella»[16]. E essa força jámais o abandonou.
[15] _Discursos_, pag. 215.
[16] _Discursos_, pag. 421.
Nem a gloria militar,--e é certo que muito lhe quiz, o desviaria de
servir os homens. A espada havia de ser purificada pelo amor, para que o
seu brilho não se escurecesse em infamia. «Tinha asco á guilhotina e não
tinha consideração pela espada, quando ella serve a violentar os povos,
porque a guilhotina é sempre a ignominia das revoluções, e a espada
muitas vezes o opprobrio dos governos»[17].
[17] _Discursos_, pag. 331.
«Ah! Como são valiosos, como são uma preciosidade moral, uma fonte de
bens ineffaveis, um elemento de disciplina social, um paladio popular,
os caracteres lisos, iguaes, nobres, experimentados em grandes
provações, e superiores aos lances da fortuna! Que ha no mundo que os
possa supprir? Que ha na sociedade que possa desempenhar a missão
d'elles?
«Pois José Estevão foi um caracter d'esta tempera, um homem d'estes
quilates, um cidadão d'esta valia. Toda a sua vida foi uma consequencia
rigorosa da sua composição moral.
«Frequentemente attribuimos á fortuna os feitos dos varões illustres.
Esta explicação dos elogios alheios é suggerida pela inveja. Por tal
expediente, poupamos o nosso amor proprio, e dessimulamos o pezar da
nossa obscuridade. O malogro das nossas tentativas, o desconcerto dos
nossos projectos, o desfavor dos nossos concidadãos, quasi sempre provém
de nós mesmos, e o infortunio contra que nos tornamos, nasce das nossas
proprias culpas.
«José Estevão é uma prova irrefragavel d'esta grande verdade.
Representa, por todos os factos da sua vida, o grande principio da
responsabilidade moral do homem.
«Foi o homem de grande merecimento, d'altas façanhas, de inapreciaveis
serviços, e gosou mais do que ninguem da estima dos seus concidadãos.
Quaes são as causas d'este seu bellissimo sestro? Essas causas estão
todas n'elle; com elle nasceram, e com elle acabaram. Abraçou pela
critica intima da sua intelligencia as ideias que se lhe offereceram
como mais justas á sociedade do seu tempo, e logo se dedicou todo ao
serviço d'ellas, sem mais pensar em vida, affeições e interesses, quando
estas ideias requeriam o seu auxilio e sacrificios. Era d'indole
dulcissima, de coração affectuosissimo, bom sem limites, compassivo sem
restricções, e este mesmo homem era bravo sem alarde, bravo sem
intermitencias, bravo no meio de todos os perigos, bravo no campo, bravo
em conselho, bravo no soffrimento,--quer dizer, sobranceiro nos grandes
males da vida aos tremendos lances d'ella. Que significa isto? Que José
Estevão era um homem de uma condição sublime, que a sua alma era forte,
que o seu espirito era elevado, e a fortuna não dá, não póde dar, estes
predicados moraes, estas supremas excellencias. Se as désse, podia mais
do que Deus, mais do que as raças, mais do que o sangue, e n'esse caso
antes o horror d'uma absoluta incredulidade do que o culto do acaso.
«Mas José Estevão, pela rectidão do seu caracter, pela segurança do seu
juizo, resolveu ainda problemas mais difficeis da politica e de moral.
Foi um partidario dedicado e leal. Nunca faltou aos seus primeiros
comprometimentos politicos. Como homem publico, era independente: como
chegado ao rei, fiel. Trabalhou por vezes contra os seus adversarios
politicos. Foi vencido. Os aggravos d'essas luctas esqueceu-os;
conversava sobre estes acontecimentos com extrema magnanimidade. Tendo
de hombrear pelos seus encargos de homem publico com pessoas de
variadissimas extracções e maneiras, tendo de descer da vida
cerimoniatica e estudada das altas regiões da sociedade para a
convivencia do mundo, livre e por vezes descomedido, conservava-se sem
affectação, lhano e accessivel para todos. Batalhou com a espada, porque
lhe batia o coração. Não emprestou o seu sangue nem a sua bravura. Era
homem convicto e a sua convicção era o seu norte. Entendia a liberdade e
queria-a. Confessava-se seu adepto e sujeitava-se aos seus preconceitos.
Zelava a sua crença mais do que as honras postiças do mundo.
«Pelejou batalhas fratricidas. Doia-lhe o coração de levantar o braço
contra os seus irmãos, mas não o pungiu o remorso de haver feito mal á
patria e á humanidade. Pelejavam de manhã e abraçavam-se á tarde.
Pelejavam como soldados e abraçavam-se como homens.
«Não lhe opprimia a alma recordar uma vindicta politica, um só
assassinato juridico. Respondia por quanto fizéra. E apezar das
contendas desnecessarias, das desavenças pessoaes, de perniciosas
fatuidades, deixou a terra que o creou, regida por melhores leis que
ella tinha quando lhe deu o sêr, e gosando de maiores beneficios do que
disfructara quando lhe foi dado conhecel-a»[18].
[18] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. cit._, pag. 146 e seg.
São de José Estevão essas palavras. Escreveu-as apreciando o duque da
Terceira, quando elle morreu, em 1860. Sómente substitui o nome do duque
pelo do tribuno. Mas que admiravel exactidão na imagem!... Por fortuna
nossa e dos vindouros, o caracter de José Estevão ficou ahi estampado a
primor, e mais do que estampado, confessado com uma sinceridade plena.
Se tão lucidamente o comprehendeu e definiu n'um estranho, foi porque no
intimo o sentiu fundamente; e glorificando os irmãos no ardor civico,
embora pequenos e pobres de recursos a seu lado, com a ingenuidade que é
tambem condição do heroismo, porque a reflexão o enfraquece e lhe é
fatal, mais uma vez colhia e entretecia os louros que lhe coroariam a
fronte. Querendo apenas ser generoso, exaltado na admiração do valor
alheio, fez justiça á sua propria vida.