--A vida não escolhe discipulos entre aquelles que apresentam a cabeça

encanecida. Bem ao contrario, parece que aos moços dá, por vezes,

preferencia, como compensando-os de não terem o discernimento preciso

para bem conhecer e evitar os revezes da sorte.

--Mas--é maravilhoso tudo quanto estão a dizer-me os seus divinos labios

com a musica angelical da sua voz, minha adoravel senhora! Se já não

sentisse por sua pessôa--e pelo seu espirito--este indomavel affecto de

que falei-lhe ha pouco, penso que deveria experimental-o agora--e bem

profundamente!--depois de ouvir-lhe tão razoaveis e inesperados conceitos.

--Devéras?

--Por certo.

--Oh! é muito amavel....

--Digo a verdade.

--E, todavia, continuo a descrêr...

--Faz muito mal!

--Porquê?

--Ah! já faz perguntas?--Porque quem confessa descrença em similhante

assumpto, deseja crêr, ou, pelo menos, não quer descrêr...

--O que redunda no mesmo. Errou, porém, estabelecendo até mim a regra

geral, doutor. Difficilmente se engana a mulheres como eu, convença-se.

O mundo tem sido para mim uma grande eschola, sr. dr. Machado. Lições

bem rispidas tenho recebido n'elle, para agora, sem discrepancia das

suas opiniões, fazer que o sr. acredite nas suas proprias illusões

phantasiosas. Pois que! Persuade-se acaso de que jámais poderei tomar ao

sério as banalidades da confissão que me cantou ha instantes o seu

lyrismo? Estará o sr., effectivamente, tão enamorado de si mesmo, que se

julgue irresistivel, fatal? Vaidade sem razão, doutor!

--Como é cruel, minha senhora!

--Não sou cruel, não, cavalheiro: sou justa apenas. E porque

sympathisei inexplicavelmente com o sr., é que desejo trabalhar para

extorquir-lhe do espirito esse orgulho desarrazoado que lhe embota o

sentimento.--Permitte-me a liberdade d'uma franqueza?

--Ora essa! Porque não?...

--Muito bem: pretendo matar-lhe n'alma o seu illimitado.... pedantismo.

--Como diz?

--Ouça bem: o--seu--illimitado--pedantismo.

--E.... mas....

--Olhe, sente-se aqui, a meu lado--Assim. Conversaremos com

tranquillidade, emquanto essa quadrilha d'Offenback absorve todas as

attenções da sala. Escute-me.

----

Eu era menina, dez annos apenas, uma simples creança insignificante.

Seriam nove noras da noite. A chuva caía sem parar desde que anoitecêra;

uma triste chuva hibernal, que dava arripios intercadentes, sob a luz

oscillante do gaz. Estavamos ao serão, reunidos na varanda, umas dez

pessoas: eu, minhas duas irmãs, algumas escravas, e uma preta velha,

muito velha e alquebrada, que o trafico da escravatura arrancara aos

sertões africanos para transplantar no Brazil.

Costuravam umas, outras faziam rendas. Eu e minhas duas irmãs

brincavamos a vassourinha, formando circulo sobre a mesa, em torno da

qual trabalhavam as escravas.

De repente, um silencio operou-se na varanda inteira e nós interrompemos

o brinquedo, ao tempo que as raparigas erguiam as cabeças, detinham no

ar a mão que empunhava a agulha, ou descançavam cautelosas os bilros

sobre as almofadas onde pregavam-se as rendas incipientes.

A velha Eufrasia annunciára que ia contar uma historia da _cabanagem_, o

que era o sufficiente para lhe hypothecarmos a mais absoluta

tranquillidade. Porque, fique desde já sabendo, a Eufrasia era

auctoridade na materia! A sua narração tinha alguma coisa de lugubre, de

compungente, de parceria com certo tom veridico e muito expressivo na

concatenação dos factos e na flagrancia da nota, ou épica ou bucólica,

de que pretendia occupar a attenção dos ouvintes.

Todos aconchegaram-se mais, fitando os olhos da velha, illuminados d'uma

fulguração estranha, que parecia o reflexo derradeiro dos bellicosos

tempos de que ella ia tratar.

