IV

Pelas proximidades de 1830, a França, na anciedade de descobrir formulas

politicas que lhe dessem riqueza e paz, inclinára-se, consciente ou

instinctivamente, ás doutrinas de Montesquieu; ia reconhecendo pela

imposição dos factos que o clima, a raça, a situação geographica, e

sobretudo as tradições historicas de cada nação são forças activas e

invenciveis no modo de ser politico dos povos. Ás abstracções da

revolução oppozera-se a ideia de patria e o sentimento nacional,

differenciando e limitando, e dividindo o mappa do mundo em

circumscripções diversas de caracter e d'interesses. Ai da fraternidade

dos povos! Descobriram-se razões para justificar o egoismo das

collectividades. Mas tambem, em meio da fortuna varia do liberalismo e

da reacção, atravez de periodos longos de dictadura e absolutismo,

firmára-se a confiança em moldes novos de constituição politica;

acceitava-se em principio a igualdade dos homens e em larga escala se

traduzia nas leis civis e politicas, assentes d'ora avante em bases

juridicas repassadas de philosophia do liberalismo humanitario. O

compromisso entre o passado e o futuro, entre os factos e as aspirações,

ia estabelecer-se por uma partilha de dominio, o mais das vezes

arbitraria, que era uma tregua e não uma solução do conflicto.

Em Portugal seguira-se caminho parallelo ao que em França conduzira

n'essa epoca á monarchia constitucional,--bem entendido, n'aquella

reducção e larga distancia que nos designava o grau da nossa civilisação

comparada com a civilisação franceza. Tambem nós haviamos conhecido os

esplendores e decadencia do regimen absoluto, a fome e miseria que a sua

corrupção importára, egoismos sordidos e imbecis de padres e reis e

aviltamento das plebes trabalhadoras na servidão e na lisonja, illusões

breves do doutrinarismo liberal e a reacção immediata a poder de forca e

enxovia, luctas civis, e finalmente a victoria dos partidos

revolucionarios, desenganando do que o passado não podia subsistir tal

qual fôra e estava irremediavelmente condemnado perante novas

aspirações. Em 1836, quando o exito de sacrificios prolongados e

batalhas sangrentas assegurou o dominio dos liberaes, tudo nos conduzia

a adoptar a forma do governo estabelecida em França, seguindo-a passo a

passo, nós que de resto, então e depois, nunca procurámos nem tivemos

outro modelo e mestre, embora sempre lhe comprehendessemos mal as lições

e não raro deixassemos cair a imitação em aleijões. Não temos de que nos

surprehender quando em 1837 encontramos José Estevão, eleito deputado

pela primeira vez, a fazer na camara a sua profissão de fé n'estes

termos: «Eu amo os thronos, porque vejo n'elles um principio innocente

na organisação social, julgo que todos os damnos que teem feito não vem

d'elles, mas do modo de os constituir, do erro de os cercar de direitos

terriveis que lhes são funestos».

Este respeito da constituição historica, temperada pela insinuação dos

novos principios philosophicos, acompanhal-o-á em toda a carreira

politica, corrigindo com igual firmeza, invariavel, os impetos

demolidores e as resistencias d'uma reacção obtusa e hirta, incapaz por

natureza de sair das formas mortas em que se refugiava. Em 1839,

definindo e justificando a sua attitude, dizia: «Eu sou um homem de

principios; reputo em muito valor este meu brazão: n'elle se cifra todo

o meu orgulho. Para os homens de principios ha uma grande vantagem,

n'elles a ambição não é um vicio mas um pensamento, não é ambição

pessoal, mas é desejo sensato de os vêr triumphar. Eu sou um homem de

principios, (repito) mas reconheço que todos os principios estão

sujeitos ás conveniencias publicas, e que todo o homem que tem

principios entende que é do interesse d'elles submetter-se prudentemente

ás circumstancias sem deslumbre de sua posição». E em outra passagem

esclarecia assim o conceito: «Qualquer doutrina, por mais justa que

seja, sendo invariavelmente seguida nos negocios publicos, ha-de dar

pessimos resultados e comprometter as suas proprias exigencias; ha-de

assassinar a moral em nome da moral, e sacrificar a palavras a

prosperidade publica; tal doutrina importaria uma oppressão tyranica

sobre os factos, sobre os homens e sobre as cousas; seria finalmente um

fatalismo politico, mil vezes mais pernicioso que o fatalismo

philosophico». Onze annos depois, discutindo no parlamento o censo

eleitoral, de novo reconhecia a impraticabilidade e utopia do

radicalismo, ou reaccionario ou reformador: «O congresso sabe que eu sou

partidario do voto universal; o voto universal é um grande principio, é

uma grande esperança, é base de todo o futuro europeu, base em que vão

parar todas as constituições, senão pelo seu estado politico, ao menos

pelo seu estado economico: é impossivel recuar da tendencia que levam

esses principios, pela connexão entre o estado economico da Europa e o

seu estado politico. Sr. presidente, nós somos fanaticos do presente e

do futuro, somos por isso utopistas; e os que são fanaticos do passado

são tão utopistas como nós, porque o são tanto os que pretendem a

realisação d'uma lei que os tempos mesmo ainda tornam impossivel de

realisar, como aquelles que esperam se torne a realisar uma que os

tempos já condemnaram ao esquecimento».

