III

Tenhamos em lembrança a affirmação do tribuno: «Os caracteres superiores

e os superiores talentos são aquelles que teem tanta perspicacia para

conhecer a verdade como força para propugnar por ella».

O espirito heroico, o arrebatamento na acção e a capacidade, inumeraveis

vezes demonstrada, de se lhe consagrar em corpo e alma, não podia

perturbar em José Estevão a lucidez do politico; porque, «caracter

superior e superior talento», lhe era tão prompta a penetração da

verdade como impetuosa a energia de combater por ella. A concepção

politica da organisação do estado e das obrigações dos governos, para o

inteiro dominio da justiça e para o derramamento da felicidade entre os

povos, formava-se e modificava-se no seu espirito parallelamente com a

expansão do ardor civico; e, se este tinha de manter-se inalteravel,

integro, porque de sua natureza era irreductivel, a ideia politica havia

de transformar-se com a experiencia das cousas, porque é por essencia

mudavel e progressiva. Um mesmo sentimento guiava, porém, e conduzia as

visões do apostolo e os planos e arte do homem d'estado áquella altura

em que uns e outros deviam collocar-se para serem todos igualmente

grandes. O heroismo não póde significar a insensatez e excluir o

respeito de condições elementares de prudencia para se tornar efficaz no

bom exito dos seus propositos. Comprehendendo as difficuldades e

restricções impostas á realisação dos seus sonhos pelas paixões que

redemoinhavam por todas as estradas da revolução, cauteloso por

incitamento previdente da propria intensidade do desejo, para evitar os

escolhos da jornada, mantendo o que estava ganho e preparando novas

conquistas, avançando sem comprometter a posse do terreno adquirido,

José Estevão seguiu em toda a conjunctura sua estrella heroica,

transigindo sem abdicar, concedendo e conciliando o impulso da aspiração

com as pressões do momento, sem jámais renegar, antes de continuo

proclamando a sua fé. O opportunismo, quando as circumstancias lh'o

impozeram, foi sómente uma pausa na febre das suas esperanças, retraidas

para se renovarem com maior vigor em ensejo propicio á victoria; nunca

significou fraqueza ou desanimo, e muito menos desprendimento ou

apostasia por exigencias d'um egoismo commodo. Onde o idealismo se

mostrou chimera, absoluta ou transitoria, cedeu, salvando

invariavelmente o que do naufragio podia salvar, com uma dedicação e

coragem indefectiveis. A natural e rara ponderação do seu temperamento

guardava-lhe o heroismo da degeneração em temerarias arremetidas

estereis, e, em meio da exaltação, livrou-o dos perigos que M.me de

Stael apontava como fataes ao renascimento das sociedades europeias

turvadas e em desordem: e assim nem «proclamou os principios d'um modo

excessivamente incondicional», nem, muito menos, «acceitou os factos

n'um espirito d'excessiva resignação com elles».

Só a absoluta ignorancia dos acontecimentos, estreiteza manifesta

d'entendimento ou uma perversão morbida do caracter propenso a

enxovalhar toda a grandeza d'alma e a aviltal-a para a tornar sua igual,

só essa miseria humana poderá achar contradicção entre o revolucionario

destemido, o setembrista valoroso e o soldado da opposição ao

cabralismo, que foi José Estevão, e o deputado, homem positivo e

pratico, chamado a intervir na solução de problemas de mera mas urgente

importancia administrativa, que apoiou, em 1852, o movimento chamado

regeneração,--prompto, de resto, a combatel-o quando e onde se mostrou

funesto, quando, pelo seu lado moral, se revelou o inicio entre nós da

prevista «acceitação dos factos n'um espirito de excessiva resignação

com elles», dando direito de cidade a fraquezas, medradas em volume e

audacia no correr dos tempos até constituirem o deploravel imperio da

corrupção, de que as gerações presentes agora colhem a ruina economica e

a deshonra perante o mundo civilisado.

Quem examinar com attenção, desprendida de preconceitos e suspeitas, as

affirmações de José Estevão, no primeiro periodo da sua carreira

politica, e as reclamações do parlamentar, no momento em que foi

necessario olhar a serio para a restauração e progresso das forças

economicas do paiz, não só immediatamente comprehenderá a diversidade de

objecto que em duas epocas differentes sollicitou a discussão e a

applicação das faculdades do tribuno, mas verá tambem, com uma evidencia

perfeita, a unidade de caracter, superior e integro, que em toda a

situação o manteve no mesmo logar.

