CARACTER E ARTE

I

Um dos signaes mais evidentes da robustez da compleição moral de José

Estevão e da firmeza do seu caracter, foi a energia com que supportou os

errores romanticos do seu tempo, e de todo se libertou da fluctuação e

fraquezas proprias d'aquella epoca, perigosas para qualquer, e sobretudo

para as organisações nimiamente sensiveis e promptas em responder ao

incitamento estranho, como era a sua. Mas, por um fundo d'austeridade

invencivel, sentiu-as para lhes resistir e não para se lhes render.

N'uma crise em que o principio da liberdade, traduzido na pratica

ordinaria e nos costumes em relaxação e despejo, emancipando de toda a

tutela rigorosa da antiga constituição social, religiosa, politica,

moral e litteraria, facilmente induzia a uma indisciplina absoluta,

obliterando por completo o sentimento do dever e legitimando paixões,

crimes e aberrações, em que a phantasia e não raro a vaidade precipitava

a gente moça, mal precavida de experiencia e reflexão, é maravilha o

poder de sacrificio e o esforço constante d'um homem para fazer

prevalecer na sua terra o imperio da justiça.

A tentação era temerosa. Muitos, aliás de valor, lhe cederam, caindo em

culpas e desgraças que uma atmosphera menos propicia ao desvairamento

lhes teria poupado. A crença romantica encontrava boas razões para toda

a sorte de desordem. Não triumphava a liberdade? Para que

constrangimentos? Era necessario perseguir até á anniquilação todos os

despotismos, os canones da moral como os da egreja, o absolutismo

estreito dos usos e costumes como a auctoridade sem limites dos reis.

Porque não poderia cada um abandonar-se sem peias nem reservas ás

tendencias do seu temperamento, no conceito corrente talvez todas

salutares e, pelo menos, sem duvida todas admissiveis? Não seria até um

erro contrarial-as? Não seria uma violação das leis naturaes e um

aggravo á felicidade humana? Não era do concurso de todas as liberdades

que havia de resultar a harmonia dos homens e o progresso das

sociedades? No espirito de muitos dos seus hallucinados sectarios, a

liberdade não significava a simples abolição de privilegios odiosos e

instituições oppressivas, caducas e corrompidas, para as substituir por

outras que conviessem a aspirações sociaes mais nobres e conformes com a

dignidade humana; era o desregramento, a ausencia de preceito que

interior e exteriormente regulasse e sanccionasse as acções, um

absolutismo de nova especie, o absolutismo da incontinencia. Liberdade

de pensamento, liberdade de cultos, liberdade dos vinculos matrimoniaes

e da familia, liberdade d'acção e até de inacção, de indifferença e

cynismo, exaltações mysticas, egoismos abjectos e cobiças sordidas, para

tudo isso encontraram explicação bastante as philosophias liberaes

d'astuciosa commodidade. Aviltamento e nobreza eram pólos da esphera

moral que iam a apagar-se; já ninguem sabia ao certo marcal-os. Por uma

estranha e nunca vista concessão, as paixões sairam como doidas das

prisões em que as continham encarceradas os espectros de deveres

inexoraveis, e vinham expandir-se á luz do sol, ora em bem, ora em mal,

e sempre impetuosamente.

A litteratura glorificava-as, com uma fecundidade e um esplendor d'arte

deslumbrantes. A litteratura de que Byron foi o summo pontifice, e

portentoso, deixou-nos um testemunho inequivoco e, sem embargo,

brilhante, d'esse estado d'espirito que, se para muitos foi exaltação

merecida, se para a humanidade foi uma crise de renovação e renascimento

necessaria e fertil em beneficios, foi tambem para outros fonte

amarissima de desenganos, de tristeza e desgraça, que tantas vezes se

refugiou na morte, e por todas as nações da Europa determinou,

invariavelmente, conflictos graves e lances perigosos, rematados com

fortuna varia para os destinos dos povos.