Esta concepção do equilibrio politico, radical n'uma base historica, e

historico n'uma ideia de desenvolvimento progressivo, este pensamento de

conservação e progresso em permanente conjugação das actividades e

tendencias proprias dos elementos concorrentes, o criterio

evolucionista, como hoje se diria, seguirá José Estevão em toda a

conjunctura politica, desde a profissão de fé do moço vidente, exaltado

em esperanças de dar a felicidade aos povos, até ao parlamentar

desilludido pelo commercio dos homens e pelo espectaculo das suas

fraquezas. Em 1857 renova as affirmações anteriores, julgando que «a

regeneração foi uma correcção prestadia á politica desmasiadamente

theorica de todas as administrações passadas». Nem sequer em momentos de

suprema e divina elevação, como foi esse do discurso sobre o apresamento

da barca _Charles et George_, deixou de condemnar o absolutismo no

governo, fosse qual fosse a forma que revestisse, tradicionalista

inflexivel ou reformista intransigente. «Um governo que por honra de

familia», dizia então, «por influxo de datas, em virtude de

recomendações testamentarias, haja forçosamente de ter certas ideias,

certos principios, certas aprehensões, certas tendencias, conservar os

mesmos amigos, repellir os mesmos inimigos, e tudo isto sejam quaes

forem as epocas, as conjuncturas, as necessidades publicas, não é

governo, é um absurdo, um devaneio; uma especie de pyrrhonismo politico.

Um governo d'estes não tem pensamento nem acção sua: é um verdadeiro

automato; os seus actos são determinados por principios alheios á sua

vontade, marcados, numerados e classificados: um governo d'estes não se

abalança a andar, sem estar certo de que vae pela estrada por onde foram

os seus augustos avós. Pára onde elles pararam, e treme d'ir mais longe

do que elles foram. Ora um governo na epoca actual deve ser sobretudo

maneavel, facil e prompto em movimentos e capaz de os executar em todos

os sentidos e direcções».

Ainda poucos mezes antes da sua morte, José Estevão sustentava a mesma

regra de governo, crendo e confessando que sómente seria efficaz a

politica que procedesse attribuindo valor igual á tradição e ao

progresso, á inteireza dos principios e ás condições do momento;

considerava «que ha em todos os partidos um principio decisivo--são as

opiniões fortes, formaes, sem transacção, sem composição, as opiniões

absolutas, que não consideram o estado bem regido sem que ellas

triumphem completamente. E a par d'este principio ha outro que avalia

essas mesmas opiniões absolutas, que julga da sua applicação ás

circunstancias dos tempos, que as qualifica de proprias ou improprias, e

que modera a sua acção e as torna praticaveis». A experiencia das

revoluções europeias, já longa n'esta epoca, acautelava José Estevão

contra os perigos de toda a rigidez logica em materia politica, e sem

duvida previa e temia no radicalismo «as consequencias que até agora,

por desgraça, teem levado a democracia de irritação em irritação, de

desconfiança em desconfiança, d'opção em opção, de ensaios em ensaios, a

acabar desgraçadamente em dictaduras, umas vezes grandiosas, outras

vezes desastrosas»[3].

[3] Sessão de 30 d'abril de 1856, _Discurso acêrca do caminho de

ferro._

Foi em doutrina e na pratica um moderado, avêsso por caracter a

excessos, e por ponderação d'espirito contrario a extremos, respeitando

o passado e a ordem existente e tomando-o por valor essencial, sem

prejuizo todavia da crença na belleza da nova ordem e nos principios

revolucionarios, não perdendo opportunidade de os insinuar e applicar

com zelo e paixão onde podessem ter logar efficazmente, em hora propria

para uma applicação adequada, feliz e duradoura.

A questão da admissão das irmãs da caridade, debatida no parlamento com

ardor, mostrou-nos José Estevão confirmando em materia religiosa o seu

modo de ser politico, porventura accentuando ahi mais claramente do que

em qualquer outro campo a confiança nos principios tradicionaes da

constituição social das nações da Europa occidental. Para elle, a

historia e os seus incitamentos eram uma bussola cujas indicações não

podiamos deixar de seguir sem grave risco, porque «assim como a religião

é um elemento indispensavel de disciplina moral, a historia é um

elemento indispensavel de disciplina politica». Indispensavel, note-se o

termo. A negação do doutrinarismo abstracto não póde ser mais

cathegorica.

Não queria as irmãs de caridade, porque significavam «uma violação das

leis do reino, d'aquellas que haviam levado ao throno a dynastia da

senhora D. Maria II, que teve sempre um instincto finissimo, instincto

feminino, dos principios sobre que repousava a sua dynastia; porque

nunca capitulou, dentro da esphera do poder e das sympathias, com

aquellas invasões surrateiras do poder ecclesiastico, que para ella eram

suspeitas de ser contrarias ao governo representativo». «Respeitemos

estas leis», dizia, «porque vivemos por ellas; são as nossas leis, são o

nosso coração, são a nossa vida, são a nossa historia... Com essas leis

no pensamento entramos sete mil perseguidos, sete mil expatriados, n'uma

cidade que tinha mais do que nós essas leis no pensamento, porque tinha

visto n'essas congregações religiosas os instigadores e conselheiros

d'uma tyrannia nefanda; porque tinha visto sair d'essas casas ou

corporações religiosas cohortes de testemunhas falsas, que tinham ido

aos tribunaes levantar com os processos judiciaes os patibulos d'onde

deviam cair as cabeças d'aquelles que ellas tinham marcado como nefastos

ao seu predominio... É preciso que nos convençamos de que não podemos

salvar os objectos que veneramos, se não reunirmos todas as nossas

forças constitucionaes e moraes para desfazermos e contrariarmos as

intrigas e embustes, pelos quaes se quer repôr outra vêz no seu throno e

predominio estas instituições, que nós combatemos, destruimos e

desfizémos». Receiava que aquellas instituições, «pelas riquezas e

influencias das familias, se tornassem nefastas aos poderes do estado e

ao exercicio das liberdades publicas».

