brevemente me casarei. Bôa e séria, meiga e honesta, trabalhadora e
cheia de dedicação, creio que poucas moças como ella encontrei no Pará
durante os seis annos que lá estive a estudar no seminario e no lyceu.
--Felicito-te, por isso, disse ainda o coronel, sentindo fortes
dôres nas fontes, com o coração accelerado, porém a affectar
tranquillidade.--Mas então quem é a rapariga?
Thiago sorriu indizivelmente,--com uma beatifica expressão de
intensíssima felicidade no semblante, e exclamou:
--É a _Venancia da villa_, a minha querida Venancia!
O velho ergueu-se impellido pela commoção. Suppondo tal acção um meio de
que o pae servia-se para testemunhar-lhe a sua acquiescencia, Thiago
ergueu-se tambem e correu a abraçal-o.
Mas o velho, fazendo um lento signal com o braço estendido,
paralysou-lhe a vivacidade do movimento e murmurou, tremendo todo:
--Attende-me, Thiago, meu filho! Ha muitos annos que sei de teus amores
com a Venancia. Grandes motivos, que talvez conhecerás um dia,
impediam-me de favorecer a esses amores, assim como inhibiam-me de
oppôr-me a elles desassombradamente. Fingí ignorar tudo, na esperança de
que os annos lançassem o tédio sobre as vossas almas captivas uma da
outra por aquillo que eu pensava ser o enthusiasmo pela novidade. Com
immensa dôr verifiquei o meu engano, porquanto foste fiel á tua palavra,
do mesmo modo por que Venancia o foi á sua. Isto seria uma grande
felicidade se não fosse uma enorme desgraça. Quer dizer, seria um
apreciavel penhor da tua ventura por vir, se o objecto da tua paixão
fosse qualquer outra mulher, que não a Venancia..... Olha, Thiago, sem
procurares inquirir qual o verdadeiro e imperioso motivo que assim me
fórça a magoar-te o coração, esquece essa rapariga, deixa de visital-a,
ausenta-te de Marajó, vae para a capital, ou para o Rio de Janeiro, ou
para qualquer cidade longinqua, onde julgues ser-te facil achares uma
mulher a quem possas offerecer a mão....
--Mas porquê, meu pae? interrogou Thiago assombrado, com o coração
oppresso debaixo d'uma tristeza incalculavel, sentindo que as palavras
do pae minavam-lhe o edificio da felicidade por tantos annos construido
com um profundo amor expurgado de malicia.
--Porque assim é necessario,--redarguiu o velho, n'uma vehemencia de
gesto e de entonação.
--Pois fique sabendo que, se não explicar satisfactoriamente a causa de
similhante opposição, só tomarei as suas palavras como originarias d'uma
razão que a edade torna vacillante e digna de piedade!--bradou Thiago já
fóra de si, ferido n'essa grande porção de egoismo que todo o homem tem
comsigo.
--Ingrato, murmurou o velho, deixando-se caír sentado e chorando
copiosamente.--Pois assiste á morte do teu coração, visto assim o
desejares: ouve-me!
Pela janella aberta, via-se o vastíssimo campo do lado oeste da fazenda,
coberto d'uma vegetação uniforme de capim crestado pelo sol. Vitellos
saltavam ás cabriolas e grandes bois mansos, muito gordos e vagarosos,
pastavam tranquillamente os fios de curto capim secco, abanando as
longas caudas n'um compassado movimento automatico. Ao longe, um toiro
preto, perfilado e sério, olhava para a linha escura do horisonte,
entretido em lamber as ventas lustrosas de ranho com a flexivel lingua
côr de cinza de charuto. Um cheiro almiscarado d'erva sêcca e de
excremento de boi subia até ao quarto. Vaqueiros zangarreavam n'umas
flautas campestres, muito rudimentares, feitas de talos de mamãoseiro.
Urros melancholicos de vaccas chamando pelas crias casavam-se com essas
faceis melodias bucolicas, vibravam pelo espaço em propagações suaves
que, dilatando-se cada vez mais, perdiam-se no ar como um suspiro flebil
de extrema ternura. E da linha do horisonte, que recortava-se muito
distante sobre o azul escuro do ceu, levantava-se vagarosamente a noite,
magestosa e tranquilla em sua imponencia seductora.
O velho enxugou as lágrymas e começou a falar.