O que queria o setembrista?

Queria «uma monarchia feita por nós, levantada nas nossas lanças,

monarchia que tivesse suas raizes no coração do paiz e nos degraus de

cujo throno se sentassem os officiaes da hierarchia social, e não as

raças que a vaidade distingue: uma monarchia bella, generosa e forte

como a juventude, sensata, economica e prudente, como a edade

provecta[19]»: juiz só, a julgar só; um rei só, com ministros

responsaveis, a executar só; um corpo legislativo só, a legislar

só»[20]; «a extincção de todas as aristocracias e a propagação da

unidade social»[21] ; «uma constituição popular; um rei sem arbitrio;

uma representação extensa; uma familia social; nacionalidade segura;

administração sem opprimir; auctoridade com confiança; centralisação com

fóros; justiça com independencia; fazenda regulada; despezas com

economia; tratados com industria; reciprocidade sem perdição; ordem sem

enthusiasmo; e liberdade sem sophisma»[22].

[19] _Discursos_, pag. 90.

[20] _Discursos_, pag. 27.

[21] _Discursos_, pag. 86.

[22] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 70 e seg.

Tudo isto elle queria, e por tudo isto soffreu nas fadigas o nos riscos

dos campos de batalha e nas desoladas amarguras do exilio, perseguido e

odiado por aquelles cujo despotismo nefasto combatia. E tudo isto elle

julgou realisavel, sem muito contar com a multidão de terriveis

fermentos moralmente morbidos, que sempre se insinuam em todo o

movimento politico e contrariam, desfazem e annulam a tarefa d'aquelles

que se propozeram moldar as sociedades em formas de belleza estreme.

O que encontrou foi a desillusão dos seus sonhos, ainda mesmo quando

pareciam ter vencido e estarem prestes a dar ao paiz a fortuna por que

elle anceiava. Imaginára uma perfeição moral e um equilibrio mental á

sua imagem e semilhança, a mesma fé e isenção e coragem, ignorando o ser

d'excepção que no seu peito habitava; e ficava prostrado de dôr, ao

descobrir que esse paraiso terrestre se desvanecia, quando julgavamos

abertas as suas portas, e que não havia modo de banir da nossa

existencia em geral, e em particular da nossa politica, a quéda, o

peccado, a baixeza explorando a generosidado e escarnecendo-a, a

debilidade das resignações forçadas e os assaltos do desalento, um

abysmo entre a aspiração e a realidade.

Nem o seu proprio partido politico escapava ao contagio. Quando veio a

julgal-o, verificou-lhe a impotencia e confessou que «sempre o achára

leal, franco, valente e guerreiro, mas mais inquieto do que

revolucionario, pouco substancioso, muito musical, com muitos hymnos e

com muito pouca disposição de luctar arca a arca, peito a peito, com os

abusos que era do seu dever combater e destruir. Tinha vivido bastante

no meio d'elle, e desgraçadamente via que o partido progressista, quando

ia ao poder, não ia para pôr em execução as suas ideias, mas para

mostrar que não tinha ideias»[23].

[23] _Discursos_, pag. 278.

A desillusão, no pungir do seu golpe, levou-o talvez bem proximo da

injustiça. Porventura atribuiu a inanidade de companheiros

inconsistentes e frouxos o que era apenas a imposição cruel e

indeclinavel dos factos. E estranhou e lamentou, como infelicidade e máu

sestro do seu gremio, o que era desgraça commum aos agrupamentos

politicos e ás cousas humanas.

Mas de todo o desastre cobrava animo. Não se quedava paralysado pelo

extasi de triumphos ou desalentado pelo espectaculo d'infortunios.

