No seu pequeno quarto modesto de rapaz solteiro, João estava

J. MARQUES DE CARVALHO

CONTOS

PARAENSES

PARÁ

PINTO BARBOSA & C.--Editores

Rua 13 de Maio

1889

Obras de Marques de Carvalho

VI

CONTOS PARAENSES

DO MESMO AUCTOR

O SONHO DO MONARCHA,--poemeto, 1886, Opusculo

LAVAS, poemeto, 1886, Opusculo

PAULINO DE BRITO, perfil, com _fac-simile_ e retrato do biographado,

1887, 1 vol.

HORTENCIA,--romance naturalista, 1888, 1 vol.

O LIVRO DE JUDITH,--versos e contos para creanças, 1889, 1 vol

A PUBLICAR

HISTORIAS D'AMOR,--contos, 1 vol.

SOROR MARIA,--romance, 1 vol.

THEODORICO MAGNO,--perfil, 1 vol.

J. MARQUES DE CARVALHO

CONTOS PARAENSES

PARÁ

PINTO BARBOSA & C.--Editores

Rua 13 de Maio

1889

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Pará--Typ. dos Editores, rua 13 de Maio.--1889.

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A MEU IRMÂO

Antonio de Carvalho

AO EXM.º SR. COMMENDADOR

Domingos José Dias

Reconhecimento, Amizade, Veneração.

Alegria gauleza

A José Veríssimo

Emquanto esperavamos o almoço,--aquelle almoço ás pressas encommendado

no mais que modesto _hotel_ do Pinheiro, fômos dar um passeio pela matta,

sob a sombra das grandes arvores copadas.

As senhoras haviam ficado na sala do _hotel_, aguçando o appetite no bom

cheiro de refogado, que lhes chegava da cosinha.

O meu companheiro de passeio era um velhote de 50 annos, grande rosto

quadrado, de longas suissas grisalhas em faces tostadas pelo sol da

America.

Travaramos conhecimento no pequeno tombadilho da lancha que da cidade

nos transportara ao Pinheiro.

Ainda não havia duas horas que nos conheciamos, e já grande

familiaridade se estabelecera entre nós,--essa familiaridade facil,

intima, passageira, das pessoas que viajam.

Estavamos ainda a bordo, e já o meu sympathico companheiro, sentado á

amurada, contara-me ser francez, ha muitos annos residente na provincia

do Pará, onde tencionava ficar até ao fim da vida.

Sentia-me cada vez mais impulsionado para aquelle sujeito cuja

existencia eu ignorava algumas horas antes, e que presentemente, por

motivos que eu não tratava de saber, tão vivamente me attraía a

curiosidade.

Quando saltamos para terra,--emquanto subiamos pela escada da

ponte,--convidei-o para almoçar comnosco, e elle acceitara rindo,--com

um riso bonachão de quem é dotado de alma simples, sem duplicidade.

Fôra elle quem me propuzéra aquella excursão á matta, para darmos tempo

a que o hoteleiro preparasse a refeição, que eu já prevía frugal e

triste, attendendo ás condições da terra em que nos achavamos.

Acceitei-lhe de boamente a proposta, com aquella vivacidade alegre de

quem vive mezes inteiros encadeiado ao cepo do trabalho quotidiano e

toma, de tempos a tempos, um bello dia para descançar um pouco, em a paz

d'uma povoação de arrabalde, refestelando-se preguiçosamente na relva

odorífera dos nossos grandes e soberbos mattagaes.

E fômos por ali fóra, seguindo um carreiro sinuoso, por baixo de

farfalhante cupula de ramos coloridos de um verde-escuro admiravel, cuja

uniformidade era quebrada pelo vermelho vivo, pelo amarello e pelo

branco das varias flôres sylvestres, cujas pétalas encolhiam-se um

pouco, meio-fanadas pelos raios do sol.

Um forte vento refrigerante e consolador vinha do norte, do lado por

onde a vista se perdia no infinito, após o rio que fugia para o mar. O

cheiro acre da marezia andava no espaço, casado ao perfume subtil e

excitante da baunilha, cujas compridas favas pendiam dos escuros e

velhos galhos d'aquellas arvores seculares. Pássaros voavam céleres,

n'um brando ruflar d'azas, soltando pequeninos gritos estrídulos e

alegres. De momento a momento, a curta distancia de nós, lagartos

cinzentos ou verdes fugiam assustados, fazendo estalar o folhedo sêcco

que juncava o sólo. E lá muito ao longe, no alto, sobre pedaços de ceu

de um azul deslavado, que nós entreviamos pelos interstícios das ramas,

urubús recortavam-se muito negros, muito pacificos e espalmados, nos

seus vôos arredondados, pairando como n'uma contemplação enamorada da

terra que os sustenta com suas putrefacções, com seus resíduos infames e

nojentos.

De repente, o meu companheiro disse-me:

--Sentemo'-nos aqui. O sr. ja deve estar cançado d'esta longa caminhada.

Não tinha a minima accentuação estrangeira; fallava como um verdadeiro

paraense.

Alongara-se por cima de uma camada de capim verde pouco espessa, de

bruços, com o pescoço estendido e o grande chapéu de palha do Chile a

descer-lhe para a nuca. Imitei-lhe o gesto, defronte d'elle.

Ficamos calados por alguns minutos.

Elle fitava o solo, com as narinas palpitantes, como sorvendo em longos

haustos sensuaes aquelle bom cheiro acre e sylvestre que a terra

exhalava.

Perguntei-lhe de repente, não achando outra coisa a dizer-lhe:

--O sr. é casado?

Fitou-me bem na menina dos olhos, com uma expressão investigadora de

quem deseja conhecer o fundo do pensamento de seu interlocutor. Depois

respondeu:

--Não... Fui... Agora estou novamente solteiro: sou viuvo.

--Ah!

--É verdade. Sou viuvo e tenho-me dado muito bem n'este novo estado de

quem vive sem as preoccupações do homem casado, que tem uma familia a

sustentar. Bem tolo é quem se casa...

Calou-se, a mirar-se outra vez nos meus olhos.

Um pequeno sorriso enigmatico frisava-lhe o labio superior, traçando nas

duas faces profundas rugas obliquas que, nascendo das azas do nariz,

partiam a perder-se nos longos fios grisalhos da parte inferior das

suissas.

Eu não comprehendia bem o que diziam aquellas palavras, assim

sublinhadas por similhante sorriso.

