«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, _signif

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Jaime de Magalhães Lima

Do que o fogo não queima

Composição e Impressão

Emprêsa Gráfica A UNIVERSAL

111, Rua Duque de Loulé, 131

PORTO

DO QUE O FOGO NÃO QUEIMA

JAIME DE MAGALHÃES LIMA

Do que o fogo não queima

PORTO

Empresa Gráfica A UNIVERSAL

111, Rua Duque de Loulé, 131

1918

PROLOGO

_A guerra prossegue na sua impenitencia sinistra, junta os seus dias em

mêses e os seus mêses em anos, e as heresias que a aborrecem e lhe negam

a legitimidade e os beneficios, não se rendem e nem sequer esmorecem,

não obstante a insistencia do flagelo que lhe dá visos de necessidade e

condição natural. E eu, que dessas heresias fiz colheita e esperança[1]

no primeiro momento, suspeito a conveniencia, senão a obrigação, de as

repetir e corroborar quando o tempo e a perseverança entre vicissitudes

contrarias as fortificaram e disseminaram._

_Daí este opusculo._

_«Heresias» não será talvez o termo proprio; melhor diria se lhes

chamasse «crenças». «Heresia é uma palavra que as tiranias do fanatismo

fizeram aviltante e criminosa para justificar as atrocidades de um

dominio insaciavel e da intolerancia, sem aliás alcançarem discriminar,

e muito menos provar, onde residia a piedade e a injuria, se em quem

usava os poderes da terra para oprimir a consciencia, se em quem se

prevalecia da robustez de consciencia para afrontar os poderes do mundo.