III
--Como sabes, tinhas dois dias quando tua santa mãe nos faltou. Até
agora não sei como possivel me foi resistir a essa desgraça, que eu a
principio reputei capaz de tirar-me a existencia. Tres annos passei
encerrado n'este quarto, sem visitar as nossas fazendas, sem receber
ninguem, apenas gozando em tuas innocentes caricias um pallido reflexo
d'aquelles grandes affagos que a tua idolatrada mãe fazia-me
constantemente. Passados esses tres annos, comprehendi que o teu futuro
exigia-me impozesse silencio á minha dôr, e cuidasse de nossos bens,
para dar-te uma bôa educação e, depois da minha morte, fazer-te herdeiro
de uma riqueza sufficiente á tua manutenção. Saí, pois, do quarto,
pedindo mentalmente á alma de tua mãe tomasse este sacrificio como feito
por amor de ti e, por consequencia, por amor d'ella. Negocios meus
exigiam que eu fizesse frequentes viagens á villa, onde, ha vinte e tres
annos, isto é, quando tinhas cinco, encontrei-me com uma senhora
amazonense, mulher d'um velho amigo meu, fazendeiro em Chaves e morador
da villa. Essa senhora era o retrato vivo de tua mãe. Por um phenomeno
de impressionismo,--sem o querer, sem o sentir--fui-me enlevando das
graças d'ella, até chegar ao ponto de pensar que tua bôa mãe tornára á
vida e volvêra a amar-me como d'antes!
Quando eu ia á villa, hospedava-me em casa d'esse antigo companheiro.
Tal convivencia maior augmento deu ao meu amor, que transformou-se em
grande paixão, toda enthusiasmos e vehemencia. As fazendas de Chaves
faziam com que o marido d'ella se ausentasse muitas vezes da villa,
deixando-me ao lado da mulher que.... poupa-me a vergonha de
communicar-te que.... titubeou o coronel, muito triste, com os olhos
mareados de lágrymas, a arfar do peito e a contrahir o rosto n'uma
visivel agonia causada pelos remorsos.
--Emfim,--disse com energia e, desta feita, dando expansão ao pranto,--o
resultado d'essa criminosa, d'essa infame e baixa paixão, foi o
nascimento d'uma menina, que o meu velho amigo ingenuamente suppoz ser
sua filha....
--E essa menina é... Ve..nan..cia?--inquiriu Thiago com os olhos
arregalados, os cabellos crispados, as mãos fechadas fortemente,
sentindo fraquejar-lhe o espirito ao embate de tamanha commoção.
--Sim, Thiago, sim, é Venancia, fructo da minha infamia, a filha do
crime, a filha d'um amigo traidor e d'uma esposa miseravel que não soube
resistir á minha tentação! É Venancia, a mulher com quem te queres unir
pelo.... casa...mento! É tua irmã, insensato!...
E caíu redondamente para traz, agitado nas convulsões da gotta, da sua
molestia habitual, ao mesmo tempo que o filho rolava sobre a rêde de
maqueira, fulminado pela morte, que providencialmente o livrou d'uma
vida que d'ahi em deante só poderia ser de tormentos e angustias
indiziveis.
A licção de "Paleographo"
A Heliodoro de Brito
I
A escrava Josepha teve, n'aquelle dia, um grande sentimento. Sua alma
confrangeu-se toda, ante-soffrendo as trêdas amarguras do largo e
profundo golpe que breve teria de receber-lhe o amantíssimo coração de
mãe.--O commendador Pereira de Castro, que d'ali a dias seguiria para a
Europa, de concomitancia com toda a familia, annunciara-lhe a sua
resolução de levar comsigo a pequena Isaura, a sua querida filha, a
mulatinha amimada, cria de casa, prenda favorita de todas as pessoas
d'aquella abastada familia actualmente em vesperas de viagem.
E ella, a mãe extremosa, que só vivia do tenro affecto suavíssimo da
filha, na tenebrosa passividade do seu captiveiro,--não obstante a
bondade com que era tratada por todos,--teria de ficar no Pará, separada
do pequenino ente que deslaçava-lhe o espirito em fulgidas chiméras de
loiras phantasias, em meio ao triste vegetar da sua existencia!
Uma dôr profunda empolgou-lhe tyrannamente a alma e seus olhos, outrora
privados de lágrymas sob o látego inclemente do seu primeiro senhor,
antes de ser vendida ao velho Pereira de Castro, verteram largo pranto
silencioso por toda a noite passada em claro após a declaração ouvida
pela manhã.