Estabelecido o mais completo silencio, tanto quanto era possivel

obter-se com o ruido da chuva a desabar nas telhas,--a bôa preta começou

a referir a pequena historia que passarei a expôr á sua attenta bondade,

succintamente, para o não enfastiar com imprudentes delongas.

----

Da outra banda do rio, á margem esquerda d'este mesmo Guajará que róla

suas turbidas aguas aos pés de Belém, uma roça havia, n'aquelle

tempo,--em 1835,--que era o abrigo d'uma simples familia de modestos

caboclos agricultores: pae, mãe e um filho, rapaz esbelto, no pleno

vigor d'uns 20 annos sadíos e bem desenvolvidos.

Viviam todos na mais lata felicidade que poderiam almejar em sua

simplicidade mediocre de lavradores remediados. A farinha da sua roça

era a mais afamada na praça de Belém e a seriedade com que tratavam

negocios tinha-lhes aberto largo crédito em casa do seu correspondente

na cidade.

O rapaz, Aniceto, andava de casamento justo com a Thomazia, uma rapariga

da margem opposta do rio, moradora n'um sitio quasi fronteiro á roça.

Pelo São João deveriam vir á capital da provincia, effectivar perante um

padre a mais persistente aspiração que em peitos amazonicos jámais

palpitou e que dava-lhes, na sua só lembrança, uma como ebriedade

olympica de soberanas venturas transcendentes.

Uma vez por semana, aos sabbados, a pequena montaria do joven caboclo

rasgava, cheia de vigor, o claro seio do rio e transportava-o rejubilado

á pequenina casa da venturosa amante sitibunda de mirar-lhe as suaves

transparencias do olhar e ouvir-lhe a incomparavel meiguice das longas

falas singellas e apaixonadas.

Horas inteiras, de intensíssimo contentamento, eram as que passava ao

lado da rapariga, a tecer com ella o gracioso dibuxo da sua risonha

existencia por vir, quando, a sós no copiar, de mãos entrelaçadas e o

olhar perdido ao longe, nas aquosas sinuosidades esbatidas nas sombras

do fundo, compraziam-se em acastellar illusões, n'umas inflorescencias

de amplas phantasias admiraveis.

Similhante existencia, parecia abençoal-a o ceu, na sua clemente bondade

rejubilada pelo edificante espectaculo de tão acrisolada paixão.

Mas houve um dia em que a sorte,--sempre inclemente e cynica,

doutor!--pareceu querer zombar da voz geral, corrente a respeito

d'aquella invejavel bonança de duas vidas felicíssimas.

A cabanagem assolava esta parte da provincia. As aguerridas guerrilhas

dos revoltosos percorriam sanguisedentas povoados e roças, buscando e

fazendo victimas por toda a parte, com o desabrimento impudico da mais

ousada barbaridade.

Em taes condições, a casa dos paes de Thomazia não poderia escapar á

visita dos desalmados. Esta foi subjeitada á mais torpe violencia que se

póde intentar contra uma donzella, e os paes da rapariga, por haverem

querido dissuadil-os da infamia,--após assistirem á perpetração

selvática do attentado sem nome, soffreram inermes a pena ultima,

dependurados, um defronte do outro, em dois galhos de sombrosa sumahumeira!

Escaparam ao rábido furor dos revoltosos Aniceto e seus paes, que

embrenharam-se precavidos nos profundos recessos da floresta. De sua

casa haviam presenceado o que passava-se na róça fronteira e nem um só

momento o rapaz, aquelle mesmo namorado férvido da vespera, sentiu um

assomo de correr a vingar o ultrage a que tinham-lhe submettido a noiva!

Admire que sinceridade a d'aquella paixão, doutor, dias antes

apresentada em _labiosas_ florituras de phantasticos arremessos

idyllicos! Que grande coração, o d'aquelle homem!

Fugiu, poltronamente, cheio de medo, sem um remorso que, exprobrando-lhe

a indignidade, propellisse-o a ir morrer no sitio onde haviam insultado

a sua noiva,--sem ir arrebentar os miólos de um dos abjectos infames,

ainda mesmo quando tivesse a certeza de ser feito pedacinhos pela tropa

dos sicarios!

Annos depois, quando estabelecera-se a pacificação na provincia, a

Eufrasia encontrou-o em casa, muito satisfeito e cynico, a viver na

companhia de torpe mulata animalisada por uma vida de largas

materialisações soezes e gordurosas.