Não ha melhor espelho dos factos e das tendencias d'uma epoca do que a

litteratura; nenhum os reflecte tão claramente e, talvez por isso,

porque os expõe na mais transparente lucidez, é ao mesmo tempo effeito

das correntes estabelecidas e causa da sua propagação, moderando ou

accelerando, pela revelação plena do que encerram d'atraente ou de

repulsivo, as tendencias de que andar impregnada. Nem a estatistica, com

a seccura, desligação, insufficiencia e abstracção dos seus dados, nem a

propria historia com as longas narrativas, em que o espirito e

inclinações do historiador facil e ingenuamente favorecem ou prejudicam

a reproducção exacta dos acontecimentos, supprem a litteratura na arte

de guardar integra e perfeita a memoria do estado mental e tendencias

sociaes de determinado momento, collocando-nos em contacto directo com

os caracteres e os feitos, renovando-os aos nossos olhos em movimento e

acção. Ora a litteratura romantica que José Estevão respirou nos

melhores annos da vida, n'aquelles em que mais o podia seduzir e maior

influencia podia exercer na disciplina ou indisciplina do seu coração, a

litteratura romantica, na sua constituição moral, distinguiu-se pela

adoração de duas divindades, que serviu com ardor e brilho

incomparavel:--a felicidade do homem e a natureza. Dos tormentos e

miserias geradas pelo absolutismo oppressivo de todas as actividades e

impulsos que se afastassem dos seus mandados, veio-se, pela reacção

natural dos organismos opprimidos e atrophiados, ao extremo opposto,

passando-se do idealismo da uniformidade ao idealismo da liberdade sem

limites, do abuso da regra á desinvoltura da dissolução; e, para que os

homens se curassem de males e de futuro vivessem felizes, concluiu-se

pela exigencia d'uma emancipação não menos absoluta do que a sujeição

precedente. A natureza! A natureza!... Logar ao seu triumpho e imperio!

Não constrangessem nenhuma das suas energias, e todas as mágoas e dôres

se transformariam em alegrias e riso e força! E viu-se então uma

expansão do genio poetico maravilhosa, unica na historia, pela

fecundidade, pela grandeza, pelo arrojo da ambição e pela extensão dos

horisontes, inflamando e arrebatando os miseros mortaes na belleza de

miragens celestes. O homem, feito anjo e liberto de mesquinhas ligações

d'um mundo decrepito e abominavel, amava livremente, pelas florestas

virgens, pelos ermos e pelas ruinas abandonadas, as mulheres divinisadas

pela paixão e nos seus fachos gloriosamente consumidas; e os cavalleiros

e os santos e os martyres surgiam, por milagre e em exercitos, das

profundezas da terra, armados de coragem infatigavel e sedentos de

sacrificio. Escutasse cada qual a voz intima do seu sangue e do seu

peito, deixasse-a cantar como as aves cantam e obedecesse-lhe, não

temendo convenções nefastas e condemnadas, repudiando todo o mandado e

auctoridade que não fosse a sua propria inspiração; e entraria nas

espheras da mais alta beatitude. Não era assim em toda a natureza? Não

viviam d'esse modo os animaes bravios e as plantas?!... E havia

porventura felicidade que não possuissem, harmonia que não

realisassem?!...

Uma antecipada promessa de perdão incitava ao desmando. A percepção da

necessidade e eternidade d'um principio religioso e moral, dominando as

paixões e subordinando a natureza á consciencia, o que, na verdade, se

manifestou desde o começo d'esse extraordinario movimento, era ainda

frouxa e sobretudo vaga, incerta, ora tentando galvanisar concepções

mortas e sentimentos corrompidos, ora modelando novos deuses sem

consistencia, hoje nascidos e amanhã desfeitos em pó. E nas ondas

incessantes d'esse tumulto perdiam-se sem norte e sem bussola almas

nobremente e generosamente dotadas, resvalando em abysmos infernaes, com

uma inconsciencia digna de melhor destino, facil preza da embriaguez e

do vicio, endoidecidas na propria sinceridade e arrastando e

prostituindo por logares infames a pureza d'altissimas aspirações.

