Nunca o prazer se conhece,

Senão despois da tormenta:

Tão pouco o bem permanece,

Que se o descanso florece,

Logo o trabalho arrebenta.

Sempre os bens se lograrião,

Mas os males tudo atalhão;

Porém ja que assi porfião,

Onde descansos trabalhão,

_Trabalhos descansarião._

Qualquer trabalho me fôra

Por vós grão contentamento:

Nada sentira, Senhora,

Se víra disto algum'hora

Em vós hum conhecimento.

Por mal que o mal me tratasse,

Tudo por bem tomaria;

Postoque o corpo cansasse,

A alma descansaria,

_Se para vós trabalhasse._

Quem vossas cruezas ja

Soffreo, a tudo se poz;

Costumado ficará;

E muito melhor será,

Se trabalhar para vós.

Tristezas esquecerião,

Postoque mal me tratárão;

Annos não me lembrarião,

Que como est'outros passarão,

_Tempos tristes passarião._

Se fosse galardoado

Este trabalho tão duro,

Não vivêra magoado.

Mas não o foi o passado,

Como o será o futuro?

De cansar não cansaria,

Se quizereis, que cansasse;

Cavar, morrer, fa-lo-hia;

Tudo, emfim, esqueceria,

_Se algum'hora vos lembrasse._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Triste vida se me ordena,

Pois quer vossa condição

Que os males, que dais por pena,

Me fiquem por galardão.

_Glosa._

Despois de sempre soffrer,

Senhora, vossas cruezas,

A pezar de meu querer,

Me quereis satisfazer

Meus serviços com tristezas.

Mas, pois em balde resiste

Quem vossa vista condena,

Prestes estou para a pena;

Que de galardão tão triste

_Triste vida se me ordena._

De contente do mal meu

A tão grande extremo vim,

Que consinto em minha fim:

Assi que vós e mais eu,

Ambos somos contra mim.

Mas que soffra meu tormento,

Sem querer mais galardão,

Não he fóra de razão

Que queira meu soffrimento,

_Pois quer vossa condição._

O mal, que vós dais por bem,

Esse, Senhora, he mortal;

Que o mal, que dais como mal,

Em muito menos se tem,

Por costume natural.

Mas porém nesta victoria,

Que comigo he bem pequena,

A maior dor me condena

A pena, que dais por gloria,

_Que os males, que dais por pena._

Que mor bem me possa vir,

Que servir-vos, não o sei.

Pois que mais quero eu pedir,

Se quanto mais vos servir,

Tanto mais vos deverei?

Se vossos merecimentos

De tão alta estima são,

Assaz de favor me dão

Em querer que meus tormentos

_Me fiquem por galardão._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Ja não posso ser contente,

Tenho a esperança perdida;

Ando perdido entre a gente,

Nem morro, nem tenho vida.

_Glosa._

Despois que meu cruel Fado

Destruio huma esperança,

Em que me vi levantado,

No mal fiquei sem mudança,

E do bem desesperado.

O coração, que isto sente,

Á sua dor não resiste,

Porque vê mui claramente

Que pois nasci para triste,

_Ja não posso ser contente._

Por isso, contentamentos,

Fugi de quem vos despreza:

Ja fiz outros fundamentos,

Ja fiz senhora a tristeza

De todos meus pensamentos.

O menos que lh'entreguei,

Foi esta cansada vida:

Cuido que nisto acertei,

Porque de quanto esperei

_Tenho a esperança perdida._

Acabar de me perder

Fôra ja muito melhor;

Tivera fim esta dor,

Que não podendo mor ser,

Cada vez a sinto mor.

De vós desejo esconder-me,

E de mi principalmente,

Onde ninguem possa ver-me;

Que pois me ganho em perder-me,

_Ando perdido entre a gente._

Gostos de mudanças cheios,

Não me busqueis, não vos quero:

Tenho-vos por tão alheios,

Que do bem que não espero,

Inda me ficão receios.

