millessimo trecentesimo septuagesimo septimo), os já dictos
embaixadores, puzeram-se a caminho para a côrte de Portugal, e
continuando, em dias successivos, chegaram no decimo quinto dia do dicto
mez de abril, a Santa Herena (Santarem) do Reino de Portugal, onde
souberam que pousava o mesmo Senhor Rei de Portugal, ao qual foram
respeitosamente cumprimentar, no decimo septimo dia do dicto mez; e
depois de haverem feito as devidas saudações do costume ao mesmo Senhor
Rei, em nome do dicto Senhor Duque, apresentaram-lhe as suas
credenciaes, e o mesmo dicto Senhor Rei, depois de as ter lido, disse
aos dictos Embaixadores que na manhã do _Parce Domini_, que foi no
decimo nono dia do dicto mez, voltassem, para dizer e propor, na sua
presença, quanto quizessem.
No qual dia decimo nono, os dictos Embaixadores se apresentaram ao dicto
Senhor Rei de Portugal, a quem expozeram, na presença do seu grande
Conselho, tres assumptos por sua ordem:
Primeiramente: como o Senhor Duque os mandava perante sua Real Magestade
para lhe mostrar os direitos e justificações que tinha contra o Rei de
Aragão, e contra a injustiça que o dicto Rei de Aragão lhe fizera; por
causa do que os dictos Embaixadores disseram ao mesmo Senhor Rei, que o
Senhor Duque, a fim de melhor esclarecer a consciencia do dicto Senhor
Rei lhe mandava todos os processos, instrumentos e outros documentos que
instruiam o dicto negocio, dos quaes evidentemente constavam as causas
racionaes que obrigaram o dicto Senhor Duque a ceder, de algum modo, dos
seus direitos e effeitos d'elles, sobre o reino, condados, terras,
dinheiros, regalias, proventos, e de outros direitos acima dictos que
recebera da pessoa da illustre senhora Izabel, Infanta dos Maioricos,
contra o dicto Rei de Aragão.
Disseram tambem os dictos Embaixadores ao dicto Senhor Rei que traziam,
e mostraram os processos feitos na presença do Summo Pontifice, não só o
processo ou tratado do Senhor Cardeal[18], como tambem as allegações de
direito e de facto, e ainda outras justificações do dicto Senhor Duque
comprobatives do seu direito.
Segundo: Exposeram ao mesmo Senhor Rei os motivos de desculpa pelos
quaes o mesmo Senhor Duque não pôde armar ou proceder de mão armada
contra o Rei de Aragão, e que eram provenientes não só do tratado do
dicto Senhor Cardeal, como tambem do Senhor Rei de Castella, acima
dicto, o qual ultimamente tomára sob seu favor o dicto tratado de boa
paz e concordia.
Terceiro: Propozeram ao dicto Senhor Rei, e pediram em nome do dicto
Senhor Duque que aprouvesse a sua Real Magestade declarar-lhes os
direitos que tem o mesmo Senhor Rei contra o Rei de Aragão, a fim de que
o dicto Senhor Duque e suas gentes podessem melhor derimir e defender a
questão do dicto Senhor Rei de Portugal, no caso que o dicto Senhor
Duque condescendesse em fazer algum tratado amigavel com o Rei de
Aragão, por mão do dicto Senhor Rei de Castella, ou por outro qualquer
meio, declarando os mesmos Embaixadores que não era intenção do dicto
Senhor chegar a qualquer accordo na sua questão, sem que a do dicto
Senhor Rei de Portugal fosse igualmente resolvida no mesmo accordo.
Ao que pela mesma ordem o dicto Senhor Rei de Portugal respondeu:
Primo. Quanto ao primeiro ponto, que elle muito agradecia ao dicto
Senhor Duque a lembrança de lhe mandar os seus processos, instrumentos e
outros documentos que os acompanhavam, dizendo que a plena confiança que
tinha na boa consciencia e prudencia do dicto Senhor Duque era tão
grande que elle nunca consideraria os dictos direitos contra o Rei de
Aragão, senão como fundados em causa muito justa e racional;
acrescentando ainda que o Rei de Aragão teve sempre por uso e costUme
fazer injustiças a todos, e negar-lhes rasão; pelo que disse que o dicto
Duque não póde ter má causa contra elle, supposto mesmo que não houvesse
qualquer justificação da parte do dicto Senhor Duque. Disse tambem o
mesmo Senhor Rei que muito folgára de ver a boa ordem que o Senhor Duque
havia observado no seu negocio, declarando que muito prudente e
discretamente tinha andado no processo da sua causa.
Ao segundo ponto, respondeu o mesmo Senhor Rei, que tinha por desculpado
o dicto Senhor Duque, e nem este tinha necessidade de desculpar-se, e
que portanto quando aprouvesse ao dicto Senhor Duque usar de armas
contra o dicto Rei de Aragão, o mesmo Senhor Rei estava preparado e
offerecia o seu exercito e armada contra o Rei de Aragão, na
conformidade das convenções e tratados contrahidos entre elle e o dicto
Duque, com tanto que o mesmo Senhor Duque o prevenisse em tempo
opportuno, nos termos, fórma e modo, contidos e declarados no dicto
tratado e convenções.
Ao terceiro ponto, respondeu o mesmo Senhor Rei que elle, por pessoas do
seu Conselho, mandaria esclarecer a consciencia do dicto Senhor Duque,
ácerca dos direitos que o mesmo Senhor Rei tem contra o Rei de Aragão, e
da injustiça que lhe faz o mesmo dicto Rei. Alem d'isso dice o mesmo
Senhor Rei que elle faria escrever francamente toda a sua queixa, e o
mais que se houvesse n'ella tratado, desde o principio até o fim, e
mandaria tudo ao dicto Senhor Duque. A isto responderam os dictos
Embaixadores ao Senhor Rei, que não era necessario fazel-o porque o
dicto Senhor Duque, e tambem elles Embaixadores, se contentavam só com a
palavra do dicto Senhor Rei. Depois de se achar assim tudo concluido
retiraram-se os dictos Embaixadores, e dirigiram-se logo á presença da
Senhora Rainha de Portugal, á qual depois de haverem feito as saudações
da praxe e do estylo, em nome do Senhor Duque, apresentaram as cartas,
tanto do Senhor Duque, como tambem da Senhora Duqueza, as quaes cartas
foram por ella recebidas com muita alegria, e mostrou o maior
contentamento e satisfação pela boa saude e prosperidade do mesmo Senhor
Duque, da Senhora Duqueza e do filho dos dois, o Senhor Luiz.
Na manhã do dia seguinte, que foi o vigessimo dia do mez de abril,
voltaram os Embaixadores á presença do dicto Senhor Rei de Portugal, ao
qual perguntaram se lhes queria dar algumas ordens, ou escrever ao dicto
Senhor Duque, pois que tencionavam, com a sua graça, voltar para junto
do dicto Senhor Duque. A isto o dicto Senhor Rei respondeu que ainda
queria fallar com um dos dictos Embaixadores, isto é, com o Senhor
Raymundo Bernardo de Flamench, e disse-lhe que voltasse no dia seguinte,
pois que se sentia um pouco indisposto de saude.
N'este dia seguinte que foi o vigessimo primeiro do dicto mez, e nos
outros cinco dias immediatos, o mesmo Senhor Rei esteve tão enfermo e
incommodado da sua pessoa, que ninguem, a não ser os seus creados, lhe
pôde fallar, por causa da sua enfermidade; e só depois o dicto Senhor
Raymundo esteve em conferencia com o Senhor Rei e isto foi no dia
vigesimo septimo do dicto mez.
Finalmente no primeiro dia de maio proximo immediato, os dictos
Embaixadores despediram-se dos dictos Senhores Rei e Rainha[19].
[17] 6 abril, 1377.
[18] Gilles Aysselin, filho do Senhor de Montaigut, em Auvergne, antigo
Bispo de Theronanne, cardeal Bispo de Tusculum.
[19] Bibliotheca nacional de París. Secção dos manuscriptos francezes,
3884.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
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| | Original | Correcção |
+----------+---------------------+----------------------+
|#pág. 20| Porguez | Portuguez |
|#pág. 43| es Algarbii | et Algarbii |
|#pág. 43| veneralibem | venerabilem |
|#pág. 49| Portngalie | Portugalie |
|#pág. 50| doimnus | dominus |
|#pág. 53| Portagalie | Portugalie |
|#pág. 54| faturum | futurum |
|#pág. 56| an?baxiatores | ambaxiatores |
|#pág. 57| ontravenire | contravenire |
|#pág. 70| qnod | quod |
| | | |
|#nota 13| pardarios | partidarios |
|#nota 13| confedrados | confederados |
|#nota 13| coucordava | concordava |
|#nota 13| federad?s | federados |
|#nota 17| 1878 | 1377 |
+----------+---------------------+----------------------+
Correcção de frase na #nota 17:
(...)toda a sua queixa, e o mais que se houvesse n'ella tratado, desde
o principio até o faria escrever francamente fim, (...)
passa a:
(...)faria escrever francamente toda a sua queixa, e o mais que se
houvesse n'ella tratado, desde o principio até o fim, (...)
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