No fim, ambos encontrarão porventura que fizeram acto de fé a seu

modo--indubitavelmente muito mais glorioso no que por acusação de

heresia sofreu o martirio. Este será, na realidade, o crente, quem mais

de perto tocou a divindade e mais inteira e fielmente lhe obedeceu._

_Aquilo que desse drama hoje vemos, e é objecto da vida politica e do

estado, não desmente o que de ontem sabemos e foi arrebatamento do

dogmatismo eclesiastico absolutista. Duas especies de patriotismo se

encontram em conflicto, e, nenhum conseguindo vencer ou convencer o

adversario, ambos e mutuamente se reputam herejes:--o patriotismo de

servir e o patriotismo de combater: o de espada e carabina, que tem por

acto bom afastar e eliminar o proximo, e o de martelo e charrua, que tem

por missão e dignidade fecundar a terra e agasalhar aquele mesmo proximo

que o outro abomina; o que ama o peregrino e o que detesta o estranho; o

que é um impulso de exclusão e aversão, uma avareza, e o que é uma

confissão de bem querer e um anseio de proteger, uma caridade. Ha duas

especies de patriotismo, como ha dois modos e duas aspirações de cultura

do homem, conduzindo a atitudes politicas divergentes, de que as

concepções do patriotismo correlativas são apenas uma das suas

multiplices manifestações:--ha uma cultura que consiste em nos aprestar

para calcar e escravisar os outros, e ha uma cultura que se esforça por

nos fortalecer para calcarmos as nossas proprias paixões e as ordenarmos

e disciplinarmos sob uma regra sobrehumana; ha a cultura que olha para o

chão e a que olha para os céus, a que é uma tarefa de sordidez, em que

se degrada, e a que se eleva no desprendimento, em que exulta. O que

nestes tempos de guerra se tem passado com os que por imposição da

consciencia se recusaram a combater, particularmente o procedimento dos

poderes constituidos da Inglaterra com as centenas dos seus_

conscientious objectors, _o patriotismo inquisitorial, cujas torturas e

penas vão desde o fusilamento puro e simples, tanto da feição

peremptoria do rigor continental, até á prisão, trabalhos forçados e

perda dos direitos politicos, que são as soluções predilectas, menos

severas mas por igual mortais, da tradicional liberdade insular,--isto

nos manifesta, dolorosamente, não só quanto são profundos os

antagonismos essenciais e latentes de que as sociedades modernas se

compõem, mas tambem quanto é morosa a jornada no caminho e na ambição

daquela liberdade e respeito mutuo, quando amor não seja, para os quais

não ha heresias._

_Embora! Essa escabrosa jornada não cessa. Ali mesmo onde sofre

terriveis assaltos inimigos, aí assinala triunfos e progressos. Um

momento de «brutalidade hunica e de baixeza desenrolando as suas ondas

sobre as nações que participaram na guerra, rebarbarisando toda a

civilização por alguns anos», na expressão violentamente exacta de

Carlos Liebknecht, que paga com desoito mêses de prisão a audacia

insubmissa das suas heresias, isso não bastou para aterrar ou desalentar

as consciencias certas dos seus direitos e imperio, e inabalaveis na

segurança de um eterno renascimento e vitoria final._

_Os sintomas são claros._

_Não conseguiu a Camara dos Comuns, por uma minguada maioria, um voto

favoravel á perda dos direitos politicos do_ conscientious objector,

_sem que não tivesse de lutar com uma oposição veemente, na qual se

juntaram homens de todos os partidos politicos, não excluindo os mais

acentuadamente conservadores. Foi então que, sem embargo do seu

declarado e esclarecido conservantismo, Lord Hugo Cecil, em uma oração

magistral, combateu «a idolatria do estado», que, tornando-o superior á

lei moral, perdeu a Alemanha na confiança das nações civilizadas; foi

então que, em palavras memoraveis, se ouviu a reivindicação da

preeminencia do dever perante a consciencia sobre a obrigação perante o

estado. «É na crença naquela região de obediencia superior que nos impõe

qualquer cousa mais do que aquilo que o estado nos póde pedir, e que nos

dá qualquer cousa mais do que o estado jámais nos poderá dar, que nós

temos de sustentar a grande causa em que nos empenhámos. Ás vezes

dizemos que combatemos pela civilização.» Mas aquele em quem o dever da

consciencia sobreleva á obrigação com o estado «dirá antes que

combatemos para que a civilização se mantenha uma civilização cristã, e,

por certo, em uma civilização cristã é mal violentar a consciencia dos

sinceros, é mal impôr-lhes uma obrigação que eles julgam corruptora e

contagiosa.»_

_Emquanto isto se proclama em voz alta, apaixonadamente e apaixonando as

legiões de crentes a que se comunica, uma outra ordem de factos se

apressa a dar-lhe uma confirmação eloquente. A falencia retumbante das

artes politicas dos estados que desencadearam a mais mortifera e ruinosa

das guerras, para ao fim confessarem que pela guerra não teem solução os

problemas que ela era chamada a resolver; a derrota do intelectualismo

politico, que, em boa logica com todo o intelectualismo e suas naturais

insuficiencias, se embriagou na vaidade das suas limitadas forças e,

desconhecendo as do caracter moral, considerou os homens meras

quantidades e energias mecanicas alheias a toda a influencia das forças

intimas espirituais; esta estreiteza que tinha de rematar na

incapacidade demonstrada das diplomacias profissionais ortodoxas para

assegurar, não direi já a felicidade dos homens mas a paz das nações,

induz a procurar em outros poderes a fortuna que estes muito

contingentes e mesquinhos não souberam dar-nos._

_É nesta angustia que mais uma vez se nos revela em seu intacto

resplendor aquela lei pela qual a consciencia soube que «nem só de pão

vive o homem», que a historia e a garantia unica da civilização é o

alargamento progressivo dos limites da espiritualidade á custa da

restrição dos limites das materialidades, e que os combates a que o

nosso tempo teve o triste privilegio de assistir, não são mais do que um

momento de conflicto e de violencia entre isso que não é pão e é vida e

se sente oprimido, e aquilo que, sendo pão, sendo repasto do corpo, seu

sustento ou seu prazer ou sua força, todavia e cada vez mais se mostra

alento insuficiente e mesquinho para aquele outro banquete etereo e

intangivel, que os sentidos não tocam, e se chama simpatia, amor,

humanidade ou caridade, e sempre e afinal essencia da vida._

_Preparemos para esse banquete o nosso animo._

_Eixo, 15-1-1918._

Do que o fogo não queima

Se da onda temerosa que começou a assolar a Europa e o mundo em 1914

consideramos apenas a espuma enxovalhada, não ha maior infamia, nem

maior crime e indignidade. É uma degradação de incomensuravel

profundeza, é a terra lavada em sangue pela ganancia abjecta das

tiranias da sordidez.

Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G.

Lowes Dickinson, compreendendo a opinião de milhares de homens, o

desalento de muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o

cinismo inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste

esboço a situação:

«A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da

riqueza. Isto é universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades

de opinião que prevalecem nos diferentes paises interessados, ninguem

pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da

civilização, em qualquer impulso generoso ou ambição nobre. Conforme o

conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente

da ambição da Alemanha, vinda á conquista de territorio e poder; e,

conforme o conceito popular alemão, nasceu da ambição da Inglaterra,

correndo a atacar e destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua

força. Assim, para qualquer dos beligerantes, a guerra mostra-se como

imposta por uma pura perversidade, e sob nenhum aspecto tem justificação

moral de especie alguma. Estes conceitos, na verdade, são demasiado

simples quanto aos factos; mas... a guerra procedeu da rivalidade de

imperio entre as grandes potencias, em toda a parte do mundo. A contenda

entre a França e a Alemanha no governo de Marrocos; a contenda entre a

Russia e a Austria no governo dos Balkans; a contenda entre a Alemanha e

outras nações no governo da Turquia--foram estas as causas da guerra.