Depois, além dos perigos do espirito catholico congreganista, adverso

aos principios liberaes e por isso carecendo de ser vigiado de perto,

porque as irmãs de caridade eram «uma emanação do espirito jesuitico, e

em volta d'essa congregação se juntaram todas as ideias que ficaram

desbaratadas e destruidas pela perseguição que se fez a essa

instituição», vinham os inconvenientes da forma e apparencias da sua

vida e missão, vinham problemas propriamente moraes e religiosos,

sobrepondo-se ás relações politicas das communidades em discussão. «A

religiosidade, no sentido que lhe dão os theologos, não dispensa o culto

externo; e o culto externo das irmãs de caridade é pouco consentaneo com

as formas, com os costumes e com as prevenções da auctoridade civil».

Sem embargo, «as irmãs de caridade são uma boa instituição», julgava o

tribuno. Mas podiam «prejudicar o paiz... podiam influir no sentimento

publico, podiam offender a caridade particular, podiam quebrar o nexo

que liga as pessoas votadas a fazer o bem, podiam ser um vehiculo

d'indisposições, podiam tolher a liberdade d'acção do governo do paiz,

emfim podiam trazer mil inconvenientes que era mistér evitar». Por isso

as combatia, sem quebra do respeito que lhes votava e tinha por

merecido, dizendo: «Eu venero e respeito a instituição das irmãs de

caridade, venero os preconceitos d'onde ella nasce, respeito as ideias

erroneas que a sustentam». Sómente achava que era «exaggerada e

desnecessaria», pois, para realisar a missão d'aquelles institutos,

«temos duas associações, uma religiosa e outra natural; temos a parochia

e a familia. Para que havemos de entrar na questão escolastica da

intelligencia dos velhos estatutos, nem pôr em comparação diversas

escolas de caridade? Associemo-nos todos, cada um na sua parochia; o

chefe de familia para vigiar, regular e acompanhar os actos de caridade

dos differentes membros da sua familia, e o parocho para ser o nucleo

religioso, o conselheiro, o orador, emfim o laço da caridade humana com

a caridade divina». E parallelamente, quanto ao ensino, queria «um

ensino publico e religioso que fosse pago pelo estado e vigiado pela

auctoridade civil», admittindo «o ensino livre emanado dos poderes

civis, acompanhado da instrucção religiosa, mas da instrucção dada pelo

clero portuguez».

A taes compromissos o obrigava o espirito da epoca, todo de atenuações e

concessões. Á monarchia constitucional, partilha de soberania entre o

rei por direito de herança e o povo por direito natural, tinha de

corresponder, na ordem religiosa, a religião do estado, systema de

concordatas e beneplacitos entre soberanias de differente origem, com

poderes civis dando attribuições ecclesiasticas e poderes ecclesiasticos

sanccionando determinações dos poderes civis e intervindo nos seus

actos. Mais uma vez vencia no espirito de José Estevão a força da

tradição. Atravez de todas as considerações, queria salvar e salvava a

qualidade de catholico, confessando-a e justificando-a com uma firmeza

viril. «Snr. presidente», dizia na camara dos deputados, na sessão de 9

de julho de 1861, «eu sou catholico e admitto que todos os theologos

regulares ou irregulares, leigos ou não leigos, inquiram os quilates da

minha religião, a sinceridade das minhas crenças; mas, se fizerem iguaes

inquirições das suas, hão-de reconhecer que ha uma razão suprema que

suppre a escolha impossivel n'este assumpto de religião. Esta razão

suprema que suppre a escolha da religião é a tradição da familia, porque

o homem, quando vem ao mundo, segue sempre a religião de seus paes. Eu

sou catholico, porque meus paes e minha familia eram catholicos; e isto

bastava para eu preferir esta a todas as religiões, por mais santa,

clara e justa que fosse a sua doutrina. Eu aconselharia sempre que não

se dispensasse nunca na escolha da religião a tradição de familia, e que

ao dogma religioso se juntasse sempre o dogma de nossos paes; da

percepção das verdades supremas podemo-nos desviar ou pela fraqueza ou

pelo orgulho, e no meio d'estes desvios a religião da familia é uma

garantia, é um principio de fé humana. Se o religioso de bom-senso me

perguntasse qual a minha religião, dir-lhe-ia que sou catholico; e qual

a razão?--Porque meu pae o era. Respondo assim a todos os theologos, e a

todos os esquadrinhadores da minha consciencia».