Só a lembrança de tão rude separação fazia-a soffrer tanto; o que não
seria a crua realidade?
Mas o commendador, ao vel-a concentrada e soluçando a furto, no dia
seguinte,--com os olhos, mudamente cheios de quérulas expressões, fitos
na rapariguinha,--acercou-se-lhe paternal e, com a voz molhada de
benevolencias, consolou-a a meio.
--Que se não affligisse, ponderou. A pequena voltaria com elle e com a
familia, d'ali a annos. E com quanta vantagem para ella! Promettia
trazer-lh'a instruida, educada, elegante e feliz,--uma verdadeira
senhora. Até ella, Josepha, se arrependeria então da sua tolice actual,
porque reconheceria os beneficios que tinham querido fazer-lhe á filha.
Pois não era certo que todos ali tratavam-n'as tão bem, á mãe e á filha
e que esta era tida menos como uma _ingênua_ do que como se, realmente,
fosse originaria do casamento d'elle commendador com sua esposa?
Confiasse a Josepha em seus senhores e o futuro mostrar-lhe-ia com
exuberancia a justeza do seu proceder.
Estas palavras acalmaram um tanto a febricitante agonia da escrava.
Eliminal-a, porém, d'alma, era impossivel, que não póde um coração de
mãe deixar que a sorte, em qualquer de suas innumeraveis manifestações,
lhe roube o ente dilecto por excellencia, sem estalar todo nos loucos
frémitos delirantes da mais intensa dôr.
II
A familia do commendador Pereira de Castro seguiu viagem e, com ella, a
pequena Isaura.
Josepha, a escrava, transportada ao cumulo das grandes e mudas
afflicções, não pareceu viver desde a partida da filha. Viam-n'a as
outras escravas atravessar calada os aposentos desertos, alheiada de
tudo, olhando em frente, como se divisando estivesse nos curtos longes
do horisonte limitado uma visão, só para ella creada, a attrair-lhe
poderosamente o olhar, a absorver-lhe todas as forças vivas do espirito
e da razão.
Mas um dia, trez annos depois, o socio do commendador mandou chamal-a ás
pressas. Acudiu indifferente, sem mau modo nem solicitude na expressão
do rosto, como quem está acostumado a pensar e agir por vontade de outrem.
O socio e procurador do velho Castro entregou-lhe, a sorrir, uma carta.
Bateu desusadamente o coração da preta. Aquelle papel não poderia ser
senão da sua Isaura: o commendador, de tempos a tempos escrevendo ao
socio, pedia-lhe sempre informasse á Josepha estar a filha d'esta com
saude, muito desenvolvida e bastante adeantada nos estudos. Segurou a
carta a tremer, e ficou-se a olhar longamente aquelle homem, que
sorria-lhe docemente, compadecidamente.
--Anda, vae, disse elle; é uma carta de tua filha.... escripta por ella
propria.
Escorreram lágrymas jubilosas dos olhos da escrava. Uma alegria sem fim
dava-lhe precipitados pulos ao coração. Conservou-se, todavia, immovel
deante do _branco_, e olhava para elle, como desejando dizer-lhe alguma
coisa.
Elle pareceu comprehendel-a:
--Queres que a leia?
--Sim, sinhô, respondeu Josepha, entregando-lhe apressada a carta e
preparando-se para ouvil-a, para saborear-lhe o gosto transcendente dos
sentidos, a divina musica ignorada das dôces palavras escriptas pela mão
infantil da filha.
O socio do Castro leu:
MINHA QUERIDA MÃE,
Escrevo-lhe de Paris, onde estou aprendendo n'um collegio e d'onde lhe
envio milhares de beijos n'esta carta, a primeira que por meu punho
escrevo, para lhe contar, se podesse, as muitas saudades que tenho da
minha santa mãe e o grande desejo que sinto de estudar muito, para
voltar depressa para onde está a mãesinha do meu coração. Ante-hontem
fiz dez annos e o meu protector offereceu-me uma bonita penna d'ouro,
dizendo-me que com ella deveria escrever-lhe esta carta, minha boa mãe.
Tenho passeado muito e gostado immenso d'esta bella cidade, onde o meu
prazer seria completo se a senhora aqui estivesse junto da sua filha.
Abençôe-me e receba mil beijos que lhe envia
ISAURA.
Paris, 30 de dezembro de 1887.
Josepha chorava, soluçando, quando ouviu o nome que rematava a
carta,--simples linhas banaes, cheias de phrases feitas, possuidoras,
comtudo, do grande merecimento de virem de parte da sua querida Isaura.
