VI

Não era dado ao politico ignorar um movimento de semelhante magnitude,

nem o apostolo fervoroso da democracia poderia deixar de o ver com

sympathia. E José Estevão sentiu-o profundamente.

Outros aspectos da transformação politica do seu tempo lhe teriam

offerecido ensejo de maior brilho para a eloquencia e de valoroso

esforço para o seu braço. Nenhum todavia lhe despertou do peito palavras

mais sublimadamente repassadas d'amor pelo povo e de fé na sua

libertação.

As victorias da burguezia em Portugal assumiam um caracter muito

differente do que tinham na Inglaterra e na França, paizes que nos

inspiravam e procuravamos imitar, fazendo-o por desgraça muito mal.

Embora a diversidade de condições seja evidente, convém apontal-a n'este

ponto e não a esquecer, para uma justa apreciação do pensamento de José

Estevão, para avaliarmos até onde podia avançar sem exaggero ou erro,

provenientes do desconhecimento das circumstancias proprias do paiz. Não

havia para nós questão das grandes industrias nem a sua cauda obrigada

de proletarios; nem a pobreza da nação a consentia, nem tão pouco a sua

iniciativa e inventiva em materia de transformação mecanica a provocava.

Debalde procurariamos qualquer cousa que se assemelhasse á ruina dos

teares manuaes e á conversão da officina domestica em grande fabrica,

pondo d'um golpe milhares de familias na indigencia ou, pelo menos, na

dependencia anonyma, sem dó nem piedade, de gigantes capitalistas

terriveis e phantasticos, que se não viam e todavia tudo ordenavam;

debalde esperariamos as multidões amotinadas que a desgraça recrutou e

desvairou em odios e ameaças. A exiguidade de forças economicas

livrar-nos-ia das tormentas que a abundancia levantava entre os

poderosos do mundo industrial.

Mas nem por isso deixavamos de sentir a repercussão do movimento,

amesquinhado e aviltado pelo atrazo e miseria nacional; nem por isso,

por sermos pobres e incultos, deixavamos de vêr a burguezia triumphante,

a substituição de classes no governo politico, na posse dos bens e em

toda a extensão do dominio social, o clero e a aristocracia, ha pouco

senhores absolutos da nação, preteridos e excluidos por seus antigos

dependentes e por homens vindos de profissões até então alheias aos

encargos e honras de mandar nas cousas publicas. Á falta de fabricas que

explorassem o trabalho humano e o reduzissem a pura mercancia, tinhamos

a usura a cevar-se na ruina dos que pela nova ordem iam decaindo; e, não

havendo grande conquista a fazer nos despojos das classes expropriadas,

contentavamos-nos com o assalto aos bens dos conventos e com uma cobiça

selvagem de honrarias, julgando que, por transpôr a chaparia das fardas

dos fidalgos para as rabonas dos plebeus, isso bastava para que as

insignias trouxessem de prompto, a quem as usasse, nobreza e imperio.

Tinhamos a questão da terra e dos modos de a possuir e usufruir, os

morgados e os foros, libertações que degeneravam em oppressões,

emphyteutas que passariam a rendeiros, sem estabilidade, á mercê da

incerteza da hora presente, tirando das fadigas muito estrictamente o

pão de cada dia, que o resto era para o proprietario ou para o

prestamista, ávidos, ricaços de fresca data, destituidos d'aquelle

desinteresse e largueza que a diuturnidade da posse dava a antigas

linhagens, como um fastio em que andavam saciadas, insensiveis ou

indifferentes ao gozo dos bens. Tinhamos uma aristocracia territorial a

desfazer-se pelas proprias dissipações e pelas guerras civis,

offerecendo presas opimas ás astucias sordidas da avareza. Tinhamos o

bandidismo de varia especie que invariavelmente segue as calamidades de

toda a sorte, a fome, a peste, a guerra, o incendio e o naufragio.