Mas que não haja equivoco sobre a natureza do catholicismo que José

Estevão professou, sobre a largueza com que o entendia; não se imagine

que foi o servidor de privilegios ou supremacias ecclesiasticas, que

quiz o catholicismo como instrumento de reinar ou por qualquer outro

motivo que não fosse simplesmente a expressão religiosa, o

reconhecimento das relações do homem com a divindade e o culto que d'ahi

deriva. Foi elle mesmo que se encarregou de definir o seu catholicismo,

quando em 24 de maio de 1862, discorrendo sobre a liberdade do ensino,

dizia no parlamento: «Eu sou religioso, catholico apostolico romano. O

homem vivo da faculdade de pensar e de sentir. Não o estorvemos a cada

passo, não o calumniemos, não o supponham tão indigno que não possa

elevar-se nas azas do seu espirito, e librando-se na immensidade

procurar por effluvios mysticos o inexplicaveis as relações que existem

entre elle e a divindade... Eu sou catholico, repito, segundo os

principios em que fui educado, creio em Deus, e elle me deixa crêr e

esperar tambem que este seja o melhor de todos os cultos, porque

satisfaz as minhas necessidades d'espirito, os desejos do meu coração, e

não diz á minha razão nada que repugne ás minhas aspirações. Gosto do

catholicismo puro, e não gosto d'este catholicismo philosophado, d'estes

enxertos de philosophia; gosto da doutrina pura dos bons doutores, gosto

da fé viva, da virtude sã, de muita moral e menos formas. Não quero

portanto o catholicismo philosophado (sempre assim fui), nem o

catholicismo almiscarado; quero o catholicismo puro, purissimo em todas

as suas manifestações, quero-o em toda a parte, fóra da egreja, como na

egreja, sem distincção de logar. Em uma palavra, gosto do catholicismo

que generalisa a ideia religiosa manifestada em todas as formas, quer

doutrinaes quer moraes. Agora, não sei se sou impio. Para o illustre

deputado, (_voltando-se para o Sr. Pinto Coelho_) parece-me que o sou.

Mas emfim seja o que quizerem, impio ou não impio, isto é o que eu sou».

Uma outra razão prendia José Estevão ao catholicismo. Não a confessa,

talvez mesmo não a tivesse sentido clara e conscientemente; mas deixou-a

bem transparecer e insinuar em todas as suas affirmações sobre esta

materia. Era catholico, não podia deixar de o ser, porque, demagogo

convicto e ardente, no sentido mais nobre da palavra, as suas tendencias

religiosas, como as demais, eram as tendencias do povo que amava com tão

exaltada dedicação. Sorriria a toda a sua ingenuidade na poesia e na

crença, com aquelle mesmo affecto que o consagrára ao respeito da sua

grandeza no trabalho e á defeza dos seus direitos na ordem social e

politica. Por isso concebia o catholicismo e queria-lhe, como áquelles

nos quaes em toda a singeleza o encontrava; e sympathisava «mais com o

catholicismo milagreiro do que com o catholicismo philosophico», e

gostava mais «do nosso catholicismo peninsular, salvas as fogueiras, que

as houve por muita parte, do que do catholicismo francez, que tem muitos

louvores da philosophia mundana, e que lhe parecia mais uma escola

philosophica rebocada de religião, do que um gremio verdadeiramente

catholico»[4].

[4] _Discurso sobre as irmãs de caridade_, em 9 de julho de 1861.

O seu coração nunca se affastava do coração do povo, onde quer que elle

batesse.

Se sonhou opposição entre o espirito do catholicismo, dogmatico, de

obediencia mortal, e a liberdade de pensamento, com as responsabilidades

de consciencia respectivas, que iniciava tempos novos, tudo conciliou

pelo predominio final da inspiração affectiva sobre a phantasia

revolucionaria que promettia paraisos terrestres só pela negação de

poderes sobre-humanos, pela abolição do culto, por incendio das imagens

e pelo morticinio dos sacerdotes. Do orgulho que por certo o incitaria a

decidir exclusivamente pelo proprio entendimento e a crêr na razão,

abdicou, consciente e reflectidamente, na experiencia e na fé dos que

haviam vivido antes d'elle e lhe tinham dado o sêr, e na poesia candida

da alma popular. A logica cedeu ao amor; e o amor, que sempre o movia,

quebrava-lhe aqui quaesquer veleidades de destruição.

V

A revolução franceza, cujos evangelhos o liberalismo portuguez seguia,

sem muito discriminar nem a sua conveniencia para a situação historica

nacional nem mesmo as consequencias de diversa natureza que cedo começou

a produzir nos paizes d'origem, importava, na multiplicidade dos seus

aspectos e resultados, uma transformação economica formidavel, além de

transformações religiosas, politicas e muitas outras. A fermentação

economica do seculo XVIII em França coincidiu, se é que não a precedeu,

com a fermentação politica; o exame das relações economicas do individuo

e do estado e das diversas classes entre si mostrou não menos funda

desgraça do que aquella que se atribuia ao absolutismo dos reis e da

egreja. A revolução não podia limitar-se a capricho; tinha de renovar

toda a organisação moral e juridica das sociedades e dos homens. Desde

que no seculo XVI um grande movimento do espirito humano, lentamente

elaborado em seculos de meditação e na prolongada atribulação dramatica

das consciencias sedentas de verdade, veio abalar a constituição intima

e a manifestação externa do pensamento, legitimando a duvida e a

discussão das relações do homem com Deus, ferindo crenças até então

sagradas, intangiveis; desde que essa tendencia se revelou e cresceu em

extensão e intensidade, chegaria um dia, evidentemente, em que igual

liberdade tinha de conceder-se, por maioria de razão, para discutir as

relações dos homens entre si em todos os modos e formas do commercio

humano, e para averiguar, portanto, por que motivos e com que direito e

auctoridade uns mandavam e outros obedeciam, uns eram ricos e viviam na

opulencia e outros eram pobres e se arrastavam indigentes.