Em pena tão sem medida,

Em tormento tão esquivo

Que morra, ninguem duvída;

Mas eu se morro, ou se vivo,

_Nem morro, nem tenho vida._

* * * * *

A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.

_Mote._

A morte, pois que sou vosso,

Não a quero; mas se vem,

Ha de ser todo meu bem.

_Glosa._

Amor, qu'em meu pensamento

Com tanta fé se fundou,

Me tee dado hum regimento,

Que quando vir meu tormento

Me salve com cujo sou.

E com esta defensão,

Com que tudo vencer posso,

Diz a causa ao coração:

Não tee em mi jurdição

_A morte, pois que sou vosso._

Por exprimentar hum dia

Amor se me achava forte

Nesta fé, como dizia,

Me convidou com a morte,

Só por ver se a temeria.

E como ella seja a cousa

Onde está todo meu bem,

Respondi-lhe, como quem

Quer dizer mais, e não ousa:

_Não a quero, mas se vem..._

Não disse mais, porque então

Entendeo quanto me toca;

E se tinha dito o não,

Muitas vezes diz a boca,

O que nega o coração.

Toda a cousa defendida

Em mais estima se tem:

Por isso he cousa sabida,

Que perder por vós a vida

_Ha de ser todo meu bem._

* * * * *

Á MESMA DAMA.

Vejo-a n'alma pintada,

Quando me pede o desejo

O natural que não vejo.

_Glosa._

Se só de ver puramente

Me transformei no que vi,

De vista tão excellente

Mal poderei ser ausente,

Em quanto o não for de mi.

Porque a alma namorada

A traz tão bem debuxada,

E a memoria tanto voa,

Que se a não vejo em pessoa,

_Vejo-a n'alma pintada._

O desejo, que s'estende

Ao que menos se concede,

Sôbre vós pede e pretende,

Como o doente que pede

O que mais se lhe defende.

Eu, qu'em ausencia vos vejo,

Tenho piedade e pejo

De me ver tão pobre estar,

Qu'então não tenho que dar,

_Quando me pede o desejo._

Como áquelle que cegou,

He cousa vista e notoria,

Que a natureza ordenou

Que se lhe dobre em memoria

O qu'em vista lhe faltou:

Assi a mi, que não vejo

Co'os olhos o que desejo,

Na memoria e na firmeza

Me concede a natureza

_O natural que não vejo._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Sem vós, e com meu cuidado,

Olhae com quem, e sem quem.

_Glosa._

Vendo Amor que com vos ver

Mais levemente soffria

Os males que me fazia,

Não me pôde isto soffrer;

Conjurou-se com meu Fado;

Hum novo mal me ordenou:

Ambos me levão forçado,

Não sei onde, pois que vou

_Sem vós e com meu cuidado._

Não sei qual he mais estranho

Destes dous males que sigo,

Se não vos ver, se comigo

Levar imigo tamanho.

O que fica, e o que vem,

Hum me mata, outro desejo:

Com tal mal, e sem tal bem,

Em taes extremos me vejo:

_Olhae com quem, e sem quem_!

* * * * *

AO MESMO.

Amor, cuja providencia

Foi sempre que não errasse,

Porque n'alma vos levasse,

Respeitando o mal d'ausencia,

Quiz qu'em vós me transformasse.

E vendo-me ir maltratado,

Eu e meu cuidado sós,

Proveo nisso de attentado,

Por não me ausentar de vós,

_Sem vós, e com meu cuidado._

Mas est'alma, qu'eu trazia,

Porque vós nella morais,

Deixa-me cego, e sem guia;

Que ha por melhor companhia

Ficar onde vós ficais.

Assi me vou de meu bem,

Onde quer a forte estrella,

Sem alma, qu'em si vos tem,

Co'o mal de viver sem ella:

_Olhae com quem, e sem quem_!

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Sem ventura he por demais.

_Glosa._

Todo o trabalhado bem

Promette gostoso fruito;

Mas os trabalhos, que vem,

Para quem dita não tem

Valem pouco, e custão muito.