III
Era o dia 13 de maio de 1888. As ruas do Pará tinham festiva apparencia,
transbordando de povo rejubilado pelo conhecimento da lei que extinguira
a escravidão no Brazil. Cruzavam-se no ar o esfusiamento de grandes
girandolas de foguetes e o écco ingente de milhares de vozes bramindo
enthusiasmadas louvores e vivas em honra ao glorioso successo.
Galhardetes e corêtos erguiam-se pelas ruas. Bandas marciaes diffundiam
no espaço alegres harmonias de cálidos hymnos excitantes.
Da casa do commendador Pereira de Castro correram para a rua todos os
pretos, afim de lhes ser dada a parte a que tinham direito no geral
regosijo.
Alguem ficou, todavia, indifferente aos sons exteriores do contentamento
publico. Uma preta deixou-se estar na cosinha e espreitava agora para
todos os lados, temendo fossem surprehendel-a.
Quando teve a certeza de estar bem só, esboçou nos roxos labios um
sorriso espiritualisado e, tirando do seio um velho _Paleographo_,
abriu-o nas primeiras paginas murmurando commovida:
--Vamo' estudá a licção. Nhô Manduca, disse que p'r'ó mez que vem já
posso lê a carta da minha filhinha. Quando chega esse dia, meu Deus?
E curvou a cabeça para o livro, na obstinação das grandes vontades
vencedoras.
Ao soprar á véla
Ao Sr. José Feijó d'Albuquerque
I
Ás 8 horas da noite, quando chegou o marido, veiu a Candida, a saltar
alegremente, recebel-o á porta da varanda, arrastando a longa cauda
rendada do penteador de cambraia branca.
Quanto se demorára elle! .... Porque não voltou mais cedo? A sua
Candinha já sentia tantas saudades!.... Elle não imaginava o que era
estar uma pobre mulher mettida em casa, durante uma tarde inteira, sem
ter a seu lado o esposo querido, o seu idolatrado amigo!....
E affagava-o amorosamente, fazia-lhe cafunés pelo alto da cabeça,
causando-lhe uns arripios sensuaes pelas costas, eriçando-lhe os
cabellos dos braços e pernas.
Que não podera vir mais depressa,--objectava o marido, sentando-se n'uma
poltrona e cofiando o negro bigode sedoso, com um olhar de
concupiscencia para a mulher.--Bem esforços fizera, mas inutilmente.
Encontrara-os a jantar, ainda no começo; teve de esperar no jardim por
espaço de meia hora, brincando com as creanças, para entreter-se. Os
pequenos são altamente endiabrados: sujaram-lhe as calças brancas com as
mãos gordurosas.... Depois, tinha ido para a sala, falar ao dr. Martins
e á mulher.
--E acceitaram?--interrogou a Candida, saltando para as pernas do
marido, a rir muito, com os labios abertos lindamente, frisando-se
graciosos e mostrando os pequeninos dentes alvos como o jasmim.
--Qual! Responderam-me que não cediam a escrava por dinheiro algum,
maximè sabendo que nós a desejavamos para a libertar. Aquella gente está
cada vez mais negreira! Emfim, escolhe-se outra qualquer, comtanto que
seja o dia de teus annos digna e liberalmente solennisado por mim.
Continuemos, porém. Estava eu disposto a saír, bem arrufado com o dr.
Martins, quando chegou o Quirino, o velho Quirino, aquelle sujeito
vermelhudo, cuja cabeça está mais limpa de cabellos que os teus joelhos....
--Deixa-te de tolices....
--Agarraram-me para um solo manhoso, que durou até agora, e isso mesmo
porque levantei-me e saí á viva força!.... Agora,--concluiu
sorrindo,--aqui tem você o seu Roberto, cheio d'amor e paixão, disposto
a matar as saudades da sua mulherzinha com um longo beijo ruidoso, a
querer-lhe muito, a fazer-lhe as vontades todas!..
Sempre sentada sobre as pernas d'elle, Candida semi-cerrou os olhos
n'uma vertigem lubrica, e estendeu para a bocca de Roberto os seus
labios frescos e perfumados d'esse olôr exquisito e bom, peculiar ás
mulheres que se tratam.
Mas ergueram-se de subito, n'um enleio: apparecera á porta que dava para
o corredor o moleque Euzebio, com o bule de chá....