Elle pareceu-me haver adivinhado a minha duvida, porque disse,

apertando-me as costas da mão direita, como para chamar para si toda a

minha attenção:

--Está curioso, não? Quer talvez saber quem seja esta velha ave de

arribação que vive no seu paiz e que tanta alegria traz sempre no

coração, no rosto,--nos labios e no olhar? É uma historia muito longa a

minha, meu caro senhor. Sou muito franco: deseja ouvil-a? Não perderá

nada com isso; pelo contrario, creio aproveitará alguma coisa com a

moral que tirar das minhas palavras, depois de me dar toda a razão nos

actos que pratiquei. Logo que me ouvir, o sr. verificará que é muito

certo o rifão: _Tristezas não pagam dividas_, e adquirirá a certeza de

que, n'este mundo, o melhor meio de se gosar saúde e viver tranquillo, é

ter o coração calmo como a bonança e grande como a barriga do

dezembargador Delfino. Ora vire p'ra cá as oiças e preste attenção.

Sentei-me. Elle fez o mesmo e começou, sorrindo sempre:

--"Quando cheguei ao Brazil, trazia algumas dezenas de contos de réis,

herança de meu pae, morto quando eu era menino. Estabeleci-me, achando

logo um socio que possuia capital equivalente ao meu. Ganhamos rios de

dinheiro, que o meu socio conscienciosamente gastava, esbanjava com uma

hispanhola réles e velhaca de um hotel da cidade.

"Um bello dia fallimos,--por causa dessas extraordinarias despezas

capazes de desfalcarem os replectos cofres de um Crésus. Cuida que

apaixonei-me por isso, que fiquei triste, abatido, doente, desanimado,

sem vontade para continuar no trabalho honrado? Qual, meu amigo! O meu

espirito é refractario a tristezas,--o meu coração grande de mais para

fazer-se pequenino e mirrado por tão pouca cousa. Um ou dois contos de

réis que pude ganhar em certo negocio, após o naufragio a que fôra

conduzido pela doidice de meu socio, empreguei-os em comprar algumas

joias de ouro falso, em mercadorias de contrabando, e, com um volumoso

carregamento barato, segui para o rio Madeira, afim de explorar em meu

unico proveito a ingênua simplicidade dos seringueiros.

"Não me falharam os calculos: mezes depois voltei ao Pará, e adquiri

maior carregamento, que fui de novo impingir ás remotas regiões do alto

Madeira, onde os jacarés e onças respeitaram-me sempre a delicada

posição de inoffensivo estrangeiro, que carece de protecção, que não

deve ser offendido nunca em um paiz amigo!"

Calou-se. Em sua larga bôcca de expressão franca e descuidosa estava o

eterno sorriso zombeteiro, aquelle sorriso sympathico, que me attraía

para esse homem com toda a enorme força de um robusto affecto nascente.

Accendeu um charuto e continuou:

--"Para encurtar prolixidades: seis annos depois de nossa fallencia, eu

regressava definitivamente ao Pará, trazendo uma solida fortuna amoedada

em bons contos de réis palpaveis, em notas do Thesouro, no fundo da

mala. Tratei logo de cumprir as imposições de um dever: paguei a todos

os crédores da massa fallida, sem excepção de um só! Uma d'essas dividas

da firma era uma anquinha,--uma anquinha!--que meu socio havia comprado

para a sua Venus andaluza! Fiquei ainda com bastante dinheiro, com que

estabeleci-me pela segunda vez,--d'essa feita sem socio, para não mais

ser prejudicado por ninguem.

"Quiz a sorte que eu me apaixonasse por uma formosa rapariga

paraense,--farta carnação morenamente excitante e grandes quadris

arredondados, divinos,--filha de um subdelegado de policia. Casei-me com

ella alguns mezes depois de a ver. Não tinha educação, era estupida, mas

possuía a convicção da belleza nas fórmas, a imponencia da sensualidade

no olhar, e eu amava-a! Que me importava o resto?

"Dois annos vivi eu nos braços de uma felicidade illimitada. Luiza, a

minha captivante mulher adorada, de dia para dia ganhava um palmo em

minha infinita affeição serôdia, e cada vez mais revelava-me um

esplendido segredo de sua magnifica belleza de crioula! Era um delirio,

uma loucura dulcíssima e purificadora, aquelle amor que eu lhe votava

com toda a vibrante virilidade do meu corpo e da minha alma! A pequenina

casa em que viviamos era para mim uma Capua desejada, onde a minha

languidez encontrava tranquillo bem estar, nos braços da seductora

Luiza. O dia seguinte, que para muitos é um enigma atterrador,

apresentava-se-me franca e gostosamente como a fiel reproducção

inalteravel da vespera e do dia presente. Horas suavíssimas de um amor

intenso e bom, como fostes amadas pela piéguice da ingenuidade do meu

espirito!"

Calou-se ainda, com o rosto demudado em uma espiritualisação

prazenteira. Mas fitou-me, e logo o tal sorriso ironico volveu a

arregaçar-lhe a rubra ponta do labio grosso e varonil.

E proseguiu, após haver accendido o charuto que se apagara:

--Eu tinha inteira confiança em Luiza. Jámais a idéa de uma perfidia de

sua parte me passara pelo tranquillo espirito de marido que confia. Como

poderiam enganar-me aquelles olhos tão bellamente claros e brilhantes,

aquella bocca de perfumosos labios que davam beijos tão doces, tão

sensuaes, tão irritantes? Santa simplicidade das almas descuidosas! O

meu espirito era o espelho onde se reflectia o meu coração e onde eu

suppunha ver a alma de Luiza, estava realmente a minha, a minha que em

breve tinha de ser tão rudemente ferida pelos factos!

"É como lhe digo. Luiza era um demonio, longe de ser um anjo, como eu a

phantasiava na benevolencia do meu illimitado amor. De imaginação

creadora e ardente, apaixonara-se por um gordo vaqueiro de Marajó, que

viera á cidade, e um bello dia, quando, ao caír da tarde, regressei a

casa para jantar, não mais a vi: a safardana roubara-me todo o dinheiro

que eu tinha em casa e fugira com o sobredito _cujo_ mencionado

vaqueiro, como vim logo a saber, por informações ministradas pela

visinhança, com grande vergonha dos meus brios de homem robusto,

completo, valente e, na minha valiosa opinião, não de todo incapaz para

o principal fim a que visava aquella ardente mulher material e

voluptuosa.

"E que pensa o senhor que eu fiz para a castigar? Que a persegui com as

leis do seu paiz em punho? Que fui buscal-a ao meio dos touros de

Marajó, onde, por certo, ella repousava, muito languida e sensual, nos

braços do cyclopico vaqueiro? Que expuz á irrisão publica, ás chufas da

plebe, a ignara patifaria de minha mulher e a irreparavel deshonra do

meu nome? Nada d'isso, meu caro! Deixei-a ir, sem me incommodar! Olhe,

mandei-lhe mesmo umas camisas e anagoas de que se esquecera com a

precipitação da fuga! Veja até que ponto fui complacente. Veja que santa

bondade a minha!

"A desgraçada morreu um anno depois, victima de béri-béri; pois bem;

para mostrar a Deus que não sou de todo mau, mandei por alma de minha

mulher resar, na egreja do Carmo, uma triste missa de _requiem_, a que

assisti com respeito e piedade."

Calou-se, sem uma commoção no rosto ou na voz. Falava como se tratasse

do tempo ou da côr do céu n'aquelle momento: com a maxima placidez. E

logo o seu velhaco risinho sarcastico saltou-lhe da bôcca e veiu

espreitar-me de sobre o labio superior,--como se fosse um depoimento

vivo da tranquillidade d'aquella alma em face de todos os

extraordinarios acontecimentos que por cima d'ella haviam passado, sem

conseguirem emocional-a.

O meu companheiro, o meu extranho conviva, ergueu-se e, accenando-me

para que acompanhasse-o, seguiu em direcção ao povoado, cantarolando

esta pandega quadra do _Dia e a Noite_, de Lecocq:

_Minha mulher, que Deus levou,_

_Foi-me infiel constantemente;_

_Nada d'isso me acabrunhou:_

_Levei o caso alegremente!_

A convalescente

Ao dr. Alvares da Costa

Estava pallida e triste, encostada levemente á grade do camarote,

n'aquella noite de estréa.

Os seus olhos, negros como a sêda que o seu delicado corpo vestia,

divagavam pela platéa, indecisos, sem fixarem-se em ponto algum. Parecia

uma d'essas melancholicas personagens de George Sand, phantasticas e

idéaes, bellas, todavia, mesmo na falsidade da sua creação,--vivificada

por um mysterio e conduzida áquella sala d'espectaculo, onde

ostentavam-se as formosuras das moças da moda e as austeras sobrecasacas

dos burguezes, sob a intensa luz do gaz.

E ella estava sempre pallida, encostada levemente á grade do camarote.

Nos labios tinha ingênuo sorriso, que espiritualisava-lhe a expressão da

sympathica physionomia.

Um engraçado diabrête, primo d'ella, brincava-lhe com o leque.

Quem binoculisasse aquelle camarote, havia de sentir apoderar-se-lhe da

alma uma commoção de piedade, tal era a melancholica tristeza evolada

d'esse logar, d'onde ella dirigia o seu negro, o seu profundo olhar para

a platéa, cujo ambiente saturava-se mais e mais dos effluvios de lindos

lenços rendados, dos perfumosos lenços discretos das jovens damas....

E aquella encantadora creança que, sempre triste, encostava-se á grade

do camarote, apresentava na pallida physionomia os vestigios do

soffrimento, que tanto a tornava sympathica aos olhos da burguezia

austeramente séria sob a luz intensa do lustre.....

Desillusão

A Fontes de Carvalho

A sra. d. Joaquina era uma d'essas impagaveis solteironas, que vivem

sonhando amores e descobrindo tímidas paixões nas palavras alegremente

zombeteiras dos moços que fingem cortejal-as por distracção.

Tinha ella a tez,--enrugada e molle como a casca do janipapo

maduro,--salpicada d'essas manchas amarellas a que chamam sardas;

encobria-as, em parte, com grandes e repetidas camadas de pó de arroz,

comprado sempre na _Loja Mariposa_, da qual o co-proprietario

Affonso,--o sympathico Affonso,--vendia-lh'o com muita dóse de

_réclames_ e chamadas de attenção para a superioridade da fazenda.

Usava uns vestidos fóra da moda, mal feitos, com algumas nódoas, nos

quaes primavam os enfeites vistosos,--uma garridice da sra. d. Joaquina.

O rosto d'ella denunciava 45 annos bem seguros entre os refêgos da

engelhada epiderme,--posto que os cabellos, pretos e lustrosos como a

cara suada d'um negro de Minas, mostrassem porventura uma prova de menos

edade.

As pessoas que viviam mais intimamente com ella murmuravam phrases pouco

lisongeiras para os seus brios de "senhora bastante apresentavel e digna

do direito de aspirar a um bom casamento"--como ella pensava e dizia mui

confidencialmente a certas amigas particulares.

Sempre houve maledicentes no mundo (salve a _chapa_!): foi por isso que

uma d'essas amigas, tendo tido uma altercação com ella, retirou-se de

seu trato intimo, e espalhou pelos conhecidos a noticia de que a nossa

personagem pintava os cabellos, que, se não recebessem quotidianamente

os respectivos affagos da esponja embebida em tintura, já deveriam estar

soffrivelmente russos, quando não grisalhos. Parte dos ouvintes duvidou,

suppoz equivaler aquella affirmativa a uma intriga motivada pela recente

inimizade; a outra parte acreditou, naturalmente.

A sra. d. Joaquina possuia uma educação mediocre, apenas sufficiente

para conhecer os seus deveres de "moça solteira", quanto á educação

moral; quanto á intellectual, lia com desembaraço e alguns tropeços

prosódicos as cartas repassadas de sentimentalidade de dois ou tres

namorados que tivera antigamente.

Eram essas leituras um desopilativo benefico para o seu _spleen_ de

senhora entrada em annos e votada á lastimosa condição de _tia_. Ai! A

pobre d. Joaquina lastimava-se com tristeza de não haver em sua mocidade

casado com o Guedes, o ferrageiro abastado, que se apaixonara loucamente

por seus encantos, quando estes, ainda que em pequenina quantidade,

escudavam-se n'uns vinte e dois annos de existencia. Ella não acceitara

o amor d'elle, sonhando desposar um joven barão, muito rico e elegante,

como um que conhecera n'um romance do insípido Ponson du Terrail. O

barão, porém, nunca appareceu. Agora era tarde para remediar o mal: o

Guedes, n'um momento de lucida reflexão, resolvera viver em calmo e

economico celibato, apenas conservando em casa a Belisaria, cosinheira,

mulata gorda como um cevado, a qual ministrava-lhe affagos cheios de

faceiros quindins, nas horas de amor, e bôas tortas de camarões seguidas

de compotas de delicioso bacury, á sobremesa.

Dos outros ex-namorados a sra. d. Joaquina jámais tivera informações

exactas, depois que por espontanea vontade os desenganara. Dizia-se

vagamente que um fôra negociar ao rio Madeira, d'onde nunca regressou,

talvez pela seducção d'alguma _yára_ encantadora. Do outro constava

apenas que partira para seu paiz natal,--Portugal,--afim de ir saborear

á lareira, nos longos serões de inverno,--quando o suão sibila em as

grandes chaminés ennegrecidas,--os succulentos nácos de paios da

Beira,--d'aquelles paios tão glutonamente decantados pelo illustre poeta

João Penha.

Por ess'arte, achava-se a sra. d. Joaquina em disponibilidade, e, a

dizermos tudo, deveremos accrescentar que alimentava agora umas secretas

e dulçurosas esperanças de captivar o rebelde coração do Francisco da

Natividade, o elegante dono d'uma das melhores lojas da rua dos

Mercadores. Este, porém, parecia não partilhar das mesmas intenções,

porquanto ouvia-lhe os suspiros languorosos sem estremecer, sem

pestanejar, sequer, n'uma impassibilidade de mumia. Ella armava-lhe

ratoeiras amorosas: mandava-lhe flôres, fazia-lhe presentes de toalhas

de labyrintho e fronhas bordadas, temperava-lhe o café quando elle ia á

casa da familia d'ella, chegava-lhe phosphoros accêsos aos charutos,

roçando os dedos nos d'elle, para mudamente lhe revelar a sua paixão.

Comtudo, nada o commovia, e a sra. d. Joaquina rebellava-se intimamente

contra o Francisco, quando, a sós, no momento de estender-se na sua fria

rede de velha virgem, passava em revista pela memoria todos os seus

actos relativos ao bom andamento d'aquelle amor.

Tal era o estado do coração da boa senhora na época em que o Natividade

apresentou-lhe um sobrinho seu, recentemente chegado de Portugal.

A fina amabilidade do joven lisboeta, d'uma elegancia tão natural,

attraíu as boas graças da digna solteirona, que logo sympathisou com

elle. Em menos d'um mez o Raul tinha em a sra. d. Joaquina uma amiga

sincera, uma attenciosa admiradora do "seu caracter austero."

Elle, para retribuir-lhe as affabilidades, redobrava de cumprimentos,

desfazia-se nas mais requintadas delicadezas.

Levada pelas erupções d'aquelle seu coração vulcanico, ella começou a

amar ao sobrinho, com o mesmo ardor com que pouco antes amara ao tio, o

Francisco da Natividade. Cedo surprehendeu o bom moço as amorosas

manobras da sra. d. Joaquina, e, julgando-o necessario, inteirou o

parente sobre o affecto d'ella, para obedecer aos dictames do dever.

Ambos riram-se muito da nova asneira da irrisoria senhora.

----

Ou porque trouxesse de Lisboa os germens d'uma bronchite, ou porque, já

no Pará, apanhasse alguma constipação, Raul adoeceu, ficou pállido,

perseguido por uma pequena tosse, e uma tarde, após o jantar, sentiu uma

suffocação, seguida de agudas dôres na parte interna do thorax, as quaes

communicavam-lhe com as omoplatas. Como tivesse vontade de cuspir,

curvou-se a meio sobre uma escarradeira e expelliu um pouco de sangue vivo.

--Santo Deus, que vejo?!--exclamou o tio, assustado.--Já, um medico,

depressa! continuou, a correr attonito pela sala....

O facultativo chamado receitou-lhe um medicamento adequado, que estancou

o sangue, e retirou-se depois de haver feito duas ou tres recommendações

sobre o tratamento.

Raul melhorou: dormiu bem durante a noite. Na tarde seguinte, porém,

teve uma verdadeira e forte hemoptysia. Lá foi o moleque chamar

novamente o doutor.

Depois de auscultal-o, e interrogar sobre a vida passada e climas em que

habitara, o medico aconselhou-o a partir para Portugal assim que

podesse. Assoberbado por tão assustadora recommendação, o bondoso

Francisco da Natividade tratou logo de mandar o sobrinho pelo paquete

que do Pará saíu seis dias depois.

No momento em que Raul despedia-se da sra. d. Joaquina, esta, chorando

verdadeiras lágrymas de dó e de saudade, tirou do bolso uma carta

lacrada a vermelho e deu-a ao enfermo, dizendo-lhe:

--Tome, seu Raul. Guarde isto. Quando chegar a Lisboa, leia e faça o que

lhe peço. Mas, antes não a abra, pelo amor de Deus!

--Sim, minha senhora.... Os seus pedidos são ordens para mim.... Adeus!

Chegando á cidade do Tejo, estava Raul n'um auspicioso pé de

restabelecimento. Todavia, entrou a medicar-se com cuidado,

resguardando-se de tudo quanto podésse fazer-lhe mal. Estes uteis

entretenimentos levaram-n'o a esquecer-se da sra. d. Joaquina.

----

Passaram os mezes. Raul ficou curado: estava gordo e forte. Como os

medicos lhe recommendassem que não viesse ao Brazil, tratou de procurar

emprego no continente. Achou um, que pareceu-lhe agradavel. Fez-se

caixeiro viajante d'uma conceituada casa commercial, para ir fazer

cobranças pelas provincias.

Na vespera do dia em que tinha de seguir para a primeira excursão,--ao

Alemtejo,--estava elle arrumando umas roupas, quando, introduzindo a mão

no bolso d'um _paletot_ que só vestia em viagem, encontraram seus dedos

um objecto qualquer. Tirou-o para a claridade e viu uma carta toda

amarrotada e suja. Reconheceu-a logo: era a carta que lhe déra a sra. d.

Joaquina.

--Ah! que esquecimento o meu!--exclamou.--Que juizo não terá feito a meu

respeito a impagavel senhora....

E, cheio de curiosidade, rasgou o sobrescripto.

"Meu bom amigo,--leu.--Devo dizer-lhe uma coisa, que ha muito

_afflue-me_ aos labios, sem todavia sentir-me com animo de fazel-o:

amo-o, amo-o, com todo o ardor de que é capaz o meu ardente coração!

(Isto copiou ella do romance _A Caridade Christã_, de Escrich,--pensou

Raul). Peço-lhe que escreva-me logo, dizendo-me se _fui_ por si acolhido

o meu amor. (Aquelle _fui_ é que era genuinamente d'ella, só d'ella; o

Raul bem o conheceu). Espero _ancioza_ a sua resposta, com a qual o meu

amigo _remeter-me-á_ meia duzia d'AGUA CIRCASSIANA, para eu dar de

presente a uma conhecida minha. Disponha sempre do coração de sua

eternamente,--JOAQUINA."

Raul casquinou uma sonora gargalhada terminando a leitura d'aquelle

_modelo_ d'orthographia, propriedade de termos e syntaxe; mas, logo

fez-se mais serio e:

--Ora bolas!--disse.--Só os cabellos encantavam-me, por serem tão pretos

e lustrosos.... E era falsa aquella côr d'azeviche!.... Que desillusão!....

A "Serenata" de Schubert

Ao dr. Augusto Meira

I

No seu pequeno quarto modesto de rapaz solteiro, João estava deitado na

rêde, lendo um volume de contos de Armand Silvestre, á luz branda de uma

vela de espermacete. Nove horas soaram as cornetas da outra banda do

Capibaribe, na Casa de Detenção, derramando pelo ar um sôpro de

tranquillidade imponente, que fazia os transeuntes apressarem o passo

dirigindo-se aos respectivos domicilios. O vento norte, que vinha de

Olinda, entrava na sala, e d'esta seguia para o quarto de João, agitando

a luz dentro do _photo-mobile_.

Na invisivel palpitação da brisa, entrou uma voz de piano vibrado na

visinhança. Fanatico adorador da musica, João fechou o livro e prestou

attenção. Eram as primeiras notas da _Serenata_ de Schubert, esse

magnifico poema musical que elle amava acima de todas as composições! De

um pulo, achou-se abaixo da rêde, fóra do quarto, ao balcão de uma das

janellas do seu humilde terceiro andar. E encostou-se á grade, com o

rosto descançado na mão direita, dispondo-se a ouvir a sua peça predilecta.

Na rua, ninguem passava agora. Os reverberos alinhavam-se nos passeios,

como extranhos guardas do socego publico. Um crescente de lua espalhava

no azul-ferrete do céo, por entre multidões de estrellas tremeluzentes,

uma diminuta claridade opalina, deante da qual fugiam mansos grandes

montões de nuvens recortados em figuras indiziveis. E d'uma casa proxima

saíam as vozes do piano, misturadas com a luz do gaz que irrompia pelas

janellas abertas.

Como todas as musicas sentimentaes, a _Serenata_ de Schubert possue isto

de extraordinario: prende o espirito de quem a ouve, e leva-o ao centro

da meditação tranquilla e saudosa das grandes cousas passadas, e que são

sempre, quer dolorosas quer alegres, um grato consolo para a alma.

Foi por isso que João, logo ao principio, deixou fugir um suspiro e, em

seguida, a pouco e pouco, embrenhou-se na vasta floresta silenciosa e

redolente dos seus antigos episodios de amores, quando, ainda no seu

querido Pará, podia ver e ouvir quotidianamente a encantadora donzella

que deve um dia ser sua esposa.[1] Foi tambem porisso que o moço

estudante de direito recordou-se,--e com quantas saudades!--da magistral

execução que a sua noiva sabia dar ao primor do illustre maestro

allemão,--uma execução toda sentida, interpretando os minimos segredos,

com dulcíssimos murmurios voluptuosos, que lhe davam melancholia ao

espirito e suaves langores ao corpo.

Entrou João a imaginar que estava no Pará, ao lado de sua querida

companheira, junto ao piano d'ella, no perfumado socego da sala deserta,

extasiado na audição d'aquella phantasia esplendida! E logo, por uma

transformação imaginativa, o piano da desconhecida vizinha tomou aos

ouvidos d'elle um som particular, intimo, que o commovia todo,

chamando-lhe duas lágrymas aos cantos dos olhos! E, por esta causa

tambem, á sua alma pareceu ver desfilar nas pacificas paredes da casa

fronteira um tranquillo quadro do seu passado, o qual déra-lhe outrora

tantos prazeres, e que tinha presentemente a expressão poetica, porém

saudosíssima, de uma tela de Watteau....

Esse quadro, eil-o:

[1] Este conto foi escripto em 1886. A donzella de que se trata

está hoje casada com o heroe da presente narração e póde gabar-se

de ser a mais piedosa, a mais amoravel, a mais querida e a mais

leal das esposas... com a vantagem de ser a mais dedicada e meiga

de todas as mães.

II

Era noite de Natal. Nove horas acabavam de sôar no relogio da varanda.

Um socego inalteravel e feliz pairava pela atmosphera da sala, onde a

familia estava reunida em grupo aprazivel, ao fundo, em torno do sofá.

Das ruas vinham pelas janellas abertas fortes sôpros de brisas cheirosas

e sons de guitarras fugitivas, dedilhadas por alegres grupos de

transeuntes. A espaços, uma voz, um grito chegava até á sala, revelando

que pela cidade havia quem passeiasse, tentando festejar o anniversario

do nascimento de Christo.

Na sala a conversa era geral. Uma creancita formosamente encantadora

sugava a extremidade de um tubo de mamadeira, sobre o cólo de sua

virtuosa mãe, a qual, supposto conversar com o extremoso marido, não

afastava do rosto da filha os grandes olhos expressivos, fluctuando n'um

lago de ternura meiga e immaculavel como um beijo maternal.

Contemplando este quadro rubenesco, João pensava nos santos prazeres do

lar,--elle, que era um mísero orphão, um desgraçado pariá do

amor!--emquanto Dhalia, a sua querida noiva, sentada junto a elle,

falava-lhe compungida ácêrca de uma infeliz mulher que, pela manhã,

recebera de suas pequeninas mãos bemfazejas, roupas e sustento para os

filhinhos. E dominando a todos, no meio do sofá, com a expressão

suavíssima do rosto espiritualisada por um sorriso que venerandamente

lhe frisava os labios, o velho Antonio, de cabellos e longas barbas

sedosos e brancos, dirigia-se ao filho mais moço, ao Theodoro,

aconselhando-o ao trabalho honrado, apontando-lhe como exemplo a seguir

várias scenas a que assistira em sua passada vida commercial.

Uma exhalação de virtude emanava d'aquelle grupo: revelavam os rostos a

tranquillidade invejavel de quem vive contente com a sorte e depõe

muitas confianças no futuro.

De repente, n'um silencio entre duas pontas de dialogo, uma voz

ergueu-se da rua, fazendo-se acompanhar por uma guitarra:

Folguem todos n'esta noite,

Venha a festa sem egual:

--Hoje em nada se repara,

Porque é noite de Natal.

Hoje em nada se repara,

Porque é noite de Natal.

E a guitarra chorava em _tom menor_, fazendo côro ao _ritornello_. A voz

de um agradavel _tenor_ prendeu logo a attenção dos que estavam na sala:

Esta noite abençoada

Pertence aos que têm amor;

No presepe bethlemita

Veiu ao mundo o Deus-Senhor.

Novo _ritornello_ choroso na guitarra.

Por isso, moços e moças,

Entregae-vos ao prazer,

Emquanto não vem a edade

Vossa fronte encanecer!

Terceira e ultima plangencia melancholica desferida na guitarra.

Aos derradeiros versos, o velho Antonio levantára a cabeça, n'uma

energia de movimento, com as narinas afflantes, os anneis da cabeça

tremendo-lhe sobre os hombros.

--Tôlo!--exclamou, referindo-se ao cantor, cuja voz perdia-se agora ao

longe, na extremidade da rua.--Pois que venha cá, a ver se os velhos não

têm amores e prazeres!.. Que venha presenciar a este quadro e me dirá ao

depois se eu não amo as minhas queridas filhas, o meu bondoso Braga, o

meu Theodoro e á innocentinha que ahi dorme sob as bençãos do meu olhar!..

Um soluço gemeu-lhe no peito: Dhalia ergueu-se, radiante como a

encarnação do carinho e, muito piedosa e pura,--qual um raio de sol

illuminando a face de uma estatua antiga,--foi beijar amoravelmente a

fronte do ancião....

Que não se affligisse, pediu-lhe affagando-o;--que não désse importancia

a similhantes asneiras. Todos sabiam perfeitamente com que intensidade

elle amava a familia, e que suaves prazeres tirava d'esse amor. E

demais, aquella noite era de festa, como dissera o desconhecido cantor,

não valia a pena entristecer-se....

--Para o lado os pezares!--terminou sorrindo.--Como distracção agradavel

a todos, vou tocar ao piano a _Serenata_ de Schubert.

Já se tinha João levantado, prevendo este desfecho: correu ao piano,

abriu sobre a estante a musica desejada e, accendendo as velas,

sentou-se ao lado do banquinho, que Dhalia veiu occupar.

III

E começaram então as primeiras melodias da _Serenata_.

João cerrou os olhos, extasiando os sentidos na audição da formosa peça,

tão bem executada pela donzella cuja alma eminentemente artistica

comprehendia os segredos de poesia que a musica de Schubert encerra. Uma

figura, ao principio fluctuante e indecisa, mas que logo tomou relevo,

apparecendo em primeiro plano, desenhou-se na tela da imaginação do

moço. E surgiu então um joven de bandolim em punho, debaixo dos balcões

floridos de um elegante castello, que se erguia a meio de uma paizagem

germanica, onde os robles farfalhavam á borda dos lagos tranquillos,

sobre cujas superficies grandes garças deslisavam elegantes, ruflando as

brancas pennas em donosa magestade. E a voz a'elle era meiga qual um

canto magico de yára amazonica, sentida como uma recriminação paternal,

doce como um beijo apaixonado. De seus labios côr de papoula

distillava-se o mel da musica de Schubert, que ia cair com uma suavidade

de balsamo sobre a alma enamorada de uma joven castellã formosa, occulta

entre os refólhos das colgaduras das janellas! A voz do amoroso trovador

tinha um não sei quê de melancholico, um tal cunho de poesia dolente,

que João emocionou-se tanto em face do quadro que a sua imaginação lhe

descrevia, que não pôde deixar de cantarolar baixinho, com um meio

sorriso, acompanhado pela correcta e sentida interpretação de Dhalia:

_"O Châtelaine,_

_Entend ma peine!.._"

...................

...................

Dhalia executou o _morendo_ final da Serenata. João acordou da sua

_rêverie_, erguendo os olhos para a pianista, em cujo rosto sympathico

bailava um risinho engraçado.

De pé, encostado ao piano, estava o venerando Antonio, com o semblante

illuminado n'uma expressão de ineffavel ventura. Dos labios entreabertos

parecia escapar-se-lhe uma benção muda, que se completava pelo gesto das

mãos erguidas e espalmadas no espaço!.. Era o pae a abençoar o futuro

feliz dos filhos idolatrados!

.........................................................................

IV

Estava n'este ponto a saudosa recordação do moço estudante, na janella

do seu modesto terceiro andar de uma das ruas do Recife, quando o piano

da vizinha desconhecida gemia tambem o adoravel remate da _Serenata_.

João sentiu-se commovido por aquella musica inspiradíssima, que lhe

avivára tão grata lembrança de seu venturoso passado,--agora que elle

estava ausente do querido sólo natal, onde moravam todos os que

possuiam-lhe a flôr do affecto. Ergueu os olhos ao céo, n'uma

necessidade de soltar livremente o espirito pela amplidão infinita do

vacuo. No firmamento azul tachonado de louras lucilações, o crescente de

lua vogava para o occaso como uma alegria fugitiva; pequeninos flócos de

nuvens seguiam, muito calmos e ethéreos, pelo espaço adeante,

projectando sombras cinzentas sobre o calçamento da rua. Da

margem opposta do Capibaribe, uma voz de soldado ergueu-se

bradando--_alerta!_--á sentinella.

Então, por um impulso de agradecimento, o espirito de João partiu pelo

infinito a fóra, chegou ao Pará, atravessando a cidade, e foi

ajoelhar-se piedoso á modesta pedra gradeada que sella o tumulo

venerando de Antonio, o estremecido pae de sua noiva.

Que bom marido!

A Juvenal Tavares

_Não desejarás a mulher do teu proximo._

MANDAMENTO DE DEUS.

Havia já tres annos que estavam casados. Não tinham filhos. Viviam

felizes, tranquillos, na sua casinha da estrada de S. Braz, de frente

pintada a cal, onde o sol da manhã brincava alegremente n'umas

scintillações que davam a nota de grande prazer interno ao passeiante

que para ella dirigisse escrutador olhar.

Elle era um velho quarentão, amanuense de secretaría, obeso, rubicundo,

de rosto espalmado e barbas hirsutas e grisalhas. A mocidade que

tivéra,--tempestuosa e poída nas orgias,--encanecera-lhe completamente

os cabellos da cabeça, os quaes desciam para o rosto, onde cruzavam-se

numerosas rugas sobre a pelle côr de ginja.

Ella tinha dezoito primavéras,--para me servir d'uma velha expressão do

romantismo;--ostentava uma carinha faceira, risonha, d'olhos pretos e

marotos. Têz morena e avelludada. Um sorriso excitantemente encantador

descerrava-lhe os labios vermelhos, mostrando duas filas de dentes mais

alvos do que os de um cão da Terra-Nova. O corpo, flexivel como a haste

da angélica, era agil e dotado de seductores meneios, que impressionavam

bem profundamente a mais de meia-duzia de gamenhos vadíos,--d'esses

namoradores enfatuados que abundam por toda a parte.

O seu regimen de vida era, invariavelmente, este: de manhã, ás 8 horas,

depois do respectivo e parco almoço, o sr. Bonifacio escovava com a

manga da sobrecasaca o solenne chapéu alto, dava um _chôcho_ á mulher e

saía para a repartição com o passo do empregado publico:--impassivel e

cadenciado.

Elvira acompanhava o esposo até á porta da rua, fazia-lhe uma pequena

caricia e voltava á varanda, afim de dar algumas ordens ácêrca do

jantar. Dispostas as coisas para a segunda refeição, ía sentar-se á

machina de costura, que dava-lhe não diminuta receita para as despezas

diarias. O ganho d'esses trabalhos e os vencimentos do sr. Bonifacio

formavam uma somma bem razoavel todos os mezes, a qual lhes permittia de

tempos a tempos o luxo d'um camarote no theatro da Paz e um passeio a

_bond_ em noites de luar, um vestido novo para o cyrio de Nazareth,

algumas duzias de pistolas e bixinhas na festa de S. João e mais outras

regalias, que alegravam o gorducho amanuense e forneciam á encantadora

esposa d'elle ensejo de satisfazer a sua natural vaidade de mulher

bonita e nova.

Como acontece algumas vezes, a virtuosa esposa do sr. Bonifacio tinha

seus adoradores,--rapazes toleirões, aos quaes ella, diga-se a verdade,

não ligava muita importancia. Entre esses moços, quem mais assiduamente

a requestava era um tal Jacyntho,--um _leão_ conquistador que falava

pelos cotovêllos, muito tolo, ignorante de tudo, excepto da arte do

namoro atrevido. Este Jacyntho apaixonára-se por Elvira poucos dias

depois do casamento d'ella, por occasião d'um passeio a Benevides. Desde

essa época, o pobre _namorado sem ventura_ passava todas as tardes pela

casa do Bonifacio, quando Elvira ía para a janella, emquanto o marido,

na varanda, jogava o sólo com o taberneiro da esquina e o visinho da

direita. Ao passar em frente a Elvira, enviava-lhe um sorriso e um

cumprimento. A esposa do honrado amanuense retribuía a este ultimo e

conservava-se muito séria, muito digna, sem corresponder áquelle.

Passavam os dias, passavam os mezes, e Jacyntho era pontual á

entrevista, na qual Elvira já parecia interessar-se, pois que tambem não

deixava de ir para a janella assim que, lá na varanda, o sr. Bonifacio,

o taberneiro e o vizinho começavam no _passo_ e no _bólo_. É que a

interessante senhora tinha um espirito ardente, phantasista, que não

podía se contentar com os sós affagos morosos e frios do velho

Bonifacio. Não obstante, nenhum passo mau desejava dar. Entregava-se

áquillo a que chamava "uma distracção", mais para satisfazer uma vaga

curiosidade do que para commetter um crime.

----

Jacyntho não era um homem que perdesse a paciencia. Assistia tranquillo

a esse esperdicio de tempo, convicto do axioma que reza: "Agua molle em

pedra dura, tanto dá até que fura." Tinha confiança no futuro, que

resolvería, com vantagem,--aquelle interessante problema de amor.

Uma tarde,--era em meiados de junho, passou o Jacyntho, devéras admirado

por ver que a sua querida não estava á janella. Olhou para os dois lados

da rua e não enxergou ninguem. A estrada de S. Braz apresentava a

apparencia de um velho cemiterio abandonado: nem um só vivente se via.

Constrangido, dispoz-se a continuar, quando avistou uma rapariguinha

mulata, que saía da casa do sr. Bonifacio. Correu a ella e perguntou:

--Onde está a d. Elvira, minha filha?

A mulatinha fitou-o espantada e, curvando a cabeça para o peito, metteu

na bocca o index da mão direita, conservando-se calada.

--Vamos, fala, toma um tostão.... Onde está a d. Elvira?--insistía o

_leão_ fazendo escorregar um nickel para o seio da pequena.

Esta, ao sentir o contacto da moeda, lembrou-se dos rebuçados da

fregueza e disse, ainda meio acanhada:

--Está lá dentro....

--E o sr. Bonifacio?

--Saíu.

--Dou-te outro nickel se fôres levar uma carta á tua senhora, queres?

--Eu quero....

Jacyntho tirou do bolso uma carta que escrevera havia muito tempo e que,

por cautella, não datára nem assignára. Entregou-a á mulatinha e

conjuntamente outro tostão.

Depois seguiu pela estrada adeante.

Elvira não deu resposta áquella carta, que lhe revelára o grande amor

que por ella sentia o Lovelace paraense. Este não desanimou: deixou de

passar pela estrada de S. Braz durante dois dias, após os quaes voltou,

seguindo pelo passeio, rente á janella. Sacudiu-lhe ao cólo nova

epístola. Repetiu o mesmo jogo por uma semana. Finalmente, Elvira não

pôde resistir mais, mandou-lhe uma carta toda cheia de temores, toda

receiosa, na qual confessava que o Jacyntho não era-lhe indifferente,

mas que devia abrir mãos áquelle amor, porquanto a sua "posição de

mulher casada não lhe permittia tão gratas liberdades."

D'então em deante, apezar d'esses receios continuaram as cartinhas a

passar dos bolsos do Jacyntho para o seio d'Elvira e do seio d'esta para

os bolsos d'aquelle. É que houve uma tarde em que Elvira entrou a

confrontar o physico do sr. Bonifacio com o de Jacyntho. Esse confronto

e as reminiscencias de muitas leituras romanticas deram causa á

correspondencia criminosa.

Havia já alguns mezes que o amor dos dois não tivéra outras expansões

além d'aquellas missivas platonicas. O temperamento de Jacyntho era mais

exigente.

Uma tarde de dezembro, o sr. Bonifacio descia do bond em frente de casa,

de volta d'uma visita que fôra fazer a seu chefe de secção. Transpondo o

limiar da porta, encontrou a mulatinha que saía apressadamente,

escondendo mal entre as dobras do vestido um objecto que attrahiu-lhe a

attenção de velho curioso.

--Que levas ahi?--perguntou.

--Não é nada....--respondeu a rapariga n'essa voz cantada peculiar aos

paraenses.

--Não mintas! Eu vi não sei quê!--bradou o sr. Bonifacio puxando-a pelo

braço e apoderando-se do objecto.

Era um bilhete. Abriu-o, assestou-lhe os oculos e leu:

"Meu amigo, depois d'amanhã, á meia noite, meu marido vae ouvir a _missa

do gallo_ em Sant'-Anna. Finjo-me adoentada para ficar em casa, afim de

conversar comsigo e saber d'essa novidade que prometteu contar-me. Venha

á 1 hora. Acautelle-se bem; que ninguem o veja.

ELVIRA."

O Bonifacio _subiu ao arame_; ficou da côr da purpura e sentiu uma

violentíssima dôr de cabeça. Teve impetos ardentes de ir assassinar a

esposa infiel; reflectiu, porém, e soccorreu-se d'um alvitre que lhe

appareceu a subitas no espirito com rubros lampejos de sanguinaria

vingança.

--Toma, leva,--disse entregando a carta á rapariga.

E entrou.

----

Batem as 12 horas da noite de 24 de dezembro. Grupos folgasões de moços

d'ambos os sexos passam pelas ruas de Belém em direcção ás differentes

egrejas onde se deve rezar a _missa do gallo_.

O sr. Bonifacio, que levantou-se á ultima pancada das 11 horas, sae para

a rua, deixando em casa a mulher incommodada "com muita dôr de cabeça...."

Á 1 hora, um vulto appareceu na esquina, approximando-se a passos

ligeiros até chegar em frente ao domicilio do amanuense Bonifacio. Era o

Jacyntho, que bateu pressuroso e baixinho em uma das janellas.

Respondeu-lhe do interior um leve arruido. Jacyntho estremeceu de

contentamento, pregosando os prazeres que ía fruir na conversação de

Elvira, quando subitamente exhalou um grito, dando um salto para o lado.

Era o respeitavel sr. Bonifacio, que saíndo de traz da mangueira onde

occultára-se, desancava a bom desancar o peralvilho que tivéra a

lembrança de namorar-lhe a mulher.

Quando Jacyntho saltou para o meio da rua, recorreu o sr. Bonifacio á

pouca agilidade que ainda possuía e acompanhou-o, continuando a soval-o

fortemente, n'uma agitação febril....

O pobre rapaz gritava dolorosamente. Ninguem acudiu-lhe: todos os

vizinhos haviam saído para a _missa do gallo_.

Quando cançou, quando os braços negaram-se a continuar, o honrado

amanuense, despedindo olhares terriveis para todos os lados, disse ao

Jacyntho, que achava-se por terra, com os ossos quasi moídos:

--Vá-se embora, seu tratante e tenha mais juiso! Não torne a caír na

asneira de namorar moças casadas!

E retirou-se para casa, a cuja porta entreaberta estava Elvira, tranzida

de medo.

Noite de finados

A Manoel P. de Carvalho

O cemiterio de Santa Isabel estava cheio de visitantes, todos vestidos

de preto, caminhando compassada e vagarosamente por entre as sepulturas.

Eram oito horas da noite sob um céo trevoso como a tristeza d'aquellas

pessoas que ali se recordavam com saudades pungitivas dos parentes e

amigos para sempre occultos debaixo da terra, sobre a qual compridas

filas de vélas accêsas lançavam uma claridade intensa, que ia esbater-se

ao fundo, na escuridão do mattagal.

O ar estava impregnado do perfume das flôres--piedosamente depostas em

cima das sepulturas por mãos amigas,--e do cheiro mystico da cêra queimada.

Ao longe, á direita da ermida, uma banda de musica executava

plangentemente uma funeralesca marcha em tom menor, cujas maviosidades

lugubres faziam suspirar as velhas beatas,--aspirando a uma outra vida

desconhecida, além d'aquelle firmamento negro, no logar onde a

omnipotencia incondicional da Divindade lhes parecia dominar em toda a

sua magestade.

Entretanto, de espaço a espaço, grandes ondas de povo invadiam o

cemiterio. Este, áquella hora, mal podia contel-as; porisso, as pessoas

que receiavam um atropello, saíam enfadadas, murmurando indecencias.

Á porta, do lado exterior, cocheiros desboccados conversavam livremente

com as pretas sentadas em frente das bandejas de doce allumiadas pelas

lanternas que estavam sobre a baeta encarnada. Mendigos repellentes, de

vestes sujas e mal cheirosas, plangiam supplicas, tentando demover em

seu favor a caridade dos visitantes piedosos.

Alguns vadios encostados a um rico mausoleu de marmore assetteavam

olhares torpemente libidinosos ás moças que entravam seguidas de suas

mamães, n'um andar assustadiço e saudando um ou outro conhecido com um

meneio de cabeça. Mais adeante, n'um canto escuro, uma roliça mulata,

com o vestido muito decotado, murmurava amabilidades a um preto de

physionomia horrenda empertigado n'um fato novo e com a cabeça coberta

por um descommunal chapéu alto. Como contraste, não muito longe, estava

uma senhora pobremente trajada, com os cotovellos pousados á grade

ferrugenta d'uma sepultura mal allumiada por duas vélas em castiçaes de

vidro.

Dos olhos d'ella, que estavam fixos em uma corôa de perpetuas rôxas,

corriam lágrymas, que das faces resvalavam-lhe para as delgadas folhas

do capim que vegetava entre as junturas dos azulejos desbotados....

Era sem duvida alguma viuva que pagava á memoria do finado marido alguns

annos de amorosa e suavíssima coabitação na terra...

Á esquerda, contemplando uma photographia em miniatura encerrada em

negro caixilho e suspensa ao centro da cruz d'uma sepultura pequenina e

toda coberta de jasmins, trevos, japanas e madre-silvas, via-se uma

senhora de cabellos grisalhos, immovel, calada--como evocando passadas

scenas de prazer--sem ouvir as plangencias da orchestra, que proseguia

no funeral tristonho....

O céo, no entanto, enchera-se d'uma luz suave e esbranquiçada. Grandes

nuvens escuras retalhavam-se no azul-ferrete do firmamento, para as

bandas da cidade. Um vento frio e murmuroso como um soluço d'almas

penadas fazia farfalhar a matta proxima, causando arrepios de mal-estar

ás supersticiosas moças que estavam no cemiterio.... Agora calára-se a

orchestra.

Subira um prégador para um pulpito armado ao ar livre, sob uma arvore de

grande côma sombria, e recitava em voz cavernosa e com largos gestos

tragicos, uma homilia contristadora sobre a transitoria felicidade

mundana e a perenne bemaventurança celestial.

As mulheres,--mães, filhas, esposas,--que o ouviam, ficavam caladas,

muito sérias, com os olhos grandemente abertos fixos em seu rosto

bronzeado; no intimo, porém, no fundo da consciencia, levantavam um

brado de maldição áquella felicidade que lhes roubára a companhia dos

entes queridos e amoraveis.

Um homem de cabeça encanecida, que vagueava levando pela mão uma creança

de tenra edade,--um lindo e pallido orphãosinho,--voltou-lhe costas

nervosamente, soluçando, e fugiu para junto de um pobre tumulo

tranquillo, em cuja grade se lia este lancinante poema de uma só

phrase:--_Á minha esposa...._

Contos Paraenses · 第 1 / 5 段