Monarchico e catholico, partidario e defensor de formas de constituição
politica, religiosa e social que representam grave desigualdade e graus
infinitos de hierarchia; por outro lado e ao mesmo tempo, empenhando-se,
sempre apaixonado, em assegurar nas leis do estado os direitos
populares, sobretudo aquelles que, conferindo ás classes trabalhadoras a
independencia economica, mais solidamente lhe outorgam a unica base
efficaz de soberania e igualdade--José Estevão parecerá, a quem quizér
esboçar o systema das suas ideias, contradictorio ou fraco, sem coragem
de levar ás ultimas consequencias os principios que professava, ou
negando-os repetidas vezes pela acceitação de principios oppostos, em
relações essenciaes da communidade politica. Contradicções e fraquezas
d'esta natureza, se as tivesse, justifical-as-ia plenamente o seu tempo.
Justificava-as uma epoca em que não era facil determinar o quinhão do
passado e o das aspirações do futuro em toda a extensão da mentalidade
humana. O passado não fôra arrazado totalmente, e, pelo contrario, ao
fim de diversas tentativas e experiencias, mostrava-se indestructivel e
vantajoso em muitos dos seus elementos, o que perturbava as energias
reformadoras; e o futuro não lograva apresentar-se tão isento de sombra
e duvida que fosse possivel conceder-lhe sem hesitação ou exame, de
coração leve, quanto elle pedia.
Mas, para comprehendermos a attitude politica de José Estevão nos
diversos aspectos que apresentou, não carecemos de recorrer á invocação
do espirito de incerteza e fluctuação que a vitalidade e respeito das
tradições, em conflicto com os impulsos revolucionarios, communicava á
maioria das nações da Europa. Reflectindo, acharemos que a concepção
politica de José Estevão era, na verdade, coordenada, sem atraiçoar a
boa logica ou prejudicar o caracter, e muito menos sem os devaneios
romanticos de radicalismos que a destituissem de efficacia e capacidade
pratica. A historia encarregou-se de mostrar até que ponto a mais alta
elevação do sentimento politico póde coexistir com um opportunismo
attento e flexivel, mas no fundo incapaz de corromper-se, sejam quaes
forem as transigencias a que o pendor e instancia do momento possa
coagil-o. O desenvolvimento e victorias successivas e progressivas do
socialismo moderno nas monarchias da Belgica, da Allemanha, da
Inglaterra e d'outros paizes, confrontado com movimentos parallelos nas
republicas, quer da Europa, quer da America, tem-nos dado e continua a
dar-nos abundantes e elucidativos exemplos da possibilidade de
coexistencia da realisação de radicalissimas aspirações sociaes com
instituições politicas e religiosas obsoletas, muitas condemnadas, e
quasi todas n'um declinar de popularidade que as ameaça de morte. A
observação dos factos, já longa e variada, inclina antes á demonstração
de que a emancipação politica e religiosa dos povos, a transferencia
plena da soberania para os elementos activos das nações e a libertação
de todo o dogmatismo, para serem duradouras, estaveis e beneficas em
toda a extensão, necessitam de ser precedidas de constituição social
adequada. O primeiro passo na conquista das liberdades democraticas será
a conquista do pão, como um direito e não como uma esmola. Sem isso, a
oppressão e a tyrannia jámais se afundam; e medram, ou sob mantos
d'arminhos ou nas casas fortes do capitalismo republicano, ou se chamem
_trust_ ou se intitulem czar. Quem sabe que desillusões não nos prepara
a lucta terrivel do imperialismo e da democracia?! Quem póde
assegurar-nos que um novo cesarismo não vae avassalar o mundo?!... Não
se estará gerando um novo dragão d'esse consorcio infernal do
capitalismo e dos armamentos monstruosos? E, se elle vencer, que doçura
e supremo bom senso não coroará a memoria d'aquelles, como José Estevão,
que por vezes nos teriam parecido hesitantes e timidos, sómente porque
uma agudissima sensibilidade, revelando-lhe a justiça intima das cousas,
os livrou de cair em extremos?!...
Paraphraseando o lema d'um agitador notavel da Inglaterra[11], que se
insurgiu contra o egoismo industrial do seu paiz, talvez não nos
affastassemos muito da verdade resumindo em tres palavras a concepção
social e politica de José Estevão:--O altar, o throno e a choupana.
Inspirado pelo deslumbramento da gloria do passado e pela sua força e
opulencia, ao mesmo tempo exaltado por uma febre de justiça que não lhe
deixava repouso emquanto não a visse triumphante, vibrando d'indignação
perante toda a vilania, teria sonhado um estado de trabalhadores
vigorosos, e sãos e dignos, na plenitude de bens do mundo e da
consciencia, coroada a fortuna d'essas communidades felizes por um
governo e por um culto resplendentes de magestade e nobreza. Porventura
quereria que á elevação do sentimento correspondesse a grandeza das suas
manifestações exteriores e a symbolisasse, na sumptuosidade e nos ritos,
nos palacios, nas magistraturas e nos templos, satisfazendo necessidades
indeclinaveis do coração humano.
[11] Oaslter.
De sua natureza mudaveis e sujeitas a infinitas contingencias, importam
todavia muito pouco as concepções politicas, em face da sublimada
inspiração moral que inflamou o genio de José Estevão e dominou todo o
seu ser. «É mr. Lamartine,» disse elle, «um poeta que carpiu todas as
miserias da humanidade, que exaltou todas as suas glorias, que excitou
todos os seus melhores instinctos, que levantou a coragem dos povos, que
acalmou as suas demasias, que suspendeu com a sua palavra todas as
paixões revolucionarias da França; esse homem cuja composição moral e
intellectual é no meu presentimento como o simulacro da fortuna politica
e dos futuros governos da Europa...» Era assim que José Estevão,
julgando pintar a physionomia alheia, traçava fielmente a propria
imagem, e, honrando o nome estranho, entretecia a corôa de gloria que
convém á sua propria fronte. Disse, felizmente, a sua eloquencia o que a
nossa adoração seria incapaz de traduzir. N'essas curtas palavras,
legou-nos um retrato precioso.
Procuremos agora observal-o com a pausa e carinho que um sentido culto
exigem.