«É a cobiça de mercados, concessões e colocação de capitais que está por

detraz da politica colonial conduzindo ás guerras. Os estados concorrem

ao direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos são

movidos e tutelados pelos interesses financeiros. O inglês foi ao Egito

por causa dos prestamistas, o francês foi a Marrocos por causa do

minerio e da riqueza. Em todo o Oriente, no mais proximo como no mais

distante, são as concessões, o comercio e os emprestimos que levaram á

rivalidade das potencias, a guerra sobre a guerra, ás _expedições

punitivas_ e, ironia das ironias! ás _indemnisações_, extorquidas como

uma nova forma, e especial, de roubar os povos que se levantam

esforçando-se por se defenderem dos roubos. Por um momento, as potencias

combinam suprimir a vitima comum; no dia seguinte, lançam-se umas sobre

as outras a disputar o espolio. Estes são realmente na sua nudez os

factos sobre as questões entre os estados a respeito da politica

comercial e colonial. Emquanto a exploração dos paises menos

desenvolvidos fôr dirigida por companhias, não tendo outro fim senão os

dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos

governos, emquanto as expedições militares acabando em anexações forem

postas aos hombros do publico por motivos que não podem confessar-se,

hão-de acabar em guerra as nações que começaram pelo roubo, e milhares e

milhões de vidas inocentes e generosas, as melhores da Europa, hão-de

perder-se inutilmente, sem fim algum, porque interesses sinistros

jogaram na sombra a paz do mundo em proveito do dinheiro das suas

algibeiras.»[2]

Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a

ruins paixões de dominio, avareza e sensualidade as multidões inocentes,

o trabalho, a candura, a honestidade e o heroismo--cifra-se nisto a

historia militar do mundo. Estas seriam as causas da guerra, as da

ultima como as de quantas a precederam, esta a sua unica e eterna

maldição. Só o que se viu com as companhias de navegação, e é publico,

desilude os menos crentes nas infamias da guerra. Quando as familias dos

que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e proveito dos que

os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de navegação, e tambem

dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento, á custa da

anciedade e atribulações daqueles que criaram os filhos imolados nas

batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo

sangue que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no

chão esteril dos combates.

Não duvidemos, a guerra e a ignominia são filhas do mesmo ventre.

Mas não duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia

corre a fazer as suas presas; outras forças se erguem que as dominam e

confundem. E sobre os destroços da politica, de ordinario infame,

floresce de continuo a consciencia moral, tão pura na aspiração como

lenta mas inflexivel no crescer.

Estranha sujeição das potestades! Essa fortaleza satanica não é só por

si tão robusta que prescinda da protecção do bem dos povos, da isenção,

do patriotismo, da fortuna moral dos homens e das nações, e de outras e

infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os

nossos sonhos. Para que as ambições da sordidez prevalecessem e

colhessem o seu quinhão na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes

necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade

humana. Pressentiram que só por esse compromisso levariam os exercitos

ás batalhas. Por uma singular escravidão, a sordidez sujeitou-se á

nobreza. Talvez mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda

de impostura; mas sujeitou-se, não sem ignorar de que por força terá de

cumprir muito daquilo que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu

poder as armas e o fogo, quanto é necessario para devastar a terra e a

embeber no sangue. E essa mesma sordidez armada, sentindo fugir-lhe o

poder perante qualquer cousa que o fogo não queima, aceitou a tutela e

imperio de forças imponderaveis e jurou-lhes fidelidade. A força fisica

na sua maior opulencia destrutiva não sabe combater, sente-se

insuficiente, se não tem em seu apoio um principio moral que a legitime.

Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se necessario

convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava as

atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.

Eis aí o facto capital de cuja compreensão depende a determinação do

caracter e mais profunda significação desta ultima fatalidade que pôs as

nações em guerra--não são os principios que dependem das armas, são as

armas que dependem dos principios. Pelo gráu em que as armas dependem

dos principios se afere a altura da civilização de uma comunidade e de

uma época, e pelo desrespeito ou pela corrupção dos principios se

julgará da profundeza da sua degradação. O progresso da humanidade é

puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a

penetrou e rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem

do que o fogo não queima. Se se ateiam, é porque aquela essencia eterea

lhes falece; se abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. «Por

muito que condenemos os chefes negligentes e as castas desapiedadas que

vivem pela guerra, a fonte real do mal é o sentimento popular em que se

apoiam. A lição que aí temos a aprender, é que as doutrinas e paixões

enraizadas, de que essas desgraças provêm, só podem ser removidas por um

lento e firme labor das forças espirituais. Aquilo de que principalmente

se carece é a eliminação dos sentimentos cujas instituições alimentam a

inveja e o odio, e preparam os homens para a desconfiança e para a

agressão.» (Lord Bryce).

Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade

essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as

sarças que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam; é um arrojo

de sinceridade, é um processo terrivel e crudelissimo de pureza,

desprendendo os principios, a suprema razão de ser da humanidade, das

miserias infinitas que os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo

essa aparente contradicção em uma imagem feliz, que só de noite as

estrelas brilham.