Porque ao fim de vinte annos de luctas politicas via reduzidas a

proporções mesquinhas as conquistas do seu sonho, não cruzava os braços,

abandonando o campo a inimigos, mais persistentes e activos na ruindade

do que os bons nas obras de salvação. O abandono poderia ser solução

para ambições ephemeras dos temperamentos vulgares; não o tolera, porém,

o espirito heroico. Emquanto houver a disputar um beneficio, uma esmola,

um lenitivo a tormentos, haverá eternamente motivo de combater. Hoje

bate-se por uma cidade, amanhã por um castello, depois por uma choupana;

hoje desembainha a espada por Deus, amanhã por sua dama, depois pelo

rei, e depois ainda pelo infimo servo: jámais se convence de que o seu

braço possa jazer inerte, deante do si tem continuamente visões que lhe

exigem o esforço.

Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As

liberdades publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes

e mutiladas, tinham finda a jornada, acabando por alcançar nas leis do

paiz os mediocres logares d'uma acanhada victoria. Mais não tinham

podido conseguir, e o resto, aquillo a que debalde haviam aspirado, já

não encontrava paladinos que partissem a disputal-o; de tanta vez

tentado e tanta vez vencido, entrava para os mais timidos e menos

credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno, e com a sua sorte

se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na presença dos

representantes da nação, que «não estava disposto em nome de palavras,

em nome de tradições, a applicar o seu fraco talento e a sua saúde a

revoluções sem substancia, a ministerios sem principios e a coalisões

sem necessidade. Não estava para isso. Isso não era vida para um partido

forte e robusto. Preferia antes reduzir-se á sua pobre e insignificante

individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se

estragam as faculdades e não se faz nada para a causa publica»[24].

[24] _Discursos_, pag. 309.

Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras nações da

Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o pão para o malfadado

povo portuguez, exausto de luctas vãs em que dissipava as forças e a

fazenda; do que se tratava era de pôr em ordem e prospera a casa

arruinada pelos devaneios de correrias politicas infecundas,

restituindo-lhe muitos bens perdidos e acrescentando-lhes o valor por um

cultivo mais esmerado. Pelo correr natural dos acontecimentos, a riqueza

constituiu-se para nós, como para muitos outros povos, o primeiro

elemento de fortuna e grandeza, e José Estevão, não desconhecendo a

situação nem podendo ficar indifferente á atracção d'esse explendido

crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que era

mister para a sua patria render-se ás condições e exigencias da nova

phase do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos quaes

reconheceu arte para edificar o quer que fosse d'uma utilidade

manifesta, duravel e fecunda, entre o marulhar tremendo da corrupção dos

homens e da contingencia das cousas. O soldado tornava-se obreiro,

deixaria a espada pelo alvião; e trocava-se o manto de magistrado pela

blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado. Mas não mudou

nem de logar nem de coração, que sob todo o vestido era o mesmo,

inviolavel; não se turvou a limpidez da energia moral com que manejou

ambos esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situações e

attitudes foi identico a si mesmo. «Estava a desapparecer totalmente»,

disse, «a geração que inaugurára a liberdade na nossa terra. Para os

feitos e para os homens d'esse tempo começára já a posteridade. Á

pressa, no ultimo quartel da vida, procurava essa geração resgatar o

tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando algumas obras que

lhe abrandassem a severidade dos vindouros»[25]. E elle vinha pagar o

seu tributo á redempção com a mesma generosidade com que o pagára ás

illusões. Tambem caíra em falta; justo era portanto que partilhasse

tambem da penitencia.

[25] Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 149.

No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira já que

uma segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do

problema economico e afigurava-se-lhe que «viver d'industria era o

grande pensamento d'aquelle seculo»[26]. E dezoito annos mais tarde, em

1857, pretendia que «os homens de todos os paizes que por diversos modos

estão empenhados na civilisação e no progresso, os industriaes mais

activos e mais emprehendedores que querem vêr postas por obra as suas

concepções... o que teem em conta são governos solicitos, que aproveitem

os paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe

em suas naturaes faculdades»[27].

[26] _Discursos_, pag. 43.

[27] _Discursos_, pag. 319.

Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que

inauguravam a nova era. Louvou a creação do ministerio das obras

publicas e enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. «A creação do novo

ministerio das obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os

cuidados e o prestimo da auctoridade publica. Isto importa a medida do

governo, pois quanto existia na administração publica para promover as

industrias ou abrir communicações era por tal modo desmaselado,

rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer que aquelles

interesses sociaes estavam eliminados da gestão governativa, e entregues

á sua propria força, escassa as mais das vezes para lhes dar uma

existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a

esforços inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de

Lisboa ao Porto é a maior medida que se podia tomar para imprimir nova

vida a esta nação... é o primeiro manifesto de adhesão á moderna

economia das nações»[28].

[28] Artigo publicado na _Revolução de Setembro_ de 2 de setembro de

1852. Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 123.

Da bondade e legitimidade da obra a que José Estevão agora dedicava o

talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, não

tinha duvida. O passado e o presente não se contradiziam,

completavam-se. Um incidente, um novo aspecto, e passageiro, da

administração e da politica nacional,--não era outra cousa a

regeneração; de modo algum prejudicaria a inteireza do sentimento de

quem sem reservas e constantemente consagrára á sua patria todo o

coração. A simplicidade da situação moral era perfeita. E, na carta que

dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro em fins d'outubro de

1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam toda a

hesitação d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima

attitude do setembrista exaltado. «Senhores eleitores», dizia, «não

busqueis por agora em mim o homem politico. Esse não sei se morreu em

alguma das batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no

exilio o pão estrangeiro. Quem se vos apresenta, é simplesmente um homem

ingenuo e um cidadão, que julga ser util ao paiz, encaminhando os

negocios do estado pela vereda que vos indicou, e que se paga de todos

os trabalhos e desgostos da vida publica com a honra de merecer os

vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse mesmo homem, apezar das

suas convicções profundamente democraticas, chega com as suas sympathias

a um dos lados do throno. A ninguem peço venia para esta respeitosa

affectuosidade, porque para todo o homem livre a religião das ideias e a

dos sentimentos são dois cultos independentes e tolerantes»[29].

[29] Vid. Sr. Marques Gomes. _L. c._, pag. 125.

Quando morreu a rainha D. Maria II, José Estevão, n'um dos seus muitos

impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciação das obras

alheias e um exame de consciencia _coram populo_, a justificação do seu

passado e a razão do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe

representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que

n'ella influira tão poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos

encontravamos e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem é de

superior importancia para elucidação da sua vida:

«Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens

crestados da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras,

torturados pelo exilio, e que espalhados na terra que é duas vezes

nossa, uma pelo direito do berço, outra pelo direito do resgate,

conservastes sempre immaculado o dogma, a doutrina, por que tanto sangue

e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia, bem rareada, bem

reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos, e entregar

á nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das nossas

gentilezas... Mas todas estas mortes são glorias, são

triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente

grande, alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade.

Foi-se o legislador e o capitão da liberdade, e a liberdade não pereceu

com elle. Vae-se a rainha a cujo direito dynastico a liberdade se

amparára, e a liberdade fica vivendo na sua propria vida. As

instituições teem entre nós resistido por longo tempo á acção desregrada

dos partidos, á ambição turbulenta dos estadistas, ao desleixo

governativo, ás corrupções desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, ás

exaggerações populares, ás restricções governamentaes. As liberdades

publicas, por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as

prisões, restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de

maior provação esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se

atrevesse a negal-o despejadamente... Mas a morte da rainha é uma grande

admoestação para os partidos. Façamos todos exame de consciencia, já que

Deus nos avisou n'um dos poderes da terra. Os partidos tambem teem

poder, tambem teem vida, e são chamados a contas. É no interior dos seus

archivos, e não sobre a sepultura dos reis, que se faz o inventario das

prosperidades dos povos. Acabou-se já um reinado depois do systema

constitucional, e se foi pequeno para a vida da rainha defuncta, não o

foi para o tempo que costumam passar no throno as testas coroadas. Que

fizemos durante esta epoca? São desenove annos preciosissimos pelos

acontecimentos que n'elles correram, pelas descobertas que durante elles

se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis

emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitámos nós todas estas vantagens,

imitámos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso

seculo? Démos ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar?

Levantámos cada classe á altura a que ella podia subir? Honrámos a

geração a que pertencemos, a nação que nos deu o nome? Responda cada um

a si, responda á sua consciencia que é o mesmo que responder a Deus. E

seja o que temos feito aviso para o que temos de fazer... Estamos em

regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos falta... Um

regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro entre

nós a civilisação sem a qual ellas não podem arreigar-se nem medrar. A

obra é de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo

leal e resoluto»[30].