Muito cedo, logo no principio do seculo XVIII, os systemas de liberdade

economica nascidos na Inglaterra passaram ao continente e viéram

encontrar em França apostolos eminentes. A pobreza das povoações ruraes,

o peso oppressivo e desigual dos impostos, a ruina das finanças

publicas, protestavam contra a organisação vigente e demandavam uma

profunda reforma. Os escriptos de Boisguillebert, que votou ao estudo

d'esses problemas um talento notavel, traduziram desejos de novo rumo e

desvendaram o descredito irreparavel do systema existente. Condemnando

toda a regulamentação arbitraria do commercio interno e externo;

insistindo em que a riqueza nacional não depende dos governos, cuja

interferencia faz mais mal do que bem, em que as leis naturaes da ordem

economica das cousas não pódem ser violadas ou desprezadas impunemente e

os interesses das differentes classes da sociedade, n'um systema de

liberdade, são conformes, e os interesses do individuo coincidem com os

do estado; reclamando igual solidariedade para as differentes nações

entre si, e crendo que d'este modo de considerar os homens e os povos

resultaria a paz e a harmonia; dividindo os homens em duas classes, a

dos que nada fazem e tudo gozam e a dos que trabalham desde manhã até á

noite sem conseguir ganhar a simples subsistencia; inclinado a favorecer

estes ultimos por todo o modo e procurando corrigir as desigualdades

nefastas de que os impostos andavam eivados:--Boisguillebert não estava

longe das doutrinas de liberdade economica que prevaleceram no segundo

quartel do seculo XIX. Respirava-se já alli a atmosphera que,

expandindo-se atravez de mil luctas, veio a embeber a politica economica

da maioria das nações da Europa.

A economia politica, tal qual os mestres a traçavam depois de 1820 e os

politicos a confirmavam com enthusiasmo, subordinando-lhe as leis do

estado, seria cousa tão simples como fertil em beneficios. Libertassem o

individuo das peias do antigo regimen, dos estorvos d'um systema

complicado de direitos e obrigações, déssem-lhe liberdade até á

pulverisação completa das massas sociaes, dispersas em atomos d'um

movimento uniforme, e ia surgir um mundo todo de harmonia perfeita;

porque, procurando cada um o seu interesse pessoal, no fim todos os

interesses se sommavam e encontravam satisfeitos e, por conseguinte, a

felicidade era plena. Do cáos sairia a ordem. Quanto mais liberdade,

melhor; deixassem os proprietarios, os rendeiros, os operarios, os

capitalistas e os commerciantes debater livremente os seus interesses, e

cada um receberia a justa recompensa do seu trabalho, da sua capacidade

e dos seus bens. Quanto mais viva e geral fosse a concorrencia, mais

cedo se alcançaria o equilibrio. Eram d'esperar crises, perturbações,

miserias, desastres e lamentos na fundação do novo regimen; mas,

asseguravam-nol-o os economistas, tudo isso, mal transitorio resgatado

por beneficios incalculaveis, havia de sanar-se para fortuna dos homens

pelo simples jogo das forças em confronto. Quando se houvesse varrido o

campo de todos os obstaculos legaes e moraes da

concorrencia,--regulamentos, prejuizos, sentimentos, ignorancia,

sujeições de toda a casta,--a paz, a abundancia e a equidade viriam

naturalmente dos atomos libertos, guiados sómente pelo interesse

egoista.

Assim se fez. Veio a liberdade; diversas nações a experimentaram,

sobretudo a Inglaterra. E a miseria que de tal systema resultou ou,

melhor, a miseria que uma tal ausencia de systema determinou, ficou

memoravel nos annaes da humanidade.

A nova ordem foi o triumpho completo da burguezia capitalista.

Admiravelmente servida nos seus fins pela revolução mecanica da

industria que, d'invenção em invenção, condemnava processos antiquados

de producção, deixando a pedir esmola os que os usavam e d'ahi tiravam o

pão de cada dia, e conferindo um poder sem limites a quem tivesse

capital bastante para montar a fabrica moderna; favorecida pela lei,

liberalissima, que lhe permittia explorar á sua vontade o trabalho,

acceitando-o ou regeitando-o ou reduzindo-o a seu capricho, tratando o

salario como materia prima insensivel e morta, com o mesmo calculo e

frieza que empenhava na construcção da officina e na determinação da

força motriz respectiva: a burguezia tirou um imperio crudelissimo da

famosa liberdade que os philosophos offereciam como o resgate das

angustias d'outro tempo. Medrava o capitalismo, e ao lado da sua

grandeza alastravam-se em proporção crescente as plebes famintas. O

povo, na revolução, julgava ter vencido e haver-se emancipado; e

descobria agora, com espanto e angustia, que apenas collaborára n'uma

transferencia de dominio, na creação de novos despotas. Esforçando-se

pela victoria da burguezia e applaudindo-a, preparára para si uma

tyrannia mais desapiedada do que aquella em que o feudalismo, a

aristocracia territorial e as dependencias corporativas o haviam tido

por tantos annos. A burguezia, invocando a eminencia e beneficios da

liberdade, apoiada no doutrinarismo utilitario, seu fiel companheiro e

filho legitimo, arrogou-se o direito, que larga e funestamente exerceu,

de explorar e escravisar o trabalho alheio, isentando-se ao mesmo tempo

em absoluto da caridade e auxilio que no antigo regimen prendiam o servo

da gleba e o seu senhor, e riscando das obrigações moraes o que já

estava abolido nas relações juridicas, os laços de protecção e

solidariedade, o nexo poderoso da consciencia do interesse commum que,

emquanto exigia serviços, logo impunha, por necessidade indeclinavel,

deveres de patronato.