Se «ha certas cousas eternamente belas que subsistirão quando a guerra

passar, tais quais eram antes da guerra começar e tais quais serão

sempre, e se o nosso dever é concorrer para as manter vivas,

compreendendo-as e amando-as» (Gilbert Murray), a guerra que nos

angustía seria talvez perante «essas cousas eternamente belas» uma

experiencia, um transe de morte precedendo uma ressurreição esplendida,

de esplendor mais alto que todo aquele que precedentemente as houvesse

coroado. Porventura a guerra veio a combater pela violencia uma

civilização turbada e enlouquecida pela sensualidade, uma civilização

que nem soube acautelar-se pela persuasão nem corrigir-se pela

experiencia pacifica; será a febre de uma infecção que a higiene não foi

capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de inteligencia,

que não por escassez de recursos.

O que vimos á luz desse brazeiro e que não viamos claramente antes que

ele se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, é

como uma aurora de redenção e esperança, como uma certeza divina.

Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de

inteligencia, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova

ordem nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga

muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é

de melhor ordem nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e

o presente lho confirmou pelas provações. De que o mundo carece, para

sua luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não

queima; não é de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento.

De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra não possa

gerar senão a guerra, por mais subtil que seja o esforço para a

transmudar em benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou

militar, ficará por nascimento sujeita á concepção inseparavel do ventre

de soberba e avareza que a gera; sómente será efectiva e fecunda quando

derivar de um renascimento da politica, da diplomacia e dos exercitos no

espirito religioso que se lhes insinuar. Fóra disso será uma ficção e

uma ilusão, transitorias e mentirosas como todas as ficções e ilusões

que os cataclismos infernais das criações humanas se encarregam de

dissipar com a maior dureza. É inutil cogitar combinações, tribunais e

semelhantes subterfugios para protelar em esperanças vãs o que só ao

espirito pertence e só ele póde dar. As civilizações vulgarmente

chamadas decadentes e decaídas, porque minguaram em poder militar ou de

todo o perderam, são bastas vezes as que predominam, embora destituidas

de bens e forças temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo

que pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raças são os mortos

que governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das

aspirações, e das energias morais em que essa eternidade se revela,

sobrepõe-se ás vicissitudes efemeras do tempo e completamente as

subordina, ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de

homens e a aniquilação de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos

a liberdade, Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na

piedade foram superiores a toda a corrupção, ruina ou escravidão,

governam hoje mais ampla e firmemente do que na hora em que o poder

politico as servia; como, modernamente, a França no fulgor da sua

inteligencia, ou a Inglaterra na acuidade dos instintos morais, ou a

Russia na abdicação religiosa, ou a Alemanha na intuição das

temporalidades, são imperios fundados de uma vez para sempre,

insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da nossa

existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro

lhes tenha reservadas. A vida dos estados é nada, um instante

passageiro, comparada com a vida das civilizações que, se realmente o

são, se realmente significam o desenvolvimento e afirmação progressivos

de uma alma, de uma relação com o infinito na existencia sensivel, não

admitem perda nem retrocesso, e nem sequer quebra de expansão. A riqueza

do espirito, porque não é deste mundo, embora neste mundo habite, não

depende das contingencias politicas das nações; a todas é superior, e

porque é superior, por nenhuma foi ou será vencida. Só pela riqueza do

espirito os povos se engrandecem e vencem ou serão vencidos; o resto é

acidental.

O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica

ultimamente precipitou os estados e as nações é qualquer cousa como um

terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e remotos as

ruinas de que os canhões cobriram a terra. Uma revolução social se

efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido

por instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a

maior iniquidade e levantaria as pedras das calçadas, subitamente foi

admitido como o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado

monopolisou o pão e o fogo, e os povos submeteram-se; todos os

interesses individuais e de classe foram indistintamente imolados a

obrigações sociais, demonstradas ou hipoteticas, e, embora no tumulto

proprio de semelhante radicalismo se insinuassem as torpezas

inseparaveis do remexer das riquezas, os povos consentiram pacientemente

na dolorosa e inaudita expoliação. Naufragaram na tormenta liberdades

que haviam custado o sacrificio de gerações inumeraveis e o martirio de

centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovação de

despotismos curvaram-se sem lamentos á fatalidade que lhes vinha em nome

da salvação publica. Evidentemente, se não houve a criação instantanea

de novos deveres, houve, pelo menos, uma revisão pratica e efectiva da

escala e amplitude dos deveres e dos direitos, a qual não pode fundar-se

em outra cousa senão na transformação da consciencia moral das

sociedades.

Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e

moral, ou é uma ruina na qual vão sepultar-se os melhores sonhos que nos

alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?

