prazeres expulsos, erguiam-se n'uns grandes rendilhados phantasticos de
miragens variadas.
A lua appareceu, como uma saudade enorme e cruciante, n'uma serena
magestade tumular, que impoz vago soffrimento ao coração de todos. Os
brandões e vélas perderam o brilho, ficaram como pyrilampos
lantejoulando os sepulchros sob o luar diaphano, a cuja claridade
continuava o pregador a recordar a omnipotencia de Deus.
Os _bonds_ estacionados na praça encheram-se de passageiros. Minutos
depois seguiam pela estrada da Independencia, replectos de homens, de
senhoras tristes, com physionomias de soffrimento.
Chegando ao largo de Nazareth, apearam-se muitos homens. O largo estava
illuminado festivamente, cheio de adornos alegres. Era aquella noite a
penultima da festa annual.
Então, os mesmos homens que estavam rendendo ha poucos minutos uma
saudade á memoria de um amigo, d'um irmão, d'um pae, desciam agora ao
centro da festa popular, procuravam as conversas ruidosas, invadiam as
casas de jogo,--propellidos pela fascinação demoniaca e terrivel da roleta!
Rio abaixo
(Ao dr. Gaspar Costa)
A canôa seguia mansamente, per si só, impellida pela correnteza.
Sentado á prôa, fumando n'um cachimbo de longo taquary, o caboclo fitava
com o olhar indolente os altos e esguios assahyseiros e as longas folhas
das bananeiras d'um verde-claro alegre, beijados pelos ultimos raios do
sol, que escondia-se por traz da ilha das Onças.
Na pôpa, debaixo d'uma tolda de palha d'ubim, estava o _senhor moço_,
abanando-se com uma ventarola de pennas vermelhas, ao lado da _senhora
moça_, que espreitava para fóra, por um dos pequenos postigos lateraes.
A seus pés, dormitava o cão Mururé, com um pedaço de lingua escarlate
caída para o lado esquerdo, entre os dentes meio visiveis.
O cheiro acre da marezia saturava a tolda. Periquitos gritavam nos
mattagaes da ilha proxima; cantos sonoros de passaros chegavam até á
embarcação, n'uma suavidade docemente melancholica, que fazia sorrir de
alegre ternura os dois viajantes.
--Que bonita paizagem, Antonio!
--É certo! Razão tinha eu dizendo-te que gostarias immenso da viagem.
--Quando chegamos ao _sitio_?
--Ás 9 horas, isto é, d'aqui a tres ou quatro.
--É pena chegarmos tão cedo!
--Dizes bem: vamos tão contentes....
E beijaram-se n'um impeto de prazer extraordinario.
O caboclo, que, por acaso estava a olhar para elles desde alguns
momentos, voltou o rosto, embaraçado, sentindo queimar-lhe as tostadas
faces um ardor de sangue equatorial em ebulição. Puxou do cachimbo
demorada _fumaça_, para tranquillisar-se.
Os outros, os dois recem-casados,--porque Antonio e Luiza eram noivos:
tinham-se matrimoniado quinze dias antes,--experimentavam, debaixo da
tolda, uma sensação de ineffavel bem-estar ao verem-se n'aquelle
magestoso socego, sobre o Tocantins, dentro da embarcação.
Felicitavam-se mutuamente,--com o olhar cheio de caricias,--por haverem
podido esquivar-se á vida agitada que levavam em Belém, sempre rodeados
de visitas, cujas conversações banaes, nullas, pouco interesse lhes
davam. Mas agora,--como iriam viver felizes durante aquella quinzena de
fuga, em a tranquillidade bucolica da roça, sosinhos, passeiando sem
companheiros importunos, ao longo do rio, tirando caranguejos da lama,
lavando reciprocamente as mãos na agua azulada e murmurosa dos
igarapés!.... E que festas fariam á hora do jantar, comendo peixinhos
pescados por Luiza, e pacas, roliças de gordas, caçadas pelo Antonio nas
mattas do _sitio_?!....
Suggeridas pelo sopro de socego que parecia rodeal-os no meio do rio,
estas idéas levaram-n'os a conversar animadamente, risonhamente, sem
attenderem a que o sol não mais vibrava os lategos luminosos no dorso da
corrente, e que, portanto, poderiam sair para o centro da canôa, afim de
gozarem da viração fresca e cheirosa que agitava n'um movimento
descompassado as velas mal colhidas ao mastro.