Tinhamos a desordem das finanças do estado, continuamente afflictas por

soccorro, um erario faminto, exgotado pelas luctas civis e pela ausencia

d'administração proveniente da instabilidade dos governos, facultando

assim ao capitalismo estrangeiro e indigena um banquete facil e commodo,

permittindo explorar em globo, pelo mecanismo dos impostos e pela

coacção concomitante da força publica, o suor de toda a miseria

nacional[10]. Tinhamos finalmente, como nas demais nações em

conflagração, a questão da repartição e lançamento dos tributos,

onde claramente se definiriam todas as tendencias, thermometro seguro,

então, agora e em todos os tempos, das iniquidades na distribuição da

riqueza entre as diversas classes e da justiça ou injustiça com que

entre ellas são julgados os direitos e deveres de cada uma em face do

producto do trabalho commum. Se nos faltava uma burguezia industrial

opulenta, abundavam os sentimentos que em outros logares a

caracterisavam; e aqui tambem, esgravatava-se, ás migalhas, em montes

d'esterco, o que algures se apanhava, aos punhados, em montes d'ouro.

[10] «A agiotagem tem invadido todas as repartições publicas, e

procurando elaquear todos os poderes do estado, já se atreveu a

entrar no palacio, e a atacar as prerogativas da corôa, pedindo a

conservação de ministros!... Os publicistas dividem os poderes a seu

bello prazer, e marcam a sua independencia, como se tivessem sobre

elles senhorio absoluto; mas quantas vezes as nomenclaturas e as

extremas, que se acham nos livros, se baralham e confundem no trato

mundano. _Os poderes_, diz a constituição, "_são o judicial, o

legislativo, o executivo, e todos elles são independentes em suas

funcções_". A despeito porém d'esta determinação, os acontecimentos,

ora roubam a efficacia a taes poderes, ora os reunem em uma só mão,

ora os fraccionam e multiplicam, porque o poder é um facto, que

subjuga e conquista a vontade da lei e a doutrina dos sabios. Ha

entre nós um poder, em que a constituição não falla e para cuja

independencia não providenceia; entretanto elle é o maior que

conhecemos; refiro-me ao poder agiota. Tem-se elle ligado ao poder

legislativo, e esta terrivel accumulação vae-nos sendo fatal. É

preciso separal-os, quanto antes.»

José Estevão, _Discurso sobre o orçamento do estado_, em sessão de 8

de junho de 1839.

Perante esse tumulto de vilanias, José Estevão não descreu todavia de fé

individualista. Seguindo a estrella d'altissimos espiritos do seu tempo,

esperou tambem da generosidade do coração o termo de males que

impensadas liberdades amplamente provocavam. Discutindo o incidente das

irmãs de caridade, dizia: «Quantas terras, quantas povoações

importantes, quantos centros de população não carecem de hospitaes

precisos, não para acudir a epidemias, porque esse é o extraordinario

das miserias humanas, mas para acudir ao movimento das doenças

ordinarias? E isto emquanto que em outras povoações se accumulam

instituições riquissimas, que gastam uma grande parte dos seus

rendimentos em faustos, pompas e luxos religiosos, ou se consomem por

abusos administrativos de confrarias, aonde não é possivel metter luz,

emquanto que em outra parte os doentes agonisam, não faltos de remedios

mas faltos d'agasalho! Acontece isto, quando em outra parte a velhice,

extenuada pelo resultado do trabalho domestico, pede esmola, sem haver

um estabelecimento que lhe abra as portas no ultimo quartel da vida; e

quando em outras das nossas povoações vemos chusmas de creanças de ambos

os sexos, pedindo a instrucção e o agasalho que se lhes não dá, havendo

aliás n'essas povoações casas aparatosissimas, destinadas para tratar

outras miserias estabelecidas com o maior luxo, e sem se fazer uma

distribuição equitativa da caridade por todas as miserias da vida

humana». E em 1839, quando discutia o orçamento do estado, «no seculo em

que os agiotas são potentados, no seculo em que as fortunas publicas e

dos estados lhes andam nas mãos», segundo a sua propria expressão, tão

fiel e exacta pela verdade historica, revoltava-se contra essa

preponderancia sordida e seus manejos, dizendo: «Se ellas (as leis da

usura) estão revogadas pelos poderes da terra, ainda estão vigentes para

as almas nobres, e eu hei-de ser sempre anachronico nos sentimentos de

indignação que voto á classe que trafica com a miseria e com o suor dos

seus semelhantes».