O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na _Atlantic Monthly_

de abril de 1916, e intitulado _Juizo de um Filosofo sobre a Guerra_,

responde a esta interrogação com uma precisão e profundeza devéras

notaveis. Quanto dessa lucida apreciação das duvidas angustiosas que a

guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrição feita na

_Public Opinion_[3] onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e

guardar, pois melhor condensação da suprema e decisiva influencia dos

problemas morais deste momento da nossa civilização não encontrei na

torrente de escritos que a preocupação dos aspectos morais da guerra

suscitou, interessando os mais altos e nobres espiritos do nosso tempo.

«A causa dos Alliados vencerá», diz o conde Hermann Keyserling, «de uma

forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.»

«É inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional

que provocou esta catastrofe; é inteiramente inverosimil que os novos

tratados que teem de se fazer, não sejam uma reflexão das aspirações e

esperanças de todo o mundo; o purgatorio desta guerra terá de consumar a

decadencia, transmudar em novas as velhas formas, acelerar o seu

desenvolvimento, aclarar o espirito-das nações.»

«Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a

paz em termos reaccionarios; jámais seria aceite pela opinião publica, e

não duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanhã será muito

diferente da Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha

mudado muito. Como a França, como a Inglaterra, como a Russia, ou terá

encontrado a sua nova alma ou, pelo menos, não estará longe de a

encontrar. E essa alma será a de uma nação intensamente democratica.

«Não ha pois razão para pessimismo, apesar do horror da situação

presente. A guerra não póde ser senão horrenda, quando pelejada nas

proporções gigantescas e com a intensidade de paixão que agora se

mostraram. Se os melhores entendimentos parecem cegos e os melhores

corações se deixaram turvar pelo odio, a condição da maioria deve ser

pavorosa.

«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, _significam_ muito

pouco, desde que os homens durante a febre não são o que são; e a maior

parte dos horrores serão logo esquecidos, tal qual como com as pessoas

mais sadias que, depois de terem escapado de uma doença mortal, pensam

pouco nos sofrimentos por que passaram.

«Não esqueçamos nunca que esta guerra significa uma crise

constituicional e que nesta conformidade temos de a julgar. Só então

seremos capazes de compreender as suas fases.

«Digo que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto não implica,

todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela se

propôs.

«Será impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez

para sempre impeça a violação dos tratados; uma nação sósinha não terá

possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um

individuo póde desprender-se dos laços sociais e de parentesco e seguir

exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista não tem

possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises estão

habitados em comum por diferentes raças. Mas, em vez disto, teremos

melhoria em outras cousas.

«Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava

uma nação a oprimir outras nações, será condenada, dando logar a uma

nova ideia, baseada exclusivamente sobre considerações economicas e

militares, e deixando plena independencia a todas as nações quanto aos

termos da sua cultura. Muito provavelmente, o equilibrio futuro da

Europa dependerá, mais do que dantes, da colaboração sobrepujando a

oposição, o que só por si tornará menos frequentes as guerras.

«Mas são inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa

certa é que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de

acelerar na vida interna das nações e nas relações internacionais

aquelas transformações que cada ano se teem mostrado mais urgentes e

cujas formulas ninguem, por agora, póde encontrar.

«Ha uma intenção no labor cego da Historia.

«Não quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons;

muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos não podem deixar

de ser desastrosos. A morte prematura de milhões dos mais robustos e

melhores não poderá beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos

semeiados hão-de estorvar por algum tempo toda a convivencia

internacional.

«O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro

momento:--_Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui será la

vaincue._ A um tão longo e terrivel esforço ha-de seguir-se uma reacção,

uma depressão temporaria tanto mais acentuada quanto maior fôr o

levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente

ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos

imediatos desta guerra poderão ser francamente negativos.

«Todavia, não retirarei uma só das palavras de esperança que escrevi,

nem que eu soubesse que nos estão reservados acontecimentos peiores

ainda do que aqueles por que temos passado.

«Porque o progresso que realmente importa é o progresso no idealismo, e

este não póde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais

longos que eles sejam.

«Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revolução

Francesa? Materialmente não, nem em principio nem depois. Ainda mais:

mesmo hoje se póde pôr em duvida se é consideravel o beneficio da

condição material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos.

Mas mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas;

e isto é que é superiormente importante, porque só uma mudança de

consciencia das cousas é capaz de mudar intimamente as proprias cousas.

«O espirito afeiçoa a materia muito lentamente. É isso certo. Mas, por

isso tambem, nenhuma outra cousa a afeiçoa absolutamente.

«A lei só começou a ser o reflexo da rectidão no dia em que os homens

começaram a conceber o que a rectidão significava.

«As instituições, só por si, são nada. As mais perfeitas que se possam

imaginar, são meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno

impulso da paixão, se não exprimem um grau correspondente de compreensão

espiritual.

«Assim, a civilização perfeita da antiga Roma não pôde subsistir porque

apenas exprimia uma compreensão limitada; e, pelo contrario, o germen de

uma penetração mais profunda lançado pelo Evangelho de Cristo nas almas

barbaras tornou-as aptas para um infinito progresso.

«Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetração

espiritual e a exteriorisação. No principio da nossa era a penetração

era profunda, mas o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta

parece infinitamente superior áquela. Isto explica o incomparavel horror

desta guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa

civilização externa e o estado das nossas almas. Mas este horror

abre-nos os olhos do espirito.

«Nunca mais e em parte alguma a opinião publica suportará os processos

tradicionais e profundamente imorais das relações internacionais; nunca

mais admitirá conscientemente que o poder é o direito. A nossa

consciencia das cousas ha-de mudar, e esta é a unica especie de

progresso a tomar em conta. Não ha desastres materiais que anulem essa

conquista.

«Só o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento

material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimirá, por si

mesmo, em sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente

caber-nos depois da guerra, seja qual fôr o caminho que os

acontecimentos materiais tomem.

«Nós, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu,

julgamos muitas vezes injusto que fossemos nós os escolhidos para esta

terrivel experiencia.

«Console-nos a ideia da retribuição deste sacrificio.

«Não fossem os nossos sofrimentos, não fosse a desgraça que nós ao mesmo

tempo padecemos e causamos, e aqueles que hão-de vir depois de nós não

seriam capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o

conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em acção e vida,

não é menos verdade que só as acções consumadas dão origem, em regra, a

novas realizações.

«Um mundo novo nunca nasceu senão da agonia do que o precede.»

Nem porventura será necessario esperar o fim da guerra e das suas

calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformação

salutar que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling

agoura em termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde já; alguma

cousa dessa redenção se mostra já fundada e inabalavel.

Se o mundo se acha ainda entregue á violencia estupida e cruel da força

puramente fisica, se ainda abundam os que nela crêem com um fetichismo

barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilização, entretanto a

propagação de um sentimento vigoroso de desprestigio da força a condena,

senão á miseria de um facto de abominação, pelo menos a um estado de

sujeição e escravidão sob o dominio de poderes mais altos. Não será

propriamente o desprestigio da força esse julgamento dos seus feitos e

crimes ao qual temos assistido, mas é desde já, e claramente, o

sentimento das responsabilidades da força. O imperialismo e as suas

armaduras de aço e as suas tiranias e magistraturas vão a retemperar-se

em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe exigem, por

titulo de admissão, que de apanagio e privilegio, instituido em proveito

da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se

converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. Depositario

da força, e não o seu livre possuidor, o imperialismo moderno, para

legitimar e manter a sua existencia e o seu poder, cede a impulsos que

já de longe lhe vinham turvando a liberdade e o absolutismo, e tem de

cohonestar a ambição do dominio, e os interesses dos que dominam e

regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das

responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna

das nações e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob

a sua protecção e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um

simples instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de

avareza terá de passar, por efeito do progresso moral e das obrigações

politicas correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa

transformação que a evolução moral das sociedades vinha reclamando

lentamente, incitando e conquistando a custo, foi agora subita e

singularmente apressada pela violencia da guerra, pelas suas dores, pela

experiencia e desenganos de que ela se tornou portadora sinistra, todas

inclinando a crêr que o imperialismo, para ser um processo de ordem

politica e como tal escapar aos impetos de uma reacção anarquica, terá

de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e inspiração de altos e

generosos deveres. Só por estes e pela fidelidade com que os observar,

só pela actividade e pela soma de bens concretos que importar para a

felicidade dos povos, será aceite e querido. Confiado apenas ao

prestigio das armas e á ostentação da soberba e da crueldade, da avidez

e da injustiça, erguidas estas em seus tronos de riqueza, jámais irá

além das criações gigantescas que a historia nos mostra dissolvendo-se

invariavelmente na corrupção do seu proprio sangue. A desilusão

tornou-se completa no meio da catastrofe.

A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta

feição de serviço do proximo, não só ao imperialismo politico, ao que

usa canhões, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a

todos os demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos

imperialismos das oficinas como até aos simples imperialismos

domesticos. Por força da dolorosa eloquencia de um momento que revelou

na sua nudez a miseria de todo o isolamento orgulhoso dos homens e das

nações, sucede a urgencia da solidariedade e da cooperação áquele

apetite de dominio, exploração, sujeição e posse que tem sido a alma de

todas as escravidões e servidões. Nesta lugubre escola, o capitão de

armas aprendeu a respeitar o soldado, como o patrão o operario, e o amo

o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens como das cousas, a razão

do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova liga. Isentou-se de

estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava ás multidões que o

cercavam: «Os animais bravios que estão espalhados pela Italia teem suas

tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem, que derramam

o seu sangue em defesa da Italia, não teem outra propriedade senão a luz

e o ar que respiram; sem casa, sem morada certa, vagueiam por todos os

lados com as mulheres e com os filhos. Os generais enganam-se quando os

exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus templos. Em tão

grande numero de romanos haverá um só que tenha um altar domestico e um

tumulo em que os seus antepassados repousem? Não combatem e não morrem

senão para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os

senhores do universo, e não teem de seu um palmo de terra.»