[30] Artigo publicado no _Campeão do Vouga_ em 17 de novembro de

1853.

A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em

quem encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperança, cada

amargura; em cada passo no caminho da aspiração o assaltam e torturam

desillusões. A candura de José Estevão representára-lhe na regeneração

uma empreza, honesta e chã, de fomento da riqueza, e pelos meios que a

epoca aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida,

deshonesta não era na intenção e lisura com que concedia á miseria dos

homens, á satisfação de muitas das suas fraquezas, aquelle quinhão

indispensavel para que se mantivessem quietas e não fossem impedimento á

realisação de mais altos destinos. Um dia viria, porém, em que, pelo

crescer d'influencias perniciosas, os termos d'esta perigosa arte de

governar haviam de inverter-se; e, depois de se haverem empregado as

fraquezas dos homens em beneficio da nação, depois de se usar a

corrupção para alcançar o bem publico, aconteceria que a nação seria

explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado á

corrupção.

Portanto, errára? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma

voz intima o tranquillisava:

«Folheio os fastos parlamentares, ás vezes sem intuito, ás vezes com o

intuito certo e determinado de procurar esclarecer-me n'uma

questiuncula, de saber um ou outro facto; nunca me dou a estas buscas

que não traga de lá a mais intima, a maior satisfação que póde trazer um

homem probo e um homem de consciencia; acho a minha coherencia, toco-a,

encontro-a, sae-me a cada pagina de cada livro; e eu, tendo uma fraca

memoria de todos os meus actos, respondo pela logica d'elles, porque

confio no meu caracter e na minha consciencia»[31].

[31] _Discursos_, pag. 189.

«Antes da dissolução da camara era equivocamente regenerador. Mas,

depois da dissolução, depois que achei no governo caracter politico,

entidade politica, tenção politica, plano politico, coragem e decisão de

iniciativa, decidi-me e fui regenerador até que a regeneração acabou,

porque hoje essa denominação de regeneração e não de regeneradores, tudo

isso até certo ponto póde servir para fins mas não diz nada»[32].

[32] _Discursos_, pag. 274.

Aproximava-se aquella terrivel «conformidade excessiva com os

acontecimentos» que M.me de Stael promettera e fôra como uma pesada

maldição. Imaginára José Estevão uma transformação politica sem perda do

caracter, o cuidado e zelo dos interesses economicos sem preterição ou

quebra da elevação moral, a riqueza aureolada de nobreza e isenta de

toda a mancha de degradação em sordidez; e o que a situação lhe

offerecia era a dissolução do caracter em proveito de fatalissimas

baixezas, que iam a tornar-se invasoras e absorventes.

Não era isso que elle sonhára e esperára, porque muito nobremente

considerava que «os partidos teem tanta difficuldade em viver como em

envelhecer, mas o envelhecer é uma cousa que custa muito para se fazer

com dignidade. Um partido tem de se sujeitar tambem a esta condição, mas

envelheça com amor ás suas ideias, com amor ás suas tradições e aos seus

principios»[33]. Comprehenderia a necessidade da transformação que o

correr dos annos importava, foi a isso de certo que elle chamou o

envelhecer e declinar; repugnava-lhe porém a apostasia, e contra ella

protestava.

[33] _Discursos_, pag. 275.

Naturalmente, porque em todos os agrupamentos politicos tinha sentido,

juntando-se e atraiçoando-se, a perfidia e a sinceridade, a infidelidade

á causa publica por cobiças deprimentes e a devoção generosa, isenta e

nobre aos interesses da humanidade e do povo, desenganou-se por fim da

virtude dos partidos e confiando ainda no civismo e na rectidão onde

quer que habitassem, afastado da vileza dos bandos mas crendo,

incorregivel, na pureza de consciencias d'eleição, invocava a união e

esforço dos homens de boa vontade para salvação da patria. E na _Carta

aos eleitores_, de 15 d'abril de 1861[34], deixou-nos esboçado este seu

ultimo sonho.