II
Depois do chá, Roberto accendeu um charuto, foi buscar um livro e,
accommodando-se n'uma grande _voltaire_, poz-se a ler. Ficou a Candida
defronte d'elle, a miral-o.
Vinha do jardim uma brisa cheia de perfumes, sacudindo as luzes dos dois
bicos de gaz encerrados em globos de crystal finamente lavrado. Com os
cotovellos sobre a mesa, o rosto de mento saliente e narinas afflantes
descançando nas palmas das mãos, Candida continuava a olhar para o
marido com uma expressão extranha, suave, repassada de ternuras
dulcíssimas.
Parecia lançada á contemplação da propria felicidade. Era justamente
aquillo que, annos antes, phantasiára a sua sonhadora imaginação de
burguezinha estragada pelos mimos de seus paes extremosos e pacóvios:
viver honesta ao pé de um marido bonito e de bom coração; estar sempre
junto d'elle, para o consolar em todos os desgostos, rir com elle nas
horas de alegria, ser-lhe sempre de uma fidelidade irreprehensivel e,
sobretudo, contemplal-o a todo instante, silenciosa, longamente,
envolvel-o nas sentimentaes suavidades do seu enlanguescido olhar de
creoula amoravel! Nunca sentira-se tão feliz como depois de seu
casamento com o Roberto, havia quasi dez mezes. Nem uma só contrariedade
tivera após aquella noite commovente, em que recebeu o primeiro beijo do
noivo no silencio de uma discreta alcôva toda cheia de flôres, rendas,
fitas e perfumes! E com que alegria, com que assomos de risonha
infantilidade não ficou, na manhã immediata, quando leu no _Diario de
Noticias_ as linhas seguintes, que decorou á força de as repetir
baixinho?--"Uniram-se hontem á noite em matrimonio, na egreja de
Nazareth, o Sr. Roberto da Silva Pereira, honrado commerciante da nossa
praça, e a Exma. Sra. D. Candida Annunciada Seixas, filha do nosso amigo
sr. Pandolpho Seixas, proprietario abastadíssimo. Foram padrinhos os
srs. Silvino Cunha e Anthero de Mendonça e suas exmas. consortes. Aos
jovens conjuges desejamos o mais ridente porvir enaltecido das
felicidades a que têm jus por seus dotes distinctissimos." Ficou a nadar
em jubilo, toda desvanecida por ver o nome nos jornaes, commovidíssima
pela lembrança de que, áquella hora, a cidade inteira estava sabedora da
realisação de seus intimos desejos de moça apaixonada!.... D'ahi em
deante começaram a viver como dois anjinhos, como ella queria. Roberto
era sempre de uma delicadeza affectuosa e séria para com a sua Candinha,
que tambem, valha a verdade, contribuia, segundo seu poder, para
tornar-lhe suave e alegre a vida. Ella achava impossivel que duas
pessoas que se amaram quando noivas brigassem depois de casadas _por dá
cá aquella palha_... Entretanto, assim acontecia ás vezes. Ahi estava,
mesmo no Pará, a d. Clotilde que, no dizer das más linguas, era uma
jararaca para o marido. O Pedro de Andrade, esposo da d. Estephania, era
outro: passava a vida pelas casas de jogo, embriagava-se e, ao chegar ao
domicilio, esbordoava a mulher que era mesmo uma dôr de coração! Mas com
ella assim não succedia, graças a Deus! O Roberto era pontual como um
cobrador á hora de recolher ao lar: ás 5 da tarde mandava fechar o
armazem, tomava o _bond_ e vinha logo para junto d'ella, de onde não se
arredava senão ao outro dia pela manhã, afim de ir novamente para o
trabalho. Havia de continuar sempre assim tal norma de vida: ella
conhecia de mais o genio do marido para receiar qualquer mudança futura.
Agora, principalmente, ia o Roberto ficar preso pelos beiços, com a
importante noticia que ella tinha para lhe dar. Era verdade! fazia-se
necessario contar-lhe tudo... Porém como? A vergonha apertava-lhe a
garganta assim que ella abria a bocca para falar... Mas hoje diria,
estava resolvida! Quando? agora?--Agora não; deixal-o com a leitura, que
está tão entretido.... Mais logo, quando se fossem deitar. Oh! como
ficaria satisfeito o Roberto! Que prazer para elle!... para elle, que
era tão lindo, tão bom, tão amado!....
Tudo isto pensava ella, continuando a fitar o esposo n'um enlevo
apaixonado.