Vinte séculos passaram desde que o mundo jazendo na servidão desmentiu

na ironia e na crueldade dos factos a violenta aspiração do tribuno;

mas, feita daquelas cousas que o fogo não queima, prevalecia e durava

atravez de toda a derrota, e hoje vemos o que a justiça das gerações lhe

guardava. Porque as plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, já

aprenderam a preguntar porque e para que é que lá vão, e os que as

mandam já não sentem em seu poder arte de engano ou energia de captação

que lhes dê segurança bastante para negar e roubar aos que combatem o

seu quinhão na patria. Com pasmo vimos a Inglaterra estabelecer o

serviço militar obrigatorio, mas talvez na surpreza muitos se

esquecessem de considerar que essa violencia feita ás liberdades

tradicionais daquele país era a democracia continental com o seu cortejo

de igualdades passando o Estreito, e, se não derrubava de um golpe o

remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dirá, suspendia-lhe,

pelo menos, todas as garantias de estabilidade. O exercito deixou de ser

o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente á sua

voz; tornou-se em obrigação de defesa, comum a todas as classes e para

cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e

imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova

lei:--«Cada homem, cada voto». É a igualdade do poder politico, preludio

certo e sabido das reivindicações igualitarias continentais, ameaçando

as desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra,

com a liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das

velhas aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela

origem das antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses

depois de estabelecido o serviço militar obrigatorio, aparecia na camara

dos comuns uma proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o

_Times_ dava fóros de cidade á discussão da conveniencia da constituição

de um partido republicano na Inglaterra, que esse jornal aliás combatia

mas discutia, o que só por si é sinal dos tempos.

Por outro lado, a pressão dos confrontos proprios de toda a angustia em

que as provações nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes

desgraças teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em

sentimentos menos platonicos dos que aqueles que até agora prevaleciam

nas academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradições e

prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do seu

espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes

insinuando-lhe o tumulto e turvação do conflicto de diversissimas

aspirações, algures a situação era diferente. Emquanto a Europa

arrastava entre fadigas e penas infinitas esse fardo que é a sua gloria

e a sua grandeza, e tambem, bastas vezes, o residuo morto da sua vida e

o estorvo fatal da sua vitalidade, além do Atlantico filhos seus, que

ela criou e amamentou com o melhor do seu sangue, tinham fundado nações

opulentas de riqueza e felicidade, e regendo-se por principios assáz

diferentes dos que nos preocupam e governam, e emancipadas em larga

escala do que a nós nos causa dano.

Nós, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de

bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos

envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da

dignidade e até da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de

caixeiro a magistrado, não raro inclinados a tomar por honra a

hierarquia social e a profissão, rebeldes a perceber que a honra é um

facto de consciencia e não depende da condição economica e da

classe,--com qualquer coincide e a todas póde ser alheia,--temos visto

com frequente desconfiança o desenvolvimento da grande Republica

Norte-Americana, suspeitando da sua nobreza e temendo, senão mesmo

aborrecendo, a rudeza das suas energias violentas, desprendidas de todos

os moderadores que entre nós lhes minguariam a expansão e os impetos. O

governo da multidão e a paixão mercantil afiguram-se-nos por vezes uma

degradação, quando os referimos ás hierarquias tradicionais e

hereditarias que nos andam no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias

de desprendimento dos bens da terra que essas fidalguias desprezam por

ignominiosos, sem embargo de consentirem que o seu desprezo sirva tanto

á elevação da alma e á generosidade como á ociosidade indigente e ao

desamor do trabalho.

Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando

mais uma vez na condição dos que nos aparecem melhor armados de espirito

e corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, não

podemos furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto não haverá

constituição social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das

velhas civilizações europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades

democraticas que desde Platão tivemos por portadores de depressão, não

redundam afinal na supressão de todas as superioridades e excepções,

compensando-a amplamente pela elevação economica e mental da mediania e

do comum. Sem embargo dos muitos descontos que necessariamente ha a

fazer em todas as prosperidades, o certo é, e evidente, que os

Estados-Unidos da America, dentro das suas formulas democraticas e seja

qual fôr o muito mal que das democracias possa dizer-se e verificar-se,

alcançaram uma situação politica admiravel, emquanto os Estados-Unidos

da Europa, tão orgulhosos de saber, experiencia, ordem, categorias e

tradições, são ainda do reino da utopia, para o maior numero, e uma vaga

esperança, para um reduzido optimismo que teima em não descrêr do

progresso moral da humanidade. Não sem boas razões, a democracia

europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista transatlantico,

precario, a praso, sujeito á sorte da inteligencia e dos bons negocios,

será mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar dinastico,

nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigação de

capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem

mesmo quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das

nossas terras se os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz

em que vivem se, em logar de se organisarem democraticamente, tivessem

fundado monarquias com as respectivas dinastias. E os factos recentes,

particularmente o que se tem passado nos Balkans, e estes opressivos e

indeclinaveis confrontos semeiam perplexidades, demasiado bastas para

nos deixarem caminho aberto e plano pelo qual possamos sair afoitamente

de semelhante labirinto.