A revolta não tardou, aterradora, manifestando-se em tumultos de

multidões ameaçadoras, e interpretada na esphera do pensamento

especulativo por homens de genio, como foi Carlyle.

Era certo que a abolição dos monopolios e privilegios déra liberdade ao

capital para exercer, em seu proveito, summa pressão sobre o trabalho.

Era certo que, em virtude d'isso, o capital em breve se mostrou o poder

dominante da sociedade, regida por um utilitarismo brutal e governada

por uma burguezia infinitamente mais nociva ás reivindicações

democraticas do que as antigas aristocracias, com maior riqueza e maior

força, incitada por cobiças ardentes, plebeias, soffregas, e pela

energia de gerações robustas, violenta no arrojo e nos processos, por

completo desprendida da sujeição moral d'outros tempos, que suavisava as

relações entre servo e senhor, considerando-os unidos por vinculos de

familia. Perante o triumpho capitalista de 1830, definia-se, porém, no

proletariado, que elle creára, a consciencia da propria situação. Da

exploração vieram miserias; das miserias a dôr e a revolta; e o

instincto, que não erra, determinava a associação dos opprimidos, para

melhor defeza. Assim se fortalecia um terceiro estado que,

reconhecendo-se escravo e soffrendo as amarguras da sua condição,

amaldiçoava, de punhos cerrados e flamejando coleras, o systema que o

trazia subjugado sob tão insensiveis tyrannias. Vagamente, começa a

entrevêr-se a restauração, em novas bases, da ordem tradicional.

Far-se-ia agora em beneficio dos trabalhadores o que algum dia se

inventára em proveito do feudalismo. Havia de renovar-se, pois era

essencial á nação inteira, á tranquillidade dos grandes e á prosperidade

dos pequenos, a traducção efficaz da solidariedade das classes nas

instituições politicas e sociaes, que se via arruinada e banida por um

individualismo soberano e anarchico, sem repressão nem regra. A

ostentação d'essa ferocidade barbara, substituindo a salutar concepção

historica da communidade d'obrigações e deveres pelo ajuntamento

desconnexo d'unidades cuja lei unica, exclusiva, era a expansão e

imposição do proprio egoismo, sem outro limite além d'aquelle a que os

egoismos alheios por seu turno o coagissem, avolumava de hora a hora um

tremendo movimento de reacção. Dos proletarios communicava-se á pequena

burguezia que, sentindo a pressão do capitalismo e por elle expropriada

tambem, vinha encorporar-se nos bandos das victimas do monstro

insaciavel. E ao clamor do povo juntava-se a reflexão dos pensadores,

excitada pela piedade, resultando em que a erupção individualista,

assoladora, era temida e combatida ao mesmo tempo pelos indigentes que

produzia, e pela razão e pela justiça a que repugnava. Significava a

preterição de toda a vida moral e da caridade christã e uma perigosa

incerteza politica; de continuo trazia abalada a estabilidade dos

governos o da propria fortuna particular. Ninguem se encontrava

tranquillo e satisfeito. Uns tinham fome; outros traziam turvada a

consciencia. Nem talvez os proprios despotas que o liberalismo

utilitario cevava e enthronisava, andariam de todo contentes;

naturalmente, quereriam igual mantença de ambições e menos risco da

pessoa e bens, ameaçados d'assassinio e incendio.

Esta reacção era todavia vága, confusa, um perpetuo rugir de

condemnados, gritos de desgraça e cantos mysteriosos d'esperanças,

conflictos de crenças. Vinha longe aquella clareza de intuição e

proposito em que o socialismo moderno se definiu. A democracia começara

por ser negativa, antes de ser constructiva. Porventura Voltaire e

Rousseau tinham resumido duas correntes que, embora contemporaneas na

origem, haviam de ser successivas nos effeitos. A primeira involvia a

negação religiosa; a segunda, tendo por base a justiça, carecia de se

apoiar em sentimentos idealistas. Uma destróe; a outra reedifica. Ora

ainda a destruição não estava consumada, e já a necessidade de

reconstruir se mostrava urgente. Entre a concepção do problema politico,

como destruição, e a concepção do problema social, como organisação,

medeiava apenas meio seculo que, apezar de revoluções incessantes, não

lográra varrer o terreno do passado para o deixar amplo ás edificações

futuras. D'ahi vinha que simultaneamente procuravam vingar duas ideias

de progresso quasi antagonicas, uma que não conseguira vencer

completamente, que ainda não derrubára tudo o que se havia proposto

derrubar, e a outra que, ganhando entretanto consciencia da sua razão de

ser, reclamava uma constituição social que por momentos era ou parecia a

regressão ao passado. A confusão poderia ser de facil desenlace para os

doutrinarios; para um politico era temerosa[5].

[5] Hoje tornou-se clara e corrente a interpretação d'estes factos.

