Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro,

com rios de sangue, e da qual as gerações futuras terão de resgatar por

meio de incalculaveis e prolongados sacrificios as nações modificadas e

de todo empobrecidas, não foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos

colaboradores e interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra

proveio das tendencias e desordens da psicologia dos povos; as

cogitações da filosofia e as inquietações morais e politicas

correlativas que precederam a catastrofe e se amiudaram durante largo

tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre as convulsões em que

haviam de rematar. Durante estes ultimos doze anos, imediatamente antes

de 1914, juntaram-se e cresceram na Europa os elementos de desgraça--«um

grupo de estados inflamados pela consciencia da sua nacionalidade,

avidos de grandes presas, descontentes com cada distribuição,

emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos guias

espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia,

prontos a sujeitar-se á disciplina e ás fadigas por amor de esmagar os

outros, e, se a confiança agressiva abrandava, sustentados na sua

propensão pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia

provocavam. Esta foi a dilatada condição de combate moral que vimos

tomar corpo em sua traducção fisica, nos factos.»

Aqueles que ha trinta anos saíram das escolas impregnados de

naturalismos, lutas pela vida e ambições e processos politicos

consequentes, sabem perfeitamente a que especie de direitos e deveres

essa sciencia e essa moral conduziam, e o que logicamente preparavam á

Europa, quando das bibliotecas e dos compendios universitarios, todos

revestidos da dignidade do amor á verdade, passassem a ser trocadas em

moeda corrente na pratica da vida publica e do comportamento individual,

em toda a escala das relações com o proximo, ou o proximo fosse uma

nação de alguns milhões de habitantes, ou um simples mendigo que se nos

atravessasse na estrada e despedissemos por _vencido_ e _inferior_, ou

um mercador que nos acotovelasse no caes da alfandega e atropelassemos

para dar a precedencia ao nosso fardo. A sciencia e a filosofia,

legitimando toda a casta de soberba e avareza, acharam _natural_ a

brutalidade. Era o colapso absoluto da simpatia, do respeito, da

caridade e da justiça, de todos os velhos bordões, apoiados nos quais

tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e cinco séculos,

para fundarmos as criações singulares a que chamamos a familia, a nação

e a religião do amor dos homens.

Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invasão

materialista, esqueceram, porêm, que a arvore tinha raizes e que, por

muitos ramos que lhe partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra,

e ao primeiro alento da primavera novos ramos iam crescer do tronco e

florir, em tudo semelhantes aos antigos. Esqueceram que as nações, como

a nossa alma, teem uma historia e instintos alimentados e avigorados no

correr dos tempos, e não haverá forças de raciocinio nem impetos de

destruição que os arranquem do seu temperamento; esqueceram que a nossa

civilização tem um caracter e esse caracter, residuo da fermentação de

uma longa vida, constante em sua essencia, é que afinal ha-de marcar-lhe

a linha de progresso atravez de todas as contingencias.

Mas não o esqueceu quem, desconfiando das indicações dos tubos de

laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos

sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepção da vida no exame da

consciencia e nos livros do passado, aí descobrindo as razões do

presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse, o

passado assegura-lhe que «as civilizações não morrem por calamidades

externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilização

romana caíu, não porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu

coração estava fraca.» «Antes disso, o genio do helenismo morrêra nas

longas guerras intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes

arrancaram o coração daquela vida civica que era simultaneamente a fonte

de inspiração do poeta, do artista e do filosofo.» O que criou o

conflicto da Alemanha com as nações do Ocidente e com a Russia, foi uma

divergencia de alma, porventura um atrazo. «Na realidade, a Alemanha

pouco participou daquele novo impulso democratico, humanisante, que se

ergueu na Inglaterra do século XVII e ainda mais vivamente na França do

século XVIII. «Por differentes vezes e por diversos lados, desde a

Holanda do século XVI até á Bélgica de 1914, as nações da Europa

ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para este espirito

de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes deles

tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para

aí deram o seu quinhão. Mas este espirito é a criação do Ocidente, e

foram elementos da sua escola que em maior ou menor gráu levedaram a

estrutura politica e social da Europa central e oriental.» «Tocam tambem

a estrutura da sociedade alemã, mas não se tem ponderado suficientemente

que o corpo principal do pensamento alemão se conservou alheio a este

movimento desde o começo do século XIX. Não foi assim ao principio:

Kant, o maior dos pensadores alemães, manteve uma inteira simpatia com o

humanitarismo do século XVII, e Fichte foi um idealista cujas lições

representavam uma força de peso a favor da liberdade na luta com

Napoleão. Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento

academico na Alemanha associou-se, e cada vez mais, com os poderes

estabelecidos.» «O liberalismo que havia na Alemanha morreu em 1848. A

Alemanha fundou então uma cultura propriamente sua, baseada em uma noção

do estado e das suas exigencias, do individuo e dos seus direitos sobre

o resto do mundo, que a civilização ocidental repudiava.»

«Ora, olhando pelas nações do mundo, com excepção da Alemanha, não vemos

sinais alguns de quebra de fé naqueles principios. Pelo contrario, vemos

que as nações, uma a uma, atentam no facto de que são aqueles principios

que estão em risco. E, se assim é, não se trata de uma civilização

mortalmente enferma por falta de crença nos seus principios, por falta

de confiança em si, pelo pecado mortal de se atraiçoar.»[6]

De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o começo o poder de

uma aspiração que vem de longe e não se engana no rumo; sentiu-se a

obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica com o

seu cortejo de ambições e degradações será apenas um turvado espelho, um

acidentado esforço de realisação, sujeito aos vaevens de toda a

traducção concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de

cada raça e da de cada momento da civilização, ora deformada e oprimida

por virtude dos seus combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em

derradeira sumula, invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e

profundo idealismo determina muito daquilo que, no primeiro movimento de

repulsão e de horror perante a guerra, nos poderá parecer sómente a

assolação de uma torrente de abjecções e vilanias.

Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as considerações

de elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu país

a fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha

desprovido.

Por esse motivo e com o fim de traçar os fundamentos essenciais dessa

renovação espiritual escreveu um opusculo[7], onde pretende que uma das

grandes vantagens da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida

pela insinuação organica de uma filosofia que inteiramente lhe repassou

todas as actividades--uma filosofia má, pervertida, conduzindo ao crime

em vez de conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepção

de um sistema das relações do mundo e dos homens, crente na sua justiça

e nobreza, e só por isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma

formidavel de combate, senão a mais eficaz das armas de combate, aquela

sem a qual todas as demais são frouxas. E isso teria faltado aos

Aliados.

Os alemães «fizeram um estado que é um perigo para o mundo, porque o fim

desse estado é ruim; mas o estado da Inglaterra não tem um fim. Usaram

todas as suas virtudes com um fim material, e não viram que ele era

material; mas nós (os inglêses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se

os alemães veem no seu país um absoluto falso, nós não temos absoluto

algum, nem verdadeiro nem falso. Ha gente, e não é só alemã, que crê que

a cultura alemã póde salvar o mundo e que por isso anseia por uma

vitoria alemã. Para ela, a cultura alemã é qualquer cousa positiva,

qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de si por amor do estado,

e, procedendo assim, se erguem acima das suas forças naturais; e crêem

que os alemães podem ensinar-nos todo este segredo de abandono do

interesse meramente individual, de modo que todos nós faremos a nossa

obra tão sistematica e completamente como os alemães. Mas em nós não

encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater

meramente pelos metodos do passado, da mão á boca, e com esses metodos.