Nem mesmo será de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da

comparação da Europa e da America, alegando que as tradições da Europa e

a juventude da America não autorisam aproximações. Não, as tradições da

Europa são as tradições da America, e a idade da consciencia e da razão

de um e outro continente é a mesma; quem fundou as nações de além do

Atlantico foram europeus repassados do que as civilizações europeias

tinham de mais profundo. A diferença, onde a haja, depende apenas de

descriminarmos em que ramos da tradição, que muitos eram, se fundou a

civilização americana, e em que ramos da tradição se manteve a

civilização da Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as

ilações praticas do confronto, de saber se foi a Europa ou a America que

se desenvolveu nos ramos sadios, qual dos dois continentes teve a

infeliz sorte de se aferrar aos ramos decrepitos, invadidos de toda a

casta de musgos e liquenes, continuamente sujeitos a inumeraveis doenças

parasitarias.

Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilização

europeia, imaginando a America demasiado moça ainda para muito poder

sentir e pensar, para quem apenas tenha observado na America a torrente

do seu mercantilismo e a julgue destituida da alta espiritualidade que é

o nosso brazão, convém notar que os livros de Tolstoi se vendem aos

milhões nos Estados-Unidos da America, e os de Ruskin «são lidos mais

largamente na America do que na Inglaterra.»[4] A mais alta elevação da

alma de que a Europa foi capaz no século XIX e que esta personificou

esplendidamente em seus profetas, é comum na sua disseminação e

influencia ás praias de aquem e de além-mar, porventura mais querida na

terra virgem do que no chão exausto. E quem hoje reler _A Americanisação

do Mundo_, do extraordinario jornalista que foi W. T. Stead, irá

encontrar ensejos de aplauso e de admiração de uma larga previdencia,

nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos estimulado

apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos

publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os

seus navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito

volumosa bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito

em grande parte. Não se amiudaram os momentos em que as palavras do

presidente Wilson teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas

juraram os estadistas encanecidos do velho mundo?!...

Destas divagações do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se

salva, porém, intacta--a condenação da violencia como processo politico.

Em toda a hipotese chegamos á certeza--e essa certeza constituirá um

poder politico de suprema importancia--de que para a prosperidade dos

estados e das nações valerá sempre mais organisar do que armar; mais se

fortalecem as nações pelo desenvolvimento e coordenação das suas

relações internas e externas do que pela invulnerabilidade

restrictamente militar. Nas nações como nos individuos, a saude

politica, como a saude fisiologica, será mais um facto de equilibrio e

ponderação das suas energias do que o desenvolvimento sumo de qualquer

delas, seja qual fôr, força militar ou capacidade muscular. Se os

Estados Unidos da America não nos facultassem elementos decisivos nessa

demonstração, bastaria para nos induzir em semelhantes conclusões o

confronto da soberba e prolongada expansão pacifica da Alemanha antes da

guerra com os destroços de varia especie, economica e moral, acumulados

pela cegueira da sua febre guerreira, desde o dia em que se julgou capaz

de manter e acrescentar a grandeza por efeito e graça da violencia

militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento participava da

natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma extensão

incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia pelos

povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia da

força á insinuação do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades

mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que

prostrou a terra e os nossos corações na desolação, nessa hora brilhou

com um novo e imperecivel esplendor e que o fogo não queima; nessa hora

nos convencemos, subjugados pela dôr e esclarecidos pela experiencia,

que a essencia da vida das nações, o que torna os seus povos eleitos ou

condenados, dignos ou infames, felizes ou desgraçados, ou até mesmo

ricos ou pobres, é a sua alma, a sua aspiração, a sua fé e a sua crença,

o seu caracter moral e religioso, perante o qual o saber e a força são

unicamente uma ilusão e uma insidia, uma traição tarde ou cedo destinada

a conduzi-los á vergonha e á miseria, se um instinto salvador não lhes

ensinou a disciplinar e conter esse saber e essa força na obediencia a

uma aspiração superior.

A fortuna dos povos é em ultima analise questão moral, questão de

psicologia, traducção do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente

positivo de uma alma.

Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de

Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas

consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz

imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivação

psicologica da fortuna das nações em dois livros[5], que, a meu vêr, são

das lições mais lucidas e serenas que o tremendo conflicto provocou.

Do que o fogo não queima · 第 1 / 5 段