Ainda podia rir, ainda tinha canções para zangarrear ao som do cavaquinho!

Lá defronte, porém, a roça, tão florescente d'antes, convertera-se em

mattagal e a infeliz Thomazia,--apatetada e envelhecida, coberta de

andrajos e chorosa,--tinha simplesmente, como testemunha da sua

desgraça, uma creança inconsciente, um filho que dentro d'ella semeára a

hedionda selvageria dos revoltosos.

* * * * *

Calou-se a bella Arcelina, offegante e ruborisada. Vibrando toda de

emoção, teve um momento de silencio empregado em fitar longamente o

rosto do dr. Machado. Depois, abrindo o leque amarello-canario,

agitando-o vagaroso, com uma certa magestade de soberana vencedora,

perguntou sorrindo ironica:

--E crê, depois d'isto, que eu acredite na existencia d'um só homem

sincero e verdadeiramente amante, capaz de effectuar todas essas

palavrosas mentiras que o sr. cantarolou p'ra 'hi?

NOTAS

A CONVALESCENTE.--Achava-se impressa a folha contendo esse pequenino

_croquis_ ousadamente dedicado ao sr. dr. Alvares da Costa, quando s.

s.ª levado por intrigas vis e a proposito de algumas phrases a seu

respeito externadas por mim n'um estudo critico das _Primeiras Rimas_,

de João do Rego, rompeu commigo, n'um artigo sobremódo aggressivo, todo

pessoal e rancoroso.

Não quiz, então, riscar o nome que a amizade gostosamente inscrevera em

uma das paginas do meu livro e hoje, para provar-lhe a minha lealdade,

apresento-a tal qual m'a deu o prélo, antes do inesperado desabrimento

de s. s.ª

QUE BOM MARIDO!--Este conto, regeitou-o, em dezembro de 1885, o _Diario

de Belém_, declarando-o immoral. Entretanto, esse mesmo exaggerado zelo

entibiava-se lamentavelmente quando os jornaes do sul... e a tesoura

davam-lhe ensejo de estampar as _moralíssimas_ "grivoiseries" de Catulle

Mendès... É o caso mais flagrantemente pífio de criterio e coherencia

que tenho conhecido!

No dia seguinte, _A Provincia do Pará_ publicava esse trabalho.

HISTORIA INCONGRUENTE.--Foi publicada n'_A Arena_ essa narração, em

1887: ainda existia o infortunado homem de letras a quem tive a honra de

dedicar o meu trabalho e do qual recebi, por esse motivo, lisonjeira

carta muito affectuosa e benevolente.

INDICE

PAGINAS

ALEGRIA GAULEZA 10

A CONVALESCENTE 21

DESILLUSÃO 23

A "SERENATA" DE SCHUBERT 33

QUE BOM MARIDO! 45

NOITE DE FINADOS 55

RIO ABAIXO 61

AO DESPERTAR 69

POEMETOS EM PROSA:

I--_Bidinha_ 81

II--_Paraphrase ossianica_ 84

III--_O parocho da aldeia_ 86

IV--_Ao sol_ 89

V--_Remember_ 91

O PREÇO DAS PAZES 95

HISTORIA INCONGRUENTE 109

A LICÇÃO DE "PALEOGRAPHO" 119

AO SOPRAR Á VÉLA 127

NO BAILE DO COMMENDADOR 137

NOTAS 147

ERRATAS

Os mais notaveis erros são es seguintes:

Pags. Linha Erro Emenda

61 5 caximbo cachimbo

93 15 embaraçadoramente enleiando-nos

enleiando-nos embaraçadoramente

93 33 estendidas extendidas

107 33 inqueriu inquiriu

114 29 vacillanto vacillante

BREVEMENTE

será dado á estampa o novo romance de Marques de Carvalho

SOROR MARIANA

Grande téla descriptiva dos costumes paraenses e servindo de relêvo a um

dos mais notaveis escandalos contemporaneos. A obra formará um forte

volume de de 300 paginas impressas a capricho.

End of Project Gutenberg's Contos Paraenses, by João Marques de Carvalho

Contos Paraenses · 第 5 / 5 段