Não teem razão, sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo

que o mundo nunca suportará, seja qual fôr a limpeza que ele possa

trazer; porque com essa limpeza impõe a escravidão. Mas carecemos de

tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do

interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que

prepondera no espirito alemão. Os alemães põem o valor da Alemanha acima

de todas as cousas; mas nós, o que é que nós aprendemos a apreciar acima

de todas as cousas? Toda a nossa sociedade sofre da falta de valores, de

uma desvairada mundaneidade que nem sempre está contente comsigo. Este

descontentamento e este desvairamento envolve esperanças, mais

esperanças do que a intencional perversidade da Alemanha; mas nem o

descontamento nem o desvairamento são bons só por si, e não conduzirão

ao quer que seja, se nós não formos capazes de encontrar valores, e os

justos valores.»[8]

Na verdade, embora a afirmação categorica de que carecemos de uma

filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do

moralista reconheceu que «carecemos de tornar bem claro ao nosso

entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente

individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no

espirito alemão», a acusação não será de admitir-se em toda a extensão.

As suas proprias palavras a combatem, confessando que a questão é de

clareza de entendimento e de consciencia, e não de escassez de causa

intima ou ausencia de uma filosofia fundamental.

Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de

facto subsiste desde já e activamente. Trazemo-la no sangue, neste

sangue que é o legado de muitas gerações, e no qual se fundiram e

consubstanciaram, em uma tenacissisima aspiração, aquela liberdade que a

Grecia sonhou, a ordem que Roma fundou, e, coroação maravilhosa do

pensamento politico constituido pela antiguidade greco-romana, o

nacionalismo acalentado pela Renascença, movendo-se e medrando dentro

daquela catolicidade que uma vez nascida do poder e governo do imperio

romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se de um momento de

unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspirações do

internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo

foi resultado da unidade religiosa--sem muito querer persuadir-se,

diga-se de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da

Humanidade, ou se invoque a Razão, ou nos inflamemos na Fé, a conclusão

moral é em toda a hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o

cristianismo juntam-se na mesma concepção da ordem humana, nas mesmas

liberdades e responsabilidades, nas mesmas aspirações e deveres de

igualdade e amor.

De filosofia não carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda

aquela, e profundissima, que a tradição e a experiencia de muitos

séculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha não é a mingua de uma

razão intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos

afasta é apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em

que o mundo latino e o mundo germanico sentem essa razão e os termos em

que lhe obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia,

aparentemente oposta de todo á nossa, em circunstancias apontadas por

Hobhouse nas passagens que acima traduzi, mas entretanto nós,

descuidadamente, sem nos esforçarmos por definir e sistematisar os

motivos do nosso esforço, fomos vivendo a nossa vida e seguimos por

instinto o nosso caminho, sem o errarmos, não obstante não preguntarmos

para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos iluminou

tragicamente a jornada, é que vimos onde estávamos e que especie de

filosofia nos tinha conduzido até ali. Claro está que mais seguros se

encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os

haviam edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se

mostrar inexpugnaveis. Se o não fossem, se uma filosofia muito diversa

da que animou a Alemanha e lhe deu força e coesão não nos inspirasse, se

aspirações muito diferentes não nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia

reduzido a uma marcha triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de

um genero de civilização pelo qual todos os povos da terra estavam

suspirando, ansiosos por abdicarem das suas aspirações ingenitas no seio

do povo eleito. A invasão alemã teria sido uma benção recebida de

joelhos e com hinos de louvor; não significaria a violencia, para nos

libertarmos da qual sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza

e da nossa alegria, e comprometemos por largos anos a sorte dos que nos

vão suceder e nos hão-de herdar encargos tremendos.

Ainda mais. Não só traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos,

embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte

dispensado de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o

desenvolvimento dessa filosofia não deixou de se operar de continuo e

nos termos da sua essencia. E chegados ao momento de dar contas do

passado no presente, de revelar as ideias e paixões em que nos criamos e

mostrar pelos resultados ultimos a sua legitimidade, verifica-se que

temos sido fidelissimos servos dos principios da nossa civilização,

bastas vezes contrariados e oprimidos pela adversidade do destino mas

sempre renovados, e ressurgidos e maiores, pela constancia da nossa

crença.

Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reacções de

uma fermentação mental e material prodigiosa houve um progresso, uma

logica, uma direcção e um adiantamento em uma linha invariavel, bastará

considerarmos esta lenta renovação psicologica que graduou em diferente

altura o valor militar e o valor do trabalho, por virtude da expansão

dos germens inoculados em a nossa organisação pelo pensamento

democratico tradicional. «Já aprendemos», disse W. J. Bryan, antigo

secretario de estado nos Estados-Unidos da America, «que é mais

vantajoso alargar a terra que possuimos, duplicando-lhe a producção, do

que acrescentar-lhe por conquista uma nova área. ... Ha mais inspiração

em uma vida nobre do que na morte heroica.» Entre tantas cousas que as

convulsões politicas e militares destruiram e arruinaram no correr dos

séculos, sempre cresceram aquelas que o fogo não queima, certa essencia

espiritual, a razão de ser e proceder das sociedades, que

inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra, ainda mesmo

quando a sua acção se ignora ou parece aniquilada para sempre.

Heroismos de hoje, todos constituidos pela força de servir e criar,

expressão ultima de uma actividade de amor e de uma compreensão da

virtude dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa

civilização, vão a eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de

conquistar e no arrebatamento de esmagar e vencer, paixões do odio, por

vezes fecundas e grandes pela coragem e até pela isenção que

significaram, mas invariavelmente barbaras pela crueldade dos impulsos,

inseparavel da sua força intima. O trabalho que algum dia foi vileza e

escravidão e arrastou o carro dos capitães de armas em seus triunfos,

converteu-se agora em uma religião, e é ele que pouco a pouco vae

subjugando os capitães de armas ao serviço da sua defesa e culto.

Emquanto as balas cobriam de cadaveres as trincheiras de Verdun,

fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os arados sulcavam o

chão sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a consciencia

duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos que

sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, não menos

sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma

cousa sentimos, senão mudada, pelo menos crescida, por certo apenas

crescida, visto que nasceu comnosco, com a nossa civilização, em todos

os seus modos a encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, «é

tão digno ser ferido ou morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma

nação como combatendo por ela.»[9]

«A gloria militar só pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista,

quantos morrem desconhecidos, e todavia tão grandes que nem sequer

tiveram a ideia da gloria... O heroi maior é o que não conhece o seu

valor. Morre sem a si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a

terra absorve o seu corpo anonimo. Mas quanto é grande a grandeza de ser

humilde! O soldado mais humilde é o maior, aquele que se submeteu á

regra até á morte, sem imaginar que é notavel o que ele fez. Faz o que

tem de ser feito. Faz o seu oficio de soldado. A pura grandeza do homem

reduz-se sempre a bem fazer o seu oficio. O que é necessario, não é o

entusiasmo; é a consciencia profissional. O entusiasmo é apenas uma

desigualdade de temperamento.»

Os combates que o trabalho combateu em França durante a guerra, igualam,

onde não sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. «Através da

morte, através do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua

tarefa. Este heroismo do trabalhador encerra uma grande esperança porque

a força eterna da nação reside no trabalho. A guerra não é mais do que

uma desordem momentanea. Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.»

«O campo, o trigo, o moinho conteem uma invencibilidade que a guerra não

subjugará. Nem as ceifeiras tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve

medo de servir de alvo. Sob a violencia passageira, a terra prossegue na

sua eternidade, e vemos as mãos das ceifeiras ligarem as paveias com um

gesto que é sempre o mesmo desde o começo do mundo. Ha na humanidade

forças que a colera do homem nunca será capaz de prostrar, e é delas que

se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O soldado sabe vencer o

soldado. O trabalhador sabe vencer a morte.» «Ha um patriotismo

guerreiro que é sublime, porque afronta a morte. Todos devemos

inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que é ir para o

trabalho.»[10]

Esse patriotismo que combate imperturbavel os combates do trabalho e que

o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse foi e é

invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa

alma e através da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia,

ilumina-nos e alenta-nos a esperança de que, sendo a maior força e o

supremo padrão da gloria humana, só a esse está reservado todo o imperio

em que as nações e as raças viverão para melhores destinos. Isso que

permanece sob as cinzas, e não as cinzas que o vento leva, isso será o

sustento e a razão de ser da humanidade. É mais do que uma esperança; é

uma certeza e a mais vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas

entre os seus destroços.