Estas passagens são elucidativas; valem um largo compendio para a

revelação do pensamento de José Estevão em pontos capitaes do mecanismo

economico. Afiguravam-se-lhe attribuições das misericordias e institutos

de beneficencia os deveres que hoje reputamos obrigações elementares do

estado organisado n'uma base de justiça--«a velhice extenuada pelo

trabalho domestico», «chusmas de creanças pedindo a instrucção e

agasalho», «uma distribuição equitativa da caridade por todas as

miserias da vida humana». Seria obra de corações bem formados o que

agora se reputa simples direito de todo o elemento organico da

communidade. As leis da usura vigoravam sómente «para as almas nobres»,

e pareciam votadas a estes reinos sem esperarem, como hoje esperam onde

não o conseguiram já, que as leis do estado as estabelecessem,

determinando a distribuição e uso do capital. Dominava o individualismo;

e o tribuno, embora o sentisse cruel, quereria moderal-o respeitando-o,

corrigil-o por forças estranhas, sobretudo moraes, que não offendessem o

principio essencial. De certo por amor á liberdade, fanatico das suas

victorias, não ousava encarceral-a n'uma organisação juridica severa,

para que ella não opprimisse os desgraçados e lhes deixasse no mundo o

espaço que lhes competia, e lhes era indispensavel á saúde physica e

moral.

Mas não o cegava tão completamente a fascinação do liberalismo

utilitario,--appressemos-nos a reconhecel-o, que o apostolo das mais

puras aspirações não previsse com sympathia calorosa e lucida tempos

novos, annunciando uma outra liberdade, quer na vida dos estados, quer

na vida individual, unicamente legitima emquanto não offendesse a

equidade e a justiça. Presentiu-os e desejou-os. Claramente o dizia aos

discipulos, nas lições d'economia politica do seu curso: «Em vez do

congresso da paz socialista, houve batalhas sociaes. O periodo da sua

realisação affasta-se, mas o seu apparecimento não é menos urgente:

ha-de chegar um dia, e será aquelle em que raiar o verdadeiro progresso

para o mundo e em que os principios christãos ascenderem á sua

verdadeira altura. E de passagem diremos que não nos cumpre classificar

d'utopia senão o estacionamento». A infiltração da crença socialista é

manifesta; estava n'ella «o verdadeiro progresso», e identificava-a já,

como de futuro se identificou, com os principios christãos. A agudeza

d'espirito, exaltada pelo amor, descobria-lhe, n'um relance de

illuminado, as fundações religiosas e moraes d'aquella grande aspiração

politica. E, passando a definil-a e exemplifical-a em pontos de execução

pratica, acrescentava: «A nossa população tem subido a quatro milhões de

habitantes, e cresceria mais se se removessem os obstaculos que impedem

o seu desenvolvimento. Se os morgados fossem abolidos; se o credito

fosse assentado nas suas verdadeiras bases, ampliado, estendido e

applicado á terra; se aclarassem os meios de posse territorial; se se

reforçassem as hypothecas; se se desse á terra amparo contra as argucias

forenses que se levantam para pôr em duvida posses sanccionadas pelo

tempo e trabalho, de certo que a nossa população cresceria rapidamente».

A apreciação do valor da pequena propriedade advinha-se n'essas breves

palavras; e quem tanto a amava, anceiando por lhe facultar caminhos

novos e garantias solidas, e não ignorando o que ella representa na

consolidação das sociedades democraticas, fazia por aquelle modo uma

profissão de fé politica, não menos nobre nem cathegorica do que as

demais que firmára nos feitos militares e nos impetos da eloquencia

parlamentar.