Sempre assentado á prôa, fumando sempre no cachimbo de longo taquary, o
caboclo olhava agora para o poente, como confidenciando mentalmente com
o sol, que deixára um rastro avermelhado no céo, onde agrupavam-se em
desordem nuvemzinhas côr de nácar, violetas, azuladas, plumbeas, côr de
perola. Do lado opposto, levantava-se a noite, n'um andar manso,
mathematico, extinguindo a pouco e pouco o crepusculo bruxoleante.
O gorgeio dos passaros cessára na ilha das Onças, que já tinha ficado
atraz, a longa distancia; só chegavam á canôa os compassos em _andante_
do canto de um carachué que saudava a noite d'uma pequena ilha, rente á
qual passou a embarcação.
--Vê ahi no meu relogio que horas são, José, ordenou Antonio ao caboclo.
--Seis e trinta e oito, _sinhor_.
--Oh! então saiámos d'aqui, filha, vamos tomar fresco.
Vieram para fóra.
Luiza soltou uma exclamaçãosinha, sonora como um soneto de Paulino de
Brito, engraçada como uma satyra de Julio Cezar, com a sua voz d'um
timbre argentino como um filete de agua morna caindo n'uma banheira
d'oiro lavrado:
--Ah!--fez ella.
E deixou-se ficar de pé, encostada ao hombro do marido, extasiada, em
frente ao pittoresco panorama que apresentava-se-lhe aos olhos.
Largo em aquelle sitio, achamalotado pela brisa, o rio abraçava
numerosas ilhotas rasas, cobertas d'uma vegetação opulenta, que
esbatia-se n'uns tons escuros, quasi indecisos, no limite do horisonte.
Um socego de tabernaculo reinava por toda a parte, sob o azul ferrete do
céo, onde as estrellas começavam a scintillar como as pedras preciosas
d'um manto de rainha antiga. Nem uma nuvem occupava n'esse instante um
espaço do firmamento. Ao longe, á direita da terra firme, tremulava uma
pequena luz. A agua do rio, no fim da vasante, esgueirava-se pelo
costado da canôa n'um murmurio dolente. A súbitas, na solemnidade do
silencio, resoou um grito d'ave nocturna.
--Accende a lanterna, José,--disse Antonio ao caboclo, que obedeceu
logo, voltando depois á sua posição habitual na prôa, fumando.
Antonio e Luiza tinham-se assentado sobre a mala que havia no centro da
embarcação, entre dois paneiros de farinha sobrepostos, e uns grandes
jarros com roseiras florídas.
Como tivesse refrescado o vento, Luiza sentiu frio, estremeceu. O marido
foi á pôpa buscar um chale, cobriu-lhe com elle os hombros,
conchegando-lh'o muito ao pescoço, amoravelmente.
Depois sentou-se ao lado d'ella. Era profunda a escuridão. Do logar em
que achavam-se, apenas viam na prôa um ponto vermelho como um
carbúnculo: o tabaco a arder no cachimbo do caboclo. Este se tornára
invisivel na densidade das trevas.
Antonio e Luiza sentiram-se bem n'aquella solidão: entraram a conversar
baixinho, muito unidos, de mil cousas que lhes compunham o passado de
tão agradaveis recordações. Era para ambos uma innarravel felicidade
poderem pairar, assim a sós, das peripecias do curto namôro, dos longos
annos que elle passou a amal-a silenciosamente, das emoções e
impaciencias do dia do casamento, quando approximava-se a hora em que o
parocho de Sant'Anna teria de unil-os.
Soltavam risadinhas indiscretas, acariciavam-se com amor, com delicias,
n'uma excitação dos sentidos. Um movimento instinctivo,--inconsciente,
talvez; cheio de affecto e volupia, com certeza,--uniu-lhes os labios
n'um prolongado beijo de paixão, vibrante como um côro juvenil.
Ouvindo-o, o velho caboclo estremeceu, mudou de posição.
Poz-se a pensar nas passadas e saudosas épocas da sua felicidade, fruída
com a finada mulata, a quem tanto queria, no meio da vegetação selvatica
e cheia de grandiosidade das florestas amazonicas...
E um suspiro profundo, traduzindo uma saudade dolorosíssima, respondeu
áquelle beijo nascido de duas bôccas amantes no silencio de tão linda
noite paraense.
Entretanto, a canôa seguia mansamente, rio abaixo, impellida pela
correnteza.