Mas, para mostrar que labyrintho representaria no tempo de José

Estevão, bastará lembrar que, quando Oliveira Martins pela primeira

vez a fez magistralmente no _Portugal Contemporaneo_, com relação á

nossa historia politica, ainda então muito bons espiritos lhe

desconheceram a exactidão. E a muitos pareceu um reaccionario,

miguelista, porque não commungava na furia liberalista de deitar

abaixo; a outros se afigurou blasphemo e sacrilego, a cuspir

censuras, quando apenas apontava erros e fraquezas de glorias

consagradas; e para outros não merecia confiança, ia para o rol dos

utopistas e incomprehensiveis, porque não se emendára d'aquelle

socialismo dos bons tempos que partilhou com Anthero de Quental.

Não que o systema fosse incompleto. O utilitarismo individualista tinha

a liberdade e a concorrencia para darem riqueza, felicidade e harmonia;

mas, onde por acaso houvesse deficiencia, onde as miserias tivessem

escapado aos beneficios do desafogado embate dos interesses, lá estava a

philantropia para acudir a desgraças. Simplesmente acontecia que a

avidez dos interesses nunca faltava, calcando e esmagando quem lhe

ficava no caminho, e a philantropia apparecia raro, e sempre mal

provida, a soccorrer as victimas cujos gemidos formavam um côro a todos

os respeitos sombrio e pungente. E começaram então os philosophos, os

politicos, os pensadores e os crentes, todos aquelles que pelo espirito

ou pelo coração sentiam a desordem e a crueldade, os que a temiam como

um perigo para a prosperidade das nações e os que a choravam como um

aggravo a eternas e impreteriveis leis moraes, começaram então a

procurar um outro systema de reger os povos, no qual a equidade e a

justiça, em vez de serem devoção, passassem a ser obrigação e direito,

efficazmente reconhecidas nas leis do estado e nas prescripções

juridicas.

José Estevão viu os tempos heroicos do socialismo, a aurora d'esse sonho

admiravel no mundo activo, a derrota dos seus paladinos, passados todos,

com sobranceria e desprezo, ao livro das inutilidades perigosas pela

burguezia triumphante e pelos seus prophetas. Viu a cegueira e desastres

dos tempos d'iniciação, e viu tambem que, mal succumbiam os vencidos,

logo outros soldados surgiam a combater, cada vez mais numerosos;

qualquer cousa de novo se affirmava irreductivel, com que a politica e a

democracia tinham a contar. O periodo de 1830 a 1850 foi notavel para o

adeantamento e definição da concepção socialista do estado. A evidencia

dos factos obrigava a attender ao que ha muito vinha sendo apregoado por

almas d'eleição e verdadeiros videntes, e fôra tido por phantasia de

poetas. A estrella do puro liberalismo declinava entre maldições de

trabalhadores famintos.

Proudhon, o demolidor terrivel de tantos altares consagrados do

liberalismo, nasceu poucos mezes antes e morreu dois annos depois de

José Estevão. Pôde este assistir ao exame do capitalismo, que aterrava e

horrorisava os corypheus das escolas individualistas. _Da Justiça na

Revolução e na Egreja_, o _Systema das Contradicções Economicas ou

Philosophia da Miseria_, a affirmação de que «a propriedade é um roubo»,

esses anathemas d'um mundo d'oppressão, em que o rebelde precedia Karl

Marx, na critica da propriedade e na analyse do capitalismo, e se

anticipa a Bakounine no repudio da auctoridade e na exigencia d'uma

liberdade perfeita, são do tempo de José Estevão, e por elle teriam sido

ouvidos de perto, emigrado como esteve em França nos annos que

immediatamente precederam a revolução de 1848. Pôde ver mais, pôde ver

Proudhon absolvido, quando foi chamado aos tribunaes por causa do _Aviso

aos Proprietarios_, porque, pretendia a sentença, «se encontrava numa

esphera d'ideias inaccessivel ao vulgo»; e, embora mais tarde, pela

_Justiça na Revolução e na Egreja_ fosse condemnado a tres annos de

prisão, sempre é certo que, por um rapido momento, os proprios

magistrados da lei estatuida tributavam respeito á nova fé, apregoada

com indomavel ardor pelo apostolo.

Proudhon era porém apenas o demolidor eloquente e violento.

Anteriormente e simultaneamente, outros esboçavam a cidade futura.

Roberto Owen[6] , Saint Simon[7] e Fourier[8]. todos haviam já formado e

apregoado com exaltação, partilhada por numerosos sectarios e martyres,

systemas de relações sociaes muito differentes d'aquelles deshumanamente

liberrimos sobre que a burguezia fundára uma tyrania sem precedentes.

[6] 1771-1858.

[7] 1760-1825.

[8] 1772-1837.

Roberto Owen defendêra e tentára uma organisação social baseiada na

cooperação, oppondo-a á anarchia selvagem da concorrencia commercial

desenfreiada do periodo primitivo do capitalismo, e propondo o seu plano

de «aldeias d'unidade e cooperação», nas quaes os empregados se

juntariam em communidades autonomas, onde mutuamente se sustentavam pelo

producto dos seus diversos trabalhos. D'experiencia em experiencia,

d'estudo em estudo, convencera-se de que os grandes males das sociedades

eram na sua essencia de natureza economica e acabava pregando a pura

doutrina socialista,--que o povo nunca será senhor dos seus direitos,

emquanto não possuir as officinas e os campos, não em propriedade

particular mas em propriedade collectiva, estabelecida em bem da

communidade. «Declaro perante o mundo», escreveu, «que, até hoje, o

homem tem sido o escravo d'uma trindade monstruosa: a propriedade

particular, os systemas religiosos irracionaes e infantis, e,

finalmente, o casamento».