Deveriam ter sido legião as victimas obscuras, perdidas pelos caminhos

errados e fataes que a liberdade romantica lhes abria e apontava, ella

que, de facto, e involuntariamente o mais das vezes, nenhum prohibia

como criminoso ou arriscado e indigno. E o perigo de tentação era tanto

mais grave quanto era certo que, na atmosphera revolta do romantismo, o

mundo mal acautelado contra a distincção de limites em que é licito

moverem-se os mortaes communs e os sobre-humanos, prostrado d'assombro,

semi-louco e em delirio d'admiração e imitação, via erguerem-se a

alturas ignoradas, n'uma aureola fascinante, os genios que, quem sabe?

valeram talvez as centenas de victimas ignoradas que custaram, para dar

á humanidade exemplo da sublimidade em que a nossa alma é capaz de

exaltar-se.

Foi do meio d'esta confusão terrivel que Portugal viu levantar-se,

proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia

o que queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o

coração, o pensamento e o braço, a vida inteira, consagrada ao dever e

n'elle consumida, por sua honra e nosso orgulho.

Como revelação do caracter de José Estevão, essa attitude, cuja

soberania a nação reconheceu pela auctoridade que conferiu ás suas

palavras e pelo respeito que lhe votou, é decisiva e, em certo modo,

quasi milagrosa. A sensibilidade de José Estevão e a riqueza das suas

faculdades, até uma sensualidade manifesta[12], deveriam determinar um

extremo pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um

enfraquecimento de vontade funesto á energia d'acção e tenacidade de

proposito e emprehendimento. A pujança do temperamento explicaria e

desculparia hesitações e tibiezas, o abandono a impressões passageiras,

traições frequentes á fé jurada em espirito ou em palavras, desvios e

tergiversações. A sua vida, porém, pela constancia inalteravel no

combate e nas aspirações, demonstrou-nos a fixidez d'uma attitude

radicalmente opposta a fluctuações e desmandos ou desfallecimentos.

[12] «Batido o exercito constitucional e dissolvida a Junta do

Porto, o batalhão academico, como todas as demais forças fieis,

seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza no dia 6 de

julho (1828). José Estevão fez toda a marcha quasi sem dinheiro, sem

roupa e sem calçado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite

deu-lhe uma das duas unicas camisas que levava. José Estevão levára

comsigo um pequeno cordão de oiro, talvez uma recordação de familia;

mas em Lobios desfez-se d'elle, não para occorrer a alguma das suas

muitas necessidades de occasião, mas sim para satisfazer a sua

gulodice (pois era e sempre foi muito guloso), para comprar _gemas_.

Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes _gemas_, basta

dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia então por 600 réis

uma brôa de pão de milho que poderia valer 100 réis.» Snr. Marques

Gomes, _José Estevão, Apontamentos para a sua biographia_. Porto;

Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.

N'este ponto, José Estevão não foi do seu tempo. Foi mais longe do que o

seu tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a

capacidade do idealismo militante e praticamente efficaz que entre as

ruinas do passado, o naufragio das crenças e a inundação d'um

scepticismo, refinadamente epicurista e moralmente desdenhoso, apenas

germinava e só de rarissimos eleitos era apreciado, sentido e querido. A

grande maioria de homens cultos e dos talentos consagrados estava longe

de suspeitar as affirmações vigorosas e triumphos resplendentes com que

no final do seculo XIX a renascença idealista seria coroada pelo estudo

paciente da historia, pela penetração da estructura psychologica das

sociedades humanas e das suas condições fundamentaes, e pela consequente

creação de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos,

deslumbrando e convencendo, graças á desusada formosura das suas obras,

e convertendo á adoração de novos altares, cheios de luz e mansidão,

pelo ardor communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa

resurreição de Lazaro, doente de descrença e perversão, das feridas de

luctas e calamidades que irremediavelmente tinham d'acompanhar a

revolução, José Estevão foi, na verdade, um precursor abençoado,

alimentando-se na fonte em que as almas enfermas se curam e as sãas se

fortalecem para superiores destinos.

José Estevão · 第 17 / 23 题