[34] Vid. Jacintho Augusto de Freitas Oliveira, _José Estevão_.

Lisboa, 1863. Pag. 349.

«Para o futuro», dizia, «pertencerei de certo ao partido, que começa a

formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por

tal, que nos inspira sem nós o sentirmos, e que mesmo do berço dirige as

coisas publicas e domina até os homens da mais forte vontade. Este

partido será um producto de todos os partidos que ora existem; ainda com

um nome politico mas sem substancia doutrinal, producto alcançado, não

pelo concerto de individualidades, de coalisões ephemeras, de parcerias

ambiciosas, mas pela trituração da opinião publica, pela acção da

consciencia universal, pela solibilidade das pequenas paixões e das

importancias artificiaes no grande e irresistivel sentimento nacional,

que transforma tudo quanto lhe convém assemelhar, e destróe todas as

heterogeneidades que lhe resistem, ou que lhe não servem. Este partido

não se parecerá em caracter com nenhum dos partidos existentes, nem se

filiará nas glorias de nenhum d'elles, nem será um engenho politico

incapaz d'acção propria e embargante da acção dos outros, em seu gremio

ocioso e solipso, que affaste e maltrate como apostatas todos os que se

não curvam ás suas idolatrias. Este partido será a ligação de todas as

capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a

civilisação do paiz em todas as suas formas. Se este partido fosse obra

dos homens ou a sua creação podésse ser contrariada por elles, talvez se

não fizesse; mas esta ordem de cousas surge, rebenta da nossa situação.»

De desengano em desengano, chegára á condemnação do partidarismo e á sua

expropriação por utilidade publica. Outra cousa não era esse derradeiro

sonho d'um partido totalmente expurgado das doenças que os caracterisam,

a todos, e apenas sublimado nas virtudes que por vezes os nobilitam. A

grandeza da aspiração obcecava-o; e afferrava-se a procurar no mundo o

que sómente dentro do seu peito existia.

Desoito mezes depois de conceber essa ultima chimera, surdo ao rumor

crescente dos interesses mesquinhos e vis em que a visão liberal se

dissolvia, tinha morrido.

Se vivesse, assistiria, não «á ligação de todas as capacidades

prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do

paiz em todas as suas formas», mas á desagregação da grande maioria das

capacidades, determinada pela satisfação da miseria politica em todos os

seus modos. Como o grande capitão da India, «mal com o rei por amor dos

homens, e mal com os homens por amor do rei», José Estevão, incapaz de

abdicar dos principios e aspirações que o exaltavam no anceio d'uma era

politica de bemaventurança, e simultaneamente comprehendendo a

necessidade, por condição humana e imposição da realidade, de tolerar e

conceder direito d'existencia de portas a dentro do forum a paixões que

lhe repugnavam e o incendiavam em revoltas sagradas, choraria

amargamente os novos desenganos que a politica lhe reservava; e, não

podendo conciliar o que é de sua natureza irreconciliavel, mal com as

illusões, rainhas do seu coração, por causa do mundo que ellas haviam de

regenerar e não regeneravam, e mal com o mundo, por causa das illusões

cujo imperio elle havia de respeitar e incessantemente desacatava,

proseguiria na fé dos apostolos e na tristeza dos vencidos.

Naufragio algum o curaria d'illusões. Haviam de renascer, e era justo

que renascessem. Embora não lhes assistisse aos ultimos triumphos,

assegurava-lh'os a crença e a justiça. Das que o possuiram, nascidas

n'um rubor d'aurora e desfeitas muitas n'uma amortecida pallidez de

crepusculo, ficaria na terra um suavissimo rasto de luz. Foram ellas,

essas illusões da epopeia liberal, que, embora se dissipassem quasi

estereis para as garantias da liberdade individual e para o

reconhecimento das liberdades publicas, conduziram ao cumprimento de tão

altos deveres de humanidade, como a abolição da pena de morte, e ao

fortalecimento de tão solidas bases democraticas, como a abolição dos

morgados e o regimen da pequena propriedade, efficazmente protegido pelo

systema de successão e partilha adoptado pelo codigo civil. Não foi

baldado o heroismo dos que por ellas combateram.

José Estevão · 第 19 / 23 题