Saint-Simon, representando uma vigorosa reacção contra os excessos

doutrinarios do seculo XVIII, que lucidamente considerou um periodo de

critica e dissolução, ao qual tinha de oppôr-se no seculo XIX uma epoca

d'organisação, viu como seria insufficiente a destruição do passado, que

aliás não amava, se ella se limitasse a mudanças da forma do governo,

sem alterar as demais condições religiosas, moraes e economicas de que

dependia a felicidade dos homens. E, comprehendendo a inanidade da

revolução propriamente politica, desenganado pelos acontecimentos, de

que em França era testemunha, inventava uma aristocracia de homens

capazes para governar as nações, abolia o direito de successão na

propriedade, estabelecia condições de iniciação na vida iguaes para

todos, reclamando que «os instrumentos do trabalho, terra e capital,

fossem possuidos pelos membros unidos da sociedade», e sonhava o estado

perfeito, a communidade em que os mais aptos tivessem todo o poder e uma

parte ampla do producto, procedendo de modo a que o estado trabalhasse

para melhorar a condição material e moral dos mais pobres.

Seguia-o de perto Fourier, embora se imaginasse longe[9]. Descobrindo no

homem a paixão do _uniteismo_, que significava a tendencia natural dos

homens a juntarem-se em grupos sociaes e trabalharem juntos pelo bem

commum, em vez de combaterem entre si tomando para regra moral e lei um

systema de disputa, tirava d'ahi a sua famosa «phalange» ou unidade

social, de que muitos se riram mas que, apóz varia sorte e criticas de

todo o genero, hoje se verifica ter proximo parentesco com a concepção

moderna da municipalidade socialista. Esses planos, que pareceram

phantasia d'um sonhador generoso, modificaram-se e completaram-se; e

hoje não será desacerto tel-os como simples antecipação de formas de

vida social, que em muitos paizes se vão experimentando e propagando,

com não pequena vantagem e efficacia na boa ordem das sociedades.

[9] Fourier, referindo-se a Owen e Saint-Simon, acautelava o leitor

contra os «laços e charlatanismo das duas seitas», não considerando

as affinidades manifestas da «cidade» de Owen e da aristocracia de

Saint-Simon com as suas proprias aspirações, que consistiam na

organisação da industria do modo mais conveniente aos interesses

collectivos. Todos tres partiam d'um principio--a producção da

riqueza em beneficio da communidade.

Tudo isso, porém, que foi muito na evolução da democracia e na

definição, inevitavelmente lenta, das suas necessidades e aspirações,

foi muito pouco perante um facto de maior alcance, que José Estevão

teria observado e ponderado, devendo encontral-o na edade de maior

energia politica. Por certo não lhe escaparam nem a apreciação da sua

essencia nem, muito menos, a previsão das consequencias larguissimas que

virtualmente importava.

1839 e os annos que se lhe seguiram até 1848, marcam na historia do

socialismo uma epoca notabilissima, a passagem do socialismo utopista e

negativo ás reclamações positivas e cathegoricas d'um programma de

governo. Em 1839 publicou Luiz Blanc a _Organisação do Trabalho_. D'ahi

podemos datar uma era nova. Para os interesses das grandes massas

trabalhadoras, estava julgada a esterilidade do reinado dos Bourbons, da

convenção, da republica, da dictadura, do consulado, do imperio e depois

ainda da restauração monarchica. Quasi meio seculo d'experiencias

revolucionarias e reformadoras concluia, na meditação do pensador

politico, pela necessidade de inscrever entre os deveres primordiaes do

estado a garantia de trabalho regular a todo o cidadão. Como

consequencia directa, immediata, o trabalho tinha de ser organisado sob

a direcção do estado--granjas para os lavradores, fabricas para os

operarios e armazens para os commerciantes, convertidos em propriedade

sua, do estado, todos os grandes instrumentos de riqueza, os canaes, as

minas, as grandes industrias e os bancos. As associações cooperativas,

que Fourier e Owen deixavam á iniciativa e bom senso particular,

passava-as Luiz Blanc a encargo do estado. As «officinas sociaes» do

grande reformador foram talvez uma das mais claras antecipações da

constituição do estado socialista. «Pedimos a communidade dos

trabalhadores», escrevia elle em 1840, resumindo as reclamações

revolucionarias, «isto é, desejamos abolir o commercio dos homens no

trabalho dos homens, e, em vez d'isso, estabelecer officinas nacionaes

em que a riqueza produzida se reparta entre os trabalhadores e não haja

mais servos nem senhores».

Estava fundado o socialismo como elemento politico e força activa, com

direitos exigiveis e exigidos na constituição social das nações, nos

seus costumes, e sobretudo nas suas leis. Fossem quaes fossem os

desastres das primeiras tentativas, o socialismo passára, d'uma vez para

sempre, das dissertações especulativas, em que a compaixão de suppostos

visionarios o concebeu, para as assembleias dos legisladores em que as

nações teriam de determinar as condições praticas da sua execução.

José Estevão · 第 12 / 23 题