Rompe toda a pedra dura,

Faz os homens immortais

O trabalho quando atura;

Mas querer achar ventura,

_Sem ventura, he por demais._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Minh'alma, lembrae-vos della.

_Glosa._

Pois o ver-vos tenho em mais

Que mil vidas que me deis,

Assi como a que me dais,

Meu bem, ja que mo negais,

Meus olhos, não mo negueis.

E se a tal estado vim

Guiado de minha estrella,

Quando houverdes dó de mim,

Minha vida, dae-lhe a fim,

_Minh'alma, lembrae-vos della._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Tudo póde huma affeição.

_Glosa._

Tee tal jurdição Amor

N'alma donde se aposenta,

E de que se faz senhor,

Que a liberta e isenta

De todo humano temor.

E com mui justa razão,

Como senhor soberano,

Que Amor não consente dano.

E pois me soffre tenção,

Gritarei por desengano:

_Tudo póde huma affeição._

* * * * *

TROVA DE BOSCÃO.

Justa fué mi perdicion;

De mis males soy contento;

Ya no espero galardon,

Pues vuestro merecimiento

Satisfizo mi pasion.

_Glosa._

Despues que Amor me formó

Todo de amor, cual me veo,

En las leyes, que me dió,

El mirar me consintió,

Y defendióme el deseo.

Mas el alma, como injusta,

En viendo tal perfeccion,

Dió al deseo ocasion:

Y pues quebré ley tan justa,

_Justa fué mi perdicion._

Mostrándoseme el Amor

Mas benigno que cruel,

Sobre tirano traidor,

De zelos de mi dolor,

Quiso tomar parte en él.

Yo que tan dulce tormento

No quiero dallo, aunque peco,

Resisto, y no lo consiento;

Mas si me lo toma á trueco

_De mis males, soy contento._

Señora, ved lo que ordena

Este Amor tan falso nuestro!

Por pagar á costa agena,

Manda que de un mirar vuestro

Haga el premio de mi pena.

Mas vos, para que veais

Tan engañosa intencion,

Aunque muerto me sintais,

No mireis, que si mirais,

_Ya no espero galardon._

Pues que premio (me direis)

Esperas que será bueno?

Sabed, sino lo sabeis,

Que es lo mas de lo que peno

Lo menos que mereceis.

Quien hace al mal tan ufano,

Y tan libre al sentimiento?

El deseo? No, que es vano.

El amor? No, que es tirano.

_Pues? Vuestro merecimiento._

No pudiendo Amor robarme

De mis tan caros despojos,

Aunque fué por mas honrarme,

Vos sola para matarme

Le prestastes vuestros ojos.

Matáranme ambos á dos;

Mas á vos con mas razon

Debe el la satisfaccion;

Que á mi por él, y por vos,

_Satisfizo mi pasion._

* * * * *

ALHEIO.

Todo es poco lo posible.

_Glosa._

Ved que engaño señorea

Nuestro juicio tan loco,

Que por mucho que se crea,

Todo el bien, que se desea,

Alcanzado, queda poco.

Un bien de cualquiera grado,

Si de haberse es imposible,

Queda mucho deseado.

Mas para mucho, alcanzado,

_Todo es poco lo posible._

_Outro._

Posible es á mi cuidado

Poderme hacer satisfecho,

Si fuera posible al hado

Hacer no hecho lo hecho,

Y futuro lo pasado.

Si olvido pudiera haber,

Fuera remedio sufrible;

Mas ya que no puede ser,

Para contento me hacer,

_Todo es poco lo posible._

* * * * *

ALHEIO.

Vos teneis mi corazon.

_Glosa._

Mi corazon me han robado;

Y Amor viendo mis enojos,

Me dijo: Fuéte llevado

Por los mas hermosos ojos,

Que desque vivo he mirado.

Gracias sobrenaturales

Te lo tienen en prision.

Y si Amor tiene razon,

Señora, por las señales,

_Vos teneis mi corazon._

* * * * *

MOTE.

Qué veré que me contente?

_Glosa._

Desque una vez yo miré,

Señora, vuestra beldad,

Jamas por mi voluntad

Los ojos de vos quité.

Pues sin vos placer no siente

Mi vida, ni lo desea,

Si no quereis que yo os vea,

_Qué veré que me contente?_

* * * * *

MOTE.

Sem vós, e com meu cuidado.

_Glosa._

Querendo Amor esconder-vos

Em parte que vos não visse,

Co'o extremo de querer-vos

Cegou-me os olhos com ver-vos,

Levou-vos, sem que vos visse.

Eu cego, mas atinado,

Quando vi que vos não via,

Do mesmo Amor indignado,

Ja vêdes qual ficaria

_Sem vós e com meu cuidado._

* * * * *

MOTE.

Retrato, vós não sois meu;

Retratárão-vos mui mal;

Que a serdes meu natural,

Foreis mofino como eu.

_Glosa._

Indaqu'em vós a arte vença

O que o natural tee dado,

Não fostes bem retratado;

Que ha em vós mais differença,

Que no vivo do pintado.

Se o lugar se considera

Do alto estado, que vos deu

A sorte, qu'eu mais quizera;

Se he qu'eu sou quem d'antes era,

_Retrato, vós não sois meu._

Vós na vossa glória pôsto,

Eu na minha sepultura,

Vós com bens, eu com desgôsto;

Pareceis-vos ao meu rosto,

E não ja á minha ventura.

E pois nella e vós errarão

O qu'em mi he principal,

Muito em ambos s'enganárão.

Se por mi vós retratárão,

_Retratárão-vos mui mal._

Mas se esse rosto fingido

Quizerão representar,

E houverão por bom partido

Dar-vos a alma do sentido

Para a glória do lugar;

Víreis, pôsto nessa alteza,

Que vos não ha cousa igual;

E que nem a maior mal

Podeis vir, nem mor baixeza,

_Que a serdes meu natural._

Por isso não confesseis

Serdes meu, qu'he desatino,

Com que o lugar perdereis:

Se conservar-vos quereis,

Blazonae que sois divino.

Que se nesta occasião

Conhecessem qu'ereis meu,

Por meu vos derão de mão,

. . . . . . . . . .

_Fôreis mofino, como eu._

* * * * *

MOTE.

Foi-se gastando a esperança,

Fui entendendo os enganos;

Do mal ficárão-me os danos,

E do bem só a lembrança.

_Glosa._

Nunca em prazeres passados

Tive firmeza segura.

Antes tão arrebatados,

Qu'inda não erão chegados,

Quando mos levou ventura.

E como quem desconfia

Ter em tal sorte mudança,

No meio desta porfia,

De quanto bem pretendia

_Foi-se gastando a esperança._

Não tive por desatino

A occasião de perdella;

Mas foi culpa do destino,

Que a ninguem, como mais dino,

Amor pudéra sostella.

Dei-lhe tudo o qu'era seu,

Não receando taes danos

Deste, a quem alma lhe deu:

Quando ja não era meu,

_Fui entendendo os enganos._

Fiquei deste mal sobejo

A quem a causa compete

Dizer-lhe tudo o que vejo,

Que Amor acceita o desejo,

Mas mente no que promete.

Que se a mi se me obrigou

A dar-me bens soberanos,

Foi engano que ordenou;

Que do bem tudo levou,

_Do mal ficárão-me os danos._

E se dor tão desigual

Soffro em mi com padecellos,

Quero de novo soffrellos;

Que por a causa ser tal,

Não determino offendellos.

Dobre-se o mal, falte a vida,

Cresça a fé, falte a esperança,

Pois foi mal agradecida;

Fique a dor n'alma imprimida,

_E do bem só a lembrança._

* * * * *

ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.

Aquella captiva,

Que me tee captivo,

Porque nella vivo,

Ja não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves mólhos,

Que para meus olhos

Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,

Nem no ceo estrellas,

Me parecem bellas,

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos socegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

Huma graça viva,

Que nelles lhe mora,

Para ser senhora

De quem he captiva.

Pretos os cabellos,

Onde o povo vão

Perde opinião,

Que os louros são bellos.

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocára a cór.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha,

Bem parece estranha,

Mas barbara não.

Presença serena,

Que a tormenta amansa:

Nella emfim descansa

Toda minha pena.

Esta he a captiva,

Que me tee captivo;

E pois nella vivo,

He fôrça que viva.

* * * * *

MOTE.

Quem ora soubesse

Onde o Amor nasce,

Que o semeasse!

_Voltas._

D'Amor e seus danos

Me fiz lavrador;

Semeava amor,

E colhia enganos;

Não vi, em meus anos,

Homem que apanhasse

O que semeasse.

Vi terra florída

De lindos abrolhos,

Lindos para os olhos,

Duros para a vida.

Mas a rez perdida,

Que tal herva pasce,

Em forte hora nasce.

Com quanto perdi,

Trabalhava em vão:

Se semeei grão,

Grande dor colhi.

Amor nunca vi

Que muito durasse,

Que não magoasse.

* * * * *

ALHEIO.

Se me levão ágoas,

Nos olhos as levo.

_Voltas._

Se de saudade

Morrerei ou não,

Meus olhos dirão

De mi a verdade.

Por elles me atrevo

A lançar as ágoas,

Que mostrem as mágoas

Que nesta alma levo.

As ágoas, qu'em vão

Me fazem chorar,

Se ellas são do mar,

Estas de amar são.

Por ellas relévo

Todas minhas mágoas;

Que se fôrça d'ágoas

Me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,

Todas são salgadas;

Porém as choradas

Doces me parecem.

Correi, doces ágoas,

Que se em vós m'enlévo,

Não doem as mágoas,

Que no peito levo.

* * * * *

ALHEIO.

Menina dos olhos verdes,

Porque me não vedes?

_Voltas._

Elles verdes são,

E tee por usança

Na côr esperança,

E nas obras não.

Vossa condição

Não he d'olhos verdes,

Porque me não vêdes.

Isenções a mólhos

Qu'elles dizem terdes,

Não são d'olhos verdes,

Nem de verdes olhos.

Sirvo de giolhos,

E vós não me credes,

Porque me não vêdes.

Havião de ser,

Porque possa vê-los,

Que huns olhos tão bellos

Não se hão d'esconder:

Mas fazeis-me crer,

Que ja não são verdes,

Porque me não vêdes.

Verdes não o são,

No que alcanço delles;

Verdes são aquelles

Qu'esperança dão.

Se na condição

Está serem verdes,

Porque me não vedes?

* * * * *

ALHEIO.

Trocae o cuidado,

Senhora, comigo;

Vereis o perigo,

Qu'he ser desamado.

_Voltas._

Se trocar desejo

O amor entre nós,

He para qu'em vós

Vejais o que vejo.

E sendo trocado

Este amor comigo,

Ser-vos-ha castigo

Terdes meu cuidado.

Tendes o sentido

D'Amor livre e isento,

E cuidais qu'he vento

Ser tão mal querido.

Não seja o cuidado

Tão vosso inimigo,

Que queira o perigo

De ser desamado.

Mas nunca foi tal

Este meu querer,

Que a quem tanto quer,

Queira tanto mal

Seja eu maltratado,

E nunca o castigo

Vos mostre o perigo,

Qu'he ser desamado.

* * * * *

Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.

Ver, e mais guardar

De ver outro dia,

Quem o acabaria?

_Voltas._

Da lindeza vossa,

Dama, quem a vê,

Impossivel he

Que guardar-se possa.

Se faz tanta mossa

Ver-vos hum só dia,

Quem se guardaria?

Melhor deve ser

Neste aventurar

Ver, e não guardar,

Que guardar e ver.

Ver e defender,

Muito bom sería,

Mas quem poderia?

* * * * *

MOTE.

Irme quiero, madre,

Á aquella galera,

Con el marinero,

Á ser marinera.

_Voltas._

Madre, si me fuere,

Do quiera que vó,

No lo quiero yo,

Que el Amor lo quiere.

Aquel niño fiero,

Hace que me mueva

Por un marinero

Á ser marinera.

El que todo puede,

Madre, no podrá,

Pues el alma vá,

Que el cuerpo se quede.

Con él por que muero

Voy, porque no muera;

Que si es marinero,

Seré marinera.

Es tirana ley

Del niño Señor,

Que por un amor

Se deseche un Rey.

Pues desta manera

Quiero irme, quiero

Por un marinero

Á ser marinera.

Decid, ondas, cuando

Vistes vos doncella,

Siendo tierna y bella,

Andar navegando?

Mas qué no se espera

Daquel niño fiero?

Vea yo quien quiero,

Sea marinera.

* * * * *

MOTE.

Saudade minha,

Quando vos veria?

_Voltas._

Este tempo vão,

Esta vida escassa,

Para todos passa,

Só para mi não.

Os dias se vão

Sem ver este dia,

Quando vos veria.

Vêde esta mudança

Se está bem perdida,

Em tão curta vida

Tão longa esperança.

Se este bem se alcança,

Tudo soffreria,

Quando vos veria.

Saudosa dor,

Eu bem vos entendo;

Mas não me defendo,

Porque offendo Amor.

Se fôsseis maior,

Em maior valia

Vos estimaria.

Minha saudade,

Charo penhor meu,

A quem direi eu

Tamanha verdade?

Na minha vontade

De noite e de dia

Sempre vos teria.

* * * * *

MOTE.

Vida da minha alma,

Não vos posso ver:

Isto não he vida

Para se soffrer.

_Voltas._

Quando vos eu via,

Esse bem lograva,

A vida estimava,

Pois então vivia;

Porque vos servia

Só para vos ver.

Ja que vos não vejo

Para qu'he viver?

Vivo sem razão,

Porqu'em minha dor

Não a poz Amor;

Que inimigos são.

Mui grande traição

Me obriga a fazer

Que viva, Senhora,

Sem vos poder ver.

Não me atrevo ja,

Minha tão querida,

A chamar-vos vida,

Porque a tenho má.

Ninguem cuidará,

Que isto póde ser,

Sendo-me vós vida,

Não poder viver.

* * * * *

MOTE.

Coifa de beirame

Namorou Joanne.

_Voltas._

Por cousa tão pouca

Andas namorado?

Amas o toucado,

E não quem o touca?

Ando cega e louca

Por ti, meu Joanne,

Tu pelo beirame.

Amas o vestido?

Es falso amador.

Tu não vês que Amor

Se pinta despido?

Cego e mui perdido

Andas por beirame,

E eu por ti, Joanne.

A todos encanta

Tua parvoice;

De tua doudice

Gonçalo s'espanta,

E zombando canta:

Coifa de beirame,

Namorou Joanne.

Eu não sei que viste

Neste meu toucado,

Que tão namorado

Delle te sentiste.

Não te veja triste;

Ama-me, Joanne,

E deixa o beirame.

Joanne gemia,

Maria chorava,

E assi lamentava

O mal que sentia:

(Os olhos feria,

E não o beirame,

Que matou Joanne)

Não sei do que vem

Amares vestido;

Que o mesmo Cupido

Vestido não tem.

Sabes de que vem

Amares beirame?

Vem de ser Joanne.

* * * * *

MOTE.

Se Helena apartar

Do campo seus olhos,

Nascerão abrolhos.

_Voltas._

A verdura amena,

Gados, que pasceis,

Sabei que a deveis

Aos olhos d'Helena.

Os ventos serena,

Faz flores d'abrolhos

O ar de seus olhos.

Faz serras florídas,

Faz claras as fontes:

S'isto faz nos montes,

Que fara nas vidas?

Tra-las suspendidas,

Como hervas em mólhos,

Na luz de seus olhos.

Os corações prende

Com graça inhumana;

De cada pestana

Hum'alma lhe pende.

Amor se lhe rende,

E pôsto em giolhos,

Pasma nos seus olhos.

* * * * *

ALHEIO.

Verdes são os campos

De côr de limão;

Assi são os olhos

Do meu coração.

_Voltas._

Campo, que t'estendes

Com verdura bella;

Ovelhas, que nella

Vosso pasto tendes;

D'hervas vos mantendes

Que traz o verão;

E eu das lembranças

Do meu coração.

Gados, que pasceis

Com contentamento,

Vosso mantimento

Não no entendeis.

Isso que comeis,

Não são hervas, não;

São graça dos olhos

Do meu coração.

* * * * *

ALHEIO.

Verdes são as hortas

Com rosas e flores:

Moças, que as régão,

Matão-me d'amores.

_Voltas._

Entre estes penedos

Que daqui parecem,

Verdes hervas crescem,

Altos arvoredos.

Vai destes rochedos

Ágoa, com que as flores

D'outras são regadas,

Que mátão d'amores.

Com ágoa, que cai

Daquella espessura,

Outra se mistura,

Que dos olhos sai:

Toda junta vai

Regar brancas flores;

Onde ha outros olhos,

Que mátão d'amores.

Celestes jardins,

As flores estrellas:

Hortelôas dellas

São huns seraphins.

Rosas e jasmins

De diversas côres,

Anjos, que as régão,

Mátão-me d'amores.

* * * * *

ALHEIO.

Menina formosa,

Dizei de que vem

Serdes rigorosa

A quem vos quer bem?

_Voltas._

Não sei quem assella

Vossa formosura;

Que quem he tão dura

Não póde ser bella.

Vós sereis formosa;

Mas a razão tem

Que quem he irosa,

Não parece bem.

A mostra he de bella,

As obras são cruas:

Pois qual destas duas

Ficará na sella?

Se ficar _irosa_,

Não vos está bem:

Fique antes _formosa_,

Que mais fôrça tem.

O Amor formoso

Se pinta e se chama:

Se he amor, ama,

Se ama, he piedoso.

Diz agora a grosa

Que este texto tem,

Que quem he formosa

Ha de querer bem.

Havei dó, menina,

Dessa formosura;

Que se a terra he dura,

Secca-se a bonina.

Sêde piedosa;

Não veja ninguem

Que por rigorosa

Percais tanto bem.

* * * * *

ALHEIO.

Tende-me mão nelle,

Que hum real me deve.

_Voltas._

C'hum real d'amor,

Dous de confiança,

E tres d'esperança,

Me foge o trédor.

Falso desamor

S'encerra naquelle

Que hum real me deve.

Pedio-mo emprestado,

Não lhe quiz penhor:

He mao pagador;

Tendo-mo afferrado.

C'hum cordel atado,

Ao Tronco se leve;

Que hum real me deve.

Por esta travéssa

Se vai acolhendo:

Ei-lo vai correndo,

Fugindo a grã pressa.

Nesta mão, e nessa

O falso se atreve,

Que hum real me deve.

Comprou-me o amor,

Sem lhe fazer preço:

Eu não lhe mereço

Dar-me desfavor.

Dá-me tanta dor,

Que ando apos elle

Pelo que me deve.

Eu de cá bradando,

Elle vai fugindo;

Elle sempre rindo,

Eu sempre chorando.

E de quando em quando

No amor se atreve,

Como que não deve.

A fallar verdade

Elle ja pagou;

Mas ainda ficou

Devendo ametade.

Minha liberdade

He a que me deve:

Só nella se atreve.

* * * * *

MOTE.

Dó la mi ventura,

Que no veo alguna?

_Voltas._

Sepa quien padece,

Que en la sepultura

Se esconde ventura

De quien la merece.

Allá me parece,

Que quiere fortuna

Que yo halle alguna.

Naciendo mesquino,

Dolor fué mi cama;

Tristeza fué el ama,

Cuidado el padrino.

Vestióse el destino

Negra vestidura,

Huyó la ventura.

No se halló tormento,

Que alli no se hallase;

Ni bien, que pasase,

Sinó como viento.

Oh qué nacimiento,

Que luego en la cuna

Me siguió fortuna!

Esta dicha mia,

Que siempre busqué,

Buscándola, hallé

Que no la hallaria;

Que quien nace en dia

D'estrella tan dura,

Nunca halla ventura.

No puso mi estrella

Mas ventura em min:

Ansí vive en fin

Quien nace sin ella.

No me quejo della;

Quéjome que atura

Vida tan escura.

* * * * *

MOTE.

Vida de minha alma.

_Volta._

Dous tormentos vejo

Grandes por extremo:

Se vos vejo, temo,

E se não, desejo.

Quando me despejo,

E venho a escolher,

Temendo o desejo,

Desejo temer.

* * * * *

CANTIGA ALHEIA.

Pastora da serra,

Da serra da Estrella,

Perco-me por ella.

_Voltas._

Nos seus olhos bellos

Tanto Amor se atreve,

Que abraza entre a neve

Quantos ousão vellos.

Não sólta os cabellos

Aurora mais bella:

Perco-me por ella.

Não teve esta serra

No meio d'altura

Mais que a formosura,

Que nella se encerra.

Bem ceo fica a terra,

Que tee tal estrella:

Perco-me por ella.

Sendo entre pastores

Causa de mil males,

Não se ouvem nos vales

Senão seus louvores.

Eu só por amores

Não sei fallar nella,

Sei morrer por ella.

D'alguns, que sentindo

Seu mal vão mostrando.

Se ri, não cuidando

Qu'inda paga rindo.

Eu triste, encobrindo

Só meus males della,

Perco-me por ella.

Se flores deseja

Por ventura bellas,

Das que colhe dellas

Mil morrem d'inveja.

Não ha quem não veja

Todo o melhor nella:

Perco-me por ella.

Se n'ágoa corrente

Seus olhos inclina,

Faz a luz divina

Parar a corrente.

Tal se vê, que sente

Por ver-se a ágoa nella:

Perco-me por ella.

* * * * *

ENDECHAS.

Vós sois huma Dama

Das feias do mundo;

De toda a má fama

Sois cabo profundo.

A vossa figura

Não he para ver;

Em vosso poder

Não ha formosura.

Vós fostes dotada

De toda a maldade;

Perfeita beldade

De vós he tirada.

Sois muito acabada

De taixa e de glosa:

Pois quanto a formosa,

Em vós não ha nada.

Do grão merecer

Sois bem apartada;

Andais alongada

Do bem parecer.

Bem claro mostrais

Em vós fealdade:

Não ha hi maldade,

Que não precedais.

De fresco carão

Vos vejo ausente;

Em vós he presente

A má condição.

De ter perfeição

Mui alheia estais;

Mui muito alcançais

De pouca razão.

* * * * *

ENDECHAS.

Vai o bem fugindo,

Cresce o mal co'os annos,

Vão-se descubrindo

Co'o tempo os enganos.

Amor e alegria.

Menos tempo dura.

Triste de quem fia

Nos bens da ventura!

Bem sem fundamento

Tee certa a mudança,

Certo o sentimento

Na dor da lembrança.

Quem vive contente,

Viva receoso:

Mal que se não sente,

He mais perigoso.

Quem males sentio,

Saiba ja temer;

E pelo que vio

Julgue o qu'ha de ser.

Alegre vivia,

Triste vivo agora;

Chora a alma de dia,

E de noite chora.

Confesso os enganos

De meu pensamento:

Bem de tantos annos

Foi-se n'hum momento.

Meus olhos, que vistes?

Pois vos atrevestes,

Chorae, olhos tristes,

O bem que perdestes.

A luz do sol pura

Só a vós se negue;

Seja noite escura,

Nunca a manhãa chegue.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 3 / 16 段