Ao despertar
Ao sr. A. R. d'O. Gomes
_Nem tudo o que luze é ouro._
PROVERBIO POPULAR.
I
A alcova nupcial em noite de noivado.
Um perfume suave de flôres volita invisivelmente pela atmosphera da
peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde as rosas
variegadas em côres desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e
como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente
cerradas... Uma lámpada com vidros baços, côr de leite, esparze branda
luz em torno, sem crepitação, n'uma solenne impassibilidade, que dá
certo ar magestoso ao silencio do recinto.
Dois pares de pantufos de sêda branca escancaram as cavas como n'um
bocejo, sobre a fina alcatifa azul, aos pés da cama.
Em cima do leito, abandonada, a grinalda de flôres de larangeira repousa
meio escondida sob um lenço de fina baptista com um monogramma bordado.
Ha quinze minutos que a noiva penetrou no quarto, muito pállida e
trémula, seguida pela madrinha, e atirou sobre aquella cadeira
preguiçosa o elegante espartilho e o corpinho de labyrintho....
Ha quinze minutos a joven Paula, toda transida ante os mysterios que se
lhe antolhavam na vida que ia começar em breve, deixou-se escorregar
pelos finos lençóes e descançou a bella cabeça de paraense morena, em
cima do travesseiro macio como a flôr do algodoeiro....
E ha dez minutos apenas que o seu noivo, o seu querido Alfredo, entrou a
passos leves, amoroso, cheio de grandes anceios, com os labios
contrahidos n'um leve rictus de satisfação, de ventura.
Dez minutos antes, elle descerrara as cortinas que se fechavam n'uma
pudicicia, e murmurara baixinho, todo emocionado:
--Permittes?....
E agora, emquanto elles dormitam, amorosamente enlaçados, sonhando
felicidades paradisíacas, um perfume suave de flôres volita pela
atmosphera da peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde
as rosas multicores desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e
como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente
cerradas.
II
O casamento realisado n'aquelle dia fôra o epilogo de um longo namoro de
seis annos, muito abundante em peripecias interessantes, como
indisposições subitas, brigas e malquerenças de alguns mezes por causa
de nonada, e, depois, de repente, pela influencia de não sei que
espirito benefico, pazes feitas com abundantes expansões apaixonadas,
reconciliações ternas e carinhosas, que os prendiam temporariamente n'um
enlevo.
O pae de Paula era um velho capitalista retirado dos negocios,
brazileiro obeso e rubicundo a destillar suor e essa satisfação do homem
rico que vive contentíssimo da sorte.
Creara para a filha um ideal--um casamento com um bacharel. Similhante
aspiração, incontestavelmente modesta, fizera o velho procurar certa
roda, para a frequentar, quando a filha chegou aos 15 annos. Viuvo,--a
mulher morrera-lhe de parto, ao dar á luz um ente rachítico,
inviavel,--deixava a filha nos salões e ia procurar as mesas de jogo,
para encurtar o tempo.
Assim andaram os dois, por espaço de muitos mezes, em verdadeira
peregrinação á cata de casamento, quando, afinal, a sorte quiz
attendel-os e appareceu-lhes na fórma de um elegante mancebo, que dias
antes chegara de Pernambuco, sobraçando o pergaminho que lhe conferia o
titulo de bacharel em direito. O dr. Alfredo sentiu-se captivo das
graças de Paula. Aquella cutis morena e avelludada; os olhos
d'ella,--duas bólas d'onix engastadas em amendoas de jaspe, sombreadas
por longos cilios sedosos;--os longos cabellos d'ébano, ondeando-se-lhe
pelas espaduas de farta carnação; aquelle bonito torso de opulentos
seios na apojadura da juvenilidade;--tudo n'ella prendia-lhe o enamorado
espirito em os laços d'uma paixão tão sincera quanto profunda. Mas,
sobretudo, o que mais o encantava, aquillo que mais o arrebatava a
grandes êxtases gososos, debuxando-lhe nos labios um sorriso
espiritualisado e prenhe de beatitude, eram os alvos dentes que perlavam
as carminadas gengivas d'ella, quando Paula fitava-o sorrindo, com duas
covinhas sobre as faces, bem junto ao rosto d'elle, como desejando
magnetisal-o.