III
De tempos a tempos, desviando a vista do livro para sacudir a cinza do
charuto, Roberto fitava a mulher, sorrindo bondosamente. Surprehendida,
a Candida pendia para o peito a formosa cabeça, disfarçava fingindo ler
n'um livro que estava sobre a mesa. Em seguida, quando calculava que o
marido continuava na leitura, tornava a pregar no rosto d'elle o seu
ardente olhar, como se desejasse cobril-o com toda a vehemencia da paixão.
Ouvindo soarem no sino de Sant'Anna as 10 horas, Roberto fechou o livro.
--Vamos dormir?--propoz.
Candida estremeceu e levantou-se.
O moleque veiu fechar as portas e janellas e apagar o gaz.
No entanto, haviam os dois penetrado na pequena alcôva. Em cima do
velador, uma véla côr de rosa ardia n'um castiçalzinho de porcellana de
Sévres com pinturas allegoricas de Amores alados e Chiméras volitantes.
No centro, uma _causeuse_ de setim azul estava cheia de laços, corpinhos
de renda, brochuras esparralhadas, n'um abandono adoravelmente
dissymétrico. Vidros de perfumarias com rôlhas de crystal reluziam em
cima do toucador de jacarandá, lançavam scintillações cambiantes ao
espelho inteiriço do grande guarda-roupa que havia no meio de uma das
paredes lateraes.
Ao fundo erguia-se a cama,--pudicamente occulta entre as rugas de um
cortinado de labyrintho finíssimo, suspenso do tecto por uma passadeira
doirada.
Levantava-se d'aquella cama um quê de evaporação de felicidade
inenarravel, que penetrava no espirito dos dois esposos pelos sentidos
do olfacto e da vista. Parecia-lhes acharem-se deante do tabernaculo de
seu amor, do altar de sua existencia feliz e encantadora. Para Candida,
sobretudo, ella tinha uma importancia transcendental: evocava-lhe uma
recordação agri-dôce, que fazia-a sorrir bondosamente depois de nove
mezes de agradabilíssima co-habitação conjugal....
----
Quando iam deitar-se, Candida enlaçou a cabeça do marido com os braços
descobertos,--mal vestida, apenas velada por uma curta camisinha de
cambraia enfeitada de rendas do Ceará.
Roberto beijou-lhe as carnes, aspirando-lhes os mornos effluvios,--essas
queridas exhalações de mulher amada,--n'um enlanguescimento concupiscente.
--Olha, murmurou ella conservando-se na mesma posição, beijando-o na
testa.--Quero dar-te uma noticia muito bôa....
--Qual é?--perguntou Roberto estreitando-a nos braços.
--Tenho tanta vergonha!....
Esta exclamação pronunciou-a Candida desprendendo-se do amplexo do
marido e dando um pulo para o leito.
--Anda, fala, menina, que tolice é essa?
--Então apaga a luz, primeiro; póde ser que ás escuras eu me sinta mais
animosa! ....
Roberto soprou a luz da véla e disse deitando-se:
--Agora....
Candida ficou por um momento silenciosa, afagando a fronte do marido com
as pontas dos frios dedos trémulos. Depois, a subitas:
--É que,--murmurou com umas brégeiras risadinhas reprimidas,--é que
eu.... estou grávida!
Um beijo sonoro, prolongado, ardente como o fogo dos grandes amores,--o
beijo com que o esposo tenta revelar a indizivel alegria de vêr
convertido em realidade o seu mais persistente anhelo,--respondeu
áquella confissão prazenteira, na propicia escuridade da alcôva
matrimonial....
No baile do commendador
Ao sr. Ulderico Souza
Desculpe, mas descreio, doutor, da sinceridade das suas palavras!
E a bella Arcelina tapou os rubros labios, entreabertos em zombeteiro
sorriso, com as rendas finíssimas do seu leque amarello-canario, de
varetas de madreperola.
--E porque, não me dirá? insistiu o doutor Machado, debruçado sobre a
cadeira da interlocutora, a settear-lhe os seios semi-visiveis com um
ardente olhar vibrado atravez o crystal do monóculo petulante.
--Porque--?, respondeu ella, com uma curta gargalhada de chasco, a
fital-o bem na menina dos olhos, falando-lhe por cima do hombro
esquerdo, polvilhado de rescendente velutina; porque.... a vida é uma boa
mestra, doutor, e eu tenho recebido d'ella bem duros, bem crueis exemplos!
--Apezar de ser tão nova assim?