É, porém, na discussão do lançamento dos impostos que José Estevão mais

particularmente accentua a sua comprehensão dos problemas economicos; é

ahi que com mais vigor se insurge contra as iniquidades que, apezar de

reformas politicas, da carta constitucional, do parlamento, do direito

de voto e mais formulas e exterioridades liberaes, mantinham de pé, se é

que não as aggravavam, oppressões e servidões, annulando de facto por

completo os beneficios da mudança de regimen. «A minha reforma

politica», declarava, «consiste na revisão de todos os tributos, não só

antigos, mas dos ultimamente lançados, para de todos se formar um

systema pelo qual se possa distribuir a contribuição com igualdade; e as

contribuições novas que eu votei, e ás quaes reitero o meu voto, não

formam ainda um systema completo e perfeito, porque o resultado é que a

contribuição não tem attingido, já não digo a igualdade possivel mas a

igualdade toleravel, porque os pequenos martyrios que os homens

desvalidos, os homens do povo soffrem, são muitos, são immensos, e é

necessario procurar dar remedio a esses males». «Detesto», disse em

outra occasião no parlamento, «acho repugnante, altamente injusto,

radicalmente anti-democratico e desigual o imposto indirecto». E, entre

as apostrophes eloquentes que o apresamento da _Charles et George_ lhe

inspirou, veremos irromper aquella condemnação do parasitismo, que

sempre lhe vinha de prompto aos labios no fervor constante do desejo

d'um mundo novo ungido de justiça: «Não ha nações morgadas, assim como

não póde haver familias morgadas. A humanidade não cabe no mundo, nem

com o seu numero nem com as suas aspirações. E esta verdade, que é hoje

experimental, impossibilita a existencia da propriedade territorial,

inculta e descuidada, seja nas mãos dos individuos ou na mão dos povos.

O trabalho é o principio e complemento de todo o direito de possuir».

Tal era a conclusão a que o levava o espectaculo de proprietarios

ociosos na abundancia, guardando, improductivos, bens valiosissimos,

perante as plebes ruraes, indigentes á mingua d'um pedaço de terra do

qual tirassem o pão. Convencido por este exemplo, por esta ordem de

factos economicos, de que o trabalho era o principio de todo o direito

de possuir, tanto lhe bastaria para que, pelos impulsos logicos do

espirito e ainda mais pelas inspirações do seu coração, viesse a tirar

d'esse principio as consequencias que contem, applicando-o a muitos

outros e complexos phenomenos, encaminhando todos a resultados communs

que a evolução politica dos estados civilisados vae gradualmente

traduzindo. Na confusão das ideias do seu tempo n'esta materia e nas

circunstancias do paiz em cuja administração era chamado a intervir,

anarchico e pobre, alheio por isso aos tumultos proprios dos jorros

abundantes da riqueza, que em nações adeantadas constituiam

simultaneamente a extrema fortuna e angustias oppressivas, José Estevão

não podia na realidade avançar mais do que avançou na aspiração

socialista. Mas, sem embargo, a visão da nova era mostrou-se-lhe em todo

o esplendor, e tinha-o rendido ás suas seducções.

De resto, a tradição da vida particular de José Estevão confirma as

confissões da vida publica sobre o modo por que concebia a sociedade

democratica. A igualdade que reclamava nas leis do estado, a

illegitimidade de que accusava a propriedade inculta ou sequestrada em

morgadio, o respeito do trabalho como principio unico da posse, a

aversão a impostos indirectos que sacrificam os miseraveis e poupam os

ricos, todo esse novo regimen juridico que no pensamento se lhe ia

esboçando, ajustavam-se no trato ordinario a uma inclinação permanente a

conviver e familiarisar-se com operarios e gente humilde. Em Aveiro essa

tendencia ficou memoravel, e quasi constituiu uma escola de nivellamento

social de todas as classes e condições, que ainda hoje dá um aspecto

singular á vida quotidiana da cidade. Aquelle homem que era temido e

querido entre os maiores da sua epoca, burguez de nascença, filho d'um

medico e neto dum official publico, bem cedo fidalgo consagrado pelo

talento, pelo caracter e por uma distincção irresistivel, acolhido na

aristocracia da capital com affecto e summo respeito, como se lhe

pertencesse pelo sangue, ou ainda mais, esse homem a que por tantos

motivos poderia perdoar-se a vaidade e o orgulho, victorioso de tantos

combates, apetecia o convivio dos mais pequeninos e n'elle se deliciava,

dão direi sómente accessivel á gente do povo e á de toda a condição, mas

procurando-a e amando-a, atraido por um poder de sympathia intima e

plena. Estou mesmo bem certo de que a razão principal da sua

popularidade em Aveiro foi mais este reconhecimento instinctivo dos seus

sentimentos intimos do que a admiração do seu genio, cuja grandeza

escapava ao vulgo. Foi amado, porque amava.

José Estevão · 第 13 / 23 题