Uma tarde, após haver contemplado os dentes da noiva por muitas horas,
foi para casa com a alma perfumada pelo prazer e tão enthusiasmado
sentiu-se, que sentou-se á secretária e entrou a fazer uma poesia,--elle
que jámais fizera versos!--uma poesia em que abundavam as
palavras--_seductora virgem_, _divinal espirito archangélico_, em uma
terrivel mescla d'enormes pés quebrados, com grande escandalo das regras
formuladas por A. Feliciano de Castilho.
Finalmente, chegou o almejado momento do enlace matrimonial.
Preparando-se afim de ir para a egreja, Alfredo só pensava nos dentes da
noiva, n'esses bellos dentes muito brancos e pequenos que tanto o
encantavam.
E phantasiava um capricho, cuja lembrança era sufficiente para lhe dar
ao corpo agradaveis tremores e arripios: a si mesmo promettia que o
primeiro beijo que désse á mulher seria nos dentes, bem no meio da bocca!
Afinal, aquelles dentes eram uma obsessão para Alfredo. Para qualquer
parte que volvesse os olhos, parecia-lhe avistar os dentinhos de Paula
sorrindo-lhe amoravelmente, incitando-o a uma tentativa agradavel de
roubo de um ósculo. O colete, que elle enfiava n'esse instante, assumia
a apparencia de uma dentadura mordendo-lhe nos hombros, perto dos quaes
pulsava o coração, arfando em anhelos. E, quando o padrinho appareceu
entre as coiceiras da porta, para lembrar-lhe que já era tempo de ir
para a egreja, estava tão abstracto da vida regular, tão concentrado em
suas phantasiosas meditações, que abraçou-o commovido, murmurando:
--Que bella dentadura, que tens!
III
Na egreja e á ceia opipara que seguiu-se á ceremonia religiosa em casa
do velho pae de Paula, durante a longa e--para elle,--enfadonha
conversação subsequente na sala, sob a claridade dos muitos candelabros,
Alfredo só pensava na dentadura da noiva, enterrado n'uma poltrona, com
a fronte meditativa, que fazia os convidadas murmurarem baixinho, ao
ouvido, com um sorriso eloquente por traz do lenço amarrotado na palma
da mão, opiniões em nada favoraveis á sua reputação de sobriedade em
assumpto de succo de uva....
--Que te parece o _gajo_, hein?--diziam.--Pois isso é lá cousa que se
faça? Embebedar-se no dia do casamento....
--Que escandalo!
--Grande c.... O que elle merecia eu bem sei.
E seguiam por esta norma os commentarios--todos reçumando idéas
gordurosas e indecentes.
----
Quando retirou-se o derradeiro convidado, Alfredo suspirou de contente,
muito lisongeiado pelas felicitações que lhe foram feitas, com
acompanhamento de expressivos beliscões pelos braços e nas gordas
bochechas. Afinal, somente faltava-lhe descartar-se do velho sogro que,
impassivel como um abbade após a ceia, fumava a um canto, affagando com
amortecido olhar a fumaça do charuto, além de forcejar por combater a
força dos vapores alcoolicos que lhe subiam ao cerebro, em razão do
abuso que antecedentemente fizéra das bebidas, á mesa, quando brindára,
com exuberante vehemencia de gestos e linguagem, ao chefe politico do
partido e ao Manoel do Rosario, o commerciante que não trepidava em
tomar-lhe dinheiro a juros de 30%, nas occasiões de aperto....
Que elle, Alfredo, devia, e com muita razão, sentir a impaciencia
espicaçar-lhe as costas,--ponderou de repente o sogro, sorrindo
malicioso;--que não se enfastiasse, porém, visto como ainda lá estava na
alcova a madrinha de Paula, a preparar-lhe a _toilette_. Era natural
aquillo tudo, elle bem sabia como eram essas coisas, porque tambem por
ellas havia passado.... Que bom tempo aquelle e que bella noite de
hymineu elle tivéra nos braços da sua Sancha, uma odivellense tentadora
como um demonio formoso!.... Coitadinha! quantas saudades lhe fazia a
evocação da memoria da esposa! Como tinham vivido felizes, n'uma pacata
amizade inalteravel, abundante em amorosidades agradaveis e interminas!
Que elle, dr. Alfredo dos Anjos, devia tratar de imital-o, para fazer a
felicidade d'aquella creaturinha innocente e sem defeitos physicos ou
moraes que d'aquelle dia em deante devia ser sua mulher. Que a poupasse,
que lhe não desse trabalho em demasia para não a fatigar: o dóte d'ella
unido ao dinheiro que elle tinha, poderia porpocionar-lhes uma
existencia descuidosa nos braços d'uma indolencia salutar propicia á
gordura....
E entrava em demoradas considerações a respeito da bôa vida,--como
sectario da vadiação, que era.
Appareceu n'esse instante a madrinha, despedindo-se logo, pretendendo
recolher-se ao quarto que lhe fôra destinado para passar a noite em casa
dos noivos.
Alfredo não quiz ouvir mais: ergueu-se de salto, deu um abraço ao velho
e correu á alcova pensando sempre, cada vez com maior insistencia, nos
bellos dentes de Paula.
IV
A alcôva nupcial na manhã seguinte ao dia do casamento.
Pela janella deixada entreaberta, um raio de sol penetra na peça e vae
beijar as rosas de varias côres que, emergindo de grandes jarros de
porcellana, pendem as frontes fanadas, receiosas de se mirarem aos
espelhos, como invadidas por um pudor, em razão dos amorosos ruidos que
durante a noite inteira sairam, por intermittencias de longos socegos,
d'aquella cama honestamente encoberta pelos discretos refolhos das
cortinas cerradas. Ao longe, no quintal, gallos cantam alegremente,
cumprimentando o sol e fazendo a côrte ás gallinhas, que cacarejam
esgaravatando o chão.
E um como effluvio de ventura evóla-se pelo aposento....
E a luz da lampada de vidros fôscos diminúe de intensidade, bruxolêa
palpitante, ameaçando extinguir-se....
Em cima da commoda, a grinalda de flôres de larangeiras occulta-se mais
debaixo do lenço de custosa cambraia, como envergonhada, ou como
enxugando n'elle as lágrymas que o espirito da Pureza houvesse
porventura derramado sobre suas pétalas inodoras....
Aos pés da cama, perfilados sobre a fina alcatifa azul, os pantufos de
sêda branca escancaram as cavas, n'uma expressão de abhorrecimento pela
demorada immobilidade, n'uma expressão de appello aos pés que devem
calçal-os.
De repente sae do leito um suspiro mais profundo, o bocejo de quem
desperta. E o cortinado descerra-se um pouco, para dar passagem ao joven
noivo, em cujos labios se desenha um franco sorriso de satisfação
intima. E lá dentro, na meia sombra que as rendas projectam, dorme ainda
a formosa Paula, semi-núa, no inconsciente despudor de um somno que foi
agitado...
Alfredo olha para todos os lados, muito contente e risonho. Ao ver o
raio de sol que beija-lhe as plantas, estremece de jubilo, gosando a sua
ventura n'um devaneio de grande felicidade por vir.... Mas de subito,
estarrecido, confuso, muito pállido e crispando as mãos, entra a tremer
todo, com as feições demudadas, os cabellos arrepiados na cabeça
encandescida!
Á cabeceira do leito, sobre o elegante _guéridon_ de jacarandá, estava
uma dentadura patenteiando um céo de bôcca postiço e acinzentado, feito
de massa!.....
E aquella monstruosidade era de Paula, elle bem a conhecia pelos
pequeninos dentes eguaes e perfilados correctamente....
Então, sentindo enormes dôres em todo o sêr, com o espirito prostrado
pela emoção violentíssima, Alfredo cambaleou, soluçando, e foi caír á
beira do leito, lavado em lágrymas, a murmurar n'um gemido:
--Estou roubado, estou roubado!
Poemetos em prosa
I
Bidinha
A Mucio Javrot
Aquelles versos terníssimos, d'uma inspiração ideal e faceira,
haviam-lhe feito comprehender que o poeta amava-a. Sem o sentir bem,
ella começou a amal-o, a amal-o tambem.... Quando, por acaso,
encontrava-o em casa da prima, córava, julgava soffrer e gosar a um
tempo e entrava a fital-o amoravel e longamente, com essa persistencia
abstracta dos verdadeiros extases apaixonados....
O poeta conheceu não ser indifferente áquella moça tão pállida, tão
triste, cujo olhar tinha os fluidos voluptuosos das paixões
ardentíssimas...
E, não sei bem porque, fugiu-lhe: passou um mez sem ir á casa da prima
da Bidinha, para não vel-a. Depois, de si proprio envergonhado, lá foi e
encontrou-a, mais pallida ainda.... e com os olhos,--aquelles
tentadores, faiscantes olhos eloquentes,--mais, muito mais bonitos...
Teve pena d'ella: n'um momento em que ficaram sós na sala,--onde
rescendia o perfume d'um ramo de resêda posto n'um jarro em frente
ao retrato d'uma velha senhora de fronte enrugada e olhar
suave--declarou-lhe amal-a desde muito, intensamente.
Ella, a Bidinha, a pállida donna do álbum que recebêra aquelles
ternissimos versos, d'uma inspiração idéal e faceira, sorriu, estremeceu
e murmurou apenas quasi inintelligivel som.
D'ahi em deante, a felicidade uniu-os sempre em amorosos colloquios
nocturnos, em aquella mesma sala.
* * * * *
Tempos depois, teve o poeta de fazer uma viagem. Os protestos de mutua
fidelidade foram longos, como longa deveria ser a ausencia. Dando-lhe o
aperto de mão de despedida, quasi desfallece a Bidinha, tal foi a
angustia que atravessou-lhe o coração!
* * * * *
Por um artificio da sorte, o poeta esqueceu-se da encantadora creança a
quem jurara amor perante o retrato da velha senhora de fronte enrugada,
emquanto rescendia na sala o perfume d'um ramo de resêda.
Ella esperou-o durante mezes, durante annos.... Oh! lancinante dôr das
longas espectativas!... Espera-o ainda....
Á tarde, quem fôr ao pequenino quintal da casa d'ella, poderá vel-a
sentada sob um grande jasmineiro estendido ao longo de vasta
latada,--com o olhar suave e tristemente fito nas paginas d'um album,
soluçando baixinho palavras de saudosa recriminação.
Aquelles versos terníssimos, d'uma inspiração idéal e faceira,
haviam-lhe feito comprehender que o poeta amava-a!...
II
Paraphrase ossianica
A Frederico Rhossard
Ó bella, ó seductora Malvina, sae do teu refugio nocturno, desce do
rochedo sinistro onde o vento-norte ruge em torno de ti. Acerca-te de mim.
Inflammados sulcos os phantasmas dos mortos traçam sobre as nossas
torrentes. Ouço-os passar no meio dos turbilhões e suas vozes fanhosas
são os unicos sons a perturbar o magestoso socego das trévas.
Ó tu, cuja mão branca e delicada desferia melancholicos gemidos nas
harpas de Lutha, tenta ainda consolar-me com teus hymnos poeticos e
dolentes. Desperta essas cordas adormecidas, canta, ó Malvina, e reaviva
o meu genio, cuja chamma foi sopitada pelos annos implacaveis.
Vem a mim, ó Malvina gentil, na obscuridade d'esta longa noite que
entristece-me. Porque privaste-me da meiguice de teus cantos! Quando o
regato cae na colina e róla, depois do furacão, sob a luz radiante do
sol, o caçador escuta-lhe com prazer os suaves murmurios, sacudindo a
humida cabelleira.
Assim a tua sonorosa voz, Malvina, encanta o amigo dos finados heróes.
Infla-se meu peito; o meu coração palpita. Delinêa-se a meus olhos o
passado. Vem, ó Malvina, não divagues mais no meio das ténebras!
III
O parocho da aldeia
Ao Padre Dr. Leorne Menescal
É a providencia da pobre aldeia aquelle joven sacerdote de tez morena e
olhar carinhoso como um conselho de Jesus.
A sua parca mesa está sempre ás ordens dos mendigos, a sua porta aberta
sempre aos viajantes, a sua bôcca incessantemente murmura consolações ás
pessoas que soffrem.
Muitas vezes, alta noite, vão chamal-o para ministrar os socorros da
religião a algum enfermo, em qualquer das aldeias que formam a serrana
freguezia. Então, levanta-se ás pressas, monta a cavallo e lá vae
montanhas fóra, a galope, ladeando tenebrosos precipícios, sob a chuva,
tiritando de frio, impassivel como um heróe e contente comsigo mesmo,
sentindo-se alegre por ir cumprir um dos mistéres que lhe impõe a sua
profissão, tão bem comprehendida por sua bella alma!
Nada o assusta, nada o intimida, pois tem a certeza de que todos
aquelles montanhezes simplorios amam-n'o sinceros e respeitam-lhe os
conselhos de paz e bondade.
Quando começou o movimento abolicionista na Fortaleza, o recto sacerdote
arvorou-se em defensor dos escravisados na sua modesta parochia da serra
de Baturité. Em poucos mezes, graças a seus esforços e á illimitada
sympathia que a todos inspira, as aldeias sob o seu vicariato não tinham
um sêr captivo: todos eram eguaes!