O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que

faz seu lucro, do que a exaltar-se em visões que não lhe matam a sua

fome de prazeres caracteristicos, está pronto a advertir-nos de que

pouco importa que nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e

nobreza. Outros, e de baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e

destes havemos de nos socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes

e muitas vezes os vimos dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade

atroz. Esse scepticismo não desistirá de procurar convencer-nos de que

toda a aurora de justiça e amor conhecida dos homens, e muitas teem

sido, é invariavelmente entenebrecida por uma ruindade ingenita

indomavel que logo a confunde em uma noite cerrada. Não ha que esperar

paraisos da bondade humana; sempre existiu e nunca governou o mundo. É

isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual como se nos dissesse que

não vale a pena semeiar a floresta nem crêr no seu crescer, porque

sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas arvores, e

sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, ás vezes das

mais frondosas e melhores.

Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita

obrigação, esforço e dever, viriam os homens praticos, esses de que

Cristo foi a negação, quando julgou pratico morrer na cruz para

ressurgir em espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.

Os homens praticos não se convencem com semelhante loucura, e esses

pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade é organisar a

sua vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario

comparado das guerras e das aspirações de paz, acharão que as guerras

teem prevalecido sobre as aspirações de paz e, porque assim aconteceu,

não poderá acontecer diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra

para ser fecunda terá de preparar novas guerras, cogitando de continuo

na força futura dos exercitos e no seu poder. Tudo o mais é utopia.

_Homo hominis lupus._ A unica esperança de sustentação dos homens é

avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes os dentes e banir-lhes do peito a

piedade. Devorar e ser devorado será o ciclo infernal em que a politica

tem de penar. Amar e ser amado é ilusão contraria á natureza e, mais do

que perigosa, mortal.

Nem lhes abalará a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles

invocam e que aliás demonstra o progressivo desenvolvimento da boa

vontade entre os povos e as nações, um declinar constante de aversões e

incompatibilidades, até mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram

inimigos e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das

sociedades humanas ha um alargamento e fortalecimento constante das suas

faculdades de afeição, mas, como esse desenvolvimento é um facto de

evolução e conquista gradual e não uma revolução ou um fenomeno de

cataclismo, nunca poderá isentar-se totalmente de um remanescente de

barbaria e crueldade que só progressiva e lentamente decáe. E porque

esse remanescente persiste, o scepticismo, e a avareza, ambições, e até

mesmo certo heroismo, que todos são os seus acolitos, exaltam-se na

ilusão de que os homens não mudam; e por isso fazem da má vontade

reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma moral

publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as suas

profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o

mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a

França; não tardaria a renovação dos combates entre estas duas nações.

Um dia, um homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores

diante do duque de Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou

que «se mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate,

fizessem por todos os meios que fosse o mais tarde possivel.» O proprio

guerreiro desejava a paz e suscitava uma politica conforme os seus

desejos; e o futuro deu-lhe razão. Guerra não tornou a haver entre a

França e a Inglaterra. Passados cem anos, encontramo-las aliadas. A

solução pacifica mostrou-se mais pratica do que a solução belicosa.

Entre a maior violencia das batalhas ouvirão agouros de paz aqueles que

os quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a

Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemão de

uma alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser

eficazmente assegurada por uma aliança da Inglaterra, da Alemanha e dos

Estados-Unidos da America. E a imprensa inglêsa, respondendo-lhe,

abstinha-se de dar opinião sobre a justiça e praticabilidade de

semelhante insinuação, advertindo apenas que as incompatibilidades

suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a essa solução--o que

equivale a dizer que, apagadas essas incompatibilidades, não será talvez

uma utopia o alvitre. Pelo visto, o obstaculo é apenas de natureza

moral, outro não ha de natureza politica ou economica. Não será de todo

ilegitimo pôr esperanças em hipotese tão ousada, sobretudo se nos

lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a França e a

Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se não houvesse esse

espinho da questão da Alsacia, talvez a Alemanha e a França fossem hoje

aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.

Do que o fogo não queima